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    February 29

    Antonio Gramsci

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    Divulgação Científica

    Antonio Gramsci

    23/1/1891, Ales, Sardenha, Itália
    27/4/1937, Roma

    Da Página 3 Pedagogia & Comunicação

    Antonio Gramsci

    Antonio Gramsci foi uma das referências essenciais do pensamento de esquerda no século 20, co-fundador do Partido Comunista Italiano.Nascido em Ales, na Sardenha, em uma família pobre e numerosa, filho de Francesco Gramsci, Antonio foi vítima, antes dos 2 anos, de uma doença que o deixou corcunda e prejudicou seu crescimento. No entanto, foi um estudante brilhante, e aos 21 anos conseguiu um prêmio para estudar Letras na universidade de Turim.

    Gramsci freqüentou os círculos socialistas e entrou para o Partido Socialista em 1913. Transformou-se num jornalista notável, um escritor articulado da teoria política, escrevendo para o "L´Avanti", órgão oficial do Partido Socialista e para vários jornais socialistas na Itália.

    Em 1919, rompeu com o partido. Militou em comissões de fábrica e ajudou a fundar o Partido Comunista Italiano em 1921, junto com Amadeo Bordiga.
    Gramsci foi à Rússia em 1922, onde representou o novo partido e encontrou Giulia Schucht, uma violinista com quem se casou e teve 2 filhos. A missão russa coincidiu com o advento do fascismo na Itália. Gramsci retornou com a missão de promover a unidade dos partidos de esquerda no seu país.

    Em 8 de novembro de 1926, a polícia fascista prendeu Gramsci e, apesar de sua imunidade parlamentar, levaram-no à prisão. Recebeu uma sentença de cinco anos de confinamento e, no ano seguinte, uma sentença de 20 anos de prisão em Turi, perto de Bari.

    Um projeto para trocar prisioneiros políticos entre a Itália e a União Soviética falhou em 1932. Dois anos depois, bastante doente, ganhou a liberdade condicional, para tratar-se em hospitais. Morreu em Roma, aos 46 anos.

    Gramsci escreveu mais de 30 cadernos de história e análise durante a prisão. Conhecidas como "Cadernos do Cárcere" e "Cartas do Cárcere", contêm seu traço do nacionalismo italiano e algumas idéias da teoria crítica e educacional. Para despistar a censura fascista, Gramsci adotou uma linguagem cifrada, em torno de conceitos originais ou de expressões novas. Seus escritos têm forma fragmentária, com muitos trechos que apenas indicam reflexões a serem desenvolvidas.

    Suas noções de pedagogia crítica e instrução popular foram teorizadas e praticadas décadas mais tarde por Paulo Freire no Brasil. Gramsci desacreditava de uma tomada do poder que não fosse precedida por mudanças de mentalidade. Para ele, os agentes principais dessas mudanças seriam os intelectuais e um dos seus instrumentos mais importantes, para a conquista da cidadania, seria a escola.

    Gramsci promoveu o casamento das idéias de Marx com as de Maquiavel, considerando o Partido Comunista o novo "Príncipe", a quem o pensador florentino renascentista dava conselhos para tomar e permanecer no poder. Para Gramsci, mais ainda do que para Maquiavel, os fins justificam os meios e qualquer ato só pode ser julgado a partir de sua utilidade para a revolução comunista. Nesse sentido, certamente, Gramsci é um dos maiores teóricos do totalitarismo de todos os tempos.

     

    http://www.rubedo.psc.br/Artigos/gramsalt.htm

    O DISCURSO DA MODERNIDADE COMO PRAXIS: HABERMAS E A TEORIA CRÍTICA

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    O DISCURSO DA MODERNIDADE COMO PRAXIS:

     HABERMAS E A TEORIA CRÍTICA

     

    Tatiana Schor
    Economista e Mestra em Geografia Humana

    schortatiana@bol.com.br

     

    Pretende-se mostrar neste artigo como o livro 'O discurso filosófico da modernidade' de Jürgen Habermas pode ser analisado como uma retomada da Teoria Crítica. Retomada a partir do texto de Horkheimer 'Teoria Tradicional e Teoria Crítica'. E, mais que isso, como este livro de Habermas pode ser compreendido como práxis no sentido elaborado por Horkheimer no texto já citado.

    Como práxis, a retomada da teoria crítica poderá indicar um interessante caminho para a discussão acerca da interdisciplinaridade necessária para a compreensão de objetos complexos tal como a questão ambiental.

    Antes de adentrar propriamente na argumentação principal é necessário explicitar o sentido de Teoria Crítica e práxis elaborada por Horkheimer. De maneira simplificada, podemos entender a Teoria Crítica como sendo a análise teórica que, consciente de seu tempo e de sua especificidade histórica, toma uma postura reflexiva (isto é, crítica) com relação a si mesma e aos objetos que busca analisar. Percebe a não neutralidade da ciência e por isso pretende pô-la a favor da mudança. Seus objetos de análise não são considerados como estanques, mas ao contrário, como objetos a serem mudados. Mudados para no limite deixarem de ser objetos, abolindo com isso a separação sujeito-objeto tema clássico da ciência tradicional. Neste sentido, o papel do teórico e da teoria, pode ser, e é, crucial para a mudança social, pois é ele quem desvendará o fetiche que encobre as relações sociais possibilitando a emancipação e fará isso desvendando as 'alienações' teóricas efetuadas pelos teóricos tradicionais: esta seria sua práxis.

    Argumentaremos que Habermas faz (no sentido amplo do fazer) Teoria Crítica com seu livro 'O discurso filosófico da modernidade' pois desvendando a crise da modernidade e suas patologias no campo teórico pretende resolver o impasse posto pelas teorias através da constituição teórica (p.417) de uma solução prática no campo da teoria (coação não coercitiva do melhor argumento (p.186 e outras) ) que se desdobraria nas relações da vida: a Teoria da Ação Comunicativa.

    Habermas como herdeiro (e essa palavra aqui é excelente, pois como todo herdeiro não é exatamente como o esperado) da Teoria Crítica assume que a formulação teórica tem um papel importante na constituição da vida. A teoria tem importância não só no âmbito restrito da academia, mas também no 'mundo da vida', pois é ela que possibilitará o desvendamento da realidade e a possível emancipação. Neste sentido, Habermas viu-se na necessidade de resolver o impasse teórico da modernidade, essa necessidade não só como acadêmica, mas como condição sine qua non para a resolução do impasse histórico social. Para tentarmos mostrar essa argumentação faremos uma exposição articulada do livro.

    O livro em discussão tem como ponto de partida o surgimento da noção de modernidade como a questão da filosofia que é elaborada neste sentido por Hegel (p.9), pois é neste sistema filosófico que se chega a consciência do tempo(p.31) que se desdobrará em consciência do tempo-atual (ou tempo-presente / Jeztzeit em Walter Benjamin(p.22)). É o a questão do tempo histórico como o tempo novo (moderno) em ruptura constante com o passado(p.11). Segundo Habermas, para Hegel a circunstância na qual a consciência do tempo destacou-se da totalidade constitui um pressuposto do filosofar contemporâneo(p.31).

    Essa consciência do tempo e questão da modernidade se conceitualiza em Hegel pelo incomodo que essa própria modernidade gerou. Este incomodo está localizado nas cisões(p.41) geradas pela modernidade que necessita se auto-referenciar(p.42) desde sua constituição como filosofia do sujeito(p.41) . Na análise hegeliana cada esfera (ciência, moral, estética) da modernidade está ancorada em leis próprias que tem que ser fundamentadas e autocentradas, e mais que isso, a subjetividade é encontrada em todas as esferas o que o leva ao diagnóstico de falta de mediação que implica na cisão da filosofia(p.26-27) . Mas não só a filosofia encontra-se cindida mas a sociedade representada nos conflitos sociais que necessitam de uma solução(p.40) . Para a possível solução dessas cisões Hegel encontra na razão, numa razão absoluta, a priori, que criou e perpassa todas as esferas(p.41) , a solução da modernidade(p.43) .

    Para Hegel, segundo Habermas, “O absoluto não é concebido nem como substância, nem como sujeito, mas apenas como o processo mediador da auto-relação que se produz independente de toda condição.”(p.49). Com esta solução (Razão Absoluta como mediação) encontrada tem-se, para Habermas o empobrecimento da crítica (p.57) e a tentativa de resolver as cisões, logo sair da filosofia do sujeito, é infrutífera(p.60).

    Habermas considera que é a partir dessa solução insatisfatória, para não usar desastrosa, de Hegel que a filosofia engendra-se em um processo auto-destrutivo que deve ser rompido para que a emancipação possa voltar a fazer parte da dinâmica histórica consciente de seu tempo-presente. A forte formulação da Razão Absoluta (cap.2 p.52-58) por Hegel cria a necessidade de seus sucessores debaterem-se com ela impossibilitando-os de sair filosofia do sujeito e resolver as cisões da modernidade. Habermas delineia em seu terceiro capítulo três grandes vertentes surgidas deste embate com a Razão Absoluta: (1)os hegelianos de direita que trivializam a consciência moderna do tempo, recortam a razão como entendimento e a racionalidade como voltada a fins(p.63) (por questões de facilidade expositiva com relação ao nosso argumento inicial chamaremos de 'filosofia da linguagem'); (2) a herança de Nietzsche como simples negação da razão através de um elaborado contradiscurso da modernidade e historiografia do 'outro da razão'(p.63) (tal como justificamos acima a partir daqui será considerado como 'filosofia do contradiscurso'); e (3) os hegelianos de esquerda que pretendem continuar o projeto da Razão Absoluta a qualificando como Razão Instrumental(p.63) (filosofia da práxis).

    Segundo Habermas, o desenvolvimento dos conceitos de ação e interação que culminará na Teoria da Ação Comunicativa é a solução para essa cisão causada pelo conceito unificador de Razão Absoluta que visava resolver a cisão da modernidade. É com a substituição da mediação social, que patologicamente é feita através de conceitos absolutizados e por isso perpetuados na filosofia do sujeito, pelo entendimento recíproco que se poderá voltar a ter a emancipação no horizonte da Teoria. É como resolução teórica da cisão da cisão que Habermas está fazendo Teoria Crítica, pois a compreensão do mundo, tarefa da teoria, é condição sine qua non para a emancipação. Habermas revela no XI capítulo de seu livro o seu método de análise: voltar até o ponto de partida da modernidade 'para reexaminar mais uma vez em sua encruzilhadas a direção tomada'(p.411) e as alternativas não escolhidas. Por essa razão, continuaremos com nossa argumentação mostrando como Habermas propõe resolver esta cisão da cisão patológica (que seria o discurso filosófico da modernidade) no campo da Teoria voltada para a ação.

    As três vertentes filosóficas (linguagem, contradiscurso, práxis) debatem-se com o conceito de Razão Absoluta mostrando como através dele não se compreende nem a modernidade nem os limites dela. Este debate por mais diversas que tem sido as vias argumentativas acabou sempre em conceitos absolutizados (tais como Ser, Arquiestrutura, Esclarecimento, Soberania e Poder) que por fim engendrou-os mais a fundo na filosofia do sujeito. O esquema, apresentado em anexo, visa representar de maneira sucinta o movimento da obra e a articulação dos diversos autores analisados por Habermas. Esse esquema visa apontar como a nossa tese inicial, de que Habermas estaria retomando a Teoria Crítica resolvendo as patologias encontradas no discurso filosófico da modernidade, é uma leitura possível do livro. Consideramos que o esquema é auto-explicativo até a tentativa de junção dessas cisões feita por Castoriadis, pois é através da crítica desta tentativa que Habermas desvenda o seu projeto teórico. Por essa razão, achamos que, para efeito de argumentação da proposta de análise por nós exposta, será interessante seguir a argumentação a partir do Capítulo XI “Uma outra via para sair da filosofia do sujeito – Razão comunicativa vs. Razão centrada no sujeito”. Entendemos que é nesse capitulo, que Habermas deixa claro a necessidade de resolver a cisão teórica causada pelo resolução hegeliana já explicada acima.

    Habermas inicia o capítulo em questão considerando que “nos déficits empíricos (de Foucault) espelham-se os problemas metodológicos não esclarecidos” (p.411), entretanto este déficit não se refere só ao Foucault mas também a Nietzsche e seus sucessores que “não se dão conta que já aquele contradiscurso filosófico, imanente desde o início da modernidade começado com Kant, apresenta a contraprova à subjetividade como princípio da modernidade”.(p.412) Em outras palavras, até a tentativa de escapar da Razão Absoluta negando-a funciona como extensão de seu domínio, pois faz com que ela permanece no centro da análise e de certa forma, continue atuando como mediação entre as esferas.

    A proposta feita por Habermas de retomar 'o caminho do discurso filosófico da modernidade até seu ponto de partida'(p.412) não significa só examinar as alternativas adotadas, mas para ele seria importante rever as alternativas não escolhidas. Nos vários capítulos do livro percebemos diversas vezes o fato de Habermas mostrar como o autor em questão, por exemplo o jovem Hegel(p.44-46), quase consegue sair da filosofia do sujeito porém termina por ficar preso a ela. Para Habermas, seria necessário tanto para Hegel quanto para Marx explicitar a totalidade ética “segundo o modelo da formação não forçada da vontade em uma comunidade de comunicação sujeita a pressões de cooperação.”(p.413) Para podermos compreender melhor essa crítica vale a pena voltarmos para o 'Excurso sobre o Envelhecimento do Paradigma da Produção'(p.109-120) e lembrarmos que a crítica está, de certa forma, centrada na restrição do conceito de práxis, definida em um sentido naturalista e referente a uma razão cognitiva instrumental (p.114-118) pois para Habermas contrária a essa noção de práxis a teoria da ação comunicativa “investiga a racionalidade implícita da práxis comunicativa cotidiana e eleva o conteúdo normativo da ação orientada para o entendimento recíproco ao conceito da racionalidade comunicativa”(p.110) .

    Habermas explicita que a razão comunicativa será extraída da práxis cotidiana (do mundo da vida) e não de uma determinada ação cotidiana (a produção, por exemplo) em detrimento das outras. Para ele é necessário um programa de expansão da razão (p.433), pois esta está reduzida ao mundo que pode ser conhecido, ou melhor, à razão cognitiva-instrumental. Esta redução não é feita só pelos teóricos da vertente da 'filosofia da práxis' mas as outras vertentes também a reduzem e a deformam ao logocentrismo do sujeito que é capaz de conhecer o mundo.(p.433) Está é, para ele, sem dúvida uma patologia da Teoria que interfere de forma perversa na prática criando e reproduzindo patologias na vida cotidiana.

    Por outro lado, a crítica à vertente da 'filosofia da linguagem', explicita que não se trata tanto para Heidegger de um Ser-aí que se projeta a si mesmo ou para Derrida de um acontecer que forma estruturas, 'mas aos mundos da vida estruturados comunicativamente que se reproduzem através do medium palpável da ação orientada ao entendimento.”(p.413). Neste ponto, podemos reconhecer o projeto de substituição do medium que é posto por Hegel como sendo a Razão Absoluta, centrada no sujeito que conhece o mundo de forma solitária, por um medium que implica a interação entre pessoas que são capazes de falar e de agir e chegar a um entendimento”.

    Tendo apontado o que deveria ter sido realizado pelas duas vertentes, Habermas sugere que o paradigma de conhecimento dos objetos (do sujeito isolado que conhece, da razão cogniscente-instrumental) seja substituição pelo que ele chama de paradigma do entendimento entre sujeitos capazes de falar e agir. (p.413) Aqui nos parece que ele rompe com uma larga tradição filosófica na qual a caracterização do Ser Humano estava centrada no indivíduo e sua capacidade racional, na razão, o que vemos aqui é um deslocamento do problema da racionalidade para a capacidade de falar e agir e do indivíduo para o entendimento entre pessoas.

    A necessidade de se mudar de paradigma está posto no próprio fato de que para Habermas as tentativas (inúteis) de escapar da filosofia do sujeito indicam um sintoma de esgotamento. Este esgotamento é o da filosofia da consciência que não dá mais conta de lidar com o mundo de uma forma aberta, isto é, tendo no horizonte de análise um projeto de emancipação. Para poder voltar a possibilidade de emancipação (necessária pois a modernidade mostra-se patológica em todas suas vertentes) tem-se que passar para o paradigma do entendimento recíproco que “é fundamental a atitude performativa dos participantes da interação que coordenam seus planos de ação ao se entenderem entre si sobre algo no mundo”(p.414) Para Habermas, essa ação pode ser compreendida como o entendimento dos pronomes, neste sentido a linguagem não só possibilita a interação entre os sujeitos mas também possibilita a relação do sujeito consigo mesmo (afinal pode falar de si para si). Neste sentido, pela intersubjetividade produzida lingüisticamente, tem-se a identificação sujeito-objeto. Com essa identificação resolve-se normativamente a questão Kantiana do abismo intransponível, pois pelo “saber de regras efetivamente praticado e sedimentado nas manifestações geradas segundo regras, anula-se a separação ontológica entre transcendental e o empírico”(p.416) . Essa identificação é para Habermas o momento revolucionário apontado por Lukács em seu texto 'Reificação e consciência proletária'. Fato este importante para o autor não pelo momento revolucionário tal como elaborado por Lukács (como tomada de poder pela classe proletária), mas sim como retomada do projeto emancipatório perdido na 'via retardadora'(p.151) do conceito de Esclarecimento elaborado no livro 'Dialética do Esclarecimento' por Adorno e Horkheimer.

    A importância de substituição do medium é que a partir do paradigma do entendimento recíproco podemos dizer que temos um mundo da vida comum (pois nos entendemos), este funciona como pano de fundo das interação possibilitando que de fato ela ocorra. Habermas enfatiza que o mundo da vida 'permanece às costas' e por isso é necessário “uma perspectiva constituída teoricamente para podermos considerar a ação comunicativa como medium através do qual o mundo da vida se reproduz em seu todo.”(p.417). É este mundo da vida comum que possibilita a resolução do abismo intransponível e que ao mesmo tempo constitui um horizonte para o entendimento. Habermas define, num primeiro momento(p.416/417) , o mundo da vida como horizonte e acervo de evidências culturais que retira-se padrões minuciosos, exegéticos, consentidos. É este mundo da vida que como pano de fundo passa a ser o medium que permite a ação do entendimento recíproco, perpassando todas as esferas separadas da vida.

    No paradigma do entendimento recíproco não tem mais sujeito isolado mas participantes da interação. “Os participantes da interação já não aparecem mais como os autores que dominam as situações com a ajuda de ações imputáveis, mas como os produtos das tradições em que se encontram, dos grupos solidários aos quais pertencem e dos processos de socialização em que se desenvolvem.”(p.417) O mundo da vida se reproduz pelo prosseguimento das tradições, da interação por meio de normas e valores e da socialização das gerações que se sucede.

    Esta primeira aproximação do que seria o mundo da vida ganha uma definição mais precisa no final do capítulo em questão quando Habermas considera que “o mundo da vida constitui um equivalente do que a filosofia do sujeito atribuíra à consciência em geral como operações de síntese. No entanto, as operações de produção não se referem aqui à forma, mas ao conteúdo do entendimento possível.”(p.452) Claramente aqui Habermas está se diferenciando da origem na 'filosofia da linguagem' do termo mundo da vida. Para ele os conteúdos possíveis são oriundos das “formas concretas de vida”(p.452). Com essa diferenciação Habermas escapa da crítica de que estaria cunhando uma razão pura: “Um mundo da vida que deve reproduzir-se apenas através do medium da ação orientada para o entendimento recíproco não seria apartado dos seus processos materiais de vida?”(p.446) A resposta a essa possível crítica por ele mesmo elaborada é negativa pois a ação orientada para o entendimento, como medium, perpassa todas as esferas.

    Esse medium perpassa todas as esferas pelo fato de existir um entrelaçamento das ações instrumentais com a ação comunicativa. Esse entrelaçamento diz respeito ao fato de que a execução de planos ligados a outros participantes da interação só podem ser realizado por meio de definições comuns da situação e processo de entendimento recíproco (a tal normatividade).

    A razão comunicativa não é uma razão pura nem outro conceito absolutizado pois “a razão é originalmente uma razão encarnada tanto nos contextos de ações comunicativas como nas estruturas do mundo da vida”(p.447) pois 'o reconhecimento intersubjetivo das pretensões de validade, possibilita o entretecimento de interações sociais do mundo da vida.” (p.447) Neste ponto a argumentação torna-se muito interessante pois surge o problema da validade tanto do discurso quanto da razão comunicativa. Habermas aponta a face de Janus da pretensão de validade. Por um lado, tem-se o momento transcendente universal pois a interação, ligada a um mundo da vida que serve como pano de fundo cultural, só se dá com um entendimento possível pois universal. Por outro lado, essa mesma interação está vinculada a uma práxis cotidiana contextualizada e especializada. Tem-se assim uma validade relacionada ao contexto social e ao tempo histórico (uma validade do aqui e agora) que escapa a essa particularidade pelo fato do entendimento recíproco se dar nos quisitos normativos de uma validade universal (que não é a priori e é historicamente específica).

    Assim a “práxis comunicativa cotidiana encontra-se, por assim dizer, refletida em si mesma.”(p.448) Reflexão essa não do sujeito cogniscente (solitário) mas substituída pela estratificação do discurso e da ação inserida da ação comunicativa. A própria reflexão sobre as pretensões de validade da Teoria da Ação Comunicativa pode ser descrita como “forma de reflexão da ação comunicativa”(p.448)

    É interessante, para a nossa argumentação, apontar as diferenças que Habermas faz do seu conceito de práxis para o de Castoriadis. Para Habermas o surgimento do pós-estruturalismo tem haver com a 'falta de credibilidade'(p.455) dos esforços da 'filosofia da práxis' em reformular o projeto da modernidade continuando o pensamento marxista. Castoriadis é um dos que fazem parte, para Habermas, dos autores que fazem a 'virada linguística da filosofia da práxis'(p.441) mas que apesar de ter conseguido fazer essa junção não conseguem sair do paradigma da consciência. A tese de Habermas “é que Castoriadis fracassa na solução desse problema, visto que seu conceito fundamentalista de sociedade não deixa espaço para uma práxis intersubjetiva imputável aos indivíduos socializados”(p.459) , pois considera que “Castoriadis parte do princípio de que, entre a linguagem e as coisas das quais se fala, entre a compreensão constituinte do mundo e o intramundano constituído, existe uma diferença ontológica.”(p.442) Em Castoriadis tem-se uma imagem linguística de mundo a priori e transhistórica e não uma interação entre a linguagem que abre o mundo e os processos de aprendizagem no mundo este fato impossibilita que ele consiga reformular o conceito de práxis e não supera o paradigma da consciência.

    Habermas aponta alguns problemas que fazem com que Castoriadis não amplie o conceito de práxis. Aponta um reducionismo no conceito de práxis elaborado por Castoriadis pois este o relaciona com o conceito de produção que por sua vez mantém o mundo como objeto capaz de ser compreendido pelo sujeito cogniscente. Não escapa da relação sujeito objeto,(p.460) fazendo com que o conceito de práxis fique embaralhado entre o imaginário que abre o mundo e o trabalho e a interação(p.461) . Considera que o conceito de linguagem do qual Castoriadis parte não permite uma diferença entre sentido e validade(p.460) . Não fica claro quem seria o ator da práxis social revolucionária(p.462) parece que esta ganha um certo estatuto autônomo que para Habermas é indeterminado. Castoriadis não percebendo a necessidade de uma dupla validade perdendo-se em considerações psíquicas relacionadas com a primeira infância que como cerne monádico tem que superar o complexo de Édipo para fazer parte da sociedade, que para Habermas esses “conflitos intrapsíquicos não guardam uma relação interna com os sociais; antes, psique e sociedade estão em uma espécie de oposição metafísica uma com a outra.”(p.464)

    Habermas considera que a necessidade de ampliar o conceito de linguagem é fundamental, pois este deixa a dimensão lógico-semântico e passa a ser um medium que envolve cada participante da interação como integrante de uma comunidade de comunicação.(p.465) Para ele com base no conceito de linguagem ampliado (o mundo da vida já esboçado) reformulá-se o conceito de práxis a partir da razão comunicativa “que impõe aos participantes da interação uma orientação segundo pretensões de validade, possibilitando assim, uma acumulação de saber capaz de modificar as imagens do mundo.”(p.465) É esta possibilidade de modificação das imagens do mundo que possibilita uma reprodução diferenciada do mundo da vida que por sua vez possibilitaria uma intercomunicação cada vez mais elaborada. Este seria, ao nosso ver, o sentido de emancipação.

    Podemos ainda perceber por outro angulo, que a reprodução do mundo da vida é emancipatória, pois o mundo da vida não é estático nem no tempo nem no espaço e tem como cerne a interação entre indivíduos. Emancipação em um sentido mais fraco (do que Hegel), pois não será possível desvendar o mundo da vida, unificar as esferas, nem fazer uma revolução(p.482). Tem-se a possibilidade de emancipação parcial incapaz de esclarecer o todo – Habermas só lida com ilusões isoladas e não pretende juntar as esferas cindidas, em suas palavras: (p.418) “A sua força libertadora dirige-se contra ilusões isoladas: ela não pode, por exemplo, tornar transparente o todo de um curso da vida individual ou de uma forma de vida coletiva.”

    Em certo sentido consciente dessas questões, Habermas aponta que para que esse conceito de 'mundo da vida' sirva para algo (eis a Práxis da teoria herança da Teoria Crítica) tem que ser transformado em um “conceito empiricamente aplicável e integrado, com o sistema auto-regulado, a um conceito de sociedade constituído em dois níveis” que seriam da lógica e da dinâmica evolutiva. Habermas retoma a questão da especificidade da dinâmica histórica apontada por Horkheimer no texto 'Teoria Tradicional e Teoria Crítica' comentando que “(...) a teoria social precisa permanecer consciente de seu próprio contexto de surgimento e de sua posição no contexto de nosso presente; também os fortes conceitos universalistas têm um núcleo temporal” (p.419) Para ele, a práxis de sua teoria vem do fato de que “a teoria da comunicação pode contribuir para explicar como na modernidade uma economia organizada sob a forma do mercado se entrelaça funcionalmente com o Estado que monopoliza a violência, se autonomiza em relação ao mundo da vida, tornando-se uma parte de sociabilidade isenta de normas, e opõe aos imperativos da razão os seus próprios imperativos, fundados na conservação do sistema”.(p.484) Assim, sua Teoria, como Teoria Crítica, desvenda as patologias da modernidade e dá um passo na sua solução quando resolve a patologia no campo teórico: Unifica a cisão do discurso filosófico da modernidade.

    Como discurso unificado que se posiciona ativamente (Teoria da ação comunicativa) frente à dicotomia sujeito-objeto pode indicar um caminho interessante para a questão epistemológica referente aos estudos interdisciplinares. Romper com a elaboração de conceitos universais, pré-estabelecidos e com conteúdo fixo possibilita o diálogo entre diferentes, e como práxis legitima o papel propositivo da teoria.

    Esse caminho fica mais claro quando abordamos as questões relacionadas aos problemas interdisciplinares encontrados em programas de pesquisa que tem como objeto questões ambientais, tais como biodiversidade e mudanças globais. A interação entre os diferentes cientistas oriundos das mais diversas áreas de conhecimento esbarra sempre na visão da inter-relação homem-meio, afinal a perspectiva de um cientista das humanidades difere em muito dos demais que invariavelmente posicionam o homem como elemento exógeno perturbador: elemento antrópico. A separação Natureza (como conceito universal indeterminado) e Homem, clássicos da modernidade dificultam ainda mais o diálogo entre as partes. A teoria como práxis e o teórico como desvendador do fetiche possibilita, tal como David Harvey propõem, unificá-los em um sistema sócio-ecológico no qual os fluxos de dinheiro e mercadoria são considerados, incorporando assim os diversos aspectos do mundo em um discurso compreensivo.

    A Teoria, como nos mostra Habermas, quando incorpora a Crítica, retoma seu papel transformador. Como práxis viabiliza o diálogo interno à própria discussão acadêmica ampliando e incorporando temáticas complexas sem produzir universais absolutos.


     

     

    February 28

    Cadeia de Leopoldina

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    Fevereiro 12, 2008
    Editora condenada por denunciar condições desumanas da cadeia de Leopoldina (MG)

    Era inacreditável que um juiz de direito fosse se ocupar com um jornalzinho alternativo, de 200 exemplares, distribuidos numa cidadezinha no interior de Minas Gerais e que só visa contribuir para humanizar o sistema penal e atenuar o caos carcerário em nosso país. No entanto, a juíza disse textualmente na última audiência: "É melhor a senhora aceitar a transação penal porque não há a mínima possibilidade de absolvição, embora eu nem tenha lido o processo". Por Glória Reis, professora e editora do jornal Recomeço.

    "A injustiça que se faz a um é uma ameaça que se faz a todos"
    Montesquieu

    No final de 2006, informei aos meus leitores e divulguei na internet que estava sendo processada pelo então juiz da Execução Penal de Leopoldina, acusada de difamação por ter escrito um editorial no qual eu expunha as condições desumanas da cadeia de Leopoldina.

    Vários amigos se manifestaram e alguns sites e blogs publicaram a notícia. A professora Maria Helena Zamora escreveu o artigo "Glória e o Recomeço" no site La Insignia, no qual manifestou sua indignação sobre o fato. Encontrei apoio também da advogada Vera Vassouras (aqui) e outras pessoas sensibilizadas, que divulgaram a notícia na internet.

    Acredito que as pessoas, assim como eu mesma, no início, não acreditavam que isso fosse adiante. Afinal o que mais se fala neste país é sobre os milhões de processos do Judiciário, de juízes ocupadíssimos, da necessidade de se concentrar na questão urgente da violência urbana que assola o cotidiano do povo brasileiro.

    Era inacreditável que um juiz de direito fosse se ocupar com um jornalzinho alternativo, de 200 exemplares, distribuidos numa cidadezinha no interior de Minas Gerais e que só visa contribuir para humanizar o sistema penal e atenuar o caos carcerário em nosso país. Coisa de sonhadores! Ledo engano o nosso, eu e meus ingênuos leitores!

    Eles, em bloco, o juiz acusador, o promotor de justiça e a juíza que julgou, vieram com toda sanha e determinação. Não importava a minha inocência, queriam a minha cabeça, daquela mulher "incômoda e perigosa" que publicava no jornal a radiografia da masmorra prisional, pela qual eles são as autoridades responsáveis.

    Como na ditadura, houve interrogatório policial, várias audiências, até culminar na minha CONDENAÇÃO, neste janeiro de 2008. A sentença compõe-se de oito páginas primorosamente escritas e recheadas de citações, leis, artigos, verbetes do Houaiss, expressões latinas, e, principalmente, o corporativismo da classe, que está acima da ética e da justiça.

    Deduz-se que a juíza dedicou grande parte de seus dias do fim de 2007 e início de 2008 para se debruçar sobre a estética da sentença. Queria um verniz literário para camuflar o pré-julgamento e criminalizar a inocência. Sobre o veredito, a juíza não necessitou de tempo, pois disse textualmente na última audiência: "É melhor a senhora aceitar a transação penal porque não há a mínima possibilidade de absolvição, embora eu nem tenha lido o processo".

    Assim, já saí da audiência com a sentença condenatória.

    Segue o editorial que deu origem à condenação (No final, em vermelho, o trecho "criminoso"):

    EDITORIAL EDIÇÃO 117
    Que regime é este em Leopoldina?

    Com a LEI No 10.792/1º.12.2003, foi criada a RDD (Regime Disciplinar Diferenciado) para aplicação de penalidade disciplinar ao preso pelo cometimento de falta grave, ou seja, "aos líderes e integrantes de facções criminosas e aos presos cujo comportamento exija tratamento específico" (art. 1º).
    Então, assim ficou a redação na LEP, a Lei de Execuções Penais:
    Art. 58. O isolamento, a suspensão e a restrição de direitos não poderão exceder a trinta dias, ressalvada a hipótese do regime disciplinar diferenciado." (Redação da LEI No 10.792/1º.12.2003) .
    Acontece que, mesmo a RDD garante ao preso "banho de sol por, 'no mínimo', uma hora por dia e visita semanal de duas horas... (arts. 4º e 5º, II, IV e V da resolução).

    REGIME COMPLETA UM ANO
    Como interpretar o fato de que os presos de Leopoldina, que não se enquadram ao perfil de condenados descrito na Lei, estejam num regime mais diferenciado que o RDD, pois o banho de sol é uma vez por semana e a visita é de 15 minutos através das grades? Esta realidade é a confirmação de que ainda vigora o entendimento de que o preso está sujeito a uma relação especial de poder, embora derive da Constituição a obrigatoriedade da proteção dos seus direitos fundamentais tanto pela autoridade judicial, quanto pela autoridade administrativa.

    DIREITOS E DEVERES RECÍPROCOS
    Também vigora o entendimento de que há entre preso e administração penitenciária uma relação de sujeição e não uma relação de direitos e deveres recíprocos entre autoridades e prisioneiros.
    Não é aceitável a conivência de magistrados, fiscais da lei, advogados, enfim, operadores do direito com tamanha barbárie. O regime atual é um desrespeito à Constituição, à lei, aos cidadãos deste país, enfim, à nossa inteligência.

      APELO
      Solicito às pessoas que ainda se indignam com a injustiça e tirania neste país que protestem da maneira que puderem contra o despotismo do judiciário de Minas Gerais. Divulguem entre amigos, na internet, na imprensa, nas entidades de defesa dos direitos humanos.
      A liberdade de expressão está sob perigo, a toda hora deparamos com notícias de condenação em primeira instância contra meios de comunicação no país.
      Mais informação sobre a sentença está no blog do jornal Recomeço:
     
    http://jornalrecomeco.blogspot.com/

      Informações:
      Glória Reis
      Fone: (32) 3441-4081
      Professora e editora do jornal Recomeço
      Leopoldina, MG

    _______________________________________

     

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    Da necessidade de transcender a ditadura dos sentidos

     

    Butterfly 3

    Verônica Lima

                 O estado comum de consciência (ou seja, aquele estado que é limitado pelos nossos cinco sentidos) é apenas um aspecto particular da consciência... enquanto que a nossa concepção comum do mundo (também) é apenas um aspecto particular da concepção do mundo...[1]

     

           Na verdade, o próprio desenvolvimento científico tradicional, concebido linearmente, já nos conseguiu dar mostras significativas das constrições teóricas e metodológicas promovidas pelo apego a uma visão de mundo baseada em nossos cinco sentidos. O exemplo mais dramático desta superação nos teria sido apresentado pela nova física[2], que, antagonizando a visão de mundo entronizada pelo paradigma cartesiano-newtoniano, extremamente reducionista, muito teria contribuído para ampliá-la.

     

           Superando o senso-comum, a nova física, por exemplo, nos teria permitido reconhecer que: a) diferentemente da visão tridimensional de espaço e da linearidade do tempo, precisamos trabalhar com uma visão de mundo centrada num continuum tetradimensional da matriz espaço-tempo - cujos elementos básicos (isto é, o espaço e o tempo) não mais podem ser concebidos em termos absolutos (colocando-nos, inclusive, a questão relacionada com a plausibilidade do espaço elástico)[3]; b) o espaço-tempo é curvo - evidenciado, por exemplo, pelos buracos negros[4]; c) as propriedades geométricas são determinadas pela matéria[5]; d) o conceito trivial de matéria enquanto partícula não mais se adapta às pesquisas científicas, sendo substituído pelo conceito de partícula-luz; e) o conceito de ineslaticidade dos corpos em movimento foi substituído pela teoria da contração dos corpos em movimento[6]; f) o conceito de simultaneidade de movimentos foi substituído pela constatação de sua não-simultaneidade[7]; g) a velocidade da luz foi reconhecida como fator limitante[8]; h) e passou a ser admitida a idéia da transformação da matéria em energia.      

     

            A renovação da ciência contemporânea, portanto, se encarregou também de sugerir uma visão de mundo que transcende à simplicidade do microscópico, ao mesmo tempo em que o fez com o telescópio, introduzindo mudanças na concepção reducionista da universalidade por meio da relatividade, acrescentando os princípios da incerteza e da complementaridade, a noção de tempo quântico e de que o caminhar faz a trilha, bem como a concepção de que Mente e Natureza não é um mero produto de uma relação dicotômica, porém representativa de um uno num múltiplo.

     

           Com isto, redefiniu-se o fundamento da objetividade em seu sentido clássico, bem como o do próprio sujeito que manipula o objeto de sua pesquisa: a este agora se impõe um duplo papel de ator e de espectador, porquanto permeadamente pelo objeto pesquisado.  

     

           A partir destas mudanças, inclusive, redefine-se também um novo papel para o pesquisador, que, enquanto sujeito interagente da pesquisa, ou seja, enquanto ator e espectador, não mais têm chances de se balizar apenas em seus sentidos, nem tampouco nos instrumentos científicos criados para amplificá-los. Precisará aprender a transcendê-los, aprendendo, igualmente, a manipular os conceitos de simplicidade-complexidade, universalidade-especificidade, verdade processual-verdade na situação, etc.

     

           E, neste seu caminhar, uma nova tarefa lhe é interposta, que implica em considerar que:

     

                 Diferentemente da superposição de fragmentações - ao nível do ser, do sujeito e dos campos de conhecimento - este novo pesquisador precisará perseguir a práxis do uno no múltiplo, ao invés de permanecer apenas na trilha de uma visão meramente dicotômica, exclusivista e circular[9] de mundo, Metodologicamente falando, este parece ser o nosso grande desafio...

     

    Da necessidade de ampliar o conceito de mundo

     

                 Em nossa tentativa preliminar de perscrutar um outro veio interpretativo, poderíamos ainda buscar recuperar novamente o próprio fio condutor da história. Só que, ao fazê-lo, poderemos reconhecer que, enquanto a visão pitagoricamente reduzida de mundo - que teria permeado o processo constitutivo do paradigma cartesiano - terminava postulando o desenvolvimento do saber racional enquanto parte de uma visão estática, é possível se identificar, na teoria heraclítica, uma tentativa de incorporação de um espaço conceitual ampliado, que conseguisse alavancar uma concepção dinâmica do cosmo[10].

     

           As idéias de mudança, de caráter cíclico das mudanças, de conceitos enquanto nossos mapas particulares da realidade[11], de participação em vez de observação, de unicidade essencial de todas as coisas e do compartilhamento de uma mesma cosmovisão, portanto, parecem ser unidades metodológicas significativas em qualquer estudo que busque desenvolver um novo referencial paradigmático. No mesmo nível, também pareceria-nos fundamental a retomada do estudo acerca dos vários níveis de consciência, bem como das particularidades/generalidades dos chacras[12], desde que procuremos obliterar os impeditivos externos/internos de uma tarefa de tal tipo.

     

           No entanto, todas estas tarefas continuariam sendo obstacularizadas por um impedimento ainda maior, se não nos aprofundarmos, igualmente, no estudo da matriz espaço-tempo[13], nem no estudo das leis essenciais do universo. Fulcralmente, este parece ser o nosso grande desafio. Sem isto, talvez continuemos pesquisando, porém corremos o risco de reinstalar o próprio discurso tautológico de uma pós-modernidade desfigurada.

     

           Sobre este ponto, é como nos dizia Gurdieff, o mestre de Ouspensky[14]:

     

                 Como é que os homens querem explicar a ciência sem ter consciência?... (Ou, reversivelmente), de que adianta trabalhar a consciência sem conhecermos a essência?...

     

    A. A matriz espaço-tempo             

     

    O espaço (era) um continuum tridimensional... Do mesmo modo, o mundo dos fenômenos físicos (era) naturalmente tetradimensional, no sentido do espaço tempo. Pois ele é composto de acontecimentos individuais, cada um dos quais é descrito por quatro números, a saber, de três coordenadas espaciais e uma coordenada temporal[15]...

     

           Na verdade, o próprio desenvolvimento da teoria da relatividade teria contribuído para romper com a visão do espaço por si mesmo e do tempo por si mesmo[16]. Nesta nova visão, o espaço não mais poderia ser considerado como uma variável tridimensional per se, nem tampouco o tempo uma grandeza unidimensional per se. Pelo contrário, a partir deste momento, estas duas grandezas passariam a ser considerada como algo íntima e inseparavelmente conectadas, de forma a compor um continuum tetradimensional, denominado espaço-tempo[17].

     

            No entanto, para alguns autores, como Ouspensky, até esta noção de tetra-dimensionalidade é ainda insatisfatória. Para ele, a prova da artificialidade do mundo tetradimensional na nova Física está, antes de tudo, na extrema complexidade de sua construção, que exige um espaço curvo[18].

     

           Daí porque ele afirma algo que o próprio meio científico considerado vanguardista ainda reluta em admitir: ele assume a tridimensionalidade como uma função de nossos sentidos e o tempo como o limite destes sentidos. Com isso ele avança no sentido de sugerir um espaço hexadimensional como um continuum euclidiano, no qual a quarta dimensão implicaria numa visão ainda linear, enquanto manifestação de um corpo tridimensional existente no tempo; a quinta dimensão representaria o eterno retorno, passível de representar um número definido de possibilidades e um número infinito de impossibilidades; e a sexta dimensão representaria uma linha de realização de outras possibilidades que estariam contidas no momento precedente, mas que poderiam ou não ter sido concretizadas no tempo. Todas estas dimensões permitiriam a incorporação de uma tridimensionalidade temporal, como uma forma-tentativa de se aproximar do mundo tal como ele é[19].

     

           Estas considerações são importantes e merecem ser referenciada, mormente neste momento de nossa própria discussão, já que um novo desafio como este talvez nos permitisse pensar, com um pouco mais de profundidade, sobre o caráter etéreo das conquistas materiais ou sobre o caráter recorrente dos grandes ciclos da própria civilização humana e não apenas em seus limites atuais, ou seja, englobando a própria vida institucionalizada dos Estados-nações contemporâneos. Tal estratégia, inclusive, talvez nos pudesse, igualmente, oferecer indícios de superação da circularidade que continua imbricada no nosso próprio modo hegemônico de produzir e de ver as coisas, circularidade interna e, portanto, fulcralmente constritora.

     

           Antes de terminar esta seção, talvez ainda valesse a pena recorrer a Ouspensky, quando este diz:

     

                 ... Se quisermos compreender a verdadeira inter-relação das coisas, ainda que aproximadamente, (teríamos) de ter em mente o fato de que a direção, a duração e a velocidade (do próprio tempo) não são dimensões (propriamente) reais, mas simplesmente os reflexos das dimensões reais em nossa consciência...[20]  

     

    B. As leis fundamentais do universo: um esboço

     

                 Afinal, mesmo quando pensamos em cosmo, continuamos reduzindo-lhe ao quintal de nossa casa. Nesta mesma direção, pensamos na plausibilidade de ampliação de espaços, porém continuamos a defender, apologeticamente, a propriedade privada... Pensamos nos outros, porém continuamos a homologar o pensamento narcisístico... O que significa dizer, que, mesmo sem o percebermos, continuamos ainda buscando reinstalar, circularmente, uma visão dicotômica e exclusivista de mundo, sem nos apercebermos do grau de imanência das coisas ou de sua trans-relacionalidade [21]...

     

           Essencialmente, tal como a lei de três, outra lei fundamental do universo - a Lei de Sete[22] - tenderia a indicar que, no Universo, nenhum processo pode se desenvolver sem interrupção[23], ou seja, sem oscilação[24]. Representada, ilustrativamente, pela oitava musical fundamental, esta lei parece desempenhar importante papel no encaminhamento dos acontecimentos[25].

     

           Daí porque fica uma pergunta: Se for possível considerarmos uma noção ampliada de cosmo, como é que ela poderia colaborar na explicitação de nosso lugar no mundo, coadjuvando-nos a vislumbrar (por meio da teoria), construir (por meio da práxis) e plantar uma relação de trans-relacionalidade (por meio de uma nova síntese) de um mundo melhor, e não obrigatoriamente circunscrito por noções estáticas de tempo e espaço, de circularidades e de dicotomias, permitindo-nos, inclusive, reinstalar tradições filosóficas[26] com base em noções trans-unívocas de tempo, mudança e oscilação como elementos essenciais e manifestadores de uma natureza dinâmica da realidade?...

     

           E ainda:

     

                 Seria este um bom caminho[27] para prosseguirmos na busca de uma        ruptura paradigmática ou de uma nova recorrência, que, pelo menos,   conseguimos intuir como necessária?...

     

     



    [1] Ouspensky. Um novo modelo de universo. Op. cit. p. 20.

    [2] Assim como a nova biologia, a nova economia, etc. Sobre a "nova biologia", por exemplo, vide os estudos de BATESON, Gregory. Mind and Nature. op. cit.; Angels Fear. op. cit.

    February 23

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    A miséria da concepção cartesiana de mundo

    Butterfly 3 

    VERÔNICA LIMA 
     

    Qualquer pesquisa levada a cabo nas fronteiras do conhecimento

    tem por característica o fato de não sabermos jamais aonde ela levará[1]...

           

    As últimas duas décadas de nosso século vêm registrando

     um estado de profunda crise mundial.

     É uma crise complexa, multidimensional,

     com facetas afetam todos os aspectos de nossa vida -

    a saúde e o modo de vida, a qualidade do meio ambiente e das relações sociais, da economia, tecnologia e política.

    É uma crise de dimensões intelectuais, morais e espirituais;

    uma crise de escala e premência

    sem precedentes em toda a história da humanidade[2]

     

           Esta crise, da qual nos fala Fritjof Capra nesta passagem, na verdade, não irrompeu abruptamente no interior da civilização humana, porém teria sido urdida pela própria dinâmica de nosso modelo de desenvolvimento e como uma conseqüência inefável e inexorável de nossa própria concepção de mundo.

     

           Em sua essência, o último momento de passagem, que, ciclicamente, teria permitido a sedimentação desta visão de mundo que hoje tende a ser questionada, tem um corte histórico específico e pode ser resumido da seguinte maneira:

     

                 Até 1500, o que ainda hoje reconhecemos como mundo conhecido, conseguia vivenciar uma visão orgânica e interdependente dos fenômenos espirituais e materiais. A estrutura desta visão particular conseguia conformar o modelo aristotélico de apropriação da realidade com a contextualização teológica do universo, num mecanismo unificado, que era indissociável do processo de hegemonização da Igreja, enquanto estrutura dominante. A natureza da ciência medieval baseava-se na razão e na fé e tinha como finalidade a compreensão do significado das coisas, numa relação imanente. Os arquétipos dos cientistas medievais, por conseguinte, estavam centrados em Deus, na alma humana e na ética.

     

           Um dos grandes sistematizadores desta visão coletiva de mundo vai surgir, no entanto, quase no decurso dos estertores históricos deste período, ou seja, por volta do século XIII, quando Tomás de Aquino consegue estabelecer uma combinação extremamente fértil e convincente do abrangente sistema de natureza aristotélico com a própria teologia e ética cristã, estabelecendo toda a estrutura conceitual que permanece inconteste por todo o final da Idade Média.

     

           Progressiva e irreversivelmente, no entanto, esta visão tomista da realidade, conjugada a uma percepção comunal da esfera pública, vai cedendo lugar a uma visão atomística da sociedade humana, cada vez mais consubstanciada na afirmação do individualismo, dos direitos de propriedade e, mais tarde, na corporificação da representatividade ao nível governamental.

     

           Para tal ruptura dialética, muito teria contribuído a prática do mercantilismo - evoluindo na direção da substantivação de mudanças significativas na esfera da produção e na ubiquidização da troca de mercadorias - a própria Revolução Industrial - como momentum desta ruptura - e o ideário do Iluminismo - como sustentáculo da nova visão de mundo que se instaurava.

     

           A noção do mundo como máquina então, rompe com a noção de um universo orgânico, que havia perdurado por mais de mil anos e contribui para alavancar a Idade da Revolução Científica. Na verdade, ela já havia sido esboçada a partir da oposição à concepção geocêntrica, de origem bíblica e reificação ptolomaica, consubstanciadamente em Copérnico e Galileu.

     

           Neste momento histórico específico, estabelece-se, portanto, um novo paradoxo:

     

                 O mundo-máquina, alimentado pelo homem através da ubiqüidização do valor trabalho, realiza a incorporação da visão heliocêntrica do universo referência, através da ruptura da visão geocêntrica, que foi o resultado de um conceito de universo orgânico, referenciado historicamente. Essencialmente, no entanto, tal ruptura teria acontecido, no sentido de convalidar um projeto de ampliação do macrocosmo, porém, ao mesmo tempo, ela teria se dado no sentido de aprofundar o próprio alcance da unidade-indivíduo numa acepção dicotômica[3], portanto exclusivista, dentro do crescimento do processo de materialização de nosso ciclo evolutivo.

     

    A ruptura da ruptura

     

           Hoje, no entanto, é esta visão de mundo, subsidiada pela concepção mecanicista da vida e corporificada no paradigma newtoniano-cartesiano, que começa a ser confrontada.

     

           Mas, como nos dizia Weiner Heisenberg, um dos fundadores da teoria quântica e, junto com Albert Einstein e Niels Bohr, um dos gigantes da física moderna, tal tarefa não é nada fácil. Isto porque

     

                 ... a cisão cartesiana penetrou fundo na mente humana nos três séculos após Descartes e levará muito tempo para ser substituída por uma atitude realmente diferente diante do problema da realidade[4].

     

           Daí porque, mais de um século após as primeiras defenestrações do ideário da ciência moderna, com os estudos de Faraday, Maxwell, Hertz, Michelson-Morley, Lorentz, Fermi, a teoria geral e especial da relatividade, a concepção atômica de Bohr, a mecânica ondulatória de Schröndinger e a mecânica matricial e o princípio de incerteza de Heisenberg[5], etc, ainda nos encontramos tateando neste novo terreno movediço.

     

           Quais poderiam ser consideradas as razões básicas para a existência de tal gap?

     

           Em primeiro lugar, o que a própria história convencional e cronologicamente explicitada tem nos ilustrado proficuamente, uma ruptura paradigmática não se constrói no vazio e nem tampouco por decreto. As rupturas costumam ser, inclusive, bastante traumáticas. Bastaria-nos lembrar das experiências de Sócrates (470 ou 469 a.C.)[6], Nicolau Copérnico (1473-1543), Giordano Bruno (1548-1600) e Galileu Galilei (1564-1642), que, de formas diferenciadas, tenderam a antagonizar as ordens vigentes ou os sistemas particulares de hegemonia[7].

     

           Em segundo lugar, e malgrado toda a nossa visão nominalista do desenvolvimento da ciência, parece ser, igualmente, sintomático o fato de que, em ciência, o trabalho do indivíduo tende a estar em estreita ligação com o trabalho de seus contemporâneos e o seu produto real costuma aparecer como um produto impessoal de toda uma geração. Esta é, inclusive, uma das características fulcralmente socializadoras da própria atividade científica enquanto tal, determinadora de seus próprios avanços e recuos.

     

           Em terceiro lugar, e isto foi magistralmente expressado por Pasteur, a ciência e os cientistas começaram a descobrir que as próprias teorias científicas só podem ser concebidas como aproximações da verdadeira natureza da realidade e não como instrumentos de uma adequabilidade absoluta a esta.

     

           Para este cientista,

     

                 a ciência avança através de respostas provisórias, conjuncturais, em direção a uma série cada vez mais sutil de perguntas que penetram cada vez mais fundo na essência dos fenômenos naturais[8].

     

           No entanto, no campo do real, também não se pode esquecer a dessintonia que sempre existiu, historicamente comprovada, entre o terreno exclusivo das idéias e o de sua pragmatização. Desta forma, e como quarto elemento provisoriamente explicativo, nem mesmo a celeuma, que de uns tempos para cá, começou a ocupar os espaços cada vez mais desprestigiados das cátedras acadêmicas, com um discurso, muitas vezes, xaropeizado, em torno da necessidade[9] de construção de um novo paradigma, também parece ter sido suficiente para perpetrar, de fato, uma nova ordem.

     

           Grosseiramente, isto se dá porque a massificação do discurso em torno da necessidade de um novo paradigma, muitas vezes, parece ser capaz de conseguir produzir um efeito boumerang: enquanto se discute o conceito, petrificam-se as práticas em conformação com uma necessidade de comprovação de algo antes mesmo que este algo se torne cientificamente aceito. Neste caso, estabelece-se um círculo vicioso e o próprio discurso de ruptura, muitas vezes, termina sendo esquecido nos cantos.

     

    O caráter constritor do apego paradigmático

     

           Neste sentido, inclusive, continua constrangedor reconhecer que, enquanto a nova física se desenvolvia no século XX - com reflexos extremamente significativos (e lucrativos) no interior do próprio modelo industrialista, que ainda hoje alimenta a sociedade humana nesta fase de seu desenvolvimento - a visão de mundo cartesiana e os princípios da física newtoniana continuaram hegemônicos no próprio cerne do pensamento ocidental.

     

           Na biologia, por exemplo, a concepção cartesiana dos organismos vivos, como se fossem máquinas, constituídos de partes separadas, ainda é a base da estrutura conceitual dominante. Malgrado as conquistas espetaculares em certas áreas - compreensão da natureza química dos genes, das unidades básicas da hereditariedade e na revelação do código genético - onde biólogos, biofísicos, bioquímicos, neurobiólogos e geneticistas se defrontam com a necessidade de incorporar visões integrativas, orgânicas, holísticas ou sistêmicas em seus próprios estudos, a visão separativista das coisas ainda permanece forte.

     

           No entanto, os problemas que resistiram à abordagem reducionista da biologia molecular, tornaram-se evidentes por volta de 1970, quando a estrutura do DNA e os mecanismos moleculares da hereditariedade de simples organismos unicelulares, como as bactérias, se tornaram conhecidos, mas ainda tinham de ser elaborados os dos organismos multicelulares. Os biólogos, portanto, foram colocados face a face com os problemas de desenvolvimento e diferenciação celulares, que tinham sido eclipsados durante a decifração do código genético. Isto significava reconhecer que, embora eles conhecessem o alfabeto do código genético, não pareciam possuir nenhuma idéia de sua sintaxe. Sua abordagem, essencialmente reducionista, dificultava um avanço ainda mais significativo.

     

           O próprio Darwin - cuja teoria da evolução havia obrigado os cientistas a abandonarem a imagem newtoniana do mundo como uma máquina, que havia saído totalmente construída das mãos do Criador, substituindo-a pelo conceito de sistema evolutivo e em constante mutação e cujos conceitos de variação aleatória e de seleção natural ainda representam as pedras angulares de toda a teoria evolucionista moderna - também não se teria furtado a este tipo de influência. Apesar da natureza revolucionária de sua teoria, suas idéias ainda estavam impregnadas de forte preconceito patriarcal de seu tempo. Ou seja, daquele caráter dominador, que, diferentemente da concepção filosófica chinesa[10]- que concebe o equilíbrio dinâmico entre o ying e o yang como a flutuação cíclica de dois pólos arquetípicos, que sustentariam o ritmo fundamental do universo - tenderiam a explicar o mundo e, ao mesmo tempo, conformá-lo, como o resultado de uma sujeição necessário à evolução da própria sociedade humana[11].

     

           A economia também sofreu uma influência avassaladora do paradigma newtoniano-cartesiano. Organizada, tal como ainda hoje a concebemos, no momento mesmo da organização da sociedade capitalista, esta ciência não poderia, historicamente, se abster de uma imanência natural com a própria sociedade em construção. Não é outra a razão pela qual o sistema de valores, que se desenvolveu durante os séculos XVII e XVIII, tenha substituído, gradualmente, um conjunto coerente de valores e atitudes medievais - a crença na sacralidade do mundo natural; as restrições morais contra o empréstimo de dinheiro a juros; o requisito de preços justos; a convicção de que o lucro e o enriquecimento pessoal deviam ser desencorajados; de que o trabalho devia servir como valor de uso para o grupo e ao bem-estar da alma; de que o comércio somente se justificava para restabelecer a suficiência do grupo; e de que todas as verdadeiras recompensas seriam dadas no outro mundo[12].

     

           Tal mudança de valores, na verdade, acompanha, fundamentalmente, a própria ascensão do capitalismo nos séculos XVI e XVII.

     

                 Neste período, os novos valores do individualismo, dos direitos de propriedade[13] e do governo representativo passam a compor o processo econômico e político responsável pelo esfacelamento do sistema feudal, contribuindo, igualmente, para minar o próprio poder da aristocracia tradicional.

     

           Para tanto, muito teria contribuído as teorias de Adam Smith (1723-1790)[14], cuja filosofia moral acha-se vinculada a uma linha de pensamento, que, na Inglaterra do século XVIII, nasce como reação ao selfish system de Hobbes[15], ou seja, à afirmação de um estado natural, no qual cada comportamento humano somente possui como objetivo a mera autoconservação ou egoísmo.

     

                

                 Sua concepção de trabalho é inseparável da noção de liberdade individual. Contrário à intervenção do Estado, quer nos negócios particulares, quer no comércio internacional, Adam Smith exalta o individualismo, na medida em que considera que os interesses individuais livremente desenvolvidos seriam harmonizados por uma mão invisível de mercado e terminariam sendo benéficos para toda a coletividade.

     

                 A idéia smithoniana da mão invisível do mercado, implícita na noção do laissez-faire, laissez-aller, ainda hoje é extremamente influente no pensamento econômico tradicional. Antes de Smith, no entanto, teríamos de situar a própria contribuição de PETTY (1623-87)[16], um contemporâneo de Isaac Newton, que, por volta de século XVII, ou seja, cem anos antes do próprio Smith, já trabalhara com muitos conceitos fundamentais à economia moderna. 

     

           Basicamente, em seus estudos, Petty procurava conferir um caráter científico aos fatos econômicos, fornecendo-lhes regra e método e tratando-os matematicamente, dentro da mais pura tradição do empirismo inglês. Contrastando com a literatura da época, dos tipos descritivos, históricos e analíticos, Petty também teria contribuído, enormemente, para o desenvolvimento da metodologia relacionada com o cálculo da renda e da riqueza nacional, bem como para o cálculo estatístico. Neste sentido, Petty teria discutido precocemente, as noções newtonianas de quantidade de moeda e de sua velocidade de circulação, que ainda hoje também continuam a ser debatidas e fetichizadas pela escola monetarista atual. Também teria se antecipado a Keynes, em mais de dois séculos, ao sugerir a execução de obras públicas como remédio para o desemprego[17].

     

           John Locke (1723-1790)[18], o mais notável filósofo do Iluminismo, cujo conceito de direito natural funciona como um dos esteios básicos do ideário político e social que se estabelece com o capitalismo, representa uma outra pedra angular da economia moderna. Na esfera filosófica, este autor contribuiu, significativamente, para concretizar o lócus do individualismo no processo constitutivo da nova sociedade que se avizinhava. Para ele, inclusive, a concepção de sensação estaria na origem de todas as idéias e, conseqüentemente, do próprio pensamento.[19].

     

           Dentro do marco referencial do racionalismo, no entanto, Locke o faz dentro de um plano que estabelece limites ao alcance das próprias faculdades humanas e às instituições políticas. Em parte, ele, antecipando à crítica kantiana, se opõe à análise metafísica das faculdades do conhecimento, tal como praticada pelos cartesianos. Ele o faz, porém, postulando o primado da racionalidade, na medida em que recoloca a física newtoniana dentro da análise econômica, plantando a idéia do equilíbrio da oferta e da procura como algo facilmente encaixável ao cálculo diferencial.

     

           Dentro da construção cartesiana da ciência moderna clássica, não se pode deixar de lado a importância de Ricardo[20]. Essencialmente, enquanto Smith havia definido a economia como a ciência da riqueza das nações[21], Ricardo, organicamente plasmado no interior da sociedade que mais crescia em decorrência da Revolução Industrial, passa a se preocupar com a distribuição do produto social entre as classes nas quais se achava dividida a própria sociedade. Assim procedendo, ele avança teoricamente, no sentido de reconhecer a importância da taxa de lucros como a grandeza econômica fundamental do capitalismo. Como industrial, Ricardo, igualmente, contribui para ampliar o conhecimento em torno da correlação entre lucro agrícola (ou seja, a renda fundiária) e lucro capitalista, tendo como base o conceito que ele concebe como trabalho comandado.     

          

           Já Karl Marx (1818-1894), cuja obra principal continua ainda hoje a se afirmar como uma das críticas mais contundentes do capitalismo[22] poderia ser considerado como um divisor de águas, num papel equivalente[23] ao que Tomás de Aquino teria desempenhado no decurso da Baixa Idade Média, quando consegue estabelecer uma estrutura conceitual adequada (enquanto modelo explicativo) ao mundo circundante.

     

           Neste sentido, enquanto Tomás de Aquino explica e consegue contribuir para a manutenção do pensamento hegemônico de sua época, apesar das transformações materiais que, progressivamente, contribuíam para minar o próprio corpus daquele sistema, Marx também consegue explicar o funcionamento fundante da sociedade capitalista, porém almeja conflituá-la. Esta é, inclusive, a essência de sua crítica social.

     

           Sua crítica, por sua vez, e do ponto de vista filosófico, manteria uma certa semelhança com o papel desempenhado por Platão (408 a.C. a 348 a.C.)[24], no período anterior ao início da era cristã, quando este autor descobre e busca aprofundar o método de investigação filosófica. Daí porque, e numa analogia próxima ao discurso de Sócrates, do qual o próprio Platão teria sido discípulo[25], Marx tende a sistematizar o seu método da crítica social.

     

           Essencialmente, o que Marx almeja enquanto filósofo, transcendendo aos seus estudos de Hegel[26], do qual também pode ser considerado um continuador, é ultrapassar o sentido meramente especulativo da filosofia. Suas idéias, inclusive, não teriam nascido apenas de uma visão crítica da História, como também teriam amadurecido num constante contato com as contradições políticas da segunda metade do século XIX.

     

           Neste sentido, e com a finalidade de dar à filosofia o caráter de instrumento de transformação da sociedade, Marx procura conferir ao método dialético de Hegel um sentido concreto, de forma que a teoria se torne, verdadeiramente, um meio de compreensão do movimento histórico, das contradições sociais[27] e possa indicar uma maneira de superá-las através da instauração de uma sociedade sem classes.

     

           Além disso, ao desenvolver o método do materialismo histórico, Marx, obviamente, estabelece um contraponto à metafísica - da qual Parmênides teria sido um iniciador e cuja concepção teria prevalecido ao longo da história, porque correspondia, nas sociedades divididas em classes, aos interesses das classes dominantes[28].

     

           O confronto com a metafísica também estivera presente na própria origem do método cartesiano, que, de início, instala o princípio da dúvida metafísica. Descartes, na verdade, fazendo uso das quatro regras descritas em seu Discurso do Método[29], procura perseguir a ordem das razões e não apenas das coisas. Assim procedendo, este autor parece se aproximar da teologia de Santo Anselmo e se opor à de Tomás de Aquino. No entanto, em suas intenções, ele difere tanto de uma concepção quanto da outra, basicamente porque o que ele persegue é a certeza. E, para Descartes, essa certeza é possível, conquanto se tenha a condição de ser puramente intelectual, como o é, por exemplo, a certeza da matemática[30].

     

           É nessa busca de precisão, ou seja, de cientificidade, que parecem se aproximar o método cartesiano e o método marxista. Esta aproximação parece ser ainda mais visível no campo das obras econômicas de Marx, onde o rigorismo atinge níveis insuspeitáveis[31].

     

           É como nos chama a atenção Hazel Henderson:

     

           Marx, como a maioria dos pensadores do século XIX, estava muito preocupado em ser científico. Daí porque teria, muitas vezes, tentado formular suas teorias em linguagem cartesiana[32].

     

           Neste sentido, é que parece deslocada a crítica que lhe fazem alguns apologistas do capitalismo e que, coincidentemente, permeiam, com segurança, pelos caminhos do paradigma newtoniano-cartesiano. Ou seja, tais críticos, principalmente os que Marx denominaria de economistas vulgares, continuam insistindo em questionar a obra mais cartesiana de Marx, que, dentro dos parâmetros paradigmáticos vigentes, deveria ser símbolo de deferência...

     

           Daí porque talvez pudéssemos dizer que Marx, na verdade, conseguiu produzir uma obra epigonal, que, malgrados as críticas, continua fundamental na interpretação do mundo moderno dentro da construção cartesiana deste mundo.

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    February 22

    União Européia quer regular uso de chips de localização

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    Sexta-feira, 22 de fevereiro de 2008 às 12h24

    União Européia quer regular uso de chips de localização

    De acordo com diretrizes propostas ontem 21, pela Comissão Européia, chips embutidos em objetos como produtos de supermercado e até animais de estimação terão que ser desativados em pontos de venda para proteger a privacidade dos compradores.

    Uma consulta pública está sendo lançada sobre uma lei que a comissária de Mídia e Sociedade de Informação da União Européia, Viviane Reding, espera ser aplicada em todos os 27 Estados membros.

    Temporariamente agendadas para serem adotadas antes do verão de 2008, as diretrizes propostas visam obter equilíbrio entre proteção de privacidade e ambiente propício para o desenvolvimento de tecnologias, segundo porta-voz da comissão.

    O pacote de diretrizes proposto por Reding encoraja a criação de um símbolo comum que identifique que o produto contém um chip, para que ele não seja usado secretamente. O marcador também deve ser desativado no local da venda, a menos que o cliente peça o contrário.

    A recomendação prevê ainda que as associações comerciais que representam os fabricantes devem criar códigos de conduta de uso do identificador.

     

     No Brasil

    O país também está discutindo o uso de chips. Em São Paulo, a implantação de uma etiqueta eletrônica nos veículos deve começar em maio, segundo o presidente da Companhia de Engenharia de Tráfego (CET), Roberto Scaringella. Um dos objetivos do chip é identificar veículos com dívidas ou problemas de documentação. Apenas na Capital, eles são 1,7 milhão, ou 30% da frota.

    A etiqueta eletrônica será colada no pára-brisa dos carros e armazenará informações como o código de identificação, a placa e o Renavan. Os dados serão captados por antenas espalhadas por toda a cidade de São Paulo – cerca de 2.500, segundo previsão da CET. Depois, as informações serão enviadas para uma central de controle por meio de transmissão celular.

     

    Fonte: reuters 

    Friedrich Engels

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     Biografia

    Friedrich Engels declamou estas palavras quando da morte de Marx, quinze meses após a perda da esposa:

    Marx era, antes de tudo, um revolucionário. Sua verdadeira missão na vida era contribuir, de um modo ou de outro, para a derrubada da sociedade capitalista e das instituições estatais por estas suscitadas, contribuir para a libertação do proletariado moderno, que ele foi o primeiro a tornar consciente de sua posição e de suas necessidades, consciente das condições de sua emancipação. A luta era seu elemento. E ele lutou com uma tenacidade e um sucesso com quem poucos puderam rivalizar.

    (...)

    Marx foi o homem mais odiado e mais caluniado de seu tempo. Governos, tanto absolutos como republicanos, deportaram-no de seus territórios. Burgueses, quer conservadores ou ultrademocráticos, porfiavam entre si ao lançar difamações contra ele. Tudo isso ele punha de lado, como se fossem teias de aranha, não tomando conhecimento, só respondendo quando necessidade extrema o compelia a tal. E morreu amado, reverenciado e pranteado por milhões de colegas trabalhadores revolucionários - das minas da Sibéria até a Califórnia, de todas as partes da Europa e da América - e atrevo-me a dizer que, embora, muito embora, possa ter tido muitos adversários, não teve nenhum inimigo pessoal.

     

    February 21

    A MISÉRIA DA CIÊNCIA V

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    Divulgação Científica

     

    A face visível: a crise do sistema

     

    Butterfly 3 
    VERÔNICA LIMA

     

    Concentrando-nos numa visão dialética da própria realidade,

    com referência às substituições cíclicas das formas de produzir e de seus fundamentos,

    poderíamos ser levados a pensar o fenômeno da

    globalização[1] da crise do sistema produtor de mercadorias

    como um momento de disrupção de um estágio civilizatório

     centrado na fetichização do capital,

    quer em sua forma fundamental de trabalho[2]

    ou em sua explicitação de capital produtor de lucro ou de capital produtor de juros[3].

    Concentrando-nos numa visão em corte desta realidade, por outro lado,

    estaríamos propensos a considerar a globalização como uma reforma do sistema,

    no sentido de sua preservação.

     

            Estudos clássicos sobre a natureza desta crise poderiam nos conduzir ao conjunto da obra de Karl MARX[4]. Desde o século passado, inclusive, a preocupação com a plausibilidade da crise não deixou de compor o universo das preocupações teórico-concretas de grande parte dos autores. Alguns dentre estes, têm buscado analisar tal possibilidade a partir de concepções cíclicas que estariam implícitas na dinâmica de estruturação das próprias sociedades modernas embutidas no modo de produção capitalista[5].

     

                   Neste sentido, BECKER[6], por exemplo, seguindo a linha de KONDRANTIEFF[7], e buscando estudar o desenvolvimento recente do capitalismo a partir de uma visão cíclica[8], teria assim descrito as limitações do atual ciclo:

     

                    Na seqüência histórica acontece que a fase quarta (...) do desenvolvimento capitalista leva o capital para campos inteiramente improdutivos. A tendência para a troca desigual que, por um lado, fornece perspectivas felizes para um investimento ampliado em capitais administrativos utilizados em empregos circulatórios, por outro lado, provoca uma elevação na taxa de consumo improdutivo. Esta última elevação combina-se com a antiga tendência de queda da taxa de lucro e, conjugadas, elas constituem uma força profundamente poderosa, contribuindo para a crise e o colapso econômicos. Como sempre aconteceu nas fases anteriores, o impulso para acumular acaba por fracassar e segue uma estagnação econômica e uma restrição completa e efetiva das possibilidades de desenvolvimento das forças produtivas. Essa é a principal tendência da acumulação de capital na quarta fase[9].

     

            Mais recentemente, analisando as razões constitutivas da chamada crise do socialismo real - um fenômeno aparentemente [10] desvinculado da lógica interna do capitalismo - KURZ[11], por sua vez, também nos procura lembrar de que a dinâmica do processo global é unificada e que a crise de um lado não é mais do que o espelho da própria crise do outro. Para este autor, inclusive, a crise é ainda mais grave, e,

     

                    por mais estranho e inacreditável que possa parecer aos apóstolos ocidentais da normalidade capitalista... (já que a concreticidade do mundo atual pareceria indicar uma direção diametralmente oposta) é muito provável que o mundo burguês do dinheiro total e da mercadoria moderna, cuja lógica constituiu, com dinâmica crescente, a chamada Idade Moderna, entrará... numa era das trevas, do caos e da decadência das estruturas sociais, tal como jamais existiu na história do mundo[12]...

     



    [1] Apesar de alguns autores, seguindo a linha adotada pela OCDE, qualificarem o conceito de globalização (que os franceses preferem qualificar de mundialização) de um movimento ligado a processos objetivos que teriam lugar, primordialmente, no mundo econômico (ver CHESNAIS, François - Doutor em Economia, Professor da Universidade Paris XIII e ex-diretor técnico da Organização de Cooperação e de Desenvolvimento Econômico - em palestra proferida em outubro de 1993 no Núcleo de Política Científica e Tecnológica do CEAM e no Doutorado de Desenvolvimento Sustentável da Unb), estamos propensos a utilizar o termo, no escopo deste trabalho, de uma maneira mais ampla, mesmo supondo-o, preliminarmente, referenciado a um momento de ampliação do espaço do capital em escala global.

    [2] Neste sentido, os textos clássicos de Karl MARX continuam sendo obras fundamentais para o entendimento da fase especificamente configurada como capitalismo.

    [3] De acordo com a terminologia usada por Rudolf HILFERDING, em O Capital Financeiro. São Paulo: Nova Cultural, 1985. A autora buscou recuperar tal terminologia em sua dissertação de mestrado, já referenciada anteriormente no item seis.

    [4] Muito embora este autor não tenha, propriamente, desenvolvido uma "exposição sistemática das crises no modo de produção capitalista". Daí porque os seus divulgadores, basicamente, se dividem na interpretação deste fenômeno: Alguns se baseiam exclusivamente nos esquemas do segundo volume de O Capital, definindo a "crise como resultado da ruptura da proporcionalidade entre capital constante e capital variável". Outros se detêm na "queda tendencial da taxa de lucro", enquanto outros ainda procuram valorizar o "problema do subconsumo da população operária".

    [5] Tal percepção é extremamente variável entre os autores contemporâneos e mesmo dentro do pensamento marxista ela costuma incluir visões diferenciadas da própria natureza da crise. Como exemplo, podemos citar BECKER, James F. Economia Política Marxista. Rio de Janeiro: Zahar, 1980; MANDEL, Ernest. A Crise do Capital. Os fatos e sua interpretação marxista.  São Paulo / Campinas: Ensaio / Ed. Unicamp: 1990; e KURZ, Robert. Da Derrocada do Socialismo de Caserna à Crise da Economia Mundial. São Paulo: Paz e Terra, 1992.

    [6] BECKER. Op. cit. p. 224. Este autor seria um dos representantes da escola marxista americana, que incluiria também, dentre outros, MARGLIN e BRAVERMANN. Mais recentemente, por volta de 1982, "renasce" novamente o marxismo nos Estados Unidos como um instrumental teórico "não-hegemônico", e este movimento tende a incorporar, inclusive, os princípios da comparatividade. Exemplos atuais deste movimento podem ser identificados em: BURAWOY, M. e SCOKPOL, T. (1982); SEIGEL, J. (1982); GROSS, D. (1983); RAGIN, C. & ZARET, D. (1983); O'BRIEN, R. & BURRIS, V. (1983); WRIGHT, E.O. (1989); etc. Sobre este ponto, vide, inclusive, texto da autora sobre o desenvolvimento da comparatividade em Sociologia, publicado nos Cadernos do Doutorado Conjunto FLACSO / UnB, n. 06, V.III.

    [7] KONDRANTIEFF teria desenvolvido precocemente um estudo em torno do caráter cíclico do desenvolvimento capitalista, e, por conseguinte, estes ciclos são conhecidos pelo seu nome.

    [8] Segundo a descrição dos ciclos oferecida por BECKER, na primeira fase do desenvolvimento capitalista, o impulso para acumular incide sobre os meios de consumo e, em especial, os bens de salário. Na segunda fase, isto se dá no tocante à acumulação de capitais industriais, ou seja, de meios de produção. Na terceira fase, e dentro da lótica de "circularidade" do capitalismo, tal impulso transfere-se, novamente, para o setor de bens de consumo, porém, desta feita, com o fito de proporcionar saídas para a própria produção do setor I e garantir novas oportunidades de investimento no processo expansivo de um "novo consumo". Já na quarta fase, ele vai ser dirigido para a acumulação de “capitais administrativos em empregos circulatórios", daí contribuindo para criar uma "tendência constritiva do movimento global". In: BECKER. Op. cit. p. 215-35.

    [9] Grifo nosso.

    [10] Ou seja, de acordo com a "histeria atual de hosanas ao próprio capitalismo" ou com a tendência a considerar a "crise do socialismo real" como um indício de fortalecimento do próprio capitalismo, muito ao gosto de algumas tendências interpretativas, inclusive, da "esquerda".

    [11] Na verdade, KURZ nos oferece uma análise bastante intrigante do momento atual. Esta citação, especificamente, pode ser encontrada em seu livro citado na nota n. 13. In: KURZ. Op. cit. p. 222. Uma perspectiva semelhante pode, igualmente, ser deduzida do trabalho da autora intitulado, Transformação como Contingência. A questão do socialismo hoje & uma interpretação marxista. Brasília: CNPq, 1992. 139 pgs.

    [12] Ibid, ibid. Ele também considera que o "caráter singular desse desastre da modernização, que somente por último atingirá o seu causador, o Ocidente, consiste, por um lado, em sua dimensão social mundial, e por outro, na enorme dinâmica desse sistema". Para ele, inclusive, "ninguém pode prever a duração desta maior crise da história, nem as formas que percorrerá. Mas com toda certez não haverá nenhum retorno às formas atualmente familiares do sistema produtor de mercadorias, que incluem a subjetividade moderna em todos os níveis de sua existência". In: KURZ. op. cit. p. 222.

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    February 18

    A PRÓXIMA GUERRA. SERÁ?

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    Divulgação Científica

     

    A PRÓXIMA GUERRA. SERÁ?

    Segue abaixo o relato de uma pessoa conhecida e séria, que passou recentemente em um concurso público federal e foi trabalhar em
    Roraima.
    Trata-se de um Brasil que a gente não conhece.

    As duas semanas em Manaus foram interessantes para conhecer um
    Brasil um pouco diferente, mas chegando em Boa Vista (RR) não pude
    resistira fazer um relato das coisas que tenho visto e escutado por aqui.

    Conversei com algumas pessoas nesses três dias, desde
    engenheiros até pessoas com um mínimo de instrução.

    Para começar o mais difícil de encontrar por aqui é
    roraimense, pra falar a verdade, acho que a proporção é de um roraimense para cada 10 pessoas é bem razoável, tem gaúcho, carioca, cearense, amazonense,
    piauiense, maranhense e por aí vai. Portanto falta uma identidade com a terra. Aqui  não existem muitos meios de sobrevivência, ou a pessoa é funcionária pública, e aqui  quase todo mundo é, pois em Boa Vista se concentram todos os órgãos federais e estaduais de Roraima, além da prefeitura é claro. Se não for funcionário público a
    pessoa trabalha no comércio local ou recebe ajuda de Programas do governo.
    Não existe indústria de qualquer tipo. Pouco mais de 70% do Território
    roraimense é demarcado como reserva indígena, portanto restam apenas 30%,
    descontando- se os rios e as terras improdutivas que são muitas, para se cultivar a terra ou para a localização das próprias cidades. (Na única rodovia que existe em direção ao Brasil (liga Boa Vista a Manaus, cerca de 800 km) existe um trecho de aproximadamente 200 km reserva indígena Waimiri Atroari) por onde você só
    passa entre 6:00 da manhã e 6:00 da tarde, nas outras 12 horas a rodovia é
    fechada pelos índios (com autorização da FUNAI e dos americanos) para que
    os mesmos não sejam incomodados.

    Detalhe: Você não passa se for brasileiro, o acesso é livre aos
    americanos, europeus e japoneses. Desses 70% de território indígena, diria
    que em 90% dele ninguém entra sem uma grande burocracia e autorização da
    FUNAI.

    Detalhe: Americanos entram na hora que quiserem, se você não
    tem uma autorização da FUNAI mas tem dos americanos então você pode
    entrar. A maioria dos índios fala a língua nativa além do inglês ou francês, mas a
    maioria não sabe falar português. Dizem que é comum na entrada de algumas reservas encontrarem- se hasteadas bandeiras americanas ou inglesas. É comum se encontrar por aqui americano tipo nerds com cara de quem não quer nada, que veio caçar borboleta e joaninha e catalogá-las, mas no final das contas pasme,
    se você quiser montar um empresa para exportar plantas e frutas típicas como cupuaçu, açaí camu-camu etc., medicinais, ou componentes naturais para fabricação de remédios, pode se preparar para pagar 'royalties' para empresas japonesas e americanas que já patentearam a maioria dos produtos típicos da Amazônia...

    Por três vezes repeti a seguinte frase após ouvir tais relatos:
    É os americanos vão acabar tomando a Amazônia e em todas elas ouvi a mesma
    resposta em palavras diferentes. Vou reproduzir a resposta de uma senhora simples que vendia suco e água na rodovia próximo de Mucajaí:
    'Irão não minha filha, tu não sabe, mas tudo aqui já é deles, eles comandam tudo, você não entra em lugar nenhum porque eles não deixam.
    Quando acabar essa guerra aí eles virão pra cá, e vão fazer o que fizeram no Iraque quando determinaram uma faixa para os curdos onde iraquiano não
    entra, aqui vai ser a mesma coisa'.

    A dona é bem informada não? O pior é que segundo a ONU o conceito de nação é um conceito de soberania e as áreas demarcadas têm o nome de nação indígena. O que pode levar os americanos a alegarem que estarão libertando os povos indígenas. Fiquei sabendo que os americanos já estão construindo uma grande base militar na Colômbia, bem próximo da fronteira com o Brasil numa parceria com o governo colombiano com o pseudo objetivos de combater o narcotráfico. Por falar em narcotráfico, aqui é rota de distribuição, pois
    essa mãe chamada Brasil mantém suas fronteiras abertas e aqui tem Estrada
    para as Guianas e Venezuela. Nenhuma bagagem de estrangeiro é fiscalizada, principalmente se for americano, europeu ou japonês, (isso pode causar um incidente diplomático). .. Dizem que tem muito colombiano traficante virando venezuelano, pois na Venezuela é muito fácil comprar a cidadania venezuelana por cerca de 200 dólares.
    Pergunto inocentemente às pessoas; porque os americanos querem tanto proteger os índios. A resposta é absolutamente a mesma, porque as terras indígenas além das riquezas animais e vegetais, da abundância de água são extremamente ricas em ouro (encontram-se pepitas que chegam a ser pesadas em quilos), diamante, outras pedras preciosas, minério e nas reservas norte de Roraima e Amazonas, ricas em PETRÓLEO.
    Parece que as pessoas contam essas coisas como que num grito de Socorro a alguém que é do sul, como se eu pudesse dizer isso ao presidente ou a alguma autoridade do sul que vá fazer alguma coisa. É pessoal, saio daqui com a quase certeza de que em breve o Brasil irá diminuir de tamanho. Um grande abraço a todos. Será que podemos fazer alguma coisa???
    Acho que sim.

    Repasse esse e-mail para que um maior número de brasileiros fique sabendo desses absurdos.

    Opinião pessoal:

    Gostaria que você, especialmente que recebeu este e-mail, o repasse para o maior número possível de pessoas. Do meuponto de vista seria
    interessante que o país inteiro ficasse sabendo desta situação através dos telejornais antes que isso venha a acontecer.

    Afinal foi um momento de fraqueza dos Estados Unidos que os
    europeus lançaram o Euro, assim poderá se aproveitar esta situação de
    fraqueza
    norte-americana (perdas na guerra do Iraque) para revelar isto ao mundo a
    fim de antecipar a próxima guerra. Conto com sua participação, no envio
    deste
    e-mail..

    Celso Luiz Borges de Oliveira Doutorando em Água e Solo
    FEAGRI/UNICAMP

    Tel: (19) 3233-1840 Celular: (19) 9136-6472 e-mail´s:
    Celso@ufba.br; celso@agr.unicamp. br ; celsoborges@ gmail.com

     

    O plantio comercial de árvores

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     Reflorestamento de Acacia

     

    O plantio comercial de árvores para a produção de madeira é uma importante fonte de renda para pequenos, médios e grandes proprietários rurais, desde que estes plantios sejam bem formados e manejados adequadamente para atender as exigências dos consumidores. Além de proporcionar retornos financeiros muito superiores a qualquer forma de aplicação no mercado financeiro, o patrimônio permanece sob a posse do investidor, com total segurança. Além destas vantagens, o plantio de árvores constitui uma excelente oportunidade que o produtor tem de formar um patrimônio vivo, de fácil e rápida liquidez que lhe assegure uma aposentadoria digna, na velhice. Patrimônio este que pode ser formado através do plantio anual escalonado de árvores de Acacia mangium, para produção de mel, própolis, cera, Pólen, geléia real, aptoxina, madeira e tanino. Produtos que tem aumentado significativamente o seu consumo em todo o mundo e apresentado grande procura, quando tem alcançado altos preços nos mercados nacionais e internacionais.

    A Acacia mangium é uma espécie florestal de rápido crescimento, capaz de produzir madeira de excelente qualidade, crescer 5 m/ano ou 323,15m3 /ha em 5 anos; 7400 kg de tanino; 240 kg de mel /colméia.ano e outros produtos apícolas de boa aceitação nos mercados. Nas condições brasileiras a rentabilidade líquida da exploração de um hectare de Acacia mangium, num sistema integrado com a apicultura e tanino, poderá ultrapassar R$249.000,00. O aproveitamento da própolis, da cera, da geléia real e da forragem das folhas que contém 41% de proteína, constituem fontes adicionais de renda para o produtor rural.

    Sua madeira de excelente qualidade é utilizada na fabricação de móveis, papel, portas, carvão, MDF, aglomerados, laminados e moradias. Outra fonte de divisas obtidas do reflorestamento de Acacia consiste na venda de bônus de Carbono para despoluição atmosférica (retirada de CO2 atmosférico), onde as empresas poluidoras dos países desenvolvidos pagarão aos reflorestadores pela remoção do CO2 lançado no ar. Preços estes que têm oscilado entre US$20 e US$100.00 por tonelada de carbono retirado. Deste modo, a fixação de CO2 pela Acacia mangium pode proporcionar ganhos adicionais de até US$558.00/ha.ano, mediante a venda de bônus de carbono, na bolsa de valores.

    FONTE INESGOTÁVEL DE PRODUTOS APÍCOLAS

    As folhas da Acacia mangium possuem nectários extraflorais que produzem néctar ou pasto apícola durante toda época do ano, ao contrário da maioria das espécies melíferas que só os produzem nas flores durante um curto período de floração. Esta habilidade de produzir néctar nas folhas lhe confere uma capacidade de produção de 240 kg de mel por colméia, por ano, como constatado em áreas reflorestadas com esta espécie, no Norte do Brasil e em Nova Gales do Sul (Austrália).  

    A apicultura em áreas de reflorestamento do Brasil tem mostrando ser uma atividade empresarial lucrativa e atraente, a exemplo de uma empresa florestal de Minas Gerais que estabeleceu como meta produzir 1.200 toneladas de mel, em 2003, cuja produção seria destinada ao Japão, Alemanha, Jordânia e países do Oriente Médio. As exportações brasileiras de mel são crescentes e passaram de 268.900 quilogramas, em 2000, para 11.240.000 quilogramas em 2002, sendo intensa a procura, ocasião em que o preço do mel atingiu R$150,00 o galão de 18 litros e R$180,00 o quilograma de própolis.
     
     EXCELENTE RETORNO FINANCEIRO PARA EMPRESÁRIO RURAL

    A partir de um plantio de Acacia mangium com cinco anos de idade, o empresário poderá formar um grande patrimônio, em madeira, tanino e produtos apícolas, de fácil e rápida liquidez e obter uma rentabilidade líquida por hectare superior a R$249.000,00, além de assegurar-lhe uma aposentadoria digna e confortável e permitir a produção contínua de renda pela exploração da madeira, da apicultura, da extração do tanino e por não importar madeiras de outras regiões para atender as necessidades da fazenda.

    De fácil cultivo e manutenção, a floresta poderá ser formada e manejada para produção de Povoamento de Acacia mangium de 15 anos madeiras para os mais variados fins, sendo que aquelas de menores diâmetros originadas dos desbastes e galhadas terão aplicação imediata na transformação em aglomerado ou MDF ou ser vendidas para as padarias, pizzarias e olarias, antecipando receitas financeiras.

    As árvores adultas atingem alturas de 25 a 35 m e 1,10 m de diâmetro, com elevada capacidade de fertilização e estabilização de solos, permitindo sua utilização vantajosa no consórcio com café, no sombreamento de cacaueiros, na recuperação de solos bem como na contensão de encostas e rodovias.

    SEGURANÇA PARA O EMPRESÁRIO RURAL 

    Uma floresta de Acacia mangium trará grande segurança aos empresários rurais, por atender à reposição florestal exigida por lei, por proteger suas terras da erosão, por garantir a manutenção das nascentes de água, por constituir patrimônio de fácil e rápida liquidez e por assegurar a continuidade dos seus negócios. A rusticidade da espécie possibilita o aproveitamento e a recuperação das terras impróprias para a agricultura; enquanto a sua boa madeira e elevada produtividade (64,6 m3 /ha.ano) permitem o suprimento de madeira na fazenda. O risco de insucesso no investimento feito no plantio de Acacia pode ser considerado desprezível, salvo em caso de sinistros, visto que dos milhares de hectares desta espécie plantada em diferentes regiões do Brasil, não se registrou, até o presente, nenhum prejuízo ou insucesso. 

     

     

    A BOA QUALIDADE DA MADEIRA

    Sua madeira pode ser facilmente serrada, planada, polida, colada, pregada e receber tratamento preservativo como o CCA para aumentar sua durabilidade em contato com o solo. A densidade básica da madeira é considerada elevada, permitindo o seu perfeito uso na fabricação de móveis, bem como suas fibras são curtas, o que a qualifica como ótima para produção de celulose e papel.

      

    CONSÓRCIO DE ACACIA COM CULTURAS AGRÍCOLAS E ANIMAIS

     O plantio de Acacia mangium devidamente planejado, permite a imediata intercalação da apicultura e de culturas agrícolas como o feijão, arroz, soja, amendoim etc, durante os dois primeiros anos após o plantio, devolvendo ao produtor, todo capital investido na implantação da floresta.

    A partir do terceiro ano, a continuidade da exploração da apicultura e a introdução da pecuária de corte dentro da floresta, é perfeitamente exeqüível, podendo, neste último caso, criar até 2,5 cabeças por hectare. As folhas da Acacia prestam-se grandemente à produção de forragem para alimentação de bovinos, ovinos e caprinos, por serem muito palatáveis e possuírem 41% de proteína. Estes resultados foram comprovados por pesquisa científica sobre suplementação alimentar de ovelha conduzida no Oeste da África, onde a forragem de Acacia mangium em mistura com Brachiaria humidícula, proporcionou ganho de 4,1 quilogramas de peso, para cada 100 quilogramas de peso vivo de animal, após 21 dias. Além destas vantagens, os galhos finos das árvores e a serragem da madeira são excelentes substratos para a produção de cogumelos comestíveis (Shiitake) e a copa ampla e densa das árvores permite o seu emprego no sombreamento parcial do cacaueiro e do cafeeiro, bem como a proteção deste último, contra os ventos gelados do inverno.

     

    FONTE DE TANINO PARA AS INDÚSTRIAS DE COURO E COLA

    A casca do tronco da árvore de Acacia mangium possui teores de tanino que chegam a 42%, sendo de fácil extração e beneficiamento e venda para as indústrias de couros (curtumes), adesivos e colas, podendo ser extraído até 7400 kg de tanino por hectare, na época do corte. Esta produção de tanino poderá render ao produtor até R$30.710,00, por hectare. 

     

    ACÁCIA – FONTE INESGOTÁVEL DE RENDA PARA OS AGRICULTORES

    O plantio de Acacia mangium constitui uma excelente oportunidade de investimento que se bem administrado, proporcionará rentabilidade muito superior a qualquer investimento feito no mercado financeiro, além do patrimônio formado estar sob a posse e administração do investidor, sem nenhuma vulnerabilidade. A qualidade de sua madeira foi comparada à da teca (Tectona grandis), apresentando preços iguais e excelente aceitação nos mercados internacionais, razão da existência de mais de 3,5 milhões de hectares plantados para os mais variados usos na Indonésia, Tailândia, Malásia, Filipinas, Índia...

    http://www.floreste.com/modules.php?name=News&file=article&sid=64

    February 17

    Pensamento sistêmico

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    Pensamento sistêmico


    O pensamento "sistêmico" é uma forma de abordagem da realidade que surgiu no século XX, em contraposição ao pensamento "reducionista-mecanicista" herdado dos filósofos da Revolução Científica do século XVII, como Descartes, Bacon e Newton. O pensamento sistêmico não nega a racionalidade científica, mas acredita que ela não oferece parâmetros suficientes para o desenvolvimento humano, e por isso deve ser desenvolvida conjuntamente com a subjetividade das artes e das diversas tradições espirituais. É visto como componente do paradigma emergente, que tem como representantes cientistas, pesquisadores, filósofos e intelectuais de vários campos. Por definição, aliás, o pensamento sistêmico inclui a interdisciplinaridade.

    Os paradigmas da ciência segundo o pensamento sistêmico[1]

    O pressuposto da simplicidade

    1. O pressuposto da simplicidade - a crença em que, separando-se o mundo complexo em partes, encontram-se elementos simples, em que é preciso separar as partes para entender o todo, ou seja, o pressuposto de que "o microscópico é simples". Daí decorrem, entre outras coisas, a atitude de análise e a busca de relações causais lineares.

    O pressuposto da simplicidade tira o objeto de estudo dos seus contextos, prejudicando a compreensão das relações entre o objeto e o todo. Esse paradigma também leva à separação dos fenômenos: os físicos dos biológicos, estes dos psicológicos, dos culturais, etc., numa atitude de atomização científica. Faz parte dessa perspectiva também a atitude ou-ou, que, de acordo com a lógica, classifica os objetos, não permitindo que um mesmo objeto pertença a duas categorias diferentes. Além disso, esse pressuposto provoca a compartimentalização do saber, fragmentando o conhecimento em diferentes disciplinas científicas... Dessa forma criam-se os especialistas, aquele que tem um acesso privilegiado ao saber, estabelecendo-se uma hierarquia do saber.

    Os sistemas são concebidos como simples, agregados mecanicistas de partes em relações causais separadas umas das outras, o que resulta em uma concepção de causalidade linear unidirecional, isto é, a causa eficiente aristotélica, como único princípio explicativo admissível.

    Outra consequência dessa atitude é a crença de que o mundo é cognoscível desde que seja abordado de forma racional. Uma lógica que procura manter o equilíbrio do discurso através da expulsão da contradição (Morin). A existência de paradoxos, no entanto, faz decair essa postura, o que levou Russel a abordar os paradoxos na forma da teoria dos níveis lógicos.

     O pressuposto da estabilidade

    2. O pressuposto da estabilidade - a crença de que o mundo é estável, ou seja, em que o "mundo já é". Ligados a esse pressuposto estão a crença na determinação - com a consequente previsibilidade dos fenômenos - e a crença na reversibilidade - com a consequente controlabilidade dos fenômenos.

    O pressuposto da estabilidade leva o cientista a estudar os fenômenos em laboratório, onde pode variar os fatores um de cada vez, exercendo controle sobre as outras variáveis. Assim, ele provoca a natureza para que explicite, sem ambiguidade, as leis a que está submetida, confirmando ou não suas hipóteses. Ao levar o fenômeno para laboratório, excluindo o contexto e a complexidade, focalizando apenas o fenômeno que estava acontecendo, ele exclui a sua história.

    A idéia de "leis da natureza" é a mais fundamental da ciência moderna e tem uma conotação legalista, como se a natureza fosse obrigada a seguir leis... Possivelmente isso está ligado a idéias religiosas que concebem um legislador onipotente. Será que isso não seria uma tentativa de equiparar o conhecimento humano ao divino?

    Dessa forma, principalmente a física concebe o mundo "que já é", e não em processo de ser, recorrendo a sistemas em estado de equilíbrio para estudo. Também por isso a física quântica quebrou velhos paradigmas...

    Faz parte desse paradigma o pressuposto da previsibilidade: o que não é previsto com segurança é associado a um conhecimento imperfeito, o que leva a uma redução ainda maior do conhecimento por meio do pressuposto da simplicidade. Por conseguinte, a instabilidade de um sistema é visto como um desvio a corrigir. A idéia da controlabilidade dos fenômenos leva a uma interação do especialista na forma de uma interação instrutiva: a crença de que o comportamento do sistema será determinado pelas instruções que ele receber do ambiente e em que, portanto, poderá ser controlado e previsível.

     O pressuposto da objetividade

    3. O pressuposto da objetividade - a crença em que "é possível conhecer objetivamente o mundo tal como ele é na realidade" e a exigência da objetividade como critério de cientificidade. Daí decorrem os esforços para colocar entre parênteses a subjetividade do cientista, para atingir o universo, ou versão única do conhecimento.

    No pressuposto da objetividade o cientista posiciona-se "fora da natureza", em posição privilegiada, com uma visão abrangente, procurando discriminar o objetivo do ilusório (suas próprias opiniões ou subjetividade). Daí advém a crença no realismo do universo: o mundo e o que nele acontece é real e existe independente de quem o descreve. Com isso obtemos várias representações da realidade, que ajudaria a descobri-la. E o critério de certeza advém daquelas observações conjuntas e reproduzíveis, onde, coincidindo os registros de observações independentes, mais confiáveis e objetivas são as afirmações. A estatística encontra aí um bom campo de atuação.

    O relatório impessoal e as normas de trabalho científico orientam uma linguagem impessoal, "como se a caneta fosse um instrumento para a manifestação de uma verdade anônima"... Na verdade, a linguagem impessoal visa a "mascarar" a linguagem de forma a dar uma impressão de ausência de um sujeito, de um pesquisador, onde uma afirmação pode tomar a forma impessoal para mascarar uma opinião pessoal...

    Resumindo: a ciência tradicional procura simplificar o universo (dimensão da simplicidade) para conhecê-lo ou saber como funciona (dimensão da estabilidade), tal como ele é na realidade (dimensão da objetividade).

    Isso levou a uma dificuldade tremenda em três áreas científicas, onde podemos classificar, de acordo com Vasconcelos (2003), a adoção dos paradigmas científicos em fácil, tranquilo e difícil:

    Ciências

    Físicas

    Biológicas

    Humanas

    simplicidade

    tranquilo

    difícil

    difícil

    estabilidade

    tranquilo

    especialmente difícil

    difícil

    objetividade

    tranquilo

    tranquilo

    especialmente difícil

    O pensamento sistêmico não nega o paradigma científico. Pelo contrário: ele o abarca, colocando-o em confronto com os paradigmas opostos e propondo uma ampliação dos paradigmas existentes.

    O Pensamento sistêmico e a psicologia analítica de Jung

    Muitas críticas à teoria junguiana coincide com a dificuldade de se aceitar a psicologia como ciência devido aos pressupostos apresentados. Mas isso está mudando... O pensamento sistêmico propõe, em contraposição, os paradigmas da complexidade, da instabilidade e da intersubjetividade, que se integram incrivelmente com a psicologia analítica.

    O pressuposto da complexidade reconhece que a simplificação obscurece as inter-relações entre os fenômenos do universo e de que é imprescindível ver e lidar com a complexidade do mundo em todos os seus níveis. Um exemplo de uma descrição baseada nesse pressuposto e a sincronicidade, que prevê outras relações que não causais para os eventos do universo. Além disso, a psicologia analítica lida de modo sistêmico com a psique, daí seu homônimo: psicologia complexa, ou profunda.

    O pressuposto da instabilidade reconhece que o mundo está em processo de tornar-se, advindo daí a consideração da indeterminação, com a consequente imprevisibilidade, irreversibilidade e incontrolabilidade dos fenômenos. A abordagem orgânica, a homeostase psíquica, e a noção de inconsciente (o que inclui a freudiana), com os seus componentes arquetípicos e complexos são exemplos de abordagem sistêmica da psicologia analítica.

    O pressuposto da intersubjetividade reconhece que não existe uma realidade independente de um observador e que o conhecimento científico é uma construção social, em espaços consensuais, por diferentes sujeitos/observadores. Então o cientista trabalha com múltiplas versões da realidade, em diferentes domínios linguísticos de explicações. Os tipos psicológicos junguianos são o que há de mais inovador nesse sentido, tendo inclusive reconhecimento científico tradicional na detecção dos tipos de personalidade.

    Livros Relacionados

    1.   Vasconcelos (2003)

    • VASCONCELOS, Maria José Esteves. Pensamento sistêmico - o novo paradigma da ciência. Campinas: Papirus, 2003.
    • JOHNSON, Steve. Emergência
    • CAPRA, Fritjof. O Ponto de Mutação.
    • ANDRADE, Aurélio. Pensamento Sistêmico - Caderno de Campo.

    Representantes do pensamento sistêmico

     http://pt.wikipedia.org/wiki/Pensamento_sist%C3%AAmico

    February 16

    A MISÉRIA DA CIÊNCIA l V

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    A miséria da concepção cartesiana de mundo

     Verônica Lima Butterfly 3

    Qualquer pesquisa levada a cabo nas fronteiras do conhecimento

    tem por característica o fato de não sabermos jamais aonde ela levará[1]...

           

    As últimas duas décadas de nosso século vêm registrando

     um estado de profunda crise mundial.

     É uma crise complexa, multidimensional,

     com facetas que afeta todos os aspectos de nossa vida -

    a saúde e o modo de vida, a qualidade do meio ambiente e das relações sociais, da economia, tecnologia e política.

    É uma crise de dimensões intelectuais, morais e espirituais;

    uma crise de escala e premência

    sem precedentes em toda a história da humanidade[2]

     

            Esta crise, da qual nos fala Fritjof Capra nesta passagem, na verdade, não irrompeu abruptamente no interior da civilização humana, porém teria sido urdida pela própria dinâmica de nosso modelo de desenvolvimento e como uma conseqüência inefável e inexorável de nossa própria concepção de mundo.

     

            Em sua essência, o último momento de passagem, que, ciclicamente, teria permitido a sedimentação desta visão de mundo que hoje tende a ser questionada, tem um corte histórico específico e pode ser resumido da seguinte maneira:

     

                    Até 1500, o que ainda hoje reconhecemos como mundo conhecido, conseguia vivenciar uma visão orgânica e interdependente dos fenômenos espirituais e materiais. A estrutura desta visão particular conseguia conformar o modelo aristotélico de apropriação da realidade com a contextualização teológica do universo, num mecanismo unificado, que era indissociável do processo de hegemonização da Igreja, enquanto estrutura dominante. A natureza da ciência medieval baseava-se na razão e na fé e tinha como finalidade a compreensão do significado das coisas, numa relação imanente. Os arquétipos dos cientistas medievais, por conseguinte, estavam centrados em Deus, na alma humana e na ética.

     

            Um dos grandes sistematizadores desta visão coletiva de mundo vai surgir, no entanto, quase no decurso dos estertores históricos deste período, ou seja, por volta do século XIII, quando Tomás de Aquino consegue estabelecer uma combinação extremamente fértil e convincente do abrangente sistema de natureza aristotélico com a própria teologia e ética cristã, estabelecendo toda a estrutura conceitual que permanece inconteste por todo o final da Idade Média.

     

            Progressiva e irreversivelmente, no entanto, esta visão tomista da realidade, conjugada a uma percepção comunal da esfera pública, vai cedendo lugar a uma visão atomística da sociedade humana, cada vez mais consubstanciada na afirmação do individualismo, dos direitos de propriedade e, mais tarde, na corporificação da representatividade ao nível governamental.

     

            Para tal ruptura dialética, muito teria contribuído a prática do mercantilismo - evoluindo na direção da substantivação de mudanças significativas na esfera da produção e na ubiquidização da troca de mercadorias - a própria Revolução Industrial - como momentum desta ruptura - e o ideário do Iluminismo - como sustentáculo da nova visão de mundo que se instaurava.

     

            A noção do mundo como máquina então, rompe com a noção de um universo orgânico, que havia perdurado por mais de mil anos e contribui para alavancar a Idade da Revolução Científica. Na verdade, ela já havia sido esboçada a partir da oposição à concepção geocêntrica, de origem bíblica e reificação ptolomaica, consubstanciadamente em Copérnico e Galileu.

     

            Neste momento histórico específico, estabelece-se, portanto, um novo paradoxo:

     

                    O mundo-máquina, alimentado pelo homem através da ubiqüidização do valor trabalho, realiza a incorporação da visão heliocêntrica do universo referência, através da ruptura da visão geocêntrica, que foi o resultado de um conceito de universo orgânico, referenciado historicamente. Essencialmente, no entanto, tal ruptura teria acontecido, no sentido de convalidar um projeto de ampliação do macrocosmo, porém, ao mesmo tempo, ela teria se dado no sentido de aprofundar o próprio alcance da unidade-indivíduo numa acepção dicotômica[3], portanto exclusivista, dentro do crescimento do processo de materialização de nosso ciclo evolutivo.

     

    A ruptura da ruptura

     

            Hoje, no entanto, é esta visão de mundo, subsidiada pela concepção mecanicista da vida e corporificada no paradigma newtoniano-cartesiano, que começa a ser confrontada.

     

            Mas, como nos dizia Weiner Heisenberg, um dos fundadores da teoria quântica e, junto com Albert Einstein e Niels Bohr, um dos gigantes da física moderna, tal tarefa não é nada fácil. Isto porque

     

                    ... a cisão cartesiana penetrou fundo na mente humana nos três séculos após Descartes e levará muito tempo para ser substituída por uma atitude realmente diferente diante do problema da realidade[4].

     

            Daí porque, mais de um século após as primeiras defenestrações do ideário da ciência moderna, com os estudos de Faraday, Maxwell, Hertz, Michelson-Morley, Lorentz, Fermi, a teoria geral e especial da relatividade, a concepção atômica de Bohr, a mecânica ondulatória de Schröndinger e a mecânica matricial e o princípio de incerteza de Heisenberg[5], etc, ainda nos encontramos tateando neste novo terreno movediço.

     

            Quais poderiam ser consideradas as razões básicas para a existência de tal gap?

     

            Em primeiro lugar, o que a própria história convencional e cronologicamente explicitada tem nos ilustrado proficuamente, uma ruptura paradigmática não se constrói no vazio e nem tampouco por decreto. As rupturas costumam ser, inclusive, bastante traumáticas. Bastaria-nos lembrar das experiências de Sócrates (470 ou 469 a.C.)[6], Nicolau Copérnico (1473-1543), Giordano Bruno (1548-1600) e Galileu Galilei (1564-1642), que, de formas diferenciadas, tenderam a antagonizar as ordens vigentes ou os sistemas particulares de hegemonia[7].

     

            Em segundo lugar, e malgrado toda a nossa visão nominalista do desenvolvimento da ciência, parece ser, igualmente, sintomático o fato de que, em ciência, o trabalho do indivíduo tende a estar em estreita ligação com o trabalho de seus contemporâneos e o seu produto real costuma aparecer como um produto impessoal de toda uma geração. Esta é, inclusive, uma das características fulcralmente socializadoras da própria atividade científica enquanto tal, determinadora de seus próprios avanços e recuos.

     

            Em terceiro lugar, e isto foi magistralmente expressado por Pasteur, a ciência e os cientistas começaram a descobrir que as próprias teorias científicas só podem ser concebidas como aproximações da verdadeira natureza da realidade e não como instrumentos de uma adequabilidade absoluta a esta.

     

            Para este cientista,

     

                    a ciência avança através de respostas provisórias, conjuncturais, em direção a uma série cada vez mais sutil de perguntas que penetram cada vez mais fundo na essência dos fenômenos naturais[8].

     

            No entanto, no campo do real, também não se pode esquecer a dessintonia que sempre existiu, historicamente comprovada, entre o terreno exclusivo das idéias e o de sua pragmatização. Desta forma, e como quarto elemento provisoriamente explicativo, nem mesmo a celeuma, que de uns tempos para cá, começou a ocupar os espaços cada vez mais desprestigiados das cátedras acadêmicas, com um discurso, muitas vezes, xaropeizado, em torno da necessidade[9] de construção de um novo paradigma, também parece ter sido suficiente para perpetrar, de fato, uma nova ordem.

     

            Grosseiramente, isto se dá porque a massificação do discurso em torno da necessidade de um novo paradigma, muitas vezes, parece ser capaz de conseguir produzir um efeito boumerang: enquanto se discute o conceito, petrificam-se as práticas em conformação com uma necessidade de comprovação de algo antes mesmo que este algo se torne cientificamente aceito. Neste caso, estabelece-se um círculo vicioso e o próprio discurso de ruptura, muitas vezes, termina sendo esquecido nos cantos.

     

     



    [1] CAPRA, Fritjof. Sabedoria incomum. São Paulo: Cultrix, 1988. p. 9.

    [2] CAPRA, F. O ponto de mutação. São Paulo: Cultrix, 1982. p. 19.

    [3] Sobre o estatuto da unidade e de sua concepção dicotômica no marco da visão ocidentalizada de mundo, vide o trabalho da autora intitulado O indivíduo e o Estado enquanto dicotomias na construção da virtualidade latino-americana. Op. cit.

    [4] HEISENBERG, W. In: CAPRA, F. Sabedoria incomum. Op. cit. p. 16. Heisenberg, por volta de 1925, publicou um ensaio onde abandonava a descrição convencional dos elétrons no interior de um átomo em termos de suas posições e velocidades - que era ainda a descrição de Bohr e de todos os outros da época - substituindo-a por um arcabouço teórico muito mais abstrato, em que as quantidades físicas eram representadas por estruturas matemáticas chamadas matrizes. In: CAPRA. Op. cit. p. 14.

    [5] Apenas para citar as contribuições teóricas no campo da Física.

    [6] Sobre a vida e a obra de Sócrates, uma leitura introdutória pode ser obtida em SÓCRATES. Vida e Obra. Coleção Os Pensadores. São Paulo: Nova Cultural, 1991.

    [7] Para utilizar um conceito caro ao pensamento gramsciano.

    [8] DUBOS, René. Man, medicine and environment. New York: Praeger, 1968. p. 76.

    [9] Pelo menos agora, mesmo que numa "leva de modismo", cada vez mais reconhecido.

    February 14

    Cresce o número de “malicious programs” na internet

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    Cresce o número de “malicious programs” na internet

    O número de programas “maliciosos” encontrados online atingiu um nível sem precedentes, dizem as empresas de segurança na web. As informações variam, mas algumas estimativas sugerem que houve um número cinco vezes maior de programas desse tipo circulando pela rede em 2007, se comparado aos dados de 2006. De acordo com a seguradora Panda Software, surgem todos os dias mais de 3 mil novos exemplares dos malwares.

    A AV Test, empresa de segurança de softwares, informou que foram encontrados 5,49 milhões de diferentes tipos de vírus em 2007 – número significantemente maior que os 972.606 encontrados no ano anterior. A AV chegou neste total por meio de análise dos vírus e geração de uma “impressão digital” única para cada amostra.

     

     http://olhardigital.uol.com.br/digital_news/noticia.php?id_conteudo=4924

     

    A MISÉRIA DA CIÊNCIA lll

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    Crise do sistema ou

    crise da visão ocidentalizada de mundo?

     

    `

    Butterfly 3

     Verônica Lima

     

    A humanidade do Novo Mundo - que é muito mais velho que o Antigo -

    é a Humanidade de Pâtala[1],

    que tem por missão e por Carma

    plantar as sementes de uma Raça futura,

    maior e muito mais gloriosa que todas as que temos conhecido

    até agora...[2]

    Preâmbulos

     

            Este trabalho procura incorporar uma concepção espaço-temporalmente mais ampla do que a que nos permite alcançar a visão tridimensional ou quadrimensional do mundo e das coisas, centrada no aqui e no agora ou na linearidade histórica, buscando transcender a nossa cosmovisão convencional, aprisionada pelos nossos sentidos e endeusada pela ciência tradicional[3].

           

            No nosso entender, isto se faz necessário, porque, em princípio, parece que estamos caminhando em círculos[4], buscando resolver apenas os problemas de curto prazo que afligem o mundo contemporâneo, como, por exemplo: o déficit em contas correntes do setor público, o pagamento dos juros e amortizações da dívida externa, as oscilações do mercado global e / ou das taxas de câmbio, a substituição de capital produtivo por capital especulativo, etc, sem levarmos em conta as implicações de nossas políticas numa escala de tempo mais ampla.

     

            Na verdade, todos estes problemas terminam sendo apenas a face visível da crise em que estamos todos mergulhados, que é caracterizada por um crescendo de entropia ao nível mundial[5]. O resultado deste movimento é, igualmente, visível: acumula-se capital numa ponta do processo e reitera-se a pobreza na outra, com base num tipo de regulação flexível, que tem por meta o domínio da incerteza no cerne do próprio sistema.

     

            Dentro desta lógica, inclusive, a desigualdade entre os homens não chega a se constituir num dado novo do problema[6], já que ela está presente, de uma forma ou de outra, no decurso do próprio processo civilizatório. O caráter dicotômico desta desigualdade, que se manifesta numa relação de exclusividade entre indivíduos, comunidades, povos e nações, também não chega a sinalizar um movimento sistêmico diferente, já que ele também está presente desde a Antiguidade clássica. O que é novo, no entanto - e que pode, eventualmente, adquirir uma função catalizatória - estaria relacionado com a articulação de velhas forças numa magnitude sem precedentes na história da humanidade.

     

             Este movimento estaria sendo hoje potencializado. É que, apesar do chamado desenvolvimento econômico das sociedades e da disseminação, cada vez mais rápida e alvissareira, de inputs informacionais advindos do avanço científico e tecnológico, o presente momento histórico nos consegue sinalizar um movimento ainda mais preocupante, porquanto espelhado no real: é o que parece indicar um crescendo do descolamento do processo produtivo da realidade circundante, na esteira de um processo de centralização e concentração de propriedade, capitaneado pelo capital financeiro e numa transposição constante do próprio conceito de soberania nacional.

     

            Com isso, concentra-se poder, principalmente em sua dimensão invisível, enquanto algo não-espacialmente definido, contribuindo para criar uma imagem virtualizada do real. E a própria materialidade da sociedade dos excluídos ou dos apartados[7] - que consegue crescer geométrica e sorrateiramente no bojo de um sistema fulcralmente globalizado, mas cujo controle se reduz drasticamente - também termina sendo surrupiada, transformando-se também numa incógnita incognoscível dentro desta realidade virtualizada.

     

            Dentro desta dinâmica, vários são os movimentos, aparentemente contraditórios, que contribuem para indicar, externamente, a profundidade deste problema, mesmo que o elemento mais visível continue sendo a própria crise mundial contemporânea. Em décadas passadas, quando a globalização do sistema produtor de mercadorias passou a estabelecer o marco referencial de toda atividade econômica internacional, tal movimento parecia indicar um caminho de crescimento ilimitado. Estimulados pela crise de 1929, os países latino-americanos, inclusive, encetaram um modelo econômico baseado na substituição de importações, cuja meta era estabelecer um marco de desenvolvimento com base no fortalecimento do mercado interno. Dentro desta dinâmica, forjou-se o avantajamento do capital estatal, como fórmula endogenamente gestada para fortalecer o próprio capital privado nacional.

     

            No entanto, os anos 70 / 80 vieram, e, no bojo de um processo ainda mais intenso de globalização da economia mundial, este modelo econômico começou a demonstrar traços de fragilidade. O primeiro indício foi o crescimento desmesurado do endividamento externo e o descolamento subseqüente da própria dívida em relação à estrutura produtiva e à capacidade de renegociação dos débitos. A partir daí, propugnou-se, mais uma vez, pela mudança do modelo, desta vez com base na privatização. Como epifenômeno, aparecia novamente a promessa de felicidade eterna e de resolução dos problemas pendentes.

     

            Apesar deste sonho, parece ser possível intuir que o movimento real das sociedades contemporâneas insiste em indicar um crescendum de dicotomização, quer explicitamente, pela contraposição dos países ricos aos países pobres ou os países centrais aos países periféricos, quer implicitamente, pela confrontação do indivíduo ao Estado ou a propriedade privada à pública. Tal movimento teria como base o preceito de exclusividade, enquanto confronto, luta e superação, parecendo contribuir para aprofundar o próprio processo de materialização do mundo e das mentes indissociável deste Ciclo específico que ainda estamos vivenciando dentro da dinâmica civilizatória.

     

     



    [1] Pâtala ou Antípodas ou o Mundo inferior, tal como é chamada a América na Índia. In: BLAVATSKY, H.P. A Doutrina Secreta. Síntese da Ciência, da Religião e da Filosofia. Vol. III. Antropogênese. (Edição original em inglês: Edição Adyar, 1938). Em português: São Paulo, Pensamento, 1973. P. 464.

    [2] Sobre uma visão espaço-temporal distinta da concepção tradicional dos ciclos, superando, inclusive, o alcance da concepção marxista de modos de produção, bem como um de seus corolários representados pelos ciclos de Kondrantieff e / ou dos ciclos de Juglar / Marx, porquanto incluindo os princípios da vida senciente na Terra, ver BLAVATSKY. Op. cit. A plausibilidade e / ou concreticidade desta profecia ainda pode ser considerada como um mero jogo de adivinhação, impossível de ser sequer detectada pela nossa ciência convencional. No escopo deste trabalho, entretanto, estamos apenas interessados em buscar sensoriar o fato de que a insistência na construção de um "estado de virtualidade permanente" da América Latina tem conseguido abortar todos os seus projetos de desenvolvimento, na medida em que consegue impingir-lhe um "estado de expectativa por um futuro que nunca se realiza". Um destes projetos, inclusive, parece ser o da privatização. Daí porque pretendemos estudar-lhe num sentido mais abrangente e buscando nos desviar do jogo dicotômico convencional que coloca constantemente em confronto países centrais e periféricos, assim como apologistas e detratores do processo tradicional.

    [3] Sobre a questão da constrição de nossa visão de mundo perpassada pela “nossa individualidade” e por “nossa percepção de universo possível”, ver, por exemplo, um trabalho da autora intitulado Miséria da Ciência: Da necessidade de uma profundização da ruptura paradigmática. Brasília: FLACSO/ UnB, 1992. 43 páginas. Sobre uma imersão ainda mais intensa em torno deste tipo de problemática, ver, particularmente, OUSPENSKY, P.D. Um Novo Modelo do Universo. Princípios do método psicológico aplicado aos problemas da Ciência, da Religião e da Arte. Livro escrito em 1914 e publicado, em 1990, no Brasil, pela Editora Pensamento. Ou então, este mesmo tema também pode ser encontrado em outras obras deste mesmo autor, como O Quarto Caminho, que trata da organização, por temas, de extratos textuais dos registros das reuniões de Ouspensky, em Londres e Nova York, entre 1921 e 1945, editado, igualmente, pela Editora Pensamento (1989) ou então nos vários trabalhos organizados pelo seu mestre GURDIEFF, G.I., um caucasiano nascido por volta de 1870, que teria sido um filósofo e mestre espiritual de seu tempo, tendo, inclusive, sido contemporâneo de Freud e Einstein. Sobre ele, disse Charles T. Tart: "À medida que progride o meu conhecimento pessoal e científico da consciência humana, mais me impressiono com o gênio de Gurdieff, o qual foi capaz de reunir as tradições espirituais do Oriente e do ocidente, numa síntese conceitual que fala de perto aos ocidentais de hoje". In: SPEETH, K. O trabalho de Gurdieff.                       

    [4] A língua inglesa tem uma expressão muito significativa para explicitar algumas atitudes corriqueiras na confrontação deste fenômeno: muddling through, que significa dizer "empurrar com a barriga".

    [5] Um estudo do processo de endividamento externo do Terceiro Mundo pode ser encontrado na dissertação de mestrado da autora, intitulada Dívida Externa: O Outro Lado da Moeda. Curso de Mestrado em Economia: João Pessoa, 1986. 250 páginas.

    [6] Muito embora vários estudos científicos, encaminhados por organismos de pesquisa nacionais e internacionais, estejam conseguindo comprovar um incremento significativo da desigualdade social no mundo contemporâneo. No caso brasileiro, vide estudo recente do IBGE. Sobre este ponto, vide texto antigo da autora intitulado The "complot" against people in developing countries. Ottawa: Carleton University, 1977. 43 pg.

    [7] Sobre o uso do termo "apartação", vide BUARQUE, Cristovam. O que é Apartação? O apartheid social no Brasil. Coleção Primeiros Passos. São Paulo: Brasiliense, 1993.

    February 13

    INCA - Câncer de mama.

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    INCA - Câncer de mama.


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    Diálogo entre pai e filho americanos

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     Diálogo entre pai e filho americanos
     
    - Pai, por que o nosso país invadiu o Iraque? - perguntou
    Billy, de 8 anos.
    - Lá tinha armas de destruição em massa. 
    - Mas a TV disse que os inspetores não acharam nada.
    - Os iraquianos esconderam. E nosso governo sabe que invasões funcionam mais que inspeções.
    - Se tinham tais armas, por que não usaram quando atacamos? 
    - Para que ninguém soubesse que eles têm as armas. Preferem
    morrer a defender-se.
    - Como um povo pode preferir morrer a defender-se?
    - A cultura deles é diferente. Preferem morrer e ir logo para 
    junto de Alá. E lembre-se que Saddam Hussein era um cruel
    ditador.
    - Como cruel?
    - Torturava e matava gente.
    - Como na China comunista?
    - A China é diferente, seu povo trabalha para as nossas 
    empresas, reduzindo os custos da produção e aumentando os
    nossos lucros.
    - Mas a China não é comunista?
    - É.
    - E os comunistas não são maus?
    - Só os comunistas da Coréia do Norte e de Cuba, que prendem 
    e torturam gente.
    - Como fazemos em Bagdá?
    - É diferente. Nós prendemos e torturamos em defesa dos
    direitos humanos e da liberdade.
    - Foi o que fizemos no Afeganistão?
    - Lá foi por causa do Osama bin Laden. 
    - Ele é afegão?
    - Não, é saudita.
    - Como 15 dos 19 seqüestradores suicidas do 11 de setembro?
    - Sim.
    - E por que não invadimos a Arábia Saudita?
    - Porque o governo de lá é nosso amigo. 
    - Como era Saddam em 1980, ao combater o Irã?
    - Sim, quem combate o nosso inimigo é nosso amigo.
    - E por que temos inimigos?
    - Porque muitos povos têm inveja de nosso progresso.
    - Mas, pai, inveja não é problema do invejado? 
    - O invejoso de hoje pode virar o terrorista de amanhã.
    - O que é um terrorista?
    - É uma pessoa que não pensa como nós pensamos.
    - Mas não defendemos a liberdade de opinião?
    - Só a que não vai contra a nossa opinião. 
    - O Iraque nos atacou?
    - Não, mas agora fazemos guerras preventivas, evitamos o mal
    antes que a semente dele caia na terra.
    - Nós é que produzimos as armas empregadas nas guerras?
    - Boa parte delas, pois a guerra favorece a nossa economia. 
    - Quer dizer que ficamos ricos às custas da morte de outros
    povos?
    - É a lógica do mercado.
    - Mas, pai, uma vida humana não vale mais que um míssil? Não
    foi isso que você me ensinou? 
    - Teoricamente sim, mas na prática não é assim. Para o
    mercado, só tem valor a vida que está dentro dele, a do
    consumidor.
    - E as outras vidas?
    - Filho, nada em excesso é bom. Muito vento causa furacão; 
    muita água, enchente; muitas bocas, fome.
    - Quer dizer que nós matamos como Saddam e o Talibã matavam?
    - Nós matamos a favor da liberdade; eles, contra.
    - Inclusive crianças como eu?
    - Você não é como elas. Não temos culpa de os nossos 
    inimigos terem filhos.
    - Deus aprova isso?
    - Sim, nosso presidente fala diretamente com Deus.
    - Como assim?
    - Ele escuta a voz divina em sua cabeça. Deus o elegeu para
    fazer a guerra do bem contra o mal. 
    - Mas Deus e Alá não são a mesma pessoa?
    - Billy, chega de perguntas. E, por favor, não confunda o
    nosso Deus com o deles!

     

     

    February 11

    A MISÉRIA DA CIÊNCIA

    HÉLIO'S BLOG

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    Divulgação Científica

    A visão holística

     

    Verônica Lima

     

    A visão holística implica em desenvolver um olhar teórico e metodológico que utiliza o conceito de matriz holopoiética fundamental.  Esta matriz procura perscrutar a interação do eixo da matéria (representado hoje pelas políticas de privatização) com o eixo da consciência (representado pelos países latino-americanos escolhidos como referência) permeado pela luz da visão dicotômica de mundo (enquanto forma particular de se ver o mundo).

     

                Esquematicamente, isto significa considerar que a hipótese basal deste livro pode ser sintetizada da seguinte maneira:

     

     

     

     

     

                                                   Luz

                                                   Visão dicotômica

                                                   de mundo

    Matéria                                                                                             Espaço-

                                                                                                              consciencial

    Políticas de                                                                           Estado-nação Privatização                                                                         latino-americano

     

                Em termos práticos, isto equivale a considerar as políticas de privatização numa visão muito mais ampla do que a que costuma ser convencionalmente aceita. Buscando transcender às visões de causa-efeito e / ou de curto-prazo, este marco teórico permite discutir a problemática da privatização dentro do embate dicotômico do público versus privado e do indivíduo versus Estado, contingenciado pela filosofia e pela história, com vistas à identificação de insight passível de contribuir para a discussão teórica em torno da plausibilidade de constrição cíclica do processo global dentro de uma perspectiva de curto prazo.

     

    Desdobramento do modelo

     

                Após a explicitação do modelo teórico adotado e para torná-lo compreensível, é necessário dar um passo adiante, buscando historiar o debate da dicotomia com o da privatização. Do ponto de vista ainda filosófico, isto significa buscar exercitar um diálogo entre Mente e Matéria. Do ponto de vista histórico, por outro lado, isto vai exigir o cotejamento com o mundo real.

     

    Avançar nesta direção implica, inclusive, em considerar três correlações importantes:

     

    A. A crise do sistema produtor de mercadorias (que é uma crise que se desenvolve ao nível da matéria)

     

                Este tema deverá ser desenvolvido com base no sensoriamento de sinais de uma crise global, passível de ser evidenciada: a) na aceleração do progresso técnico em sintonia com a queda tendencial da taxa de lucro (particularmente na chamada fase descendente do quarto ciclo); b) na própria crise do modelo econômico (substituição de importações - endividamento externo - privatização); c) numa visão de curto prazo dentro de uma situação de problematização fiscal, monetária e distributiva.             Dentro deste esquema, o caráter cíclico e complementar das políticas de substituição de importações, de endividamento externo e de privatização, dentro da fase atual de hegemonização do capital financeiro, parece contribuir para evidenciar o crivo dicotômico: ou seja, cada uma delas são formas diferenciadas de se gestionar o processo econômico em favor do capital e às expensas do homem.

     

                Neste sentido, as políticas de privatização poderiam ser concebidas, de fato, como um momentum necessário, porém francamente temerário, à nova reordenação do capital global, no qual a dinâmica do processo de produção e de circulação deste capital estaria a potencializar o seu próprio fetiche: o espaço ampliado e aparentemente infinito dos Estados-nações, não mais reduzido à especificidade da territorialidade, passa a ser subjugado pelo caráter fundamentalmente privado que permeia as relações intra / interentidades transnacionais, interligadas, preferencialmente, à esfera financeira, nas quais o poder onisciente e onipresente do capital é exercitado às expensas do homem.

     

                Em outras palavras, isto significa supor, que, não mais apenas o Homem, porém também os próprios Estado-nações, se encontram no limiar de sua transmutação em mercadoria. Ou seja, a mercantilização do processo global se profundiza hoje em extensão e amplitude, o que, contrariamente ao que se supõe, parece ser um primeiro ponto constritivo na definição de uma verdadeira e duradoura política de paz.

     

    B. A crise do Estado-nação e a crise de cidadania (ao nível da consciência)

     

                Do ponto de vista político, a substituição atual do momento de publicização do privado pela privatização do público, em escala ampliada, está sendo engendrada num momento histórico caracterizado pelo declínio do Estado-nação em face da própria dinâmica do processo de globalização. Só que a globalização econômica, no entanto, e malgrado a integração dos mercados e a superação de marcos territoriais, está sendo alicerçada na separatividade crescente entre indivíduos, povos e nações, ou seja, tanto interna, quanto externamente. Dentro deste contexto, o próprio processo de integração entre os Estados-nações enfraquecidos, do ponto de vista do marco institucional, vem ocorrendo num momento caracterizado pelo aprofundamento da subjugação de uns em detrimento de outros, sob o domínio do capital financeiro, relastreado pela dinâmica da privatização. Isto parece ser, no mínimo, temerário, porquanto sem precedentes na dinâmica da vida.

     

                Por outro lado e do ponto de vista social, o próprio processo de globalização de mercados e da economia mundial também tem se desenvolvido em contraponto a um crescendo da desigualdade entre os Estados-nações reais, seus povos constitutivos, seus indivíduos e seus próprios espaços internalizados e / ou regionalizados. As políticas de privatização, inclusive, parecem contribuir para ampliar o leque destas desigualdades, na medida em que tais políticas tendem a privilegiar os resultados econômicos e financeiros de curto-prazo, em contraposição, no terreno do real, às conquistas sociais espaço-temporalmente mais amplas ou, no terreno do ideal, à inserção menos conflituosa do homem no processo produtivo. Daí porque, e dadas às condições objetivas para a apologização do progresso técnico, reinstala-se, mais uma vez, o crivo dicotômico: privilegiam-se o incremento da produtividade e da eficiência, ou seja, as variáveis econômicas e desprivilegiam-se as dimensões sociais, representadas pela ubiqüidização do emprego e distribuição da renda.

     

     

    February 10

    A MISÉRIA DA CIÊNCIA

    HÉLIO'S BLOG

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    Divulgação Científica

     

    Palavra do Editor

     

    HÉLIO´S BLOG é um instrumento de divulgação de matérias acadêmicas, informativas e culturais. Algumas delas são extraídas de textos maiores e mais densos. Outras, embora de suma importância, ainda não foram objeto de publicação. Desinteresse das editoras? Falta de sensibilidade para o “novo”? Falta de coragem de inovar no mercado editorial? Qualquer que seja a resposta,  fica aqui apenas um lembrete: na história da humanidade, não foram poucas as obras que só foram compreendidas, aceitas e publicadas muito tempo depois...

     
     

     

    A MISÉRIA DA CIÊNCIA

     

    A CONDIÇÃO HUMANA NA APORIA DO RACIONALISMO

     

    VERÔNICA LIMA

     

    Prefácio

    Nos últimos séculos, a ciência tendeu a apologizar o conceito de objetividade científica. Tal dominância se deveu à utilização de um procedimento metodológico que estabeleceu a separação sujeito-objeto e representou uma opção metodológica absolutamente coerente com uma visão cartesiana e dicotômica de mundo.

     

    Estudar os fenômenos da sociedade humana com base numa visão cartesiana de mundo virou lei, e tal visão passou a ser reconhecida como verdade universal. O difícil é transcendê-la. Mas existe o desafio de estudá-la como resultado do processo de fragmentação do Real pela Mente Humana na construção da História da Vida.  

     

    Este é, basicamente, o fundamento epistemológico do livro A Miséria da Ciência. Em princípio, o objetivo era simples e despretensioso: analisar o sentido e o alcance das políticas de privatização de uma maneira articulada com o processo de formação dos países que surgiram no momento do advento do capitalismo. O recorte espaço-temporal seria definido por alguns países latino-americanos, criados como resultado da alternância história do embate dicotômico entre centro e periferia e da construção de espaço representado pelo Não-Eu para o capital.

     

     Na medida em que os estudos continuaram, começou a ficar claro que havia a necessidade de retomar uma discussão mais densa, que pudesse recolocar o conceito de dicotomia em suas bases filosóficas. Com isso, esperava-se, inclusive, entender o cenário no qual a publicização do privado e a privatização do público pudesse ser interpretado. A Miséria da Ciência é, portanto, o resultado deste processo. Procurando recuperar a contribuição dos pré-socráticos na sistematização da História da Vida, ele busca discutir sobre a gênese da dicotomia, a temporalidade de conceitos e teorias e, por conseqüência, a aporia do racionalismo enquanto marco interpretativo.   

     

    Ao fazê-lo, ele procura redimensionar, numa incursão introdutória, teórica e transdisciplinar, o debate do público versus privado na filosofia e na história, buscando, sobretudo, evidenciar-lhe dois pontos:

     

     

     

     

            a) ao nível de sua formulação exteriorizada[1], este debate parece explicitar um crescendo histórico de substantivação de uma visão dicotômica de mundo, cujo manancial pode ser localizado nos gregos, particularmente em Parmênides, Pitágoras e Aristóteles, no qual o caráter público se contrapõe ao privado, da mesma maneira que o indivíduo se contrapõe ao Estado;

     

            b) ao nível de sua caracterização implícita, este debate consegue encobrir a imanência funcional dos conceitos de público / privado, reforçando o privado como a unidade fundante e o público como a forma manifesta e híbrida desta relação.

               

            No terreno dos estudos de caso e na particularidade / generalidade que a própria História oferece, estudar a privatização sob este prisma implica em: por um lado, trata-se de um esforço teórico no sentido de buscar deslindar o caráter dicotômico / dialético da hegemonização dos conceitos de público e de privado desde o advento da História; e, por outro, trata-se de uma tentativa de flagrar a fulcralidade do papel do Estado como um instrumento de apropriação privada na Idade Antiga e na vigência do capitalismo[2].

     

            Segundo esta concepção de mundo, o debate em torno do caráter fundante dos conceitos de indivíduo, privado e Estado, a partir da visão logóica dos gregos até os dias atuais, não é nada novo e nem tampouco original, mas está presente na dinâmica do processo civilizatório em sua própria concepção tradicional.

     

            Polemizar sobre as dicotomias indivíduo versus Estado e público versus privado, no entanto, termina sendo hoje um grande desafio, principalmente se tal discussão for feita dentro de uma matriz espaço-temporalmente mais ampla. Isto porque, em primeiro lugar, o tema é extremamente rico e exige um tratamento trans-disciplinar. Segundo, porque o próprio espaço da transdisciplinaridade é, por si só, impreciso e demanda uma preocupação constante e dialógica entre o geral e o particular, o que, neste caso, significa levar em consideração, epistemológica e historicamente, indivíduo e Estado, e público e privado. Terceiro, porque as abordagens generalistas, principalmente quando se almejam transgressoras, costumam ser desqualificada no mundo acadêmico.

     

            E quarto e último ponto, porque estudar um fenômeno específico, no caso, a privatização, dentro de um quadro referencial genérico, que procura entender o caráter dialético da inserção do público e do privado no mundo real, termina sendo, no mínimo, uma temeridade. 

     

    IMG_2411
    Especialista em Políticas Públicas e Gestão Governamental

    [1] Esta abordagem mantém uma relação de contingenciamento com os conceitos, extraídos da física quântica, de "Ordem Implícita" e de "Ordem Explícita", tal como referenciado por David Bohm.

    [2] Vide os apêndices I e II no final do livro.

     
    February 09

    A construção da virtualidade latinoamericana

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    inteligência²

               

    A construção da virtualidade latinoamericana 

     

     

     

    Verônica Lima

    O processo de disseminação cultural estabelecido pelos Estados Unidos[2] na América Latina, por exemplo, pode apresentar bons exemplos desta tendência. Segundo Mattelart, os valores implícitos nos produtos culturais deste país conseguiram criar uma propensão muito grande para que a maior parte da população do continente viesse a aceitar a dominação da terra do Tio Sam[3] como algo absolutamente normal e natural. E, desde que foi denunciada pela primeira vez, esta influência não tem parado de crescer, até porque este país ainda não chegou a ser confrontado em sua hegemonia.

                Para Mattelart, os produtos culturais americanos cumpriram uma definição estrategicamente ligada ao expansionismo cultural, estabelecido pela intelligentsia americana e pela sua concepção de defesa nacional. Na época da guerra fria, inclusive, tal estratégia implicava na utilização dos serviços de divulgação informacional e cultural - o que incluía a ação da Associação Interamericana de Imprensa (AII) ou de organismos de intercâmbio cultural,  como a USIS - no atendimento das requisições políticas da própria diplomacia norte-americana. Neste período, o exercício político da função técnica ligada à divulgação noticiosa, por exemplo, compelia a A.I.I. a utilizar as agências mundiais de notícias e de publicidade, bem como parte da própria rede de comunicação periférica, como instrumentos de suporte na luta pela hegemonia no campo das idéias[4]. Com isso, os produtos culturais made in US conseguiam[5] comunicar uma característica fascinante da cultura de massa, que estava ligada à xaropeização dos conceitos de luta e de conflitos de classe.

                Tal processo de mistificação também não costuma ocorrer espontaneamente, porém decorre de uma relação fetichizada e que tem origem na própria crença em torno da existência de uma certa supremacia dos países mais desenvolvidos e de seus produtos culturais, bem como na crença de que tais países costumam exercitar a igualdade de direitos (ou, pelo menos, de oportunidades). Afinal, tal como nos diz o discurso tradicional, esses países exercitam a liberdade, o desenvolvimento tecnológico e a democracia e os seus produtos culturais contribuem para disseminar tais valores, tatuando-os em nossa mente. A nós, portanto, cidadãos do mundo periférico, competiria apenas permanecer postados no papel de receptores passivos, importando os produtos do mundo desenvolvido e compartilhando de seu caráter inefável[6].

                O resultado mais visível desse processo terminou convergindo para um movimento internacional ligado à padronização irreversível das audiências. Acopladamente ao próprio processo de transnacionalização de capital, tal padronização contribuiu para forjar as condições objetivas para a concretização da idéia de uma aldeia global[7].

    Só que, a aceleração brusca do processo de padronização das audiências globais per se, no entanto, terminou se revestindo de uma característica algo exótica (além de ser, igualmente, altamente entrópica), porque contribuiu para impingir uma série de valores desarticuladores do par sociedade local X sociedade global, criando um estado permanente de confusão de identidade[8], ao mesmo tempo em que contribuiu para solidificar um estado de virtualidade constante nos países receptores.

                Neste mesmo sentido, sabe-se que o conflito igualdade/desigualdade também pode induzir efeitos sociais significativos. O programa de televisão Vila Sésamo, porquanto epigonal e historicamente referenciado num momento de vigência do autoritarismo no continente latino-americano, difundia, através de seus próprios panfletos, que pretendia  destruir o chamado complexo de inferioridade da criança latinoamericana[9]. Idealizado pela Fundação Ford, ele objetivava, originariamente, apenas instigar o orgulho na criança do nosso continente[10].

                Só que, a manipulação de dados atinentes a esse período nos permite constatar que, no início, esse programa costumava atender apenas às crianças das classes alta e média dos países latino-americanos, já que, como toda tecnologia conjunturalmente mais avançada, a televisão só estava disponível para as classes financeiramente mais abastadas. E, coincidentemente ou não, tais classes sempre estiveram, historicamente, caracterizadas por um perfil  conservador[11]. Então, ao veicular produtos culturais imbuídos de um sentido de igualdade aparente e destituídos de interfaces culturais mais sólidas, esse programa parece haver contribuído para reforçar ainda mais a função conservadora destas classes no seio da sociedade latino-americana. E, com isso, o estado de virtualidade  terminou se revelando no efeito mais visível de um processo globalizado, tanto em sua origem como em sua manifestação.

     

     

     

     

     



    [1] Um estudo mais profundo sobre a construção da virtualidade latinoamericana desde o processo de descobrimento pode ser visto na tese de doutoramento da autora, intitulada A Roda da Angústia: A construção da virtualidade latinoamericana no marco da concepção dicotômica de Mundo. Brasília: FLACSO/UnB, 1996.

    [2] Neste ponto, torna-se importante deixar claro que a dominação cultural exercida pelos Estados Unidos  termina sendo uma função direta de seu próprio papel de nação hegemônica no mundo ocidental.   

    [3] MATTELART, Armand. La culture como empresa multinacional. México: 1974.

    [4] Ibid, ibid.

    [5] E ainda conseguem, é óbvio.

    [6] Sobre o caráter estrutural e semântico de uma dominação desse tipo, que pode ser amplificada pela contextualização dos países centrais na figura de emissores e a dos países periféricos enquanto receptores, vide, por exemplo, DOS SANTOS, Lélio Fabiano. A antropofagia do receptor pelo emissor. Belo Horizonte: PUC, 1972.

    [7] A idéia da aldeia global está presente na obra clássica de Marshall MCLUHAN, intitulada Os meios de comunicação como extensões do homem. São Paulo: Cultrix, 1971. Um exemplo recente da conjugação de forças deste tipo pode ser desvendado através de estudos de caso em torno dos acontecimentos do Leste Europeu (onde o caso da Yusgoslávia parece ser o mais crítico).

    [8] Vide conceito expresso por BENGE. Op. cit.

    [9] Vila Sésamo. In: Opinião. 26/11/76.

    [10] Criança essa concebida apenas abstratamente e nunca como o produto de relações sociais ou culturais específicas.

    February 08

    Imperialismo

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    Divulgação

     

    IMPERIALISMO
    Prof. Roberto Carlos

     

    1

    Conceito contemporâneo de imperialismo:


    Compreendido como a etapa de expansão capitalista, marcada pela busca e monopólio dos mercados externos e a dominação política de países industrializados sobre os países do Terceiro Mundo.

    2

    ANTIGO SISTEMA COLONIAL

    NOVO COLONIALISMO

    O Estado adota práticas mercantilistas.

    O Estado, dominado pelos monopólios capitalistas, apoia o imperialismo.

    Do século XV ao século XVIII.

    Do final do século XIX ao período posterior à Segunda Guerra Mundial (que terminou em 1945).

    Predominou na América.

    Predominou na África e na Ásia.

    Lucros obtidos principalmente pelo controle do comércio (monopólio colonial).

    Lucros obtidos por investimento de capital na colônia (exportação de capital).

    A exploração econômica não altera o modo de produção da colônia.

    A exploração imperialista desenvolve o capitalismo na colônia.

    3

    Territórios dominados pelo colonialismo europeu em 1905
    (em % do total):

    • América - 27,2%

    • África - 90,4 %

    • Ásia - 56,6%

    • Austrália - 100%

    • Polinésia - 98,9%

    4

    • Tipos de Colonização:

    a) Protetorado: quando os quadros dirigentes locais são substituídos e subordinam-se a uma autoridade européia. Exemplos das dominações ocorridas na Índia e no Egito.

    b) Área de Colonização: quando toda a região encontra-se sob severo controle militar, político e econômico de uma potência européia. Exemplo da dominação ocorrida na Argélia e na África do Sul.

    c) Área de Influência: quando os quadros dirigentes locais são mantidos, porém, é imposto ao país a assinatura de acordos desiguais e desvantajosos. Exemplo da dominação ocorrida na China.


    • Movimentos de Resistência Colonial:

    Índia: sob forte resistência dos camponeses, artesãos e soldados, camadas sociais arruinadas com a violenta dominação inglesa, ocorreu a Revolução dos Cipaios.

    China
    : o domínio da China ocorreu após a Guerra do Ópio (1839-42) quando ocorreu a "abertura" forçada dos portos e a posse de Hong Kong pela Inglaterra através do Tratado de Nanquim.
    As principais revoltas foram:
    - Revolução Taiping
    - Revolta dos Boxers.

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    O Japão e a Era Meiji


    A Revolução Meiji (Era das Luzes) foi a Revolução Industrial japonesa. Movimento que conseguiu romper com as antigas bases feudais, copiando modernas técnicas de produção do ocidente.

    Com os recursos injetados no país pelos EUA, o Japão tornou-se o "tigre imperialista" da Ásia, caso raro de progresso econômico conquistado através de capitais externos.

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    A Partilha da África – A Conferência de Berlim (1885)

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    Choques Imperialistas na África

    Egito: área de convergência dos interesses da França e da Inglaterra. O projeto inglês era de construir uma estrada-de-ferro cortando toda a extensão do continente, ligando as cidades do Cairo à cidade do Cabo.

    Marrocos: região de disputa entre a França e a Alemanha.

    África do Sul: região disputada por colonos ingleses e holandeses pela disouta das minas de ouro e diamante. A Guerra dos Boêrs culminou com a vitória dos ingleses.

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    Consequências do Imperialismo

    Exploração da mão-de-obra e dizimação de populações nativas da África e Ásia.
    Desenvolvimento de teorias racistas (darwinismo social).


    Formação de blocos antagônicos entre as potências industriais (países capitalistas tradicionais Vs. países capitalistas emergentes)

     http://www.colegioanchieta-ba.com.br/profs/roberto_carlos/slides/imp_imperialismo.htm