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    March 31

    A VOZ DO SILÊNCIO

     

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     Teosofia

     

    A VOZ DO SILÊNCIO

    Percepção: o gatilho da transcendência

                                                                           Walter Barbosa,

                                                                            SOCIEDADE TEOSÓFICA

          

    Transcender significa “ser superior” ou “exceder” alguma coisa. No aspecto evolutivo representa ir além dos limites materiais, superar o nosso “eu pequeno”, egoísta, preocupado apenas com seu próprio bem-estar. Aí, quando a transcendência ocorre, implica em mudanças permanentes, e não apenas no ocultamento temporário de um vício ou defeito.

           A transcendência traz o fortalecimento da vontade, um sentimento de poder interno sobre nossas próprias fraquezas. No íntimo sabemos que tudo o que cobramos do mundo é porque somos fracos, pura autodefesa, “racionalização” que nos livra do peso insuportável da culpa, do remorso, da necessidade urgente de mudar sem ter coragem para tanto.

           A maior de todas as transcendências é obtida com a iluminação, quando o “eu pequeno” se dobra ao Eu maior, ao Deus Interno, vencendo o orgulho e a “rebeldia do anjo caído” em nós mesmos. Porém, no longo caminho até a iluminação, pequenas transcendências têm que vir antes, na batalha do dia-a-dia de nossas muitas vidas em corpos físicos, suplantando vícios, medos, rancores, sentimentos de inimizade, incapacidade de reconhecer erros e outros limites. Vamos, assim, nos “iluminando” aos poucos.

    A autopurificação normalmente antecede a transcendência, como um pré-requisito, porque representa troca de energias em nossos corpos físico, emocional e mental, possibilitando a instalação das vibrações mais elevadas.

           É por falta de autopurificação que as dificuldades para vencer um vício se agigantam, num vai-e-volta sem fim. Temos a impressão de que o ultrapassamos mas ele está ali, aguardando o primeiro momento de fraqueza, no que se chama de “consciência elemental”, fazendo parte da matéria de nossos corpos. Os “demônios”, portanto, não estão fora - estão dentro - banqueteando-se em nosso próprio “eu inferior”.

    Pela mesma razão, recursos externos - a exemplo de passes magnéticos, cura prânica, reiki e outros - são impotentes como forma de terapia. “Aonde vai o cachorro, vão as pulgas”. Como pode uma nova vibração instalar-se permanentemente no meio da sujeira?

    Contudo - felizmente - dentro de nós também está o Deus Interno, nossa centelha espiritual. Ela procura alcançar-nos a todo instante pelos “flashes” de intuição, pela renovação das oportunidades e mesmo pela dor. Seu poder maior, a vontade, é elemento essencial para acionar mudanças em nossa vida. Mas ela só pode atuar de fato após a ocorrência da percepção, vencendo as barreiras e eternas desculpas criadas pela mente.

           A percepção é um processo profundo, sendo por isso viabilizada com mais eficiência pela meditação, quando fechamos as portas dos sentidos e olhamos de perto o que ocorre dentro de nós. O teósofo Vicente Hao Chin diz que esse estágio de percepção envolve a observação dos movimentos da mente - sem expectativa, julgamento ou escolha - incluindo sentimentos, reações e idéias, assim como a origem desses movimentos. Tal percepção tranqüiliza as emoções e a mente, “liberando assim a consciência para se tornar perceptiva dos reinos mais sutis”.

    Chin define a meditação como um estado de existência e não de pensamento. Logo, o verdadeiro existir - contrariando o famoso “Penso, logo existo” de René Descartes” - está além da mente, além dos processos do pensar.

    A existência apenas É.

    No começo da manhã, com a mente serena, ou ao final do dia, o simples ato de fechar os olhos numa postura de aceitação e receptividade - procurando ver as coisas “como elas são” - é um convite para a percepção, para a mudança.

    Nesse trabalho, a receptividade é o caminho do coração. E o coração é a ante-sala da transcendência.

    CURSOS E PRÁTICAS-  Meditação, Astrologia, Hatha-Yoga e Terapia-Yoga. Palestras públicas aos sábados, 18 horas, na R. Pernambuco, 824, S.Francisco. Campo Grande – Brasil.

    Tel.: 9988-1010.

    O Filósofo Desconhecido.

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    O Filósofo Desconhecido.

    Louis Claude de Saint-Martin

    (18/01/1743 - 13/10/1803)

    Nascido no dia 18 de janeiro de 1743, na cidade de Amboise, França, Luis-Claude de Saint-Martin, ainda muito jovem, ficou órfão de mãe e, devido aos conflitos com seu pai, não teve uma infância muito feliz, crescendo em sua alma a ardente aspiração a uma vida superior. A falta de amor no ambiente familiar o induziu a buscar o amor de Deus. Durante sua breve passagem pelo serviço militar conheceu os Srs. De Granville e De Balzac, ambos discípulos de Martines de Pasqually que havia criado, por volta de 1754, a Ordem dos Elus Cohen. Graças a esses conhecimentos foi acolhido no círculo interno de Martines de Pasqually, onde foi iniciado e tornando-se um discípulo predileto e seu secretário. A idéia da Reintegração da Humanidade, proposta por Pasqually, atraiu fortemente Saint-Martin. Sua vida tomou um novo rumo quando ele teve contato com o "Agente Incógnito", um Ser pertencente aos planos superiores e que havia deixado seu selo na Loja de Lyon, cujos ensinamentos causaram em Saint-Martin profunda impressão. Na escola de Martinès em Lyon, o caminho que conduzia ao Iluminismo levava à prática da "magia cerimonial". Após a morte de Martinès de Pasqually, a expansão foi feita na França pelos dois destacados discípulos: Jean-Baptiste Willermoz e Luis-Claude de Saint Martin. Devido a divergências na difusão dos ensinamentos, Willermoz preferia a via mental que exigia desenvolvimento  intelectual e encontrava expressão na magia cerimonial, ao passo que Saint-Martin preferia a via do coração e encontrava sua expressão na teurgia pura, eles logo se separaram. Saint-Martin desejava acima de tudo ver e demonstrar a essência preciosa revelada pela comunhão com os poderes superiores. A amizade das mulheres desempenhou um papel importante na vida de Saint-Martin, tendo a Madame de Boecklin, pessoa de elevada espiritualidade e grande inteligência, o instigado a ler as obras de Jacob Boehme, de onde tirou grandes conhecimentos e profundas inspirações. Segundo o próprio  Saint-Martin, é Martinès de Pasqually que ele deve os primeiros passos na senda espiritual, mas é a Jacob Boehme que deve os passos mais significativos que havia dado. Por volta de 1795 Saint-Martin reuniu em torno de si um grupo de pessoas. Esse grupo recebeu o nome de Círculo Íntimo, Sociedade dos Íntimos, dando início à linhagem de iniciações do Filósofo Desconhecido. Graças ao encontros  de dois estudantes de medicina, interessados no misticismo, se deram conta de que ambos eram depositários de uma iniciação que remontava a Louis-Caude de Saint-Martin. Em 1888 eles combinaram o que haviam recebido e decidiram transmitir a iniciação de que eram depositários a alguns buscadores  da verdade, criando uma ordem iniciática e lhe deram o nome de Ordem Martinista. Esses místicos eram o Dr. Gerard Encausse (ou Papus), e Pierre-Augustin Chaboseau. Sob o pseudônimo de "Filósofo Desconhecido”,  .

    Saint Martin escreveu as seguintes obras:

     "Dos Erros e da Verdade"

    A tese desse livro é a de que pelo conhecimento de sua própria natureza o homem pode alcançar o conhecimento do seu Criador e de toda a criação, bem como as leis fundamentais do Universo, das quais encontra reflexo na lei feita pelo homem. Sob essa luz foi mostrada a importância do livre-arbítrio;

    "Tábua Natural das Relações que existem entre Deus, o Homem e a Natureza"

    O homem teria sido privado de suas aptidões e seus meios superiores por ter mergulhado na matéria tão profundamente que nisso perdeu a consciência de sua natureza original, que tinha antes da queda e que era um reflexo da imagem de Deus. Com essa queda o homem ter-se-ia afastado do quadro de seus próprios direitos e deixaria de ser um elo entre Deus e a natureza.

    "O Homem de Desejo"

    Nessa obra vemos a influência da doutrina de Boehme. Essa obra lembra um dos salmos que exprime o ardor da alma para com Deus e deplora a alma do homem, seus erros e pecados, sua cegueira e sua ingratidão. Nessa obra, Saint-Martin viu a possibilidade de um retorno do homem a seu estado primitivo. Mas esse retorno só seria possível com o abandono da vida do pecado e seguindo os ensinamentos do Redentor Jesus Cristo, o Filho de Deus, que desceu das alturas de Seu trono celestial por amor a toda humanidade;

    "Ecce Homo"

    Saint-Martin adverte para o perigo de buscar a excitação das emoções das experiências mágicas de baixo nível, das premonições, dos diversos fenômenos que não passam de expressões de estado psico-físicos anormais do ser-humano.

    "O Novo Homem"

    Nesse livro é tratado o pensamento como um órgão de renascimento que permite penetrar no mais profundo do ser humano e descobrir a verdade eterna de sua natureza. A alma do homem é um pensamento de Deus.

    "Do Espírito das Coisas"

    Nesse livro o autor declara que o homem, criado à semelhança de Deus, pode penetrar no seio do Ser que está oculto por toda a Criação e que, graças a sua clara visão interior, ele é capaz de ver e reconhecer as verdades de Deus depositada na Natureza. A luz interior é um reflexo que ilumina as formas;

    "O Ministério do Homem Espírito"

    Aqui o Filósofo Desconhecido completo todas as indicações precedentes,  apresentando um objetivo que não é diferente, qual seja, o da ascensão de uma alta montanha. O homem escala impelido por uma necessidade interior e no antegozo da vitória, que traz a liberdade após tribulações e sofrimentos. É a volta do filho pródigo ao Pai, sempre cheia de caridade e perdão. Isso é alcançar a unidade perfeita com Ele: "O Pai e eu somos um”;

    "Dos Números”

    Trata-se de uma obra inacabada, mas contém muitas indicações importantes que não poderiam ser encontradas em outra parte. Ele analisou os números de um ponto de vista metafísico e místico. Nos números encontrou uma confirmação da queda e do renascimento do homem;

    "O Crocodilo”

    Descreve, através de um poema épico de 102 cantos, a maneira como o mal se insinua nas coisas sagradas e com perfídia ele destila seu veneno para destruir aqueles que são cegos e insensíveis. Mas o mal dispõe de um tempo limitado e pode ser facilmente reconhecido por sinais discerníveis; não pode iludir aqueles que têm a visão da consciência, que observa, e são cavalheiros de nobres desígnios;

    "Nova Revelação”

    Saint-Martin trata nessa obra do livre-arbítrio. O homem pode alcançar toda a verdade pelo conhecimento de sua própria natureza mediante todas as aptidões que ele tem: físicas, intelectuais e espirituais. Deve compreender profundamente a ligação que existe entre sua consciência e seu livre-arbítrio; Nas obras póstumas do Filósofo Desconhecido foram publicados certos escritos curtos de sua autoria, dentre os quais são destaques: "Pensamentos Escolhidos, numerosos fragmentos éticos e filosóficos, poesias incluindo "O Cemitério de Amboise", "Estrofe Sobre a Origem e o Destino do Homem", além de meditações e preces. Louis-Claude de Saint-Martin era um cavalheiro empenhado na busca da luz. Foi reconhecido como um dos maiores místicos da França, mas a obra de sua vida não se limitou às coisas que escreveu. Toda a sua existência foi dedicada à idéia de um grande renascimento da humanidade e ele desencadeou um eco profundo, não somente na França mas também no Oeste e no Leste da Europa.

    Citações

      "Verifiquei quase constantemente neste mundo que os que não conheciam as verdades eram os  mais apressados em dizê-las."

      "A paz se encontra mais na paciência que no julgamento; assim, é melhor sermos injustamente  considerados culpados do que culparmos os outros, mesmo com justiça."

      "A única diferença que existe entre os homens é que uns estão no outro mundo sabendo disso,  enquanto que outros estão nele sem saber."

      "Temamos aquilo que é mal mas,não temamos mais do que isso, e teremos o coração sempre  alegre."

      "Não basta dizer a Deus: "Seja feita a Tua vontade !" É preciso procurar incessantemente conhecê-la,  pois se não a conhecemos, que é feito de nós, que podemos fazer?"

      "Rejubila-te quando Deus te põe à prova: é um sinal evidente de que ele não te esqueceu."

     

    "O único mérito que existe nas riquezas e alegrias deste mundo é que elas não podem nos impedir  de morrer."

      "O mais difícil para nós não é conhecermos a nós mesmos, é nos corrigirmos. Falta-nos bem menos inteligência do que coragem."

      "Desejei fazer o bem mas sem fazer barulho, pois senti que o barulho não fazia o bem, e que o  bem não fazia barulho."

      "De todos os caminhos espirituais que se oferecem a mim, não encontrei outro mais suave, mais  seguro, mais rico, mais fecundo, mais durável, mais divino, que o da penitência e da humildade."

      Não vejo mal algum em provar Deus exclusivamente pela natureza. Pois como lançar um olhar para a  natureza sem ser levado ao seu Autor?"

      "Eu gostaria que todas as instruções dos doutores da sabedoria começassem com estas palavras:

     "Amai a Deus, assim serei tão sábios quanto todos os sábios."

      Diz para ti mesmo: "Sou o filho do Senhor". Repete isto até que essas palavras saiam do fundo de teu ser, e sentirás as trevas fugirem de perto de ti."

     

     

    March 28

    A MISÉRIA DA CIÊNCIA

    HÉLIO'S BLOG

    Divulgação  Científica

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    A dicotomia originária:

    O Eu versus o Outro

     

    Verônica Lima

     

           Em sua essência, procuramos recuperar o fio da própria história do mundo ocidental e da disseminação do conceito de indivíduo-unidade, enquanto agente do processo civilizatório, enquanto fundamento privilegiado do longo processo de materialização da vida. Num feedback temporalmente datado, procuramos identificá-lo[1] no berço da própria civilização ocidental, em sua resolução parmediana.

     

           Com o advento da sociedade burguesa, entretanto, o indivíduo e o individualismo renascem enquanto justificativa fenomenológica. O cartesianismo lhe serve de pressuposto filosófico e o contratualismo, de um limite natural à manifestação de excessos. Já estamos, é óbvio, numa sociedade em que nasceu o mercado e onde a relação entre os homens se dá entre os indivíduos que estabelecem relações de caráter mercantil, comercial. Dentro desta visão, a relação entre os sujeitos concebidos como unidade só pode se basear na dicotomia, ou seja, numa relação de exclusividade e de contraposição. O mercado funcionaria como o homogeneizador necessário desta relação.

     

    B. As dicotomias manifestadas no terreno da ação concreta:

    B.1 Público versus Privado

     

           No decurso do próprio processo evolutivo, portanto, procuramos evidenciar que o conceito de Indivíduo-Unidade teria imposto o aparecimento de sua tensão oposta, codificada na figura do Estado. Antes da concretização desta manifestação, no entanto, precisava ser explicitada a sua forma de regulação, de índole dicotômica, que vai se dar por meio da distinção entre Público e Privado, a qual vai tratar de estabelecer, no terreno socio-político e econômico, os limites entre a liberdade e a propriedade.

     

           Com Locke, inclusive, e rememorando dialeticamente aos gregos, a noção de público termina sendo reentronizada na história, só que, desta vez, esta noção vai aparecer, e muito mais claramente, como um instrumento de delimitação do espaço da liberdade enquanto exercício da propriedade[2]. Neste sentido, a separação entre as esferas pública e privada estaria a embasar o próprio campo de atuação das liberdades políticas, enquanto garantia necessária para a tutelagem, ao nível político, da propriedade, e, portanto, da livre iniciativa[3]. Tratava-se dos movimentos preliminares da constituição da sociedade burguesa, com base na distinção entre sociedade política e sociedade civil, por meio de uma transformação do indivíduo em cidadão. Daí porque a noção do Estado como contrato revela o caráter mercantil comercial das relações sociais burguesas e se afirma como uma formulação necessária àquele momento histórico específico. 

     

    B.2 Lei versus Contrato

     

           Neste momento, no qual se formam e se individualizam os próprios Estados-nações, a dicotomia Lei & Contrato se torna novamente necessária[4]. Embora já se encontrasse presente na obra ciceroniana[5], esta dicotomia vai ser indispensável à constituição da nova sociedade e do novo Estado. Porisso é que ela vai ser dialeticamente retomada pelos contratualistas com uma nova ênfase: desta feita, Hobbes[6] vai defender a necessidade de um contrato para refrear os egoísmos do homem e Locke vai reconhecê-lo como o fundamento da própria sociedade e do Estado.

     

           No encadeamento deste processo, o contrato social hobbesiano vai potencializar exatamente a concepção privatista do Estado[7], concepção esta que é amplificada pela apologização da liberdade como diferença[8]. Neste sentido, é que a dicotomia Lei & Contrato termina se afigurando como um corolário da dicotomia Público & Privado, desde que ambas contribuem para aprofundar o primado do privado enquanto concepção arquetípica.

     

           Outra formulação da dicotomia Lei & Contrato, desta feita com base no conceito de liberdade como igualdade - onde o contrato social estaria centrado na vontade geral, na soberania do povo e numa concepção democrático-burguesa da liberdade - está presente na obra de Rousseau[9]. Tal concepção, malgrado o fato de ainda conservar o veio individualista[10], substituiria a concepção privatista do Estado por uma concepção democrática do Estado, tendo servido de esteio para a fundamentação do Estado do Bem-Estar Social, que hoje vem sendo desmantelado.

     

           Com tal desmantelamento, estamos vivenciando ciclicamente a reiteração da dicotomia Público & Privado (enquanto espaço de atuação) e da dicotomia Lei & Contrato  (enquanto forma de regulação) em sua versão hobbesiana-lockeana, articuladamente a uma terceira dicotomia, que foi fundante dentro da dinâmica civilizatória, e que é representada pelo Indivíduo & Estado (enquanto agente de viabilização)[11].

     

    B.3 Indivíduo versus Estado[12]

          

           Em sua essência, o Estado moderno, que plasma e dá substância ao Estado-nação em seu nascimento e configuração histórica, não teria sido concebido apenas para concretizar uma idéia de moral ou da realidade da razão[13], mas, semelhantemente aos gregos e aos romanos, ele teria sido reentronizado como um produto da maturidade do processo de materialização da idéia de mundo. A diferença entre o ideário greco-romano e o renascentista, no entanto, residiria no crescendo desta visão materialista, já que, diferentemente da concepção aristotélica original, no qual o conceito eudemonológico representava o aspecto fundante, o Estado moderno não tem mais a função de assegurar a felicidade e a virtude, porém, pelo contrário, começa a se manifestar exatamente como o resultado de uma noção de poder imposta de fora para dentro[14].

     

           Daí porque, enquanto sustentáculo da Razão Material em processo de profundização histórica e enquanto lócus privilegiado da manifestação da dicotomia Indivíduo & Estado, o Estado-nação nasce como o resultado da constatação de que a sociedade humana aprofundara a sua contradição consigo mesma e estaria dividida em antagonismos irreconciliáveis[15]. Isto porque, ao aprofundar-se como uma extroversão necessária à manifestação de uma unidade dicotomizada e dicotomizadora, o Estado só poderia igualmente se afirmar como o guardião da ordem constituída para a defesa dos ideais de liberdade e propriedade[16] compatíveis com este crescendo materialista e não apenas como o fundamento da expansão da personalidade do indivíduo, como o queria Rousseau, mesmo que manifestadamente numa vontade geral[17]. Naquele momento histórico, a tutelagem do Estado ainda se fazia necessária para o aprofundamento do princípio material da vida, tanto é que, enquanto para o próprio Rousseau, a soberania pertencia ao povo, para Kant a lei já sobreporia à soberania do povo[18].

     

           Só que, progressivamente, tal tutelagem vai se tornando desnecessária, principalmente nos momentos históricos em que se dá uma reconstituição articulada do primado do Privado, do Contrato e do Indivíduo no terreno das idéias e dos assuntos dos homens, como a que acontece agora com a reiteração da defesa do Estado Mínimo. Dentro deste quadro geral, algumas estratégias de políticas públicas terminariam funcionando como pontes entre uma visão arquetípica de mundo e o próprio plano do real. A privatização, por exemplo, seria uma delas, desde que compatível com as condições objetivas do presente momento histórico[19]. 

            

    4.1.3 Os fundamentos epistemológicos da concepção dicotômica de mundo

     

    A. Os próceres da dicotomia

     

                 O aprofundamento do pensamento teorizante, que teria conseguido forjar a encruzilhada teórica representada, de um lado, pelo pensamento parmediano-pitagórico-aristotélico - que teria contribuído para sedimentar o caminho subseqüente do próprio processo de profundização da visão racional-materialista de mundo, com base nos conceitos de unidade, particularidade e analogia - e, do outro, pelo pensamento heraclítico-socrático-platônico - cujo potencial de espiritualização permanecia, com base nos conceitos de multiplicidade, universalidade e mudança, a despeito do processo de materialização progressiva que se realizava no terreno do real, teria sido resolvido dicotomicamente, com base na hegemonização de Parmênides contra Heráclito e de Aristóteles contra Platão. Pitágoras, pela apologética quantitativista que lhe fizeram os seus seguidores, que terminaram transformando a sua noção original de número em algarismo, e Sócrates, pela demonização da dialética que lhe fizeram os seus antagonistas, funcionariam como as pontes flexíveis entre uma e outra visão de mundo. Dentro dessa cosmovisão, o modelo dicotômico, portanto, renderia hosanas, preferencialmente, a Parmênides e Aristóteles.

          

           Então, levando-se em conta a lógica destas realidades constituídas no decurso da própria história do desenvolvimento do homem, parece ser possível compreender o estatuto fundante da visão dicotômica de mundo, de índole, inicialmente, parmediana[20] e, posteriormente, aristotélica, que a fase mais recente do desenvolvimento do capitalismo, centrada na desterritorialização e na desconstitucionalização do espaço público em sintonia com a hegemonização dos sistemas financeiros, apenas tem conseguido potencializar.

     

           De fato, desde os primórdios da civilização ocidental, temos caminhado nesta direção. Primeiro foi o próprio Parmênides, que, maldizendo as antinomias de Heráclito, só conseguia ver o mundo através de seu ordenamento em duas classes. Parmênides de Eléia (século VI a.C.) também afirmava que o que é, é o que é, concluindo pela unicidade do ser e pela não multiplicidade. Com isto, ficavam estabelecidas as próprias bases do naturalismo, que Locke apenas vai retomar mais tarde[21].

     

           A metafísica aristotélica, no entanto, supera a concepção parmediana a partir da reformulação da noção do ser. Aristóteles supera Parmênides exatamente quando substitui a concepção unívoca do ser, concebido por este de um modo único e absoluto, pela concepção analógica[22].

          

           Parmênides também mantinha uma visão estática das coisas, ao passo que Aristóteles, ao acrescentar à relação metafísica da matéria-forma, a plausibilidade da virtualidade pelo acréscimo da relação potência-ato[23], avança um pouco mais. No entanto, diferentemente de Platão, que admitia a multiplicidade do ser e das formas, aceitando o princípio da alteridade, com base na combinação do ser e do não-ser, Aristóteles rejeita a transcendência dos arquétipos platônicos, considerando-os uma desnecessária duplicação da realidade sensível.

     

           Na verdade, toda a teoria aristotélica do conhecimento constitui uma explicação da realidade sensível pelo sujeito, o que implica na aceitação dos seres singulares e mutáveis como fundamento da realidade[24]. O sujeito aristotélico, portanto, é fundamento e parte privilegiada do processo científico. Daí porque a sua lógica parte sempre do particular para o geral[25], diferentemente de Platão, para o qual é o universal é que é substancial[26]. Para Aristóteles, o universal só pode ser conhecido pelo sujeito a partir da sensação, princípio este que vai ser retomado, igualmente, mais tarde pelo próprio Locke[27].

     

      http://octopus.th.physik.uni-frankfurt.de/~freire/



     

    March 26

    Adolescentes com deficiência não se consideram retratados na Mídia

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    Adolescentes com deficiência não se consideram retratados na Mídia de três países latino-americanos

     Garotas e garotos com deficiência pouco se reconhecem na programação de tevê, nos jornais e nas revistas. É o que revela o estudo "Mais Janela que Espelho: a percepção dos adolescentes com deficiência sobre os meios de comunicação na Argentina, no Brasil e no Paraguai", lançado hoje (11/02) pela ANDI, Rede ANDI América Latina e Save the Children Suécia.

    A pesquisa ouviu 67 adolescentes, a maioria na faixa dos 11 a 13 anos, com deficiência, de diferentes classes sociais, em três países latino-americanos – Brasil, Argentina e Paraguai – divididos em oito grupos focais nas cidades de São Paulo, Salvador, Buenos Aires e Assunção. A maioria esmagadora deles não se recordou de nenhuma notícia ou personagem televisivo que abordavam essa condição. “Apenas depois de diretamente questionados eles lembravam de algo e falavam no assunto”, conta Guilherme Canela, coordenador de Relações Acadêmicas da ANDI e do estudo.

    Quando estimulados, os adolescentes brasileiros se lembraram de mais personagens do que os argentinos e os paraguaios.  Isso se deve, especialmente, a ações de merchandising social que incluem pessoas com deficiência nas telenovelas (especialmente as da Rede Globo), em histórias em quadrinhos e programas infantis.  Personagens como os cegos Flor e Jatobá, da novela América (rede Globo), Clarinha, que tinha Síndrome de Down na novela Páginas da Vida (também da rede Globo) ou o cadeirante Luca, da Turma da Mônica criada por Maurício de Souza, foram mencionados pelos meninos e meninas. 
     
    Além de lembrar  personagens criados para abordar a questão, o grupo brasileiro se identificou com o que era mostrado na telinha ou no papel.  E não foi uma identificação negativa. “Os adolescentes não demonstraram autopiedade. Essas ações têm um impacto muito interessante”, explica Canela. Clara por exemplo, foi considerada ‘legal’, ‘bonita’, ‘mais desenvolvida’. A identificação com a personagem foi tanta que uma participante da pesquisa chegou a dizer que “Clara era igual a mim”.

    Uma janela para outros mundos

    Embora o merchandising social tenha demonstrado certo impacto, o fato de os participantes da pesquisa não se recordarem espontaneamente de personagens e notícias sobre essa parcela da população é preocupante.  “Por se reconhecerem pouco na programação da tevê, os adolescentes com deficiência não têm na televisão um espelho, mas uma janela”, conclui a pesquisa. Isso significa que a realidade que esses garotos e garotas apreendem por meio dos veículos de comunicação não reflete, ainda que minimamente, seu mundo e suas experiências.  Nesse sentido, os meios de comunicação funcionariam como uma vitrine, uma janela para outros mundos. 

    Uma das conseqüências disso, segundo Guilherme Canela, pode ser uma dificuldade extrema de reflexão sobre sua condição – um dos componentes essenciais para a luta pela garantia dos seus direitos. “A mídia deveria mostrar, de forma menos desigual, a sociedade tal qual é com pessoas de diferentes gêneros, etnias, classes sociais, condições físicas e psíquicas – independentemente de ações de merchandising social”. O estudo apontou, por exemplo, que os meninos e meninas estão mais preocupados com a situação de crianças pobres ou de idosos do que com os seus próprios entraves para a plena efetivação de seus direitos.

    Gostos semelhantes - Ao contrário do que pode pensar boa parte da população, os gostos e preferências dos adolescentes com deficiência em relação à televisão são semelhantes ao de garotos e garotas em geral. Os meninos e meninas ouvidos nos grupos focais demonstraram preocupações com conteúdos violentos e apelativos. Suas preferências mesclam um consumo ainda característico da infância – como desenhos animados – e hábitos adultos – como a atração por novelas e reality shows. O resultado foi semelhante a outros estudos do tipo conduzidos pela ANDI com adolescentes sem deficiência.

    Segundo o consultor da pesquisa, Romeu Sassaki – que há quatro décadas se dedica ao estudo das mais diversas questões sobre deficiência e que acompanhou todos os grupos –, “os adolescentes com deficiência são, antes de tudo, adolescentes”.

    Acessibilidade

    Nos grupos realizados no Brasil, foi possível estabelecer uma discussão sobre a Classificação Indicativa, levantada pelos próprios adolescentes. No anúncio da indicação, símbolos específicos informam a classificação e simultaneamente uma intérprete de Língua Brasileira de Sinais (Libras) traduz a mensagem às pessoas com deficiência auditiva. Os meninos e meninas surdos disseram que os intérpretes gesticulam muito rápido e o espaço destinado a eles é pequeno. A conseqüência é que não entendem as mensagens veiculadas. Os garotos e garotas com deficiência auditiva também levantaram a necessidade de que mais programas televisivos sejam traduzidos em Libras – com a devida visibilidade.

    Conheça a metodologia utilizada

    O grupo focal é uma metodologia científica utilizada para avaliar qualitativamente a opinião de uma parcela específica da população a respeito de determinado assunto. Não interessa, portanto, a quantidade de pessoas ouvidas e sim, o tipo de conhecimento que foi obtido. É uma estratégia de coleta de informações baseada na premissa de que as respostas do indivíduo, em grupo, serão mais elaboradas do que quando ele está sozinho com um entrevistador.

    Para que funcione, o grupo deve ter, idealmente, entre seis a dez participantes e contar com um moderador que provoca as discussões, mas não faz perguntas fechadas, como um entrevistador. No caso dessa pesquisa, foram realizados grupos nas cidades de Buenos Aires, Assunção, São Paulo e Salvador.

    Esta não é a primeira vez que a ANDI realiza grupos focais. As opiniões de adolescentes a respeito da abordagem dos meios de comunicação sobre diversos assuntos – como programas juvenis, trabalho infantil doméstico e saúde – já foram ouvidas em outros estudos da Agência.  

    Clique aqui para baixar a íntegra do estudo. 

     
    Informações:

    Guilherme Canela – coordenador do estudo
    (61) 2102-6537
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    TODAS AS MENSAGENS DOS MESTRES

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                        Teosofia                          

    AVALIAÇÃO DAS DOUTRINAS E PRÁTICAS ATRIBUÍDAS AOS MESTRES ASCENSOS

     

    TODAS AS MENSAGENS DOS MESTRES

    VÊM DA MESMA FONTE?

     

    Raul Branco[1]

    raulbranco38@gmail.com



    Avaliação é uma coisa séria. Para minimizar os perigos de possíveis erros de apreciação das práticas e conceitos apresentados na literatura canalizada sobre os Mestres Ascensos, procurarei ater-me aos fatos mais relevantes, sobre os quais as informações disponíveis permitem um nível aceitável de segurança nessa avaliação.

    Em primeiro lugar, os seguidores dos Mestres Ascensos enfatizam práticas exteriores em detrimento da interiorização. Para entendermos o perigo dessa distorção devemos recordar que os dois esteios da vida espiritual são a autotransformação e a sintonia crescente com Deus. Para isso é indispensável a introspecção, ou seja, a mudança de foco do exterior para o interior. A auto-análise e a meditação são as práticas mais usadas para esses fins. Os seguidores dos Mestres Ascensos, no entanto, devotam horas às práticas externas sobrando pouco tempo, entusiasmo e convicção para as práticas internas, principalmente a meditação. Leadbeater, em suas considerações sobre o caminho iniciático, indica que um dos três obstáculos para a Segunda Iniciação é a superstição, que “inclui todas as espécies de crenças irracionais e errôneas, entre elas a de que os ritos e cerimônias externas são necessários para a purificação do coração. O Iniciado verifica que todos os métodos que nos são oferecidos pelas grandes religiões, tais como orações, sacramentos, peregrinações, jejuns e a observância de múltiplos ritos e cerimônias, não passam de meios auxiliares, e o homem prudente adotará disso o que ele achar útil para si, porém jamais considerará qualquer deles como suficiente para alcançar a salvação. Ele sabe definitivamente que tem de buscar a libertação em seu interior.”[1]

    A Ciência da Palavra Falada é a principal prática espiritual dos seguidores desse movimento. Realmente o Som, também referido como o Verbo, o Logos e a Palavra, é a energia mais poderosa do Universo. No entanto, o Som primordial, que deu início à manifestação do Universo, não pode ser tomado como uma palavra pronunciada por Deus, no sentido em que nós humanos a utilizamos no plano físico. Na realidade, Deus não é uma pessoa física com boca e cordas vocais que pronuncia essa ou aquela palavra. Portanto, quando é mencionado em Gênesis que Deus disse: “Haja luz”, algo simbólico está sendo comunicado a nós seres humanos, incapazes que somos de alcançar com nossa limitada mente concreta o que ocorreu no Imanifestado ao iniciar o processo de manifestação. Naquele momento, a ordem divina “reverberou” numa dimensão do espaço inteiramente diferente do nosso mundo, fazendo com que a vibração repercutisse de uma forma tal, que nós só poderíamos concebê-la, em termos de nossa experiência, chamando-a de Palavra de Deus. Reiteramos que quando tomamos as passagens da Bíblia em seu sentido literal estamos sujeitos a tirar conclusões inteiramente errôneas. Todas as escrituras sagradas são coletâneas de ensinamentos profundos velados pela linguagem da alegoria e do símbolo.[2]

    Os sábios da antiguidade, por meio de incansáveis experiências, conseguiram identificar a combinação de certos sons, ou mantras, que podiam ser usados para fins determinados. Esse conhecimento foi codificado no Mantra Ioga do oriente. Os iogues da Índia, e os teurgos e magos de todas as tradições, sempre usaram mantras em seus rituais e práticas espirituais. A repetição de um mantra, como o AUM, com a devida pronúncia e ritmo, é de grande ajuda na purificação dos veículos inferiores do praticante, na sua preparação para a almejada expansão de consciência e, também, para a realização de fenômenos conhecidos como sidhis.

    Esse conhecimento milenar não é devidamente considerado, sendo até mesmo sutilmente distorcido na literatura em pauta. Isso fica claro na mensagem a seguir, atribuída ao Senhor Maitreya: “Vários sistemas de meditação ióguica oferecem métodos para acalmar a mente do homem e produzir uma maior sintonia com o Divino. Alguns desses métodos tornaram-se arriscados quando aplicados pelo homem ocidental, pois exigem do praticante uma grande disciplina mental e espiritual. Os decretos, por outro lado, são relativamente simples de dominar uma vez compreendidos os princípios básicos, e muito mais eficazes.”

    Os métodos ióguicos “arriscados” são aqueles que envolvem a movimentação de energias, como o pranayama, o laya ioga, o kundalini ioga e o tantra ioga. No entanto, os mantenedores da sabedoria milenar, conhecendo esses perigos, estabeleceram a tradição de só transmitir a totalidade da prática por meio de um guru devidamente capacitado, que acompanha os primeiros exercícios de seu discípulo para assegurar que eles sejam realizados de forma correta e em segurança. Ainda que alguns livros pareçam ensinar algumas dessas práticas, ficam faltando sempre alguns passos fundamentais que só são transmitidos de boca a ouvido.

    Também não nos parece correta a afirmação de que o ‘decreto’ seja a forma mais elevada de comunicação com Deus, como sugerido na seguinte passagem: “Essa ciência milenar (a Ciência da Palavra Falada) combina oração, meditação e visualização com decretos poderosos – e é um avanço em relação a todas as formas de oração usadas no Oriente e no Ocidente.” Os verdadeiros iogues e os místicos de todas as tradições sabem, por experiência própria, que justamente o oposto é correto. A oração falada sempre foi considerada a mais simples de todas as preces. A mais poderosa é a oração do silêncio, ou contemplação, em que o silêncio se estende até mesmo à mente. Os místicos conseguem por meio da contemplação alcançar a união com O Bem Amado, como descrito na obra clássica Castelo Interior ou Moradas, de Teresa de Ávila.[3] Esse também é o propósito central do ioga, a aquietação dos processos mentais, descrita na celebrada obra Ioga Sutras de Patanjali,[4] para que o iogue alcance o samadhi, ou união com Atma. “Deus é silêncio em vez de discurso. A coisa mais bela que o homem pode dizer de Deus é que, conhecendo Suas riquezas interiores ele torna-se silencioso. Portanto, não seja tagarela com Deus.”[5]

    Muitos cristãos surpreendem-se ao saber que a “oração do silêncio” foi ensinada por Jesus, há dois mil anos, como atesta a passagem: “Tu, porém, quando orares, entra no teu quarto e, fechando tua porta, ora ao teu Pai que está lá, no segredo; e o teu Pai, que vê no segredo, te recompensará” (Mt 6:6). Como a linguagem da Bíblia é simbólica, a seguinte interpretação é sugerida: entrar em nosso quarto, significa entrar em consciência na câmara secreta do coração. Fechar a porta significa desligar-se dos ruídos do mundo e da mente. Orar ao Pai que lá se encontra, significa nos sintonizarmos com a Presença de EU SOU em nosso coração. Orar em segredo, significa aquietar a mente e permitir que no silêncio que se segue, possamos ouvir a Deus, e não nossas próprias palavras e pensamentos. Finalmente, a recompensa prometida, é sermos admitidos à Sua Presença.

    Quanto à prática de repetição de decretos em voz alta, talvez outra orientação de Jesus apresentada no Sermão da Montanha seja pertinente: “Nas vossas orações não useis de vãs repetições, como os gentios, porque imaginam que é pelo palavreado excessivo que serão ouvidos. Não sejais como eles, porque o vosso Pai sabe do que tendes necessidade antes de lho pedirdes” (Mt 6:7-8).

    Isto não quer dizer que a prática de Decretos não tenha um certo poder espiritual. Tão importante, senão mais importante do que a forma exterior de devoção, é a intenção do coração. Krishna (simbolizando a Deidade Suprema no coração de cada homem) ensinou a Arjuna (o discípulo devotado): “Ainda que os homens adorem vários deuses e várias imagens, e tenham diferentes concepções da deidade adorada, e até pareçam as suas idéias serem contraditórias entre si, toda a sua fé se inspira em mim. A sua fé em seus deuses e imagens não é senão o alvorecer da fé em Mim; adorando essas formas e concepções, eles querem adorar a Mim, sem o saberem. Eu aceito e recompenso essa fé e adoração, uma vez que seja honesta e conscienciosa.”[6]

    A recitação dos Decretos em voz alta, em grupo, sendo uma expressão de devoção a Deus, pode mesmo atrair a atenção dos anjos, como ocorre na Missa e Serviços das Igrejas cristãs. Geoffrey Hodson, um elevado vidente que se comunicava com anjos escreveu: “O ministério dos anjos, uma doutrina cardeal de muitas religiões, há muito tem sido uma realidade vivente para numerosas pessoas. Pesquisas ocultas apóiam a doutrina, revelando que, como parte desse ministério, certas Ordens de anjos estão presentes regularmente nos serviços religiosos e certos outros cerimoniais.”[7]

    As várias mudanças na Hierarquia anunciadas nas comunicações atribuídas aos Mestres Ascensos podem ser questionadas, a começar pela suposta renúncia de Sanat Kumara de seu posto de Senhor do Mundo. A tradição sabedoria ensina que esse grande Ser, que veio para a Terra há seis e meio milhões de anos, comprometeu-se a guiar a humanidade pelo resto deste período de manifestação de nosso Planeta, como chefe da hierarquia espiritual e Iniciador Único. Encontramos em A Doutrina Secreta que esse augusto Ser “não deixará o seu posto senão no último dia deste Ciclo de Vida.”[8]

    É importante lembrar que o Senhor do Mundo expressa o aspecto poder (Primeiro Raio) do Logos em nosso Planeta, e o Senhor Buda o aspecto sabedoria (Segundo Raio). Se, porventura, o Senhor do Mundo deixasse seu cargo seu sucessor seria um Adepto do Primeiro Raio e não o Senhor Buda.  Como todas as outras mudanças anunciadas na estrutura da Hierarquia dependem da veracidade da renúncia de Sanat Kumara a seu posto, torna-se desnecessário tecermos argumentos sobre as outras mudanças subseqüentes, apesar de existirem claros indícios de que as coisas permanecem na Hierarquia como eram há um século atrás. Mudanças na Hierarquia são muito raras, especialmente nos mais altos níveis, onde um Grande Ser geralmente ocupa um posto por vários milênios. Essa questão, não só é difícil de resolver com provas cabais, como é ainda, de certa forma, irrelevante para a vida espiritual. Nosso progresso espiritual não depende em absoluto de nos mantermos atualizados sobre as supostas novidades em Shambala.[9]

    O aspirante deve se concentrar na autotransformação e em dar o passo seguinte na Senda, e não em gastar o precioso tempo que a Providência Divina lhe concedeu em especulações sobre a vida dos Grandes Seres. Vale a pena lembrarmos mais uma vez a recomendação do Mestre K.H., em sua última carta escrita em 1900: “O falatório acerca dos ‘Mestres’ deve ser silenciosa mas firmemente eliminado. Nós trabalhamos anônima e silenciosamente, e a contínua referência a nós e a repetição de nossos nomes gera uma aura confusa que atrapalha nosso trabalho.”[10] Encontramos na tradição judaico-cristã um paralelo nos mandamentos apresentados por Moisés: “Não pronunciarás em vão o nome de Iahweh teu Deus” (Ex 20:7).

    Talvez seja pertinente, porém, algumas observações sobre alguns membros da Hierarquia mencionados na literatura dos Mestres Ascensos. Os novos Chohans que supostamente teriam assumido o Segundo e o Sexto Raio, os Mestres Ascensos Lanto e Nada, não são conhecidos na literatura esotérica tradicional, sendo mencionados pela primeira vez nas canalizações atribuídas aos Mestres Ascensos. No caso de Saint Germain e Kwan Yin os questionamentos são de outra natureza. É dito que Kwan Yin precedeu a Saint Germain como Chohan do Sétimo Raio e que essa transferência de cargo deu-se em 1954.[11] No entanto, na obra Os Mestres e a Senda, publicada pela primeira vez em 1925, é dito: “O Chefe do Sétimo Raio é o Mestre Conde de Saint Germain, personagem histórico do século XVIII, também conhecido como o Mestre Rakoczi.”[12] Portanto, de acordo com a tradição oriental, o Conde de Saint Germain já era o Chohan do Sétimo Raio, bem antes de 1954, quando, de acordo com a literatura dos Mestres Ascensos, ele teria supostamente assumido essa alta função.

    Com relação à Mestre Ascensa Kwan Yin, o problema é a personificação antropomórfica de um princípio impessoal. Kwan-Shi-Yin e Kwan-Yin, são nomes chinêses para os aspectos masculino e feminino de Avalokiteshvara. De acordo com A Doutrina Secreta: “Kwan-Shi-Yin é Avalokiteshvara, e ambos são formas do Sétimo Princípio Universal; enquanto que em seu caráter metafísico mais elevado, essa Divindade é a agregação sintética de todos os Espíritos Planetários, os Dhyan-Chohans. Ele é o ‘Manifestado por Si Mesmo’; numa palavra, o ‘Filho do Pai’.”[13] Não podemos descartar a possibilidade de que tenha existido um Grande Ser, coincidentemente na China, chamada de Kwan Yin, que tenha se tornado um Mestre de Sabedoria. No entanto, em nenhuma parte da literatura esotérica, antes do aparecimento das revelações atribuídas aos Mestres Ascensos, qualquer referência foi feita a essa personagem. Ao contrário, Kwan Yin sempre representou um princípio e não uma pessoa.

    A outra prática central atribuída aos Mestres Ascensos é a transmutação do carma por meio da chama violeta, de acordo com o ministério do Mestre Ascenso Saint Germain, e da repetição de decretos, de acordo com o ministério da Mestra Ascensa Nada. Muitos decretos e rituais de cura dos devotos dos Mestres Ascensos estão voltados para esse fim. Em primeiro lugar, convém investigarmos o método pelo qual esse procedimento teria se tornado possível. Numa citação anterior, de material canalizado pela Summit Lighthouse, foi dito: “A dispensação permitindo que a chama violeta fosse posta à disposição dos discípulos neste século foi concedida pelos Senhores do Carma porque Saint Germain compareceu perante esse augusto conselho para advogar, como defensor da humanidade, a causa da liberdade.” Em primeiro lugar, os Senhores do Carma, ou Lipikas, os “escribas” que registram todas as palavras, ações e pensamentos dos homens nesta Terra, como são conhecidos na literatura esotérica, “são os agentes do carma”[14] e não membros de um suposto conselho do carma. O carma sendo a lei fundamental e inexorável da operação da manifestação do universo não está sujeito a “deliberações” de um conselho. Tampouco os Mestres agem como políticos demagogos falando de forma emotiva, visando o impacto popular, propondo modificar uma lei irrevogável “advogando, como defensores da humanidade, a causa da liberdade.”

    A transmutação, porém, é uma realidade conhecida da alquimia. Como Saint Germain foi o maior alquimista conhecido, é natural que os rituais de transmutação sejam sempre referidos a ele, principalmente quando é utilizada a chama violeta, instrumento de trabalho notório do Sétimo Raio. No entanto, existe uma grande diferença entre transmutar as negatividades de um indivíduo e transmutar seu carma. Quando falamos de transmutar negatividades, estamos nos referindo às tendências da natureza inferior da pessoa. Essas tendências, skandas de acordo com os budistas ou samskaras de acordo com os hinduístas, são os tiranos que escravizam os homens numa roda viva de repetições de atos, palavras e pensamentos negativos, que necessariamente resultam em sofrimento.

    Mas transmutação de carma é outro departamento. O carma é uma das leis fundamentais do universo e, como tal, é imutável. Consideremos, por exemplo, outra lei do universo, a da gravitação. O que iria ocorrer se um Grande Ser decidisse alterar um pouco a gravitação do planeta Terra, para que ele ficasse mais perto do Astro Rei, o Sol? Ou ainda acelerar ou retardar um pouco a rotação da Terra ao redor de seu eixo? Por pequena que fosse a alteração, o resultado seria uma catástrofe indescritível. Uma lei divina universal é, por definição, tautologicamente, universal e eterna. Não pode ser alterada.

    Uma das muitas dádivas preciosas legadas à humanidade por Blavatsky foi o conhecimento das condições preliminares para aspirantes, contidas no lendário tratado de Kiu-te, do qual foram também tiradas as Estâncias de Dzian, a fundamentação para A Doutrina Secreta. A quarta dessas condições é de especial relevância para este ensaio: “Fé verdadeira e invariável na Lei do Carma, independentemente da intervenção de qualquer poder da Natureza – uma lei cujo curso não deve ser obstruído por qualquer ação, nem se deve tentar desviar por prece ou cerimônias exotéricas propiciatórias.”[15]

    Uma das jóias mais preciosas da literatura esotérica, conhecida como A Voz do Silêncio, descreve a verdadeira tortura interior do Arhat, ao constatar a extensão do sofrimento da humanidade em face à sua incapacidade de alterar o curso dos eventos cármicos. O Arhat passa por “indizíveis aflições mentais; aflições pelos mortos vivos, e impotente compaixão pelos homens das tristezas kármicas; os frutos do Karma os Sábios não ousam deter. Pois está escrito: ‘Ensina a evitar todas as causas; aos ondulantes efeitos, como às grandes vagas da maré, deixarás seguirem o seu curso’.”[16]

    Blavatsky afirma categoricamente que: “Os Mahatmas são os servos, não os árbitros da Lei do Carma.”[17] Vemos nas Cartas dos Mahatmas várias passagens indicando a imutabilidade do carma: “A justiça absoluta não vê diferença entre os muitos e os poucos... Em nossa Fraternidade todas as personalidades submergem em uma idéia – o direito abstrato e a justiça prática absoluta para todos.”[18] “Não podemos alterar o Carma, meu ‘bom amigo’, de outro modo nós dissiparíamos a nuvem atual que há sobre seu caminho. Mas fazemos tudo o que é possível nestas questões materiais.”[19] “A vida e a luta pelo Adeptado seriam muito fáceis, se tivéssemos sempre varredores atrás de nós a limpar os efeitos por nós gerados em nossa inconsideração e presunção.”[20] “Tendes especialmente de conservar em mente que a mais leve causa produzida, embora inconscientemente, e seja qual for seu motivo, não pode ser desfeita nem os efeitos detidos em seu progresso, nem mesmo por um milhão de Deuses, demônios e homens combinados.”[21] Podemos em sã consciência imaginar que os sábios membros dessa Fraternidade, tendo afirmado de forma tão contundente a imutabilidade do carma, iriam mudar de idéia alguns anos mais tarde e passar a ‘varrer atrás de seus devotos os efeitos gerados por seu carma’?, ou transmutar as causas produzidas e seus efeitos, que ‘nem mesmo um milhão de Deuses, demônios e homens combinados podiam desfazer’?

    Jesus também pregou a imutabilidade do carma. Algumas passagens da Bíblia atestam esse fato, na linguagem simbólica que lhe é usual: “Porque em verdade vos digo que, até que passem o céu e a terra, não será omitido nem um só i, uma só vírgula da Lei (do carma), sem que tudo seja realizado” (Mt 5:18). “Assume logo uma atitude conciliadora com o teu adversário, enquanto estás com ele no caminho, para não acontecer que o adversário te entregue ao juiz e o juiz, ao oficial de justiça, e, assim, sejas lançado na prisão (da roda de renascimentos). Em verdade te digo: dali não sairás, enquanto não pagares o último centavo” (Mt 5:25-26). “Tudo aquilo, portanto, que quereis que os homens vos façam, fazei-o vós a eles, pois esta é a lei e os (ensinamentos dos) profetas” (Mt 7:12). Paulo também reiterou esse ponto fundamental da vida espiritual em várias passagens, sendo a mais direta: “Não vos iludais: de Deus não se zomba. O que o homem semear, isso colherá” (Gl 6:7).

    A imutabilidade do carma coloca em cheque todas as reivindicações de práticas que prometem a transmutação parcial ou total do carma. A repetição de decretos e o processo de cura de Magnified Healing enquadram-se nessa categoria. Magnified Healing é certamente uma poderosa energia de cura. Tendo recebido algumas aplicações dessa energia, posso afirmar que senti a energia atuando em meu corpo. Tudo leva a crer que Magnified Healing poderia ser considerado um “super-Reiki” ou “Reiki magnificado.” Essa hipótese ganha força quando verificamos que as duas americanas disseminadoras originais do processo já eram mestras de Reiki por muitos anos. Ainda que Magnified Healing seja comprovadamente uma poderosa energia de cura, atuando sobre os corpos sutis do ser humano, as considerações expostas acima, sobre a imutabilidade do carma como uma lei universal, põem em questionamento a reivindicação de que a dimensão espiritual dessa energia também poderia transmutar o carma do “paciente.” É interessante notar que a aplicação dessa energia, dispensada pelo ‘Deus Supremo do Universo,’ pode ser cobrada dos “pacientes,” em contraste com a antiga lei oculta de que as energias espirituais não podem ser objeto de comercio. Nesse particular nossos irmãos espíritas são mais coerentes: os ‘passes’, a participação em rituais de cura e até mesmo as operações espirituais não são cobradas, ainda que os beneficiários possam contribuir de livre e espontânea vontade para a manutenção da obra. O estudante de esoterismo teria muito a aprender sobre essa questão em Palmelo, cidade goiana onde existem dezenas de indivíduos e instituições voltados para a cura espiritual trabalhando de forma voluntária e gratuita.

    Voltando ao carma, a Lei divina estabelece que a semeadura é opcional, mas a colheita é obrigatória. Toda e qualquer ação, palavra e pensamento de um indivíduo cria como que ondas no mar da substância universal que inexoravelmente retornarão a ele. “Mas como cada perturbação se inicia de algum ponto específico, é evidente que o equilíbrio e a harmonia podem somente ser restaurados pela reconvergência para aquele mesmo ponto de todas as forças que a partir dele foram postas em movimento. E aqui temos a prova de que as conseqüências dos atos de um homem, de seus pensamentos, etc., precisam necessariamente agir sobre ele mesmo com a mesma força com que foram postas em movimento.”[22] Mesmo os chelas e iniciados estão sujeitos à Lei. Isso nos remete ao ponto seguinte, a suposta aceleração do processo evolutivo, possibilitando a um discípulo tornar-se um Mestre Ascenso transmutando somente 51 por cento de seu carma.

    A milenar tradição esotérica postula que, para receber a Quarta Iniciação, o Iniciado tem que quitar todo seu carma pendente. Essa é a razão porque alguns neófitos estranham o fato de certos santos e notórios servidores da humanidade, que ao longo da vida mostraram desprendimento, sabedoria, amor ao próximo e bondade para com todos os seres, sofrerem todo tipo de infortúnio, doenças e até mesmo perseguições. Talvez um ou dois exemplos facilitem o entendimento da Grande Lei. O saudoso Chico Xavier passou a vida fazendo o bem, mas foi várias vezes injuriado e durante toda a sua vida sofreu de uma ou outra doença. Com seu conhecido bom humor, dizia que, apesar de uma vida celibatária, sempre foi assediado por duas senhoras: Glaucoma e Angina, que não lhe deixavam em paz (com terríveis dores nos olhos e no coração).

    A indômita Helena Blavatsky renunciou a tudo para viver exclusivamente a serviço do mundo, tendo sido difamada, injuriada e passado por necessidades materiais e enfermidades dolorosas, permanecendo, porém, sempre firme no serviço de seu Mestre. Dois fatos relacionados à imutabilidade do carma aparecem de forma curiosa na vida de Blavastky. Numa batalha pela unificação da Itália, recebeu um tiro, ficando a bala alojada perto da coluna, causando-lhe dores e desconforto. Apesar dos médicos não poderem retirar a bala ela, com seus poderes ocultistas, poderia desmaterializar o projétil. No entanto, não tinha permissão para fazê-lo, pois estaria infringindo a lei do carma e usando poderes ocultos em benefício próprio. Num determinado momento em que Blavatsky estava passando por um período difícil devido a acusações de seus detratores, Sinnett pede ao Mestre que a ajude e recebe a seguinte resposta: “Devo dizer que ela está sofrendo muito e não posso ajudá-la, porque tudo isso é o efeito de causas que não podem ser anuladas - ocultismo na teosofia.”[23] Tempos depois, enquanto estava trabalhando na sua grande obra, A Doutrina Secreta, seu corpo combalido não dava mais sinais de resistir aos inúmeros problemas de saúde que enfrentava. O médico que a acompanhava já dava como certa a sua morte. Nesse instante, porém, seu Mestre apareceu em corpo físico e perguntou se ela queria por um fim ao seu sofrimento ou preferia continuar a viver para terminar seu trabalho. Blavatsky não hesitou em decidir pela continuação do trabalho. Seu Mestre, então, reanimou seu corpo dando-lhe uma sobrevida, porém, sem curar as doenças que tinha, ou seja, sem mudar seu carma.

    A única explicação para essas aparentes incoerências do carma, nos casos de Chico Xavier, Blavatsky e tantos outros servidores da humanidade, é o fato de que esses grandes iniciados estariam resgatando o restante de seu carma ainda pendente de vidas passadas, para capacitá-los à Quarta Iniciação, que os tornariam Arhats, seres que não mais precisam encarnar, se optarem por entrar em Nirvana. A vida de sofrimento dos candidatos à Quarta Iniciação é, certamente, equivalente a uma verdadeira “crucificação” ainda que, no seu devido tempo, as atribulações sejam substituídas pela glória da “ressurreição.”

    A possibilidade de uma aceleração no processo evolutivo por meio de certas práticas é, sem dúvida, um grande incentivo para qualquer aspirante. No entanto, o famoso Caminho Acelerado de que trata a tradição esotérica, é o árduo Caminho da Iniciação, para o qual existem regras milenares rígidas seguidas pela Grande Hierarquia. A tradição menciona que o homem passa simbolicamente por 777 encarnações, desde sua individualização como ser humano até tornar-se um super-homem, um Iniciado do Quinto Grau, um Mestre de Sabedoria. As primeiras 700 encarnações simbolizam o longo caminho do homem mundano, materialista, vivendo para a gratificação dos sentidos. As 70 encarnações seguintes simbolizam o considerável período de desenvolvimento intelectual e moral, levando ao despertar espiritual, até tornar-se um discípulo aceito preparando-se para a Primeira Iniciação. As últimas 7 encarnações simbolizam o Caminho Acelerado, o número de encarnações necessárias para aquele que “entrou na corrente” atingir “a outra margem,” ou seja, trilhar o Caminho Iniciático da Primeira à Quinta Iniciação.

    Esses números de encarnações, obviamente são simbólicos. Podem ser mais ou menos, dependendo do empenho de cada alma. O que é importante é a ordem de grandeza das três grandes etapas: a etapa das Iniciações representaria um décimo do tempo da etapa de evolução intelectual e moral, e essa um décimo da etapa da vida do homem comum, inteiramente mundana, egoísta e materialista.

    Em contraste com essa experiência milenar, a literatura dos Mestres Ascensos acena com uma notável aceleração do processo. Por exemplo, é dito que o discípulo dedicado pode passar da Terceira Iniciação para a Ascensão em seis anos de trabalho intenso. Somos informados, também, que os principais “canais” desses movimentos, chamados de “mensageiros dos Mestres” teriam alcançado a Ascensão, ou seja a Sexta Iniciação, enquanto se supõe que Blavatsky e Chico Xavier não alcançaram mais do que a Quarta Iniciação. Guy Ballard teria se tornado o Mestre Ascenso Godfre e Mark Prophet o Mestre Ascenso Lanello.

    Espera-se que um ser que “ascendeu” tenha tido uma longa série de encarnações à serviço da humanidade. Esse parece ter sido o caso dos dois grandes mensageiros dos Mestres Ascensos. Ballard relatou ter-se encarnado anteriormente como George Washington, e os reis da Inglaterra Henrique V e Ricardo I (Ricardo Coração de Leão). No caso de Mark Prophet, sua viúva informa-nos que em vidas passadas ele teria sido: Noé, Ló, Ikhnaton, Esopo, o discípulo Marcos, Orígenes, Lancelote, Bodhidharma, Saladino, Boaventura, Luís XIV e Longfellow.

    Obviamente não nos compete questionar a nobre linhagem desses mensageiros dos Mestres Ascensos, pois não temos credenciais para tanto. No entanto, devemos lembrar que o Noé da Bíblia é um personagem mítico. Ele representa o poder criativo masculino, sendo também a personificação de um dos dez Sephiroth.[24] Nas palavras de Geoffrey Hodson: “Noé é a personificação do ocupante de uma Função (Manu) no Governo Espiritual dos Sistemas Solares, Cadeias, Rondas, Planetas e Raças. Noé representa mais especialmente os Manus Raiz e Semente, cuja vocação é de absorver e preservar dentro de suas auras (arcas), durante os Pralayas (dilúvio), as sementes das coisas vivas e as Mônadas dos homens. Essas eles entregam aos seus sucessores no início do Manvantara seguinte (a dispensação após o dilúvio).”[25]

    È provável, portanto, que tenha havido um engano nas informações canalizadas por Elizabeth Prophet. Não é possível que Mark Prophet tenha se encarnado como Noé. É dito que na Hierarquia Terrena, um Manu é um Iniciado do Sétimo Grau.[26] Portanto, se Mark porventura tivesse sido Noé, teria regredido em vez de evoluir, pois, após várias encarnações, teria alcançado no século passado outra vez o nível de um Mestre Ascenso, ou seja a Sexta Iniciação, na terminologia da Summit Lighthouse. Esse fato levanta uma dúvida: erros semelhantes também não poderiam ter ocorrido em outras partes do material canalizado por Elizabeth Prophet e por outros mensageiros dos Mestres Ascensos? Nesse caso, que grau de confiança podemos ter no material canalizado?

     

    CONCLUSÕES

    É dito que existem tantos Caminhos como existem seres humanos e que as necessidades de cada um mudam com o passar do tempo. Da mesma forma como as brincadeiras de criança dão lugar aos esportes e à busca da sensualidade no adolescente, mais tarde aos jogos de poder no adulto e, finalmente, no homem maduro ao anseio espiritual, assim também, o buscador da verdade passa por diferentes etapas em sua jornada. Em cada etapa da vida teremos novos desafios. Assim como a fruta só aparece na estação certa, no ser humano o amadurecimento espiritual virá no seu devido tempo, e a Providência Divina colocará ao nosso alcance as circunstâncias mais favoráveis ao nosso progresso. Cabe a cada um, porém, discernir o que lhe é mais apropriado e tomar as ações devidas para aproveitar as oportunidades ao seu alcance.

    Porém, devemos ter sempre em mente que todas as informações, instruções e revelações do exterior, estejam elas contidas nas Sagradas Escrituras, livros inspirados, nas palavras de grandes sábios ou em mensagens canalizadas, são meramente meios para um fim. O objetivo último de toda a vida espiritual é a experiência interior de unidade com o Todo e com todos, ou a união com Deus, como dizem os místicos. Nas palavras de Lama Govinda, “Os instrutores tibetanos sempre enfatizam o fato de que a verdade última não pode ser expressa em palavras, mas somente experimentada em nosso interior. Portanto, nossas crenças não são importantes, mas sim o que nós experimentamos e praticamos, e como isso afeta a nós mesmos e o ambiente que nos cerca.”[27]

    Aqueles que se sentem confortáveis em sua tradição ou movimento, nele encontrando tudo o que seu coração pede, devem aproveitar para mergulhar fundo em seus estudos e, principalmente, em suas práticas. Devemos ter em mente, porém, que cada um de nós é um diamante em processo de lapidação. Existem inúmeras facetas dessa pedra preciosa que precisam ser buriladas. Em geral, precisamos mudar de posição ou a direção do movimento, para burilar uma nova faceta. Por isso devemos ter em mente a sabedoria milenar contida na preciosa obra, Luz no Caminho: “Busca o caminho, retirando-te para o interior. Busca o caminho, avançando resolutamente para o exterior. Busca-o, mas não em uma direção única. Para cada temperamento existe uma via que parece a mais desejável. Porém, só pela devoção não se encontra o caminho, nem pela mera contemplação religiosa, nem pelo ardor de progresso, nem pelo laborioso sacrifício de si mesmo, nem pela estudiosa observação da vida. Nenhuma dessas coisas por si só faz adiantar ao discípulo mais que um passo. Todos os degraus são necessários para subir a escada.”[28]

    Por essa razão, convém ao buscador estar sempre atento a outros enfoques, a outras doutrinas, além daquelas professadas por sua religião, movimento ou tradição. É dito que uma das melhores maneiras de entendermos as doutrinas de nossa religião é estudarmos outra religião. Como estaremos começando do princípio e, no caso da “religião dos outros,” não seremos tolhidos em nossas pesquisas por questões de fé doutrinária, torna-se mais fácil estudarmos e questionarmos até entendermos os pontos fundamentais dessa outra religião. Isso invariavelmente nos remeterá a vários pontos paralelos de nossa própria religião, que anteriormente haviam sido aceitos mesmo sem ser entendidos. Como todas as religiões originam-se da mesma fonte e levam ao mesmo objetivo, não é de se estranhar que venhamos a encontrar inúmeras concordâncias ou paralelos em seus aspectos fundamentais. A teosofia, a sabedoria divina, é exatamente a essência esotérica fundamental que está por trás de todas as grandes religiões e tradições.

    Para meus queridos irmãos, seguidores dos ensinamentos dos Mestres Ascensos, que ainda estão lendo com pertinácia este ensaio, apesar dos questionamentos levantados, sugiro simplesmente que procurem ler as cartas dos Mestres publicadas originalmente no século passado, e disponíveis agora em português.[29] Algumas pessoas talvez prefiram ler inicialmente o livreto: Meditações. Excertos de Cartas dos Mestres de Sabedoria,[30] que apresenta citações selecionadas, relacionadas com as principais virtudes requeridas na vida espiritual. Com essa leitura terão um termo de comparação entre o estilo e a doutrina ensinada pelos Mestres no final do século XIX e aquela apresentada atualmente pelo material canalizado atribuído aos Mestres Ascensos. Se esse estudo indicar que não existe grande diferença entre as duas fontes, então poderão prosseguir com consciência tranqüila de que estão tomando todos os cuidados possíveis para caminhar sempre em terreno sólido. Se, no entanto, descobrirem que existem diferenças importantes de métodos de instrução e de doutrina, terão então uma oportunidade para desenvolver seu discernimento e testar até que ponto a intuição é capaz de guiar sua vida.

    Não há dúvida de que o anseio por receber instrução do Mestre é legítimo. Porém não podemos nos esquecer de duas máximas do ocultismo. A primeira é que: “Quando o discípulo está pronto o Mestre aparece.” Será que realmente estamos prontos para sermos instruídos pelos verdadeiros Mestres? Estamos prontos para enfrentar uma disciplina de treinamento mais exigente e rigorosa do que a dos atletas olímpicos, não só por alguns meses ou anos antes da competição, mas por toda nossa vida? Estamos prontos para assumir o compromisso de servir à humanidade, sem nenhuma distinção, por séculos e milênios sem fim, até que o último ser humano seja salvo? Estamos prontos para renunciar ao nosso conforto, aos nossos interesses pessoais e até mesmo aos nossos bens, para executar o trabalho do Mestre? Estamos prontos para continuar a servir, mesmo quando vilipendiados e injuriados? Estamos realmente conscientes de todas as implicações de nossa eventual aceitação como discípulo do Mestre?

    March 18

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    www.mnba.gov.br/   Museu Nacional de Belas Artes - Rio de Janeiro. Prédio em estilo renascentista. Tem Victor Meireles, Rodolfo Amoedo, Almeida Jr. Eliseu Visconti. Coleção de barrocos italianos e 8 obras de Franz Post.
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    www.museuimperial.gov.br/Petrópolis-RJ - Imperdível. Tem até
    espetáculo de son et lumière duas vezes por semana.
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    www.masp.art.br Museu de Arte de São Paulo - São Paulo - Velasquez, Rembrandt, Rafael, Cézanne, Monet, Renoir, Van Gogh, Matisse, Picasso...
    www.mam.org.br MAM - Museu de Arte Moderna - São Paulo Veja obras de Tarsila do Amaral, Anita Malfatti, Tomie Otake...

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    TODAS AS MENSAGENS DOS MESTRES

    VÊM DA MESMA FONTE?

     

    Raul Branco[1]

    raulbranco38@gmail.com 

     

    O homem moderno não tem tempo a perder. Tudo deve ser eficiente e rápido. As pessoas sentem que as vinte e quatro horas do dia não são suficientes para realizar tudo o que desejam. A conseqüência dessa estressante corrida contra o tempo é uma preocupação crescente, quase obsessiva, com a eficiência, com formas de fazer com que as coisas possam ser realizadas mais rapidamente e com menos dispêndio de energia. Para satisfazer esse anseio por uma gratificação instantânea aparece o produto instantâneo. Surgiram então o café, o chá, o leite em pó, o chocolate e toda uma extensa gama de produtos industrializados instantâneos visando acelerar o processo de preparação e consumo dos alimentos. Esses produtos tiveram aceitação imediata pelos modernos neuróticos que acreditam no lema introduzido pelos americanos: “time is money”, tempo é dinheiro.

    Mas a tendência para agilizar, acelerar e tornar quase instantânea a gratificação do consumidor não ficou restrita aos produtos industrializados. Os serviços também entraram na onda da aceleração, capitaneados pela comida rápida (fast food) oferecida pelas cadeias de restaurantes, e seguida por um número crescente de serviços, incluindo os bancários e os meios de comunicação. Mais rápido menos esforço, maior satisfação. Esse é o lema da vida moderna.

    Não é de se estranhar que a pressão para a aceleração dos resultados tenha chegado também à vida espiritual. Um número crescente de instrutores e mensageiro está oferecendo práticas espirituais que prometem acelerar o processo evolutivo, queimando etapas e transmutando o carma. Alguns gurus prometem aos seus seguidores que poderão alcançar a iluminação em pouco tempo, às vezes em até mesmo um fim de semana, seguindo suas instruções, simplificadas e adaptadas às demandas da nova era.

    É nesse contexto que verificamos o aparecimento de uma literatura especial, atribuída a Mestres Ascensos, que oferece novas instruções e regras especiais para o discípulo moderno. Com isso, o discipulado fica ao alcance de todos os interessados, sem os inconvenientes dos requisitos tradicionais de purificação e disciplina, que sempre demandaram total dedicação por longos anos, quando não muitas vidas. De acordo com essa nova dispensação, o carma poderia ser agora transcendido em poucos anos, e não precisaria mais ser inteiramente equacionado para que a Iniciação máxima fosse alcançada, permitindo ao discípulo “Ascender”.

    Milhares de pessoas em todo mundo passaram a se afiliar a esses novos grupos. O processo de democratização, que inicialmente restringiu-se à universalização do voto, sendo mais tarde estendido para a universalização do ensino e das oportunidades profissionais para todos, estaria chegando agora ao último reduto tradicionalmente conservador, a vida espiritual. Essa crescente hoste de entusiastas da nova espiritualidade demonstra o mesmo entusiasmo e dedicação dos recém convertidos das religiões proféticas, e fala com otimismo sobre seu progresso espiritual e a perspectiva de talvez ascender nesta mesma vida.

    Todos nós sabemos, por experiência própria, como é difícil encontrar todos os elementos e informações necessárias para fazermos as melhores escolhas em nossa vida, em todos os níveis, inclusive o espiritual. Essa dificuldade é especialmente crítica para aqueles que recém despertaram para a vida espiritual. Tudo é novidade! O objetivo deste ensaio é examinar as implicações dessas promessas de aceleração do progresso espiritual, comparando as instruções da milenar tradição do caminho do discipulado que leva a Iniciações progressivas, com as doutrinas e práticas apresentadas nas mensagens atribuídas aos Mestres Ascensos.

     

    CONHECIMENTO DOS MESTRES

    Até meados do século XIX muito pouco era conhecido no Ocidente sobre os Grandes Seres, chamados no Oriente de Mahatmas, ou Mestres de Sabedoria. No Oriente, principalmente na Índia, os Mestres já eram conhecidos há milênios nos meios dos devotos e iogues. No Ocidente, no entanto, somente os discípulos aceitos (uma diminuta parcela da população) conheciam seus Mestres, guardando essa informação de forma reservada, por respeito a esses Santos Seres e para a proteção deles.

    Foi somente a partir do final do século XIX, com a fundação da Sociedade Teosófica e posteriormente com a divulgação dos escritos de H. P. Blavatsky, que o conhecimento da existência dos Mestres se espalhou nos meios esotéricos e filosóficos na Europa e nas Américas. Alguns colaboradores de Blavatsky foram contrários a essa divulgação, em virtude da tradicional reserva observada pelos discípulos com relação a comentários públicos sobre a existência de seus instrutores. Mas os tempos eram outros e os próprios Mestres contribuíram indiretamente para que sua existência fosse amplamente divulgada no Ocidente.

     

    AS CARTAS DOS MESTRES

    O principal meio de divulgação da existência e do trabalho dos Mestres foi à publicação, no início do século XX, de uma longa série de cartas escritas pelos Mestres, [2] entre 1880 a 1886, a dois ingleses, A. O. Hume e A. P. Sinnett, sendo a maior parte dirigida a esse último. Sinnett, mais tarde, utilizou o material contido nas cartas para escrever dois livros muito comentados na época: Budismo Esotérico e Mundo Oculto. Os Mestres também enviaram cartas, em menor número, a outros colaboradores seus, sendo muitas dessas coligidas e publicadas por C. Jinarajadasa, com o título de Cartas dos Mestres de Sabedoria.[3]

    Essas cartas são marcos para o estabelecimento de parâmetros sobre os ensinamentos desses Grandes Seres e para o conhecimento de seus métodos de comunicação com aqueles poucos aspirantes que, apesar de não terem sido treinados no caminho ocultista, de alguma forma mereceram recebê-las. Seu valor especial está no fato de serem reconhecidos por quase todos os estudiosos como sendo de autoria dos Mestres. Algumas foram recebidas poucos minutos depois de terem sido escritas por Sinnett, no próprio verso do papel em que as perguntas tinham sido feitas. É importante frisar que a maioria das cartas foi precipitada. O Mahatma K.H. respondendo a Sinnett sobre esse processo disse: “Devo pensar bem, fotografando cuidadosamente cada palavra e frase no meu cérebro antes que possa ser repetida por ‘precipitação’”.[4] Blavatsky comentou sobre esse processo que: “O trabalho de escrever as cartas em questão é efetuado por um tipo de telegrafia psíquica; os Mahatmas raramente escrevem suas cartas da forma usual. Uma conexão eletro-magnético, por assim dizer, existe no plano psíquico entre um Mahatma e seus chelas, um dos quais age como seu secretário.”[5] O curioso é que, não importa qual chela venha a escrever manualmente a carta, a letra será sempre exatamente a do Mestre. Um fato que ainda não foi explicado pela ciência moderna é como a tinta foi colocada, não na superfície do papel, mas no seu interior. Permanece inexplicável, também, como estrias, feitas com a mesma tinta com que a carta foi escrita, foram incorporadas a espaços regulares no papel. Esses e muitos outros detalhes técnicos foram estudados em profundidade por um dos maiores especialistas em grafologia e falsificações, Vernon Harrison, [6] ex-gerente de pesquisas da Thomas De La Rue (equivalente à Casa da Moeda Britânica). Essas cartas encontram-se no Museu Britânico.

    A Summit Lighthouse, uma das principais fontes de canalização de mensagens atribuídas aos Mestres Ascensos, confirma a existência e autenticidade dessas cartas: “a fundação da Sociedade Teosófica deve-se aos Mestres Morya e Koot Hoomi, que a utilizaram para difundir seus ensinamentos para o Ocidente, em parte por meio de cartas pessoais dirigidas a um punhado de alunos teosóficos.”[7]

    É interessante notar que Sinnett nunca chegou a ver fisicamente nenhum dos dois Mestres com quem manteve extensa correspondência. Apesar do interesse de Sinnett em tornar-se um discípulo aceito do Mestre Koot Hoomi, geralmente referido como K.H., seu principal correspondente, foi-lhe dito que ele não tinha os requisitos para ser um discípulo, ou chela, como são conhecidos na Índia. Seus hábitos de vida e, principalmente, seus condicionamentos mentais, militavam contra a simplicidade e disciplina necessárias à vida de um chela. Sem essa disciplina e reorientação de vida, seria impossível para ele passar nos duro teste a que todos os discípulos são submetidos.[8] Noutra ocasião, explicando a natureza do treinamento dos discípulos e como eles deviam arcar com as conseqüências de seu carma, disse: “Não guiamos nunca nossos chelas (mesmo os mais avançados) nem os advertimos previamente, deixando que os efeitos produzidos pelas causas que eles próprios criaram, lhes ensinem pela melhor experiência”.[9] Ao solicitar uma comunicação direta com o Mestre sem comprometer-se a nenhuma mudança em sua vida, recebeu como resposta: “Aquele que quiser erguer alto a bandeira do misticismo e proclamar que o seu reino está próximo tem que dar o exemplo aos outros. Ele deve ser o primeiro a mudar os seus próprios modos de vida.”[10] Quando a correspondência terminou em 1886, depois de seis anos, Sinnett sentiu-se deprimido e, ao que tudo indica, acabou sendo vítima de seu excessivo anseio pela palavra dos Mestres.

    Sinnett confessou em sua Autobiografia que, poucos anos após o término da correspondência, conheceu em Londres uma senhora com dons psíquicos que o teria colocado em contato com os Mestres outra vez. Ele jamais divulgou o nome da senhora, referindo-se a ela simplesmente como Mary. Esse “contato” foi mantido em segredo de seus amigos e colaboradores, ‘em conformidade com o desejo do Mestre.’ ‘Foi informado que se H.P.B. viesse, a saber, sobre Mary, poderia usar seus extensos poderes ocultistas para interferir no contato com o Mestre.’[11] No entanto, com o passar do tempo, foi à própria Mary que mostrou interesse em conhecer Blavatsky, aparentemente recebendo permissão para isto. Quando a reunião finalmente ocorreu, Sinnett escreveu em sua Autobiografia que, ‘H.P.B. não prestou atenção a Mary e não demonstrou nenhuma suspeita sobre suas características.’[12] Ora, Blavatsky era uma discípula avançada, possuía poderosos dons psíquicos, mantinha-se constantemente em contato com seus Instrutores e demonstrou repetidamente ao longo de sua vida total lealdade e obediência aos Mestres. Como esses sempre demonstraram ter total confiança nela, é altamente improvável que Mary fosse realmente um “canal” para o verdadeiro Mestre K.H., como Sinnett acreditava.

    Vale mencionar, que esse período final da vida de Sinnett, supostamente em contato com o Mestre através do “canal” Mary, foi o período mais árido e penoso de sua vida. Passou por sérias dificuldades financeiras, sofrendo a humilhação de ter que se valer da ajuda material de vários de seus antigos amigos para sua sobrevivência. Perdeu seu filho com tuberculose e sua mulher com câncer. Em virtude de divergências com a direção da Sociedade Teosófica em Londres, afastou-se da Sociedade, fundando outra entidade, a “Elusinian Society, que desfez poucos anos depois para retornar à Sociedade Teosófica, onde serviu como Vice-Presidente da Loja de Londres. Apesar do suposto contato com o Mestre, através do “canal” Mary, não publicou mais nada de caráter técnico ocultista, exceto um livro de teor histórico, Os Primeiros Tempos da Teosofia na Europa. 

     

    OUTRAS FONTES DE INFORMAÇÕES SOBRE OS MESTRES

    A partir de então, a literatura esotérica em geral e a teosófica em particular, passou a referir-se extensamente aos Mestres. Informações esparsas divulgadas por alguns de seus discípulos eram repetidas nos círculos esotéricos, nem sempre com a exatidão devida, contribuindo para a criação de certas lendas e imagens distorcidas sobre esses Grandes Seres. Essa situação foi amenizada a partir de 1925, com a publicação do livro, Os Mestres e a Senda, de autoria de C. W. Leadbeater, que era discípulo do Mestre K.H. Leadbeater conhecia pessoalmente seu Mestre bem como alguns outros membros da Grande Fraternidade Branca, como a Comunidade desses Grandes Seres é geralmente conhecida no Oriente, referida na tradição cristã como a Comunhão dos Santos. A obra ajudou a colocar muitos fatos em perspectiva. Leadbeater, era um vidente avançado, conseguindo comunicar-se com vários Mestres, tanto no plano físico como em outros planos. Por ser um discípulo Iniciado, teve acesso direto a um grande número de informações até então desconhecidas no Ocidente. Dentre as revelações de seu livro vale a pena mencionar a estrutura da hierarquia dos Mahatmas, seu modo de operação no mundo e seu processo de treinamento de discípulos.

    Como tudo na vida tem seu lado sombra, ou o reverso da medalha, o livro Os Mestres e a Senda também contribuiu para alimentar as fantasias e ilusões de pessoas encarnadas e desencarnadas. A partir das informações contidas nesse livro, várias entidades do astral começaram a enviar mensagens atribuídas aos Mestres. Essas comunicações geralmente oferecem mensagens calcadas em palavras de solidariedade humana e amor ao próximo. Muitas chamam a atenção para uma eminente crise que deverá se abater sobre nosso planeta se os homens não se regenerarem e atenderem aos apelos dos Mestres para uma mudança de vida. Para aqueles que conhecem a literatura espírita, essas comunicações atribuídas aos Mestres guardam um estreito paralelo com as comunicações de entidades desencarnadas, os “espíritos,” conhecidos dos médiuns desde tempos imemoriais, mas que a partir do século XIX aparentemente passaram a se comunicar com muito maior freqüência, sendo muitas dessas comunicações registradas e levadas ao conhecimento do grande público.

    Em virtude do teor aparentemente benéfico dessas comunicações, muitas pessoas poderiam questionar por que nos preocuparmos com a autoria dessas mensagens. Se elas estão estimulando as pessoas para uma vida mais ética e amorosa, o que importa se essa atribuição aos Mestres é correta ou não? Porém, devemos nos lembrar que o objetivo da vida espiritual é o conhecimento da verdade, objetivo esse indicado por Jesus quando nos disse: “Conhecereis a verdade e a verdade vos libertará” (Jo 8:32). Mas não é só isso. Apesar do teor adocicado das mensagens em pauta, elas trazem em seu bojo três grandes perigos de distorção: sobre a maneira como os Mestres atuam no mundo, a natureza do progresso espiritual dos discípulos e alguns aspectos da vida ocultam.

     

    RELACIONAMENTO E COMUNICAÇÃO ENTRE MESTRE E DISCÍPULO

    Em primeiro lugar, a atribuição dessas mensagens aos Mestres cria uma idéia errônea sobre o método de operação dos Mahatmas no mundo. Provavelmente ainda são válidas as palavras do Mestre K.H. enviadas a Sinnett e aos teosofistas europeus no século XIX: “Nenhum de vocês jamais conseguiu formar uma idéia acurada dos ‘Mestres’ ou das leis do Ocultismo pelas quais eles são guiados”.[13] Os Mestres sempre indicaram que sua latitude para ação no mundo material é consideravelmente limitada e que agem, via de regra, por meio de seus discípulos no mundo e não por meio de comunicações bombásticas ou de fenômenos para-normais, geralmente chamados de milagres.

    Isso ficou claro no caso clássico de Sinnett que, ao longo de sua extensa correspondência, instou os Mestres a demonstrarem cabalmente ao mundo sua existência por meio de algum fenômeno incontestável, como a materialização de um exemplar do jornal The Pioneer em Londres, no mesmo dia de sua publicação na Índia, e dos Times em Simla, na Índia, no mesmo dia de sua publicação em Londres. Em virtude dos meios de transporte da época, a realização desse feito seria um verdadeiro “milagre.” O Mestre K.H. pacientemente explicou a Sinnett: “Justamente porque o teste com o jornal de Londres fecharia a boca dos céticos – ele é impensável... A verdade é que nós trabalhamos usando leis e meios naturais e não sobrenaturais... Você diz que metade de Londres seria convertida se você pudesse entregar ao público de lá o jornal Pioneer no mesmo dia da sua publicação. Permita-me dizer que, se as pessoas acreditassem que a coisa era verdadeira, elas o matariam antes que pudesse dar uma volta no Hyde Park, e se elas não acreditassem, o mínimo que poderia acontecer seria a perda da sua reputação e de seu bom nome, por propagar tais idéias.”[14] O Mestre continuou a carta por várias páginas, apresentando seus argumentos com extrema sabedoria e lucidez, provando a Sinnett que a experiência milenar da Fraternidade comprova que a humanidade sempre resiste aos fenômenos que não consegue explicar, endeusando ou matando aqueles que os apresentam.

     Os Mestres, portanto, agem no mundo através de seus discípulos. Projetos, mensagens ou ações que desejam realizar para a humanidade são efetuados por seus colaboradores no mundo material, sendo atribuídos a esses colaboradores. Esse é um ponto básico, como podemos verificar com obras ‘inspiradas’ como Luz no Caminho, A Doutrina Secreta e tantas outras, que são sempre publicadas em nome do discípulo. O Mestre solicita ou inspira seu discípulo a agir da forma desejada. Mas, deve ficar claro aqui, que o Mestre quando muito solicita, sem jamais atropelar ou forçar o livre arbítrio do ser humano. Os irmãos das trevas agem de forma diferente, manipulando, hipnotizando ou forçando as pessoas, de uma forma ou outra, sem respeitar sua vontade própria.[15] Para os agentes das trevas os fins justificam os meios, para os Seres de Luz isso seria inadmissível.

    Isso nos remete à questão da preparação dos discípulos. Um discípulo é um Mestre em preparação. Está sendo habilmente conduzido a trilhar o caminho da perfeição, como indicou Jesus: “Sede vós perfeitos como o vosso Pai celeste é perfeito” (Mt 5:48). Por isso, um dos objetivos do treinamento é tornar o discípulo cada vez mais auto-suficiente, capaz de trilhar o Caminho com suas próprias pernas e sem ajuda externa. Tanto é assim, que geralmente os Mestres só aceitam como discípulos aqueles aspirantes que já fizeram contato com seu mestre interior, ou seja, sua alma. É por essa razão que a credibilidade e total confiança nas comunicações atribuídas aos Mestres oferece um grande risco, ou seja, de tornar o aspirante dependente das comunicações externas, de guias, rituais e práticas exteriores. Retornaremos a este ponto mais adiante.

    Não queremos dizer com isto que nenhuma comunicação é feita a aspirantes e discípulos no mundo. Certamente que não. A comunicação por cartas, como efetuado com Sinnett, Hume e uns poucos outros, no século XIX, realmente é muito rara. Mas os Mestres comunicam-se com freqüência com seus discípulos por telepatia. Os discípulos mais avançados são treinados nesta forma de comunicação, podendo utilizá-la com seus instrutores e outros discípulos avançados. Mas os colaboradores ainda não admitidos como chelas e os discípulos mais jovens, ainda incapazes de uma comunicação direta com seus instrutores, também têm a oportunidade de contatos com os Mestres. Existem, em diversos países, vários grupos fechados em comunicação com os Grandes Instrutores, geralmente voltados para o treinamento de seus membros e a preparação de certas ações no mundo. Os membros desses grupos são escolhidos por sua comprovada dedicação à causa do bem da humanidade. Para serem aceitos, fazem um voto de segredo sobre suas atividades. Essa é a razão destes grupos raramente serem conhecidos do público.

    Mas os outros aspirantes? Este é um ponto delicado que inicialmente causa frustração aos que procuram seguir o caminho do ocultismo. Para que possamos entender melhor essa questão devemos levar em consideração o papel dos Mestres em relação à humanidade. Sabemos que os Mahatmas são seres que por suas realizações mereceram entrar no Nirvana, ou seja, naquele estado de bem-aventurança divina absolutamente incompreensível a nós seres humanos. No entanto, movidos por uma profunda compaixão, optaram por permanecer na esfera terrena,[16] até que o último ser humano fosse liberto do sofrimento, ajudando neste processo, sempre e em todos os casos de acordo com as leis universais do carma e do livre arbítrio.

    Dentro desses parâmetros, e levando em conta a experiência dos membros da Fraternidade, acumulada ao longo de incontáveis milênios de atuação no mundo, os Mestres sabem exatamente o que pode ser feito e o que deve ser feito para ajudar cada indivíduo no seu estágio atual de evolução. Jamais agem baseados em personalismos e preferências, mas sempre de acordo com os méritos das pessoas, de suas condições cármicas e das oportunidades para estender o maior benefício ao maior número possível de pessoas, por meio das ações a serem realizadas por seus colaboradores no mundo.

    Quando estudamos o maravilhoso trabalho dos Mestres, podemos imaginar que o mundo seria totalmente diferente se uma grande parte da humanidade conhecesse esses Grandes Seres. Isso nos levaria a pensar que um movimento de conscientização popular do trabalho dos Mestres poderia ser um grande facilitador para a evolução. Somos informados, porém, que justamente o contrário é verdadeiro. A última carta escrita pelo Mestre K.H, em 1900, a Annie Besant, então Presidente da Sociedade Teosófica, urgia ação muito específica a esse respeito: “Muito poucos são aqueles que podem saber qualquer coisa a nosso respeito... O falatório acerca dos ‘Mestres’ deve ser silenciosa, mas firmemente eliminado. Que a devoção e o serviço sejam somente para aquele Supremo Espírito, do qual cada um é uma parte. Nós trabalhamos anônima e silenciosamente, e a contínua referência a nós mesmos e a repetição de nossos nomes gera uma aura confusa que atrapalha nosso trabalho”.[17]

     

    A INSPIRAÇÃO DE COLABORADORES DOS MESTRES

    Quando as condições dos aspirantes não permitem um contato direto, os Mestres “inspiram” e ajudam de forma indireta aqueles que se oferecem para servir. Por exemplo, aqueles que estão atuando na comunicação das verdades espirituais, são seguidamente ajudados com idéias, conceitos, argumentos e fatos que simplesmente aparecem em sua mente. Como o plano mental está repleto de formas pensamentos[18] um Mahatma pode facilmente direcionar uma forma pensamento poderosa com as idéias ou conceitos que poderão ajudar naquele momento seu colaborador no plano terreno. O aspirante terá sempre a possibilidade de usar seu discernimento para decidir se adota a idéia ou não. Todos os escritores e oradores sabem, por experiência própria, que quando engajados num projeto altruísta ou que pode trazer benefícios à sociedade, seguidamente as idéias aparecem como se caíssem do céu. Além disso, o que Jung chamou de sincronicidade[19] começa a ocorrer. O indivíduo entra numa livraria e encontra um livro versando exatamente sobre o tema que estava pesquisando. Às vezes a “coincidência” é tal que, ao folhear o livro, abre exatamente na página tratando do assunto de seu interesse imediato.

    Deve ficar claro, porém, que nem todas as “inspirações” têm sua origem nos Mestres. Provavelmente a principal fonte de inspiração é o próprio mestre interior, ou seja, o Eu Superior. Na verdade, nossa natureza superior é a expressão de Deus em nós, conhecidas nos meios ocultam como EU SOU, e referida pelos teólogos como a natureza imanente de Deus. Portanto, o Eu Superior é sempre imensamente mais sábio do que nossa personalidade e, ademais, tem acesso à Mente Divina, chamada muito apropriadamente por Jung de inconsciente coletivo. Por isso, quando estamos devidamente concentrados, podemos entrar em contato com nosso Eu Superior, ainda que não tenhamos consciência disso.

    Outra fonte possível de inspiração são os anjos. Os videntes que desenvolveram a visão espiritual e são capazes de perceber a atividade dos seres normalmente invisíveis aos nossos órgãos de percepção externos, sabem que os anjos estão sempre buscando oportunidades para cooperar com o bem estar e o progresso da humanidade. Em contraste com os seres humanos, em nosso atual estágio evolutivo, que estão sempre procurando tirar proveito próprio de todas as situações, é da natureza dos seres angélicos servir e agir de forma altruísta. Sendo inteiramente desprovidos de ego, não podem agir de forma egoísta, sendo o seu progresso evolutivo função da extensão de seu sacrifício inteligente em prol da evolução em seu plano.[20] Portanto, os anjos do plano mental seguidamente direcionam idéias e pensamentos apropriados para as pessoas que estão engajadas na busca da verdade e, principalmente, para aqueles que estão trabalhando em obras que podem contribuir para a evolução da humanidade.

     

    MÉTODOS DE COMUNICAÇÃO DOS MESTRES

    Convém esclarecer os métodos conhecidos pelos quais os Mestres capacitam seus discípulos a transmitir informações e ensinamentos ao mundo. A tradição esotérica indica que os Mestres geralmente usam dois métodos para transmitir informações que gostariam de divulgar a humanidade. No caso de uma obra que no atual estágio evolutivo da humanidade pode agora ser divulgada, mas que deve ser transmitida absolutamente sem erros, geralmente imprimem telepaticamente o texto na mente do discípulo para que esse, por sua vez, possa escrevê-lo de forma correta. A obra Luz no Caminho teria sido escrita por esse meio por Mabel Collins no século XIX. De acordo com Leadbeater, em casos excepcionais, os Mestres podem até ditar a mensagem a ser transmitida: “Há casos, em que uma incumbência de grande importância é ditada palavra por palavra, e anotada no plano físico, na hora, pelo recipiendário, mas tais casos são sumamente raros”.[21]

    O outro método, geralmente usado com discípulos mais avançados, é a transmissão telepática de informações, conceitos e idéias, deixando por conta do discípulo a formulação do texto final de acordo com seus dons intelectuais e literários. Essas transmissões geralmente ocorrem no plano mental abstrato ou no búdico (intuitivo). Lembramos que nos planos superiores, as comunicações não são realizadas por palavras, como em nosso mundo. Os conceitos são expressos de uma forma simbólica sintética, e devem ser “decodificados” ou “traduzidos” em palavras, pela mente concreta, para serem inteligíveis em nosso plano.

    Um exemplo clássico das comunicações por meio de discípulos avançados é o conhecido trabalho de Blavatsky A Doutrina Secreta. Ela era capaz de recolher informações dos registros akáshicos, ler à distância textos que se encontravam em outros lugares (como na biblioteca secreta do Vaticano) e receber comunicações de diferentes Mestres colaborando na obra. Porém, a tarefa nem sempre era meramente a de receber um ditado, mas sim a de compor, com suas próprias palavras o texto a ser produzido. A Condessa de Wachtmeister, sua companheira constante durante o período em que escreveu A Doutrina Secreta, relata que, um dia: “... ao entrar no gabinete de Blavatsky, encontrei o chão coberto de folhas manuscritas. Perguntei a razão desse aspecto de confusão e ela respondeu: - Sim, tentei doze vezes escrever esta página corretamente e toda vez o Mestre diz que está errado. Acho que vou ficar louca, escrevendo-a tantas vezes; mas deixe-me sozinha; não descansarei enquanto não o conseguir, ainda que tenha de ficar aqui a noite toda. Uma hora mais tarde ouvi sua voz me chamando e, ao entrar, verifiquei que havia, finalmente, concluído o trecho e de maneira satisfatória”.[22]

     

     

    COMUNICAÇÕES CANALIZADAS ATRIBUÍDAS AOS MESTRES

    A principal consideração que nos levou a alertar os estudantes de ocultismo para o perigo dessas comunicações, apesar de seu caráter aparentemente beneficente, é o fato delas conterem muitas distorções e, até mesmo, erros factuais e conceituais. Isso sugere que a grande maioria, se não a quase totalidade dessas mensagens provavelmente não é de autoria dos Mestres. Numa de suas cartas, K.H. disse a Sinnett que não era possível a comunicação com ele por meio de médiuns. “Você quer saber por que é considerado extremamente difícil, se não completamente impossível para os Espíritos puros desencarnados se comunicarem com os homens através de médiuns ou Fantasmasofia. Eu digo que é: (a) devido às atmosferas antagônicas que envolvem respectivamente esses mundos; (b) por causa da diferença extrema que há entre as condições fisiológicas e espirituais; e (c) porque essa cadeia de mundos sobre a qual falei a você não é somente um epiciclóide, mas uma órbita elíptica de existências, tendo como toda elipse não um, mas dois pontos, dois focos, que nunca podem se aproximar um do outro. O homem está em um dos focos, e o Espírito puro no outro”.[23]

    Em outras palavras, as entidades do astral não são confiáveis como instrutores. Com exceção dos seres conhecidos como Nirmanakayas[24] que atuam no plano astral para o benefício daqueles que estão de passagem por aquele plano ou podem receber comunicações astrais, a grande maioria dos habitantes do astral que enviam mensagens para pessoas encarnadas por intermédio de médiuns, já perderam seus princípios superiores e estão em processo de decomposição. No entanto, devido às características especiais daquele plano, essas entidades, melhor conhecidas como cascões, ou cadáveres astrais, retêm parte de sua memória passada e podem, além disso, entrar em sintonia com as emoções e pensamentos das pessoas envolvidas na sessão mediúnica. Por essa razão podem enviar mensagens baseadas no que restou de sua memória do passado bem como no conhecimento atual dos encarnados que participam da sessão. Por isso, as mensagens tendem a refletir a expectativa dos recipiendário, sendo geralmente aceitas, apesar de não acrescentarem nada de novo em termos de ensinamentos.

    O Mestre K.H., respondendo a uma pergunta de Sinnett, que sempre mostrou grande interesse pelos processos mediúnicos, alertou: “Naquele mundo (o astral), meu bom amigo, nós só encontramos máquinas ex-humanas, inconscientes e autômatas; almas em estado de transição, cujas faculdades e individualidades adormecidas estão como uma borboleta em sua crisálida; e os Espíritas esperam que elas falem com sensatez! Colhidas em certas ocasiões pelo vórtice da corrente anormal” mediúnica, “elas se tornam ecos inconscientes de pensamentos e idéias cristalizadas em volta dos que estão presentes”.[25]

    Em inúmeras ocasiões os Mestres alertaram seus correspondentes sobre os perigos das comunicações mediúnicas em geral, e da virtual impossibilidade deste meio ser utilizado pelos Adeptos para suas comunicações com seus colaboradores. Porém, deixaram claro que muitas comunicações espúrias do astral seriam atribuídas a eles. “Pode ocorrer que em função de objetivos próprios nossos médiuns e seus fantasmas sejam deixados à vontade e livres não só para personificar os” Irmãos “, mas até mesmo para forjar nossa letra manuscrita”.[26] Esse ponto deve ser levado em consideração nas mensagens atribuídas aos Mestres. Todos os grandes reformadores espirituais alertam para esse fato. Jesus, por exemplo, disse: “Guardai-vos dos falsos profetas, que vêm a vós disfarçados de ovelhas, mas por dentro são lobos ferozes” (Mt 7:15).

    Apesar de todos os alertas dos Mestres sobre comunicações mediúnicas, o escritor inglês W. Oxley enviou um artigo para publicação no Theosophist, alegando ter recebido instruções do Mestre K.H., em forma astral, em três ocasiões. A situação tornou-se tão confusa que o Mestre Djwal Khul (D.K.), no impedimento de seu Mestre K.H., resolveu esclarecer a questão escrevendo a Sinnett que não era verdade que a entidade comunicando-se com Oxley era o Mestre K.H. E, para evitar a repetição desses tipos de impostura, informa que um procedimento de segurança passará a ser adotado: “De agora em diante qualquer médium ou vidente que se sentir inclinado a alegar que foi visitado por, ou teve uma conversa com, ou viu meu Mestre, terá que comprovar a alegação antecedendo sua afirmativa com TRÊS PALAVRAS SECRETAS, que ele, meu Instrutor, comunicará e deixará sob a guarda do sr. Hume e do sr. Sinnett... Meu Mestre lamenta ser forçado a tomar esta medida, já que infelizmente, no período recente, tais auto-ilusões têm-se tornado bastante freqüentes, e requerem uma pronta providência.”[27]

    Clara Codd, uma profunda estudiosa do ocultismo, escrevendo em meados do século XX sobre comunicações mediúnicas, diz: “Este é um assunto importante a ser pensado nestes dias quando tantos médiuns e clarividentes estão transmitindo mensagens e diretrizes em nome de muitos membros da comunidade dos Adeptos. É realmente extraordinário o rápido crescimento de tais ilusões. No curso de minhas viagens tenho pessoalmente encontrado muitos dos assim chamados adeptos, iniciados, muitos dos quais declarando-se adeptos de alto grau”.[28]

    Os sensitivos também estão sujeitos a enganos em suas visões. “Há muitos clarividentes sinceros, mas não treinados, que transmitem mensagens e ensinamentos supostamente vindos dos Mestres de Sabedoria. Uma sensitiva nata que eu conheci bem na África do Sul – e que, ao mesmo tempo, é dotada de considerável força de caráter e bom-senso, disse-me várias vezes ter, em sua própria experiência, descoberto que quase todas as aparições astrais são ‘mentirosas’. O plano astral é o que H.P.B. chama ‘o mundo da grande ilusão’”.[29] Para que o sensitivo possa ‘ver’ sem distorções no plano astral deve submeter-se a um treinamento rigoroso. Comentando a respeito das visões enganosas que podem ser observadas no astral, o Mestre K.H. escreve: “Há aqueles que são voluntariamente cegos e outros o são involuntariamente. Os médiuns pertencem aos primeiros, os sensitivos aos últimos. A menos que tenham sido adequadamente iniciados e treinados, no que se refere à visão espiritual das coisas e às supostas revelações feitas à humanidade em todas as épocas, desde Sócrates até Swedenborg e ‘Fern’ – nenhum vidente ou clariaudiente treinado por si mesmo viu ou ouviu alguma vez com completa exatidão”.[30]

    Examinemos, agora, algumas das distorções e erros apresentados em certas comunicações atribuídas aos Mestres. Uma das mais citadas e que provocou considerável impacto nos meios esotéricos foram as obras de Alice A. Bailey. Ao longo de quase trinta anos (1922 a 1949), Alice Bailey produziu 24 obras, sendo 18 delas atribuídas a uma entidade, por muito tempo referida simplesmente como “O Tibetano.” Nos últimos anos de suas atividades literárias Bailey deixou escapar, ou deu a conhecer, os fatos não são muito claros, que “O Tibetano” era o Mestre Djwal Khul, que havia ajudado o Mestre K.H. no trabalho da Sociedade Teosófica no século XIX. Alice Bailey tinha uma mente brilhante e, com sua dedicação ao estudo, destacou-se rapidamente nos meios teosóficos, chegando a atuar como coordenadora da sessão esotérica da Sociedade Teosófica nos Estados Unidos. Acabou deixando a S.T. para fundar sua Escola Arcana, que ministrava por correspondência ensinamentos esotéricos, baseados nas instruções atribuídas ao Tibetano.

    Suas obras, escritas num estilo literário um tanto convoluto, que tornava os assuntos tratados muito mais complicados e aparentemente mais profundos, exerceram grande influência nos meios esotéricos, sendo muito citadas. Com a repetição das citações as informações apresentadas em suas obras foram adquirindo uma aura de respeitabilidade inquestionável. Os estudantes de esoterismo que são submetidos a esse bombardeio de informações de fontes aparentemente fidedignas, depois de certo tempo, têm dificuldade para separar o joio do trigo.

    Helena Blavatsky

    Helena Blavatsky

     

     

     

     

    ENERGIA SOLAR: O FUTURO PRESENTE HOJE !

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    ENERGIA SOLAR: O FUTURO PRESENTE HOJE !

    O que é Energia Solar Fotovoltaica ?

     

     

     

    Energia Solar Fotovoltaica é uma fonte de energia renovável obtida pela conversão de energia luminosa em energia elétrica. Não confundir com aquecimento solar, que possui o princípio de funcionamento completamente diferente.

    Como Funciona?


    Para podermos utilizar a energia que vem do Sol, precisamos basicamente de três elementos: os módulos fotovoltaicos, os controladores de carga e as baterias. Os módulos fotovoltaicos Siemens são construídos a partir de pastilhas de silício monocristalino, material de qualidade superior aos similares e com elevada eficiência. A Siemens é líder mundial em fabricação e tecnologia de produção de módulos fotovoltaicos, sendo a única empresa no mundo que possui a tecnologia Powermaxä / TOPSä .
    O segundo elemento, o controlador de carga, é um dispositivo de fundamental importância para preservar as baterias, aumentando sua vida útil. A Siemens oferece uma linha completa de controladores de carga de última geração. As baterias são os elementos que armazenas energia. Com o auxílio delas, os consumidores podem usar à noite ou em períodos de mau tempo a energia irradiada em dias de sol.

    Porque Energia Solar?

    Porque é uma energia limpa, não poluente, confiável, racional, que não requer manutenção e não consome nenhum combustível. Por essas razões, pode ser utilizada em inúmeras aplicações. No Brasil, onde somos privilegiados pelo Sol, existem milhares de instalações para eletrificação rural, cercas elétricas, bombeamento de água e telecomunicações que usam Energia Solar Fotovoltaica.

    Energia Solar Fotovoltaica é cara?


    Ao longo dos últimos 20 anos, o custo da Energia Solar Fotovoltaica caiu de forma espetacular. Hoje em dia, para a grande maioria das aplicações, consegue-se pagar o investimento feito em cerca de dois anos, ou menos.

    Porque Energia Solar Fotovoltaica Siemens?


    Porque a Siemens é líder mundial na fabricação de módulos solares, já tendo produzido cerca de 150MW em módulos fotovoltaicos. A Siemens é uma empresa que investe constantemente em tecnologia, visando sempre a satisfação do consumidor e a excelência dos seus produtos. No Brasil já foram vendidos mais de 50 mil módulos fotovoltaicos para as mais diversas aplicações nas mais remotas localidades.

    DÚVIDAS

    1 – Posso utilizar um painel solar sem a bateria?


    Sim, o painel solar gera energia diretamente do sol e pode-se acender uma lâmpada ou acionar um motor sem a utilização do acumulador de energia (banco de baterias). entretanto os sistemas de energização residencial necessitam da bateria para acumular a energia produzida durante o dia que será utilizada mesmo durante a noite. O uso da energia solar passa então a ser constante e contínuo evitando-se assim que variações de insolação afete o desempenho dos equipamentos instalados.

    2 – Existe alguma limitação para a utilização do sistema de energia solar fotovoltaica?


    O usuário do sistema de energia solar precisa ser antes de mais nada um ser consciente e disciplinado. A autonomia do sistema está diretamente relacionada ao total de energia gerada durante o foto-período (em Ah ou Wh) e o total consumo diário dos equipamentos instalados. Você não pode consumir mais do que está sendo gerado diariamente, sob pena de descarregar o banco de baterias ao longo de um determinado período.

    3 - Em dias nublados ou chuvosos, o sistema solar funciona?

    O que transforma o espectro solar em energia é a intensidade da luz, quando o dia é de céu sem nuvens o painel está produzindo 100% da sua capacidade. Quando a insolação diminui de intensidade, reduz-se também a capacidade de geração. Porém, mesmo em dias nublados ou chuvosos o painel Siemens gera energia.

    4 – Quantos dias de autonomia posso ter em caso de período totalmente chuvoso, por dias consecutivos?


    Quando projetamos um sistema Solar Fotovoltaico, levamos em consideração o consumo diário, para calcular a partir daí a quantidade de energia a ser gerada por foto-período (dia), isto permite uma autonomia de 6-8 dias (na maioria dos casos). Você não pode consumir mais do que esta sendo gerado diariamente, sob pena de trabalhar com um déficit o que irá descarregar a bateria em um determinado período.

    5 - Aumentando a quantidade de baterias, há também um aumento na capacidade do meu sistema?


    Não necessariamente, o que faz com que o seu sistema aumente é o total de Wp a ser gerado, a capacidade do seu sistema cresce de acordo com a quantidade de painéis instalados (total em Wp), como este crescimento pode ser modulavel, você pode a partir de um único painel ir agregando outros pouco a pouco até atingir a demanda total do seu sistema.

    6 - A instalação de um sistema solar necessita ser efetuada por um técnico especializado?


    Você mesmo pode instalar o seu sistema solar fotovoltaico, contanto que siga as instruções constantes no manual do usuário. Tomando todo o cuidado para que a polaridade positivo (+) negativo (-) não seja jamais invertida nas ligações. Consulte o manual do eletricista que voce receberá junto com o seu equipamento e em caso de dúvidas entre em contato conosco, teremos grande satisfação em servi-los.



     

     

    March 14

    ÍNDIOS DO BRASIL

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    HISTÓRIA

    ÍNDIOS DO BRASIL

    CULTURA INDÍGENA E A SUA HISTÓRIA

    Fabio Tuxa

    História dos Índios do Brasil, as tribos indígenas, o contato entre índios e portugueses, a cultura indígena, o trabalho entre as tribos indígenas, a organização dos índios, as nações indígenas.

    Introdução 
    Historiadores afirmam que antes da chegada dos europeus à América havia aproximadamente 100 milhões de índios no continente. Só em território brasileiro, esse número chegava 5 milhões de nativos, aproximadamente. Estes índios brasileiros estavam divididos em tribos, de acordo com o tronco lingüístico ao qual pertenciam: tupi-guaranis ( região do litoral ), macro-jê ou tapuias ( região do Planalto Central), aruaques ( Amazônia ) e caraíbas ( Amazônia).
    Atualmente, calcula-se que apenas 400 mil índios ocupam o território brasileiro, principalmente em reservas indígenas demarcadas e protegidas pelo governo. São cerca de 200 etnias indígenas e 170 línguas. Porém, muitas delas não vivem mais como antes da chegada dos portugueses

    (descobrimento do Brasil).

    O contato com o homem branco fez com que muitas tribos perdessem sua identidade cultural.

    A sociedade indígena na época da chegada dos portugueses. 
    O primeiro contato entre índios e portugueses em 1500 foi de muita estranheza para ambas as partes. As duas culturas eram muito diferentes e pertenciam a mundos completamente distintos. Sabemos muito sobre os índios que viviam naquela época, graças a Carta de Pero Vaz de Caminha  escrivão da expedição de Pedro Álvares Cabral ) e também aos documentos deixados pelos padres jesuítas.

    Os indígenas que habitavam o Brasil em 1500 viviam da caça, da pesca e da agricultura de milho, amendoim, feijão, abóbora, bata-doce e principalmente mandioca. Esta agricultura era praticada de forma bem rudimentar, pois utilizavam a técnica da coivara ( derrubada da mata e queimada para limpar o solo para o plantio).
    Os índios domesticavam animais de pequeno porte como, por exemplo, porco do mato e capivara. Não conheciam o cavalo, o boi e a galinha. Na Carta de Caminha é relatado que os índios se espantaram ao entrar em contato pela primeira vez com uma galinha.

    As tribos indígenas possuíam uma relação baseada em regras sociais, políticas e religiosas. O contato entre as tribos acontecia em momentos de guerras, casamentos, cerimônias de enterro e também no momento de estabelecer alianças contra um inimigo comum.

    Os índios faziam objetos utilizando as matérias-primas da natureza. Vale lembrar que índio respeita muito o meio ambiente, retirando dele somente o necessário para a sua sobrevivência. Desta madeira, construíam canoas, arcos e flechas e suas habitações (ocas ). A palha era utilizada para fazer cestos, esteiras, redes e outros objetos. A cerâmica também era muito utilizada para fazer potes, panelas e utensílios domésticos em geral. Penas e peles de animais serviam para fazer roupas ou enfeites para as cerimônias das tribos. O urucum era muito usado para fazer pinturas no corpo.

    A organização social dos índios
    Entre os indígenas não há classes sociais como a do homem branco. Todos têm os mesmo direitos e recebem o mesmo tratamento. A terra, por exemplo, pertence a todos e quando um índio caça, costuma dividir com os habitantes de sua tribo. Apenas os instrumentos de trabalho  machado, arcos, flechas, arpões ) são de propriedade individual. O trabalho na tribo é realizado por todos, porém possui uma divisão por sexo e idade. As mulheres são responsáveis pela comida, crianças, colheita e plantio. Já os homens da tribo ficam encarregados do trabalho mais pesado: caça, pesca, guerra e derrubada das árvores.

    Duas figuras importantes na organização das tribos são o pajé e o cacique. O pajé é o sacerdote da tribo, pois conhece todos os rituais e recebe as mensagens dos deuses. Ele também é o curandeiro, pois conhece todos os chás e ervas para curar doenças. Ele que faz o ritual da pajelança, onde evoca os deuses da floresta e dos ancestrais para ajudar na cura. O cacique, também importante na vida tribal, faz o papel de chefe, pois organiza e orienta os índios. 

    A educação indígena é bem interessante. Os pequenos índios, conhecidos como curumins, aprender desde pequenos e de forma prática. Costumam observar o que os adultos fazem e vão treinando desde cedo. Quando o pai vai caçar, costuma levar o indiozinho junto para que este aprender. Portanto a educação indígena é bem pratica e vinculada a realidade da vida da tribo. Quando atingem os 13 os 14 anos, o jovem passa por um teste e uma cerimônia para ingressar na vida adulta.

    Os contatos entre indígenas e portugueses
    Como dissemos, os primeiros contatos foram de estranheza e de certa admiração e respeito. Caminha relata a troca de sinais, presentes e informações. Quando os portugueses começam a explorar o pau-brasil das matas, começam a escravizar muitos indígenas ou a utilizar o escambo. Davam espelhos, apitos, colares e chocalhos para os indígenas em troca de seu trabalho. 
    O canto que se segue foi muito prejudicial aos povos indígenas. Interessados nas terras, os portugueses usaram a violência contra os índios. Para tomar as terras, chegavam a matar os nativos ou até mesmo transmitir doenças a eles para dizimar tribos e tomar as terras. Esse comportamento violento seguiu-se por séculos, resultando nos pequenos número de índios que temos hoje.
    A visão que o europeu tinha a respeito dos índios era eurocêntrica. Os portugueses achavam-se superiores aos indígenas e, portanto, deveriam dominá-los e colocá-los ao seu serviço. A cultura indígena era considera pelo europeu como sendo inferior e grosseira. Dentro desta visão, acreditavam que sua função era convertê-los ao cristianismo e fazer os índios seguirem a cultura européia. Foi assim, que aos poucos, os índios foram perdendo sua cultura e também sua identidade.

    Canibalismo
    Algumas tribos eram canibais como, por exemplo, os tupinambás que habitavam o litoral da região sudeste do Brasil. A antropofagia era praticada, pois acreditavam que ao comerem carne humana do inimigo estariam incorporando a sabedoria, valentia e conhecimentos. Desta forma, não se alimentavam da carne de pessoas fracas ou covardes. A prática do canibalismo era feira em rituais simbólicos.

    Religião Indígena
    Cada nação indígena possuía crenças e rituais religiosos diferenciados. Porém, todas as tribos acreditavam nas forças da natureza e nos espíritos dos antepassados. Para estes deuses e espíritos, faziam rituais, cerimônias e festas. O pajé era o responsável por transmitir estes conhecimentos aos habitantes da tribo. Algumas tribos chegavam a enterrar o corpo dos índios em grandes vasos de cerâmica, onde além do cadáver ficavam os objetos pessoais. Isto mostra que estas tribos acreditavam numa vida após a morte.

    CULTURA INDÍGENA

     

     

     

    Cacique

    Os índios do Brasil não formam um só povo. São muitos povos diferentes de nós e entre si. Possuem hábitos, costumes e línguas próprias e, por isso, é errado pensar que todos os índios vivem da mesma maneira.

    Quando os portugueses chegaram ao Brasil, aqui viviam cerca de 5 milhões de índios. As doenças trazidas pelos europeus e as constantes lutas entre índios e brancos fizeram com que muitos grupos desaparecessem.

    Atualmente existem no Brasil aproximadamente 240 mil índios, distribuídos em cerca de 180 grupos diferentes.

    Encontram-se em todo o território brasileiro, com exceção apenas do Distrito Federal e dos Estados do Piauí e Rio Grande do Norte.¶

    Existem grupos indígenas que, por estarem em contato permanente com a nossa sociedade, adotaram muitos hábitos e costumes da nossa cultura, falam o português, usam produtos industrializados mas nem por isso deixam de ser índios. Existem ainda grupos que mantêm contatos apenas ocasionais com os brancos e, finalmente, grupos que não têm qualquer contato com a sociedade, desconhecendo nossos costumes e língua.

    Como exemplo de cultura indígena, convém ressaltar a dos Yanomami, considerados um dos grupos indígenas mais primitivos da América do Sul.

    Os Yanomami têm como território tradicional extensa área da floresta tropical no Brasil e na Venezuela. Possuem uma população em torno de 25.000 índios. No Brasil existem cerca de 10.000 Yanomami situados nos Estados do Amazonas e de Roraima. Falam a língua Yanomami e mantêm ainda vivos os seus usos, costumes e tradições.

    Vivem em grandes casas comunais. A maloca consiste numa moradia redonda, com topo cônico, com uma praça aberta ao centro. Várias famílias vivem sob o teto circular comum, sem paredes dividindo os espaços ocupados. O número de moradores varia entre trinta e cem pessoas.

    Desde a década de 70, com a construção da estrada Perimetral Norte cortando seu território, a operação de mineradores e, hoje, a presença de milhares de garimpeiros têm resultado na destruição da floresta e trazido muitas doenças para os Yanomami, cuja população está sob séria ameaça de desaparecimento.

    CENTRO DE DOCUMENTAÇÃO E INFORMAÇÃO - CEDOC FUNDAÇÃO NACIONAL DO INDIO - FUNAI

     INDIAN CULTURA Imagem:Kamaiurá - Wide.jpg
     

    The Indians from Brazil do not constitute one sole people. They are very different people from us and among themselves. They have characteristic habits, customs and languages and thus it is wrong to think that all Indians live in the same way.

    When the Portuguese arrived in Brazil there were here nearly 5 million Indians. The diseases brought by Europeans and the constant fights between Indians and white men made many groups disappear.

    There are now approximately 240 thousand Indians in Brazil, distributed in around 180 different groups. They are found in the whole Brazilian territory, except in the Federal District and in the States of Piaui and Rio Grande do Norte.

    There are Indians groups that—due to their permanent contact with our society—have adopted many habits and customs of our culture, speak Portuguese, use industrialized products, but even so they are still Indians. There are also groups that keep only occasional contacts with white men and, finally, groups that do not have any contact with the society and ignore our customs and language.

    As an example of Indian culture, it is convenient to emphasize the Yanomami's which are one of the most primitive Indian groups in South America.

    The Yanomami have got as traditional territory, a large area of the rain forest in Brazil and Venezuela. They have a population of around 25,000 Indians. In Brazil there are about 10,000 Yanomami situated in the States of Amazonas and Roraima. They speak the Yanomami language and keep still alive their usages, customs and traditions. They live in big communal houses. The "maloca" {a large hut housing more than one Indian family) consists in a round dwelling, with a conic top and an open square in the center. Several families live under the common to all round roof, without wall to divide the occupied spaces. The number of dwellers varies between thirty and one hundred persons.

    Since the 70's—with the construction of the "Perimetral Norte" road crossing their territory—the miner's operation and nowadays the presence of thousands of prospectors have been resulting in the destruction of the forest and bringing many diseases to the Yanomami whose population is under serious threat of extinction.

    DOCUMENTATION AND INFORMATION CENTRE- CEDOC NATIONAL INDIAN FOUNDATION - FUNAI

     

    http://www.historiadobrasil.net/indiosdobrasil/

     

      Imagem:Kaiapos.jpeg

     

    O Cacique - lider tribal. 

                        Le Chef - lider tribal.

    En français:

    CULTURA INDIEN Les Indiens du Brésil ne constituent pas une personnes uniques. Ils sont les personnes très différentes de nous et parmi eux-mêmes. Ils ont des habitudes caractéristiques, coutumes et des langues et il est ainsi erroné de penser que tous les Indiens vivent de la même manière. Quand le Portugais est arrivé au Brésil il y avait ici presque 5 millions d'Indiens. Les maladies apportées par Européen et les combats constants entre les Indiens et les hommes de blanc ont incité beaucoup de groupes à disparaître. Il y a maintenant approximativement 240 mille Indiens au Brésil, distribué dedans autour 180 groupes différents. Ils sont trouvés dans le territoire brésilien de totalité, à moins que dans la zone fédérale et dans les états de Piaui et de Rio Grande fassiez Norte. Il y a des Indiens que les groupes que-dus de leur contact permanent avec le notre société- ont adopté beaucoup d'habitudes et les coutumes de notre culture, parlent portugais, les produits industrialisés par utilisation, mais néanmoins elles sont les Indiens immobiles. Il y a également des groupes qui gardent seulement les contacts occasionnels avec les hommes blancs et, en conclusion, les groupes qui n'ont aucun contact avec la société et ignorent nos coutumes et langue. Comme exemple de culture indienne, il est commode de souligner le Yanomami qui sont l'un des groupes indiens les plus primitifs en Amérique Du sud. Le Yanomami ont en tant que le territoire traditionnel, un grand secteur de la forêt tropicale au Brésil et Venezuela. Ils ont une population d'environ 25.000 Indiens. Au Brésil il y a environ de 10.000 Yanomami situé dans les états d'Amazonas et de Roraima. Ils parlent la langue de Yanomami et gardent encore vivant leurs utilisations, coutumes et traditions. Ils vivent dans de grandes maisons communales. Le "maloca" {une grande hutte logeant plus d'une famille indienne) consiste en logement rond, avec un dessus conique et une place ouverte au centre. Plusieurs familles vivent sous le terrain communal à tout le toit rond, sans mur pour diviser les espaces occupés. Le nombre d'habitants change entre trente et cent personnes. Puisqu'année 70-avec la construction de la route de "Perimetral Norte" croisant l'opération de leur mineur de territoire-le et de nos jours la présence des milliers de prospecteurs ont été ayant pour résultat la destruction de la forêt et d'apporter beaucoup de maladies au Yanomami dont la population est sous la menace sérieuse de l'extinction. BASE INDIENNE NATIONALE DU CENTRE CEDOC DE DOCUMENTATION ET D'INFORMATION - FUNAI http://www.historiadobrasil.net/indiosdobrasil

    简体中文版:
    印第安CULTURA 印地安人从巴西不构成一单一人。他们是非常另外人从我们和在他们自己之中。他们有典型习性, 风俗并且语言和它因而是错误认为所有印地安人居住相似。 当葡萄牙人到达了在巴西有这里几乎5 百万个印地安人。疾病由欧洲和恒定的战斗带来在印地安人和白人之间使许多小组消失。 有现在大约240 一千个印地安人在巴西, 被分布大约180 个不同小组。他们被发现在整体巴西疆土, 除了在联邦区和在状态Piaui 和里约grande 做Norte 。 有小组适当对他们的永久联络与我们社会采取了许多习性的印地安人并且我们的文化风俗, 讲葡萄牙语, 用途工业化产品, 但即使如此他们是寂静的印地安人。有并且保留唯一偶尔的联络以白人和, 终于, 小组没有任何联络以社会并且忽略我们的风俗和语言的小组。 为例印第安文化, 它是方便强调是最原始的印第安小组的当中一个在南美洲的Yanomami 的。 Yanomami 有作为传统疆土、雨林的一个大区域在巴西和委内瑞拉。他们有大约25,000 个印地安人的人口。在巴西有大约10,000 Yanomami 位于在Amazonas 和Roraima 状态。他们讲Yanomami 语言和保留活他们的用法、风俗和传统。他们居住在大共同房子里。"maloca" {一个大小屋安置超过一个印第安家庭) 包括在一所圆的住宅, 以圆锥形上面和一个开放正方形在中心。几个家庭居住在共同性之下对所有圆的屋顶, 没有墙壁划分被占领的空间。居民的数量变化在三十个和一百个人之间。 因为70 年代与"Perimetral Norte 的" 建筑路横穿他们的疆土这矿工的操作和数以万计存在探油矿者现今是造成森林和带来许多疾病的破坏给人口是在绝种严重的威胁外的Yanomami 。 文献和情报中心CEDOC 全国印第安基础- FUNAI http://www.historiadobrasil.net/indiosdobrasil/

    March 12

    A ÁRVORE DE NIM

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     Divulgação Científica

     

    A ÁRVORE DE NIM

    Propriedades e Formas de Utilização

     

     

     

     

    Helcio de Abreu Júnior  

    Engº. Agrônomo MSc.

       

    História: É uma árvore conhecida a mais de 2.000 anos na Índia e países da Ásia meridional. Utiliza-se suas folhas, frutos, sementes, óleo, torta e raízes para vários propósitos desde controle e repelência de  pragas e doenças, como planta medicinal humana e animal, madeira (substituto do mogno), recuperação de áreas degradadas, adubo e até como anticoncepcional. Até o momento não foi encontrado nenhum efeito tóxico aos seres humanos e animais de sangue quente, sendo extrema e especificamente ativa para insetos, fungos, nematóides e outros organismos ditos inferiores.

     84 Posição taxonômica: Família Meliaceae, Espécie Azadirachta indica.
    Nomes Comuns: Nim e Margosa (espanhol e português), Neem (inglês), Niembaum (alemão).
    Ecologia: A árvore de Nim é famosa pela sua alta resistência e rusticidade. Normalmente cresce sob condições semi-áridas  com precipitação anual média entre 400 a 1.200 mm; no entanto, existem árvores em regiões com precipitação de 2.500 mm/ano. O Nim se desenvolve sob vários tipos de solos, mas prefere os com boa drenagem e arenosos; o pH ideal fica entre 6,2 a 7,0 , apesar de tolerar condições extremas. Se desenvolve melhor sob temperaturas entre 21 e 32oC; sob sol pleno, pode morrer sob temperaturas abaixo de 4oC.  97
    Crescimento e Produção de Frutos: Sob precipitação média de 800 a 1200 mm, pode alcançar 6 a 7 metros em 2,5 anos. Sob solos bons, alcança 1,5 metro em 1 ano. Árvores velhas chegam a ter de 30 a 35 metros de altura. A produção de frutos inicia-se já no 2o ano, porém alcança consideravel volume apenas entre o 3o e o 6o ano de cultivo. 55
    O florescimento se dá geralmente de novembro a dezembro, mas podem ocorrer floradas fora de época. O pico de produção de frutos é de julho a agosto. A árvore de Nim apresenta, ao mesmo tempo, flores e frutos em diferentes estágios de desenvolvimento e maturação. Uma árvore de 8 metros produz aproximadamente 35 a 50 Kg de frutos/ano; já árvores com 6 a 9 anos produzem e média 19,2 Kg/ano. 70
    A relação polpa/semente é de 2:1
    Aproximadamente 1800 sementes pesam 1 quilo.    14
    Propagação e Seleção: O Nim se propaga bem por sementes e também é disperso por pássaros, macacos, que aumentam o poder germinativo após passar pelo seu trato digestivo. Pode também ser propagado por estacas e rebentos provenientes das raízes.
    As sementes perdem a capacidade de germinação após 3 a 4 meses, sob condições normais de ambiente. 50
    Espaçamento de plantio: 1,8 m como cerca viva; bosque 3 a 5 m entre plantas e 5 a 8 entre linhas. A seleção de plantas para maior produção de frutas e ingredientes ativos, não tem tido grande resultado devido estes fatores serem mais dependentes de condições ambientais que fatores genéticos. 45
    Ingredientes Biologicamente Ativos: Azadirachtina (aza) e outros triterpenóides.
    Extratos de frutos, sementes, galhos,  vapor da casca e raiz, possuem atividade:  (1) antialimentícias para insetos (repelente), (2) inseticida, (3) interruptora do crescimento dos insetos (interrompe a ecdise), (4) nematicida, (5) fungicida, (6) bactericida, (7) anti-inflamatória, (8) anti-tumor, (9) imunoestimulatória, dentre outras importantes atividades. Mais de 100 compostos foram isolados de várias partes da árvore.  53
    A média é de 46,7% de óleo e 3,6 mg de azadiractina por grama de semente.
    Mais de 413 espécies de insetos pragas de cultivos são sensíveis ao Nim, destas existem no Brasil, 98.  32
    Modo de Utilização
    Óleo de Nim diluído em água na concentração de 0,5%  e pulverizado.
    Indicações: Mosca branca (Bemisia tabaci), Alternaria tenuis, pulgões, Aphis gossypii - pulgão verde, baratas, Traça do amendoim - Corcyra cephalonica, Culex fatigans, Diabrotica sp., Fusarium oxysporum, Lagarta das maçãs do algodoeiro-Heliothis virescens, Mosca minadora - Liriomyza sativae(sementes), Meloidogyne arenaria, M. javanica, M. incognita (raízes, folhas, torta), Musca domestica, Pieris brassicae, Traça das crucíferas - Plutella xylostela (folhas e sementes), Rhizoctonia solani, R. oryzae, Sclerotium rolfsii, Sitotroga cerealella, Spodoptera frugiperda, Tribolium castaneum, Rhizoperta dominica, pragas de hortaliças, traças, lagartas, pulgões, gafanhotos, lagarta do cartucho, lagartas das hortaliças, bicho minador dos citros. 90
     O prensado de sementes de Nim misturado ao solo na base de 1a 2 t/ha protege as beringelas contra minadoras e tomates contra nematóides e septoriose. Para controle de parasitas internos dos animais: colocar 10% de torta de sementes na alimentação.   39
    250 gramas de folhas maduras de Nim + 20 litros de água
     Bater no liqüidificador as folhas de Nim com um pouco de água. Deixar descansando por uma noite, coar e completar o volume. Pulverizar sobre os animais logo em seguida.
    Indicação: carrapatos, pulgas, bernes, mosca dos chifres, piolho.
    Precauções: tóxico a peixes, não há período de carência. Baixa toxicidade a mamíferos.
    Na medicina: Efeitos contra malária e doença de chagas, antinflamatório, antidiabetes, antifúngico, antifertilidade (previne concepção), anticárie e  homeopatia.
    Cosméticos: sabonete, creme para pele,  creme dental, hidratante, shampoo, espessante  76
    Para saber mais: SCHMUTTERER, H. The Neem Tree, source of unique products for integrated pest manegement, medicine, industry and other purposes, Cambridge; Toquio: VCH, 696pp, 1995.
    ABREU JUNIOR, H. et alli. Práticas alternativas de Controle de Pragas e Doenças na Agricultura, EMOPI, Gráfica Editoral, 111pp., 1998.

    http://www.guiabioagri.com.br/index.php?option=com_content&task=view&id=253&Itemid=2

    March 07

    Podemos viver (e debater) juntos?

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     Divulgação Científica

     

    Podemos viver (e debater) juntos?

    Verônica Lima

    Nos últimos séculos, a ciência tendeu a apologizar o conceito de objetividade científica. Tal dominância se deveu à utilização de um procedimento metodológico que estabeleceu a separação sujeito-objeto e representou uma opção metodológica absolutamente coerente com uma visão cartesiana e dicotômica de mundo. Estudar os fenômenos da sociedade humana com base numa visão cartesiana de mundo virou lei, e tal visão passou a ser reconhecida como verdade universal. O difícil é transcendê-la. Mas existe o desafio de estudá-la como resultado do processo de des-fragmentação do Real pela Mente Humana na construção da História da Vida. Este é, basicamente, o fundamento epistemológico das nossas preocupações atuais. Recuperando a contribuição dos pré-socráticos na sistematização da História da Vida, estamos empenhados em discutir exaustivamente sobre a gênese da dicotomia, seus limites e condicionamentos, bem como sobre a temporalidade de conceitos e teorias e, por conseqüência, a aporia do racionalismo enquanto marco interpretativo da própria sociedade humana.
    Alguma novidade neste tipo de preocupação? Nem tanto. Até porque, vez por outra, este tipo de discussão costuma acontecer no espaço criado pelos compêndios de Filosofia. Ou, então em rodas de debates intelectuais que se formam em universidades ou nos bares das esquinas de qualquer país do mundo.

    A diferença do que estamos propondo agora é outra. Queremos propor um espaço alternativo de discussão. Um espaço capaz de aglutinar pessoas iguais e diferentes, sem distinção, sem preconceito e sem preferências. Um espaço de idéias que possa envolver pessoas e grupos com perfis teóricos, ideológicos e culturais distintos. Falando línguas diferentes e propondo políticas diferentes. Algo verdadeiramente democrático, denso, emocional, porém real. Onde as discussões possam ser mornas, formais, informais ou até mesmo estrepitosas. Mas terão de ser respeitosas e transparentes. Numa (quase) reedição da ágora grega como espaço de cidadania...

     

     

    In English:

     

     

    We can live (and debate) together? In the last centuries, science tended to apologizar the concept of scientific objetividade. Such dominância if had to the use of a metodológico procedure that established the separation citizen-object and represented absolutely coherent a metodológica option with a cartesian and dicotômica vision of world. To study the phenomena of the society human being with base in a cartesian vision of world turned law, and such vision started to be recognized as universal truth. The difficult is to exceed it. But the challenge exists to study it as resulted of the process of DES-SPALLING of the Real for the Mind Human being in the construction of the History of the Life. This is, basically, the epistemológico bedding of our current concerns. Recouping the contribution of the daily pay-socráticos in the systematization of the History of the Life, we are pledged in arguing exhaustingly on gênese of the dichotomy, its limits and conditionings, as well as on the temporality of concepts and theories and, for consequence, the aporia of the rationalism while interpretativo landmark of the proper society human being. Some newness in this type of concern? Nor in such a way. Even because, time for another one, this type of quarrel costuma to happen in the space created by the compendiums of Philosophy. Or, then in wheels of intellectual debates that if they form in university or the bars of the esquinas of any country of the world. The difference of that we are considering now is another one. We want to consider an alternative space of quarrel. A space capable to agglutinate equal and different people, without distinction, preconception and preferences. A space of ideas that can involve people and groups with theoretical profiles, ideological and cultural distinct. Saying different languages and considering different politics. Something truily democratic, dense, emotional, however real. Where the quarrels can be mornas, deeds of division, informal or even though estrepitosas. But they will have of being respectful and transparent. In one (almost) new edition of the ágora Greek as citizenship space...

     

     

    En français:

     

     

    Nous pouvons de phase (et discussion) ensemble ? En derniers siècles, la science a tendu à apologizar le concept de l'objetividade scientifique. Un tel dominância si doit l'utilisation d'un procédé de metodológico qui a établi l'citoyen-objet de séparation et absolument le logique représenté une option de metodológica avec une vision cartésienne et de dicotômica de monde. Étudier les phénomènes de l'être humain de société avec la base dans une vision cartésienne de monde a tourné la loi, et une telle vision a commencé à être identifiée en tant que vérité universelle. Le difficile doit l'excéder. Mais le défi existe pour l'étudier comme résultat du processus de DES-SPALLING du vrai pour l'être humain d'esprit dans la construction de l'histoire de la vie. C'est, fondamentalement, la literie d'epistemológico de nos soucis courants. En récupérant la contribution du quotidien payez-socráticos dans la systématisation de l'histoire de la vie, nous sommes mis en gage en discutant exhaustingly sur gênese de la dichotomie, ses limites et conditionings, aussi bien que sur le temporality des concepts et les théories et, la conséquence, l'aporia du rationalism tandis que borne limite d'interpretativo de l'être humain de société appropriée. De la nouveauté dans ce type de souci ? Ni d'une telle manière. Même parce que, heure pour encore, ce type de costuma de querelle de se produire dans l'espace créé par les abrégés de la philosophie. Ou, puis dans des roues des discussions intellectuelles qui s'ils forment à l'université ou aux barres des esquinas de n'importe quel pays du monde. La différence de cela que nous considérons maintenant est encore. Nous voulons considérer un espace alternatif de querelle. Un espace capable pour agglutiner les personnes égales et différentes, sans distinction, préconception et préférences. Un espace des idées qui peuvent faire participer des personnes et des groupes de distincts de profils, idéologiques et culturels théoriques. Disant différentes langues et vu la politique différente. Quelque chose truily démocratique, dense, émotif, de quelque manière que vrai. Là où les querelles peuvent être des mornas, des contrats de division, sans cérémonie ou même cependant d'estrepitosas. Mais elles auront d'être respectueuses et transparentes. En une (presque) nouvelle édition du Grec de ágora comme citoyenneté espacez...

     

     

     

     

    Auf deutsch:

     

    Wir können Phasen- (und Debatte) zusammen?

    In den letzten Jahrhunderten neigte Wissenschaft zu apologizar das Konzept des wissenschaftlichen objetividade. Solches dominância wenn muß der Gebrauch von einem metodológico Verfahren, das den Trennung Bürger-Gegenstand und das dargestellte absolut zusammenhängende eine metodológica Wahl mit einem kartesischem und dicotômica Anblick der Welt herstellte. Die Phänomene des menschlichen Wesens der Gesellschaft mit Unterseite in einem kartesischen Anblick der Welt zu studieren drehte Gesetz, und solcher Anblick begann als Universalwahrheit erkannt zu werden. Das schwierige soll ihn übersteigen. Aber die Herausforderung besteht, um es zu studieren, wie vom Prozeß von DES-SPALLING vom realen für das Sinnesmenschliche Wesen im Aufbau der Geschichte des Lebens resultiert. Dieses ist im Allgemeinen die epistemológico Bettwäsche unserer gegenwärtigen Interessen. Den Beitrag vom täglichen wieder einbringend, zahlenSie in der Systematisierung der Geschichte des Lebens, werden wir versprochen, wenn sie exhaustingly auf gênese der Dichotomie argumentieren, seiner Begrenzungen und der conditionings, sowie auf dem Temporality von Konzepten und Theorien und, für Konsequenz, das aporia des rationalism während interpretativo Grenzstein des menschlichen Wesens der korrekten Gesellschaft. Etwas Neuheit in dieser Art des Interesses? Noch in solch einer Weise. Sogar weil, Zeit für eine andere, diese Art von Streit costuma, im Raum zu geschehen verursacht durch die Kompendien der Philosophie. Oder, dann in den Rädern der intellektuellen Debatten die, wenn sie in der Universität oder in den Stäben der esquinas irgendeines Landes der Welt sich bilden. Der Unterschied von dem, den wir jetzt betrachten, ist ein anderer. Wir möchten einen alternativen Raum des Streites betrachten. Ein Raum fähig die gleichen und unterschiedlichen Leute, ohne Unterscheidung, vorgefaßte Meinung und Präferenzen verbinden. Ein Raum der Ideen, die Leute und Gruppen in theoretische Profil-, ideologische und kulturelleeindeutige mit einbeziehen können. Unterschiedliche Sprachen und in Betracht der unterschiedlichen Politik sagen. Etwas truily demokratisch, dicht, emotional, jedoch real. Wo die Streite mornas, Briefe der Abteilung, formloses sein können oder sogar zwar der estrepitosas. Aber sie haben vom Sein respektvoll und transparent. In einer (fast) Neuauflage des ágora Griechen als Staatsbürgerschaft sperren Sie...

     

     

    简体中文版:
     

    用英: 们一起能活(辩论)? 在上个世, 科学趋向了对apologizar 科学objetividade 的概念。这样的domin4ancia 如果必须建立分离公民对象和代表的绝对连贯一个metodol3ogica 选择以世界解析和dicot4omica 视觉对metodol3ogico 做法的用途。学习社会人的现象以在世界解析的视觉的基地转动了法律, 这样的视觉开始被认出象普遍真相。困难将超出它。但挑战结果存在DES-SPALLING 过程学习它真正为头脑人在生活的历史的建筑。这是, 基本上, 们当前的关心epistemol3ogico 卧具。收回贡献每日支付socr3aticos 在生活的历史的系统化, 们被承诺在exhaustingly 论在g4enese 二分化、它的极限和conditionings, 并且在概念的temporality 和理论和, 后果, rationalism aporia 当适当的社会人的interpretativo 标。一些新奇在这类型关心? 亦不用这样方式。因为, 时刻为另外一个, 这类型争吵costuma 发生在空间由哲学纲要创造。或, 然后在智力辩论里轮子如果他们形成在大学或世界的任一个国家esquinas 的酒吧。那区别我们现在考虑是另外一个。我们想要考虑争吵供选择的空间。空间可胜任凝集相等和另外人, 没有分别、预想和特选。可能涉及人和小组与理论外形, 思想和文化分明想法的空间。说不同的语言和就另外政治而论。truily 民主事, 密集, 情感, 真正。那里争吵可能是分裂, 不拘形式的甚至虽则estrepitosas mornas, 为。但他们将有恭敬和透明。在3agora 希腊人的一(几乎) 新版作为公民身份间隔...

     

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    March 05

    THE ANGUISH WHEEL

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    Divulgação Científica

     

    THE ANGUISH WHEEL:

    OR THE CYCLICAL RUPTURES OF THE PARADIGMS

     

    by Verônica Lima

     

     

            In the last decade of the XX century, most of the studies on Latin America societies have tended to emphasize the economic crisis and its different forms of confrontation. For me, this is not enough. And for different reasons.

            At first, I think that anyone who studies Latin America societies should consider the cycles of history and the way that all the crisis of civilization had come about. He also has to be very carefully with the theoretical framework he uses, mainly because the studies about the crisis have tended to be attached to some schools of thought. On the other hand, the researcher may also be influenced by ideological assumptions. Doing that, the researcher may lose his own space of academic freedom on behalf of a direction of evidence in the sign of others author influence. We can not also forget that he may take for granted some stereotypes and dogmas.

     

     

     

    悲痛輪子: 或範例的週期破裂

     

    Veronica 利瑪 XX 的最後十年世紀, 大多關於拉丁美洲社會的研究傾向於強調經濟危機和它交鋒的不同的形式。為我, 這不是足夠。並且為不同的原因。起初, 我認為, 任何人學習拉丁美洲社會應該考慮文明所有危機來了歷史和方法的週期。他必須非常仔細地還是以他使用的理論框架, 主要因為研究關於危機傾向於附有一些想法。另一方面, 研究員也許被思想假定並且影響。做那, 研究員也許丟失學術自由他自己的空間代表證據的方向在其他人的標誌作者影響。我們無法並且忘記, 他也許採取為授予了一些陳腔濫調和教條。

     

    明天

     

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    March 04

    A MISÉRIA DA CIÊNCIA

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    A crise da concepção arquetípica de mundo

                   

    Verônica Lima

                    Com o trabalho de recuperação de dados sobre a privatização na América Latina conseguimos, por um lado, desvelar o fio condutor do processo histórico atual que, com base num conceito linear e unidimensional de tempo[1], estaria contribuindo para engendrar o recrudescimento da visão materialista de mundo. Por outro lado, conseguimos, igualmente, acompanhar o processo de reedição da singularidade construída por meio da retomada do primado do privado. Falta-nos, no entanto, a construção da ponte entre o geral e o particular, ou seja, falta-nos comprovar a ligação entre esta forma de construção do real e a sua concepção arquetípica. Sem isso, estaríamos apenas confirmando uma visão fragmentária da história, que procuramos antagonizar desde o princípio.

           

    O gargalo da Razão Material como crise do modelo dicotômico de mundo

     

                    (Daí porque se torna necessária) uma crítica social radical, renovada e praticada no apogeu da crise do sistema produtor de mercadorias, (e que nos consiga conduzir a) emancipação completa de suas idéias anteriores, já obsoletas...[2]

     

    A reiteração dicotômica e a exaustão crescente do modelo ocidental de mundo

     

            Epistemologicamente falando, havíamos discutido na primeira parte deste trabalho que a relação público e privado estaria incrustada na matriz dicotômica do processo civilizatório. O estatuto desta relação estaria articulado com a visão de mundo passível de contrapôr o Eu ao Outro, o Homem à Mulher, o Indivíduo ao Estado, dentre outros.

     

            Também já discutimos que a criação de dicotomias, por outro lado, também teria sido fundamentada no processo de individualização do homem, enquanto resultado de um processo psicológico de conquista progressiva de autoconsciência e de autoconhecimento, bem como da luta pelo desenvolvimento da sensibilidade. O apego emocional às coisas teria convergido num apego material às coisas, e, neste encadeamento do processo evolutivo, dicotomização e materialização teriam se fundido na condução do processo da vida.    

     

            Dentro desta dinâmica, o estágio evolutivo atual, que teria contribuído para reengendrar o primado do privado pela via da enfatização e da ubiqüidização do movimento de privatização no mundo contemporâneo, decorreria da concretização de um princípio, que, como tal, não precisaria ser comprovado, porém apenas demonstrado. Desde que inserida no caudal principal da história da humanidade, portanto, a privatização funcionaria como a reedição de uma visão singular de mundo, na qual o restabelecimento do primado do privado seria o resultado potenciado da mesma visão individualista de mundo que, ao nível da raça atual, surgira na Grécia Antiga.         No entanto, neste momento histórico particular de constituição da singularidade, o binômio unidade / pluralidade teria sido deslocado de uma esfera cosmológica para reaparecer sob a forma de uma dualidade entre tensões opostas.  No momento de inauguração desta cosmovisão na história, isto é, no período pós-homérico e pré-socrático, isto teria sido o resultado mais imediato de um processo de desfetichização / humanização dos deuses.

     

            Contemporaneamente, contudo, estamos assistindo a um momento de reedição da singularidade - e que ainda tem como base o próprio modelo ocidental de mundo que o paradigma cartesiano – contratualista – privatista - racionalista apenas contribuiu para amplificar - em que a forma privilegiada de recomposição do papel do sujeito da história dar-se-ia através de uma nova estrutura de regulação do mundo, ou seja, por um processo de desfetichização do Estado.

     

            Filosoficamente falando, conseguimos evidenciar anteriormente que o momento da primeira ruptura já conseguiria ser plenamente evidenciado na obra de Parmênides de Eléia. Aristóteles, que vem depois, é o admirável sistematizador desta visão de mundo, sendo, inclusive, considerado o pai da história e o fundador das disciplinas filosóficas, porém ela surge antes dele. Neste sentido, a visão egocentrada de mundo teria progredido como o resultado de um processo de quebra/simplificação progressiva: a) Primeiro, de sua nucleação dicotômica, exemplificada numa contraposição entre o Eu & o Outro; b) Segundo, da transformação deste binômio num conceito aleijado de indivíduo-unidade.

     

            Então, ambas as noções, de sujeito-unitário e de dicotomia, manteriam entre si uma relação de biunivocidade, no qual o primeiro se resolveria dicotomicamente e a dicotomia conseguiria dissolver o próprio sujeito-unitário, isto é, enquanto um espaço de bidimensionalidade ou um plano de ação concreta, que se resolve unidimensionalmente.  O crescendo de dicotomização também teria sido necessário para a sedimentação de um espaço de atuação, vale dizer, para que a sociedade originária pudesse superar, primeiro a tribo, e depois, de uma maneira seqüenciada, a polis, o Estado territorial e agora, o próprio Estado moderno constituído.

     

            No momento da constituição do Estado-nação, este encadeamento específico teria sido reeditado pela via de uma contraposição entre indivíduo & Estado. Com isto, a trilogia básica, de influência aristotélica, com base no consenso, na natureza (physis) e na razão, passara a ser reduzida e ampliada na história do homem e das idéias dos homens pelo poder do príncipe (Maquiavel); pela soberania (Jean Bodin); pelo direito natural (Thomas Hobbes); pelo contrato, liberdade e propriedade (John Locke); e, até mesmo, pela noção de igualdade, de índole rousseauniana.

     

            O instrumento para a composição desta visão particular de mundo, cujo cerne é a hegemonização da visão dicotômica de mundo, seria a transfiguração da própria grande dicotomia público versus privado, numa resolução, fundamental e hodiernamente, monádica. Esta visão teria sido consolidada a partir de seus desdobramentos históricos em duplas antitéticas, que formal e subliminarmente teriam sido reforçadas no decurso da própria história. Num primeiro momento, por conta de uma contraposição da descendência por linhagem materna e da descendência por linhagem paterna e, progressivamente, pela antagonização da propriedade comum versus propriedade privada, pelo confronto do ordenamento gentílico versus organização do Estado, pela constituição da res publica versus res privada, pela substantivação da família versus Estado (no sentido aristotélico de societas domestica verus societas civilis, onde civilis de civita corresponde exatamente a politikós de pólis), pela estruturação da pólis (no sentido aristotélico) versus Estado, pela organização da societas civilis  (no sentido aristotélico de sociedade natural) versus estado da natureza  (de sentido hobbesiano, de sociedade instituída ou artificial, o homo artificialis ou a machina machinarum), pela transformação do estado da natureza versus estado civil (aqui já no sentido de sociedade política), pela configuração da lei versus contrato, pela apologização da sociedade de iguais (no sentido formalmente econômico ou da esfera econômica) versus sociedade de desiguais (no sentido formalmente político ou da esfera política) e, finalmente, pela consubstanciação da sociedade civil versus sociedade política.        

     

    Uma retrospectiva necessária: A dicotomia originária e as dicotomias manifestadas no plano da ação concreta

     

    A. A dicotomia originária: O Eu versus o Outro

     

            Em sua essência, procuramos recuperar o fio da própria história do mundo ocidental e da disseminação do conceito de indivíduo-unidade, enquanto agente do processo civilizatório, enquanto fundamento privilegiado do longo processo de materialização da vida. Num feedback temporalmente datado, procuramos identificá-lo[3] no berço da própria civilização ocidental, em sua resolução parmediana.

     

            Com o advento da sociedade burguesa, entretanto, o indivíduo e o individualismo renascem enquanto justificativa fenomenológica. O cartesianismo lhe serve de pressuposto filosófico e o contratualismo, de um limite natural à manifestação de excessos. Já estamos, é óbvio, numa sociedade em que nasceu o mercado e onde a relação entre os homens se dá entre os indivíduos que estabelecem relações de caráter mercantil, comercial. Dentro desta visão, a relação entre os sujeitos concebidos como unidade só pode se basear na dicotomia, ou seja, numa relação de exclusividade e de contraposição. O mercado funcionaria como o homogeneizador necessário desta relação.

     

    B. As dicotomias manifestadas no terreno da ação concreta:

    B.1 Público versus Privado

     

           No decurso do próprio processo evolutivo, portanto, procuramos evidenciar que o conceito de Indivíduo-Unidade teria imposto o aparecimento de sua tensão oposta, codificada na figura do Estado. Antes da concretização desta manifestação, no entanto, precisava ser explicitada a sua forma de regulação, de índole dicotômica, que vai se dar por meio da distinção entre Público e Privado, a qual vai tratar de estabelecer, no terreno socio-político e econômico, os limites entre a liberdade e a propriedade.

     

            Com Locke, inclusive, e rememorando dialeticamente aos gregos, a noção de público termina sendo reentronizada na história, só que, desta vez, esta noção vai aparecer, e muito mais claramente, como um instrumento de delimitação do espaço da liberdade enquanto exercício da propriedade[4]. Neste sentido, a separação entre as esferas pública e privada estaria a embasar o próprio campo de atuação das liberdades políticas, enquanto garantia necessária para a tutelagem, ao nível político, da propriedade, e, portanto, da livre iniciativa[5]. Tratava-se dos movimentos preliminares da constituição da sociedade burguesa, com base na distinção entre sociedade política e sociedade civil, por meio de uma transformação do indivíduo em cidadão. Daí porque a noção do Estado como contrato revela o caráter mercantil comercial das relações sociais burguesas e se afirma como uma formulação necessária àquele momento histórico específico. 

     

    B.2 Lei versus Contrato

     

            Neste momento, no qual se formam e se individualizam os próprios Estados-nações, a dicotomia Lei & Contrato se torna novamente necessária[6]. Embora já se encontrasse presente na obra ciceroniana[7], esta dicotomia vai ser indispensável à constituição da nova sociedade e do novo Estado. Porisso é que ela vai ser dialeticamente retomada pelos contratualistas com uma nova ênfase: desta feita, Hobbes[8] vai defender a necessidade de um contrato para refrear os egoísmos do homem e Locke vai reconhecê-lo como o fundamento da própria sociedade e do Estado.

     

            No encadeamento deste processo, o contrato social hobbesiano vai potencializar exatamente a concepção privatista do Estado[9], concepção esta que é amplificada pela apologização da liberdade como diferença[10]. Neste sentido, é que a dicotomia Lei & Contrato termina se afigurando como um corolário da dicotomia Público & Privado, desde que ambas contribuem para aprofundar o primado do privado enquanto concepção arquetípica.

     

            Outra formulação da dicotomia Lei & Contrato, desta feita com base no conceito de liberdade como igualdade - onde o contrato social estaria centrado na vontade geral, na soberania do povo e numa concepção democrático-burguesa da liberdade - está presente na obra de Rousseau[11]. Tal concepção, malgrado o fato de ainda conservar o veio individualista[12], substituiria a concepção privatista do Estado por uma concepção democrática do Estado, tendo servido de esteio para a fundamentação do Estado do Bem-Estar Social, que hoje vem sendo desmantelado.

     

            Com tal desmantelamento, estamos vivenciando ciclicamente a reiteração da dicotomia Público & Privado (enquanto espaço de atuação) e da dicotomia Lei & Contrato  (enquanto forma de regulação) em sua versão hobbesiana-lockeana, articuladamente a uma terceira dicotomia, que foi fundante dentro da dinâmica civilizatória, e que é representada pelo Indivíduo & Estado (enquanto agente de viabilização)[13].

     

    B.3 Indivíduo versus Estado[14]

           

            Em sua essência, o Estado moderno, que plasma e dá substância ao Estado-nação em seu nascimento e configuração histórica, não teria sido concebido apenas para concretizar uma idéia de moral ou da realidade da razão[15], mas, semelhantemente aos gregos e aos romanos, ele teria sido reentronizado como um produto da maturidade do processo de materialização da idéia de mundo. A diferença entre o ideário greco-romano e o renascentista, no entanto, residiria no crescendo desta visão materialista, já que, diferentemente da concepção aristotélica original, no qual o conceito eudemonológico representava o aspecto fundante, o Estado moderno não tem mais a função de assegurar a felicidade e a virtude, porém, pelo contrário, começa a se manifestar exatamente como o resultado de uma noção de poder imposta de fora para dentro[16].

     

            Daí porque, enquanto sustentáculo da Razão Material em processo de profundização histórica e enquanto lócus privilegiado da manifestação da dicotomia Indivíduo & Estado, o Estado-nação nasce como o resultado da constatação de que a sociedade humana aprofundara a sua contradição consigo mesma e estaria dividida em antagonismos irreconciliáveis[17]. Isto porque, ao aprofundar-se como uma extroversão necessária à manifestação de uma unidade dicotomizada e dicotomizadora, o Estado só poderia igualmente se afirmar como o guardião da ordem constituída para a defesa dos ideais de liberdade e propriedade[18] compatíveis com este crescendo materialista e não apenas como o fundamento da expansão da personalidade do indivíduo, como o queria Rousseau, mesmo que manifestadamente numa vontade geral[19]. Naquele momento histórico, a tutelagem do Estado ainda se fazia necessária para o aprofundamento do princípio material da vida, tanto é que, enquanto para o próprio Rousseau, a soberania pertencia ao povo, para Kant a lei já sobreporia à soberania do povo[20].

     

            Só que, progressivamente, tal tutelagem vai se tornando desnecessária, principalmente nos momentos históricos em que se dá uma reconstituição articulada do primado do Privado, do Contrato e do Indivíduo no terreno das idéias e dos assuntos dos homens, como a que acontece agora com a reiteração da defesa do Estado Mínimo. Dentro deste quadro geral, algumas estratégias de políticas públicas terminariam funcionando como pontes entre uma visão arquetípica de mundo e o próprio plano do real. A privatização, por exemplo, seria uma delas, desde que compatível com as condições objetivas do presente momento histórico[21]. 

                 

     



    [1] Representado pelo tempo do calendário.

    [2]  KURZ, Robert. O colapso da modernização. São Paulo: Paz e Terra, 1992. p. 226.

    [3] Como já foi discutido nos primeiros capítulos.

    [4] Esta noção pode ser encontrada em John LOCKE, que, por sinal, é considerado o fundador do empirismo filosófico moderno e teórico da revolução liberal inglesa. Vide GRUPPI. Op. cit. p. 15.

    [5] Ibid. p. 16.

     

    March 02

    A Teoria Critica

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    Divulgação Científica

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    A Teoria Critica

     

     Linhas gerais da teoria critica

     

     A pesquisa social levada a efeito pela teoria critica, propõe-se como teoria da sociedade entendida como um todo; daí, a polemica constante contra as disciplinas setoriais.

     Denunciando a separação e a oposição do indivíduo em relação à sociedade como resultante histórica da divisão de classes, a teoria critica confirma a sua tendência para a critica dialética da economia política. O ponto de partida da teoria critica é a análise do sistema da economia de mercado: desemprego, crises econômicas, militarismo, terrorismo, a condição global das massas, não se baseia nas possibilidades técnicas reduzidas, como era possível no passado, mas em relações produtivas já não adequadas à situação atual.

     A industria cultural como sistema

     O termo Industria Cultural, surgiu para substituir a expressão “cultura de massa” nas notas anteriores à edição definitiva da Dialética do Ilumisnismo. Desde o inicio a interpretação corrente é a de que se trate de uma cultura que nasce espontaneamente das próprias massas, de uma forma  contemporânea de arte popular.

     A estratificação dos produtos culturais, segundo a sua qualidade estética ou o seu interesse, é perfeitamente adequada à lógica de todo o sistema produtivo

     A indenidade do domínio que a industria  cultural exerce sobre os indivíduos; << aquilo que a industria cultural oferece de continuamente novo não e mais do que a representação , sob formas sempre diferentes, de algo que é sempre igual; a mudança oculta um esqueleto, no qual muda tão pouco como no próprio conceito de lucro, desde que este adquiriu o predomínio sobre a cultura. No sistema da indústria cultural, o processo imperativo integra cada elemento, desde o enredo do romance que tem já em mira as filmagens ate ao ultimo dos efeitos sonoros.

     Este sistema condiciona, evidentemente, de forma total, o tipo e a função do processo de consumo e a sua qualidade, bem como a autonomia do consumidor. A máquina da Indústria Cultural, ao preferir a eficácia dos seus produtos, determina o consumo e exclui tudo o que é novo, tudo o que se configura como risco inútil.

     O indivíduo  Na era da Indústria Cultural, o indivíduo deixa de decidir autonomamente. O homem encontra-se em poder de uma sociedade que o manipula e seu bel-prazer: o consumidor não e soberano, como a industria cultural queria fazer crer, não é o seu sujeito mas o seu objeto. À medida que as posições da Indústria Cultural se consolidam, mais podem agir sobre as necessidades do consumidor, guiando-o e disciplinando-o. Divertir-se significa estar de acordo[...]; significa sempre; não dever pensar, esquecer a dor mesmo onde essa dor e exibida.

     A individualidade é substituída pela pseudo-individualidade. O sujeito encontra-se vinculado a uma identidade sem reservas com a sociedade. Na época atual, a Indústria Cultural é uma estrutura social cada vez mais hierárquica e autoritária, transformam a mensagem de uma obediência irreflexiva em valor dominante e avassalador.

     A sociedade é sempre a vencedora e o indivíduo não passa de um fantoche manipulado pelas normas sociais. A influência da Indústria Cultural, em todas as manifestações, leva a alterar a própria individualidade do consumidor, que é como o prisioneiro que cede à tortura por confessar seja o que for, mesmo aquilo que não fez. Algo de semelhante acontece com a resistência do ouvinte de música ligeira ou popular, em virtude da enorme quantidade de que agem sobre ele . assim , a desproporção entre a força de cada indivíduo e a estrutura social concentrada que pesa sobre ele, destrói a sua resistência e, simultaneamente, provoca nele uma má consciência motivada pela sua vontade de resistir. Quando a música ligeira se repete  com tal intensidade que deixa de parecer um meio para parecer um elemento intrínseco ao mundo natural, a resistência assume um aspecto diferente porque a unidade da individualidade começa a desmoronar-se.

     A qualidade do consumo dos produtos culturais 

    Os produtos da Indústria Cultural, desde o mais típico, o filme sonoro, paralisam a imaginação e a espontaneidade pela sua própria constituição objetiva. São feitos da tal modo que a sua adequada apreensão exige não só prontidão de instinto, dotes de observação e competência especifica como também são feitos para impedir a atividade mental do espectador, se este não quiser perder os fatos que lhe passam rapidamente pela frente.

     Construídos propositadamente para um consumo descontraído, não comprometedor cada um desses produtos reflete o modelo do mecanismo econômico que domina o tempo do trabalho e o tempo do lazer.

     Cada espectador de um filme policial televisivo sabe com absoluta certeza como se chega  ao fim. A tensão só é mantida superficialmente e é impossível obter um efeito sério. Pelo contrário o espectador sente, durante toda a emissão, {que está num terreno seguro} .

    Por exemplo, a música ligeira ou popular é feita de tal modo que o processo de tradução da unicidade numa regra, está já planificado e conseguido na própria composição. A composição pelo ouve pelo ouvinte. É desta forma que a música ligeira despoja o ouvinte da sua espontaneidade e fomenta reflexos condicionados. Assemelha-se com tudo, e por tudo, a um questionário de escolha múltipla: que o preenche está limitado a alternativas muito precisas e previamente fixadas.

     Enquanto na música clássica, todos os elementos de reconhecimento são organizados numa totalidade única, na qual adquirem o seu sentido – assim como, numa poesia, cada palavra adquire o seu significado a partir da unidade e da totalidade da poesia e não da sua utilização cotidiana, mesmo que o reconhecimento do significado denotativo, nessa utilização, seja já um pré-requisito da compreensão do seu significado na poesia - , na música ligeira, é precisamente a relação entre o que se reconhece e o que é  novo que é destruída. O reconhecimento torna-se um fim e não um meio. Nesse gênero de música, reconhecimento e compreensão  é o ato através pelo qual o reconhecimento leva a extrair algo de novo.

     Os efeitos dos mass media 

    A estrutura multiestratificada das mensagens reflete a estratégia da manipulação da Indústria Cultual. Tudo quanto ela comunica foi organizado pôr ela própria com o objetivo de seduzir os espectadores a vários níveis psicológicos, simultaneamente. Com efeito , a mensagem oculta pode ser mais importante do que a que se vê , já que aquela escapara ao controle da consciência, não será impedida pelas resistências psicológicas aos consumos e penetrara provavelmente no cérebro dos espectadores.

     A maioria dos espetáculos televisivos visa a produção ou , pelo menos, a reprodução de muita mediocridade , de inércia intelectual e de credulidade que parecem adequar-se aos credos totalitários, mesmo que a mensagem explicita e visível dos espetáculos possa ser antitotalitaria.

     A manipulação do público – perseguida e conseguida pela Indústria Cultural entendida como forma de domínio das sociedades altamente desenvolvidas – passa assim para o meio televisivo, mediante efeitos que se põem em prática nos níveis latentes das mensagens. Através do material que observa, o observador é continuamente colocado, sem o saber, na situação de absorver ordens, indicações, proibições.

     Os gêneros

     A estratégia de domínio da Indústria Cultural vem, portanto, de longe e dispõe de múltiplas táticas. Uma delas consiste na estereotipização.

     Os estereótipos são um elemento indispensável para se organizar e antecipar as experiências  da realidade social que o sujeito leva a efeito. Impedem o caos cognitivo, a desorganização mental, constitui em suma, um instrumento necessário de economia na aprendizagem. Como tal nenhuma atividade pode prescindir deles; todavia, na evolução histórica da Indústria Cultural, a função dos estereótipos alterou-se e modificou-se profundamente.

     A divisão do conteúdo televisivo em vários gêneros ( jogos, policiais, comédia, etc.) conduziu ao desenvolvimento de formas rígidas, fixas, importantes porque definem o modelo de atitude do espectador, antes de este se interrogar acerca de qualquer conteúdo específico, determinando assim, em larga medida, o modo como esse conteúdo é percebido.

     Quanto mais os estereótipos se materializam e fortalecem, provavelmente, tanto menos as pessoas modificarão as suas idéias preconcebidas com o aumento da sua experiência. Quanto mais dura e complicada e a vida moderna, mais as pessoas se sentem tentadas a agarrar-se a clichês que parecem conferir uma certa ordem aquilo que, de outra forma, seria incompreensível....

    http://www.indcultural.hpg.ig.com.br/ateoriacritica.htm

     


    March 01

    A MISÉRIA DA CIÊNCIA

    HÉLIO'S BLOG

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    Divulgação Científica

     

                                     A profundização newtoniana

     

                                                                                                                                                                                                          Verônica Lima

           

    Dentro desta dinâmica, a contribuição de Isaac Newton foi valiosa. Diferentemente de Descartes, que teria sido indispensável na criação da estrutura conceitual da ciência do século XVII em diante, mas que não pode fazer mais do que esboçar as linhas gerais de uma teoria dos fenômenos naturais, Newton foi quem deu realidade ao sonho cartesiano e completou a sua revolução científica, com base numa formulação matemática rigorosa da concepção mecanicista da natureza.

     

            Essencialmente, Newton utilizou a matemática e a física para a realização de seu trabalho de síntese. A partir da primeira, ele criou um método completamente novo - o cálculo diferencial - para descrever o movimento de corpos sólidos, um método que foi muito mais além das técnicas matemáticas de Galileu e Descartes. Com a segunda, ele teria solidificado as bases para a ampliação das leis de movimento, com vistas à sua aplicação universal, comprovando que elas eram igualmente válidas para todo o sistema solar. Com isso, parecia confirmada a visão cartesiana da natureza de um gigantesco sistema mecânico que funcionava de acordo com leis matemáticas exatas.

     

            Até Newton, contudo, duas tendências opostas ainda orientavam a ciência seiscentista: o método empírico, indutivo, representado por Bacon, e o método racional, dedutivo, representado por Descartes. Daí porque o papel preferencial de Newton[1] implicou na introdução de uma combinação apropriada de ambos os métodos, realizando uma síntese, que buscava estimular a interpretação sistemática de experimentos em sintonia com a utilização de métodos dedutivos a partir de princípios com evidência experimental. Ou seja, buscava casar a contribuição de Bacon - isto é, o experimentalismo - com a de Descartes - isto é, o método racional. Com isso, ele buscava, essencialmente, o desenvolvimento de formas de gerenciamento do mundo físico com base em sua própria extrapolação[2].

     

             Como conseqüência disso, o palco do universo newtoniano, no qual todos os fenômenos físicos aconteciam, terminava sendo o espaço tridimensional da geometria euclidiana. Este é um espaço absoluto, no qual todas as mudanças são descritas em função de uma dimensão à parte, isto é, o tempo, igualmente concebido como absoluto, sem ligação alguma com o mundo material, e que flui, de maneira uniforme, do passado para o futuro através do presente.

     

            Os elementos do mundo newtoniano, que se movimentam nesse espaço e nesse tempo absolutos, são partículas materiais, concebidas homogeneamente e de mesma substância. Os movimentos destas partículas materiais, subjacentes aos fenômenos físicos, terminam sendo causados pela sua atração mútua, ou seja, pela força da gravidade. Daí porque a concepção newtoniana da natureza está intimamente relacionada com um rigoroso determinismo, segundo o qual a gigantesca máquina cósmica é completamente causal e determinada.

     

    F. O acabamento formal do modelo

     

            Esse quadro de uma perfeita máquina do mundo, no entanto, ainda subentendia a figura de um criador externo, isto é, de um Deus[3], que governaria o mundo a partir de um outro ponto, modelo este que contribuiria, inclusive, para engendrar a superação das contingências pontuais e/ou estáticas do próprio sistema científico proposto, garantindo-lhe a plausibilidade da interrelacionalidade. Todavia, no decorrer do próprio processo de desenvolvimento científico, ou seja, no decurso do processo de profundização da visão materialista de mundo, o elemento divino - mesmo enquanto agente externo - vai desaparecer, deixando em sua esteira, tanto um vácuo espiritual, quanto um elemento de fragilização científica do modelo. 

          

     

    Identificando a segunda trilogia fundante do cartesianismo:

    Indivíduo, Razão e Trabalho substantivados na história da Vida

     

                    Em vez de tratar de explicar o lugar dos indivíduos num mundo de universais, o problema da humanidade passou a ser o de explicar os universais num mundo de indivíduos[4]...

           

            Rompendo com uma concepção religiosa[5] de universo, prevalente no período feudal, a mudança do padrão de referência realizada pelo cartesianismo vai, inclusive, contribuir para acelerar o processo de laicização[6] da cultura, na medida em que vai conseguir impor uma nova[7] escala de valores, baseada numa nova articulação entre o Indivíduo, a Razão e o Trabalho[8]. Interessante relembrar, no entanto, que tal trilogia[9] também vai ser exatamente a mesma que vigorava na chamada Idade Antiga, com ênfase crescente apenas no processo de materialização da visão de mundo.

     

           Na verdade, isoladamente, nenhum destes elementos seria original. Em primeiro lugar, porque a preocupação com o lócus do Indivíduo[10] no espaço e no tempo sempre esteve presente na história do homem e da epistemologia. Em segundo lugar, porque a inserção da Razão no discurso teórico também já teria sido contemporânea dos antigos. Em terceiro lugar, porque, em relação à própria noção de Trabalho, também não se pode esquecer de que, desde Hesíodo[11], o trabalho já estaria sendo constantemente exaltado como justificação da própria condição humana. O mito de Prometeu, por exemplo, consegue ilustrar este ponto com muita propriedade, já que ele contribui para consolidar a idéia de que a virtude (areté) é filha do esforço e a de que o trabalho é o fundamento e a salvaguarda da justiça.

     

            Num retorno aos clássicos, notadamente em sua versão parmediana-pitagórica-aristotélica[12], portanto, a sociedade capitalista vai apenas incorporar o potenciamento desta trilogia. Na rearticulação deste mundo cientificamente concebido como mundo material, por exemplo[13], muito teria contribuído Adam Smith[14], cuja filosofia moral acha-se vinculada a uma linha de pensamento que, na Inglaterra do século XVIII, nasce como reação ao selfish system de Hobbes[15], ou seja, à afirmação de um estado natural, no qual cada comportamento humano somente possui como objetivo a mera conservação ou egoísmo.

     

            Antes de Smith, no entanto, precisaríamos situar os trabalhos de Petty[16], um contemporâneo de Isaac Newton, que, por volta do século XVII, teria contribuído para fundar a própria economia moderna, enquanto lócus privilegiado do estudo do mundo do trabalho. Basicamente, em seus estudos, Petty procurava dar um caráter científico aos fatos econômicos, fornecendo-lhes, ao mesmo tempo, regra e método - muito ao gosto do cartesianismo em elaboração - e tratando-os, matematicamente, dentro da tradição do empirismo inglês.

     

            Já John Locke[17] - cujo conceito de direito natural vai funcionar como um dos esteios básicos do ideário político e social que se estabelece com o capitalismo - também vai representar outra pedra angular da própria economia moderna. Isto significa dizer que ele vai colaborar, significativamente, para tornar concreto e realisticamente palpável o lócus do indivíduo no bojo do processo constitutivo da nova sociedade que se avizinhava. Daí porque a sua concepção neste campo é que terminou sendo prevalente na sociedade moderna.

     

            Na verdade, com uma nova concepção do Indivíduo - religado à sociedade pelo liame da Razão e com o seu direito garantido através da Propriedade - este autor vai conseguir ser extremamente prático, na medida em que, ao invés de negar, ele vai explicitamente admitir a existência de um conflito fulcral, não apenas no interior da sociedade, porém, igualmente, na maneira peculiar do indivíduo fazer a sua própria leitura do real e de se inserir nele. A materialidade deste conflito, por sua vez, vai estar relacionado com o exercício dicotômico da sensação individual e de sua inserção no cotidiano social pela via da racionalidade funcional.

     

            Para este autor, isto vai se dar porque a esfera da sensação - ou seja, daquela esfera ligada ao ato de conhecer que mais se confunde com o próprio indivíduo - é que é a fonte original de todas as idéias e, conseqüentemente, do próprio espaço do universo pensado. No entanto, para ele, enquanto a sensação estaria na base do universo pensado, o primado da racionalidade estaria na base da ação prática, já que a ação humana tende a se desenvolver dentro de um universo representado pela preservação da vida, da liberdade e da propriedade, ou seja, no mundo material, e não apenas no mundo imaginário.  

     

            Ricardo, por sua vez, também vai contribuir enormemente para sedimentar a articulação da trilogia fundamental - composta pelo Indivíduo, Razão e Trabalho - no mundo sensível, na medida em que consegue vislumbrar a taxa de lucros como a grandeza visível do capitalismo, a partir de sua relação com o que ele concebe como trabalho comandado[18].

     

            Marx vai ainda mais adiante neste ponto, na medida em que consegue vislumbrar o caráter fundante do trabalho no bojo da própria sociedade capitalista[19], através do estudo de uma outra trilogia, desta vez composta pela noção de valor, valor-de-uso e valor-de-troca. Buscando desfetichizar o caráter fulcral da mercadoria no capitalismo, este autor vai  demonstrar que, diferentemente do que pensavam os fisiocratas, e até mesmo Smith e Ricardo - que buscavam demonstrar que o valor representava a expressão da naturalidade da sociedade, enquanto conceito decorrente do fenômeno contingente da troca - a verdadeira relação valor/trabalho é invertida na história, já que, no decurso do processo social que contribui para instaurar a ordem capitalista,  o trabalho termina se afirmando como a origem e a própria substância do valor.  

     

            Essencialmente, Marx parte do seguinte ponto, para caracterizar o trabalho enquanto valor: O processo de produção capitalista, considerado em seu conjunto, representa a unidade do processo de produção e do processo de circulação. No entanto, devido à estrutura atonomizada da sociedade mercantil e devido à ausência de regulação social direta da atividade de trabalho dos membros da sociedade, os vínculos entre empresas individuais, autônomas e privadas são realizados e mantidos através da mediação de mercadorias, ou seja, de coisas ou produtos do trabalho. Daí porque o ponto de partida para a investigação sociológica termina sendo o trabalho e a estrutura de produção da sociedade, representada pela totalidade das relações de produção entre pessoas, ou seja, enquanto produtores de mercadorias. A partir daí, inclusive, ou seja, da utilização do trabalho enquanto origem e fonte de valor, é que terminam sendo estabelecidas as condições objetivas para a dinamização do próprio processo de acumulação de capital com base na extração e na apropriação da mais-valia[20], isto é, do trabalho excedente produzido no interior do processo de produção e não remunerado pelo capital.

     

            Uma importante interpretação alternativa do processo de desenvolvimento do capitalismo, em função da ênfase que é dada à articulação do Indivíduo com a Razão e desta com o Trabalho, nos vai ser oferecida por Weber[21]. A posição deste autor teria sido, em grande parte, uma polêmica contra a concepção marxista de que as ideologias seriam uma adaptação superestrutural as infraestruturas econômicas. Neste sentido, o seu livro A Ética Protestante teria objetivado confrontar a hipótese de que o protestantismo teria sido o resultado do surgimento do próprio capitalismo[22]. Ao invés disso, ele procuraria desenvolver o argumento contrário, de que a razão religiosa teria sido o substrato através do qual o capitalismo teria conseguido se desenvolver.

     

            Fundamentalmente, Weber procura demonstrar que o conceito de predestinação, presente nos primeiros momentos da ruptura religiosa através de Lutero, funcionaria como o elo de ligação entre o conceito de mundo peculiar à Idade Média e o conceito de mundo típico da Idade Moderna. Para a ruptura definitiva, no entanto, vai ser necessário incorporar a noção de serviço, manifesta em Calvino, que guarda uma relação imanente com o próprio mundo do trabalho. Segundo ela, Deus passa a se apresentar diretamente aos homens por meio da vida, tornando possível à completa eliminação da salvação através da Igreja e dos Sacramentos.

     

     



    [1] Em seus Princípios matemáticos de filosofia natural, Os Principia, como costuma ser chamada.

    [2] Embora ainda tivesse os sentidos físicos como elemento privilegiado de balisamento da verdade.

    [3]  O próprio Newton imaginava indispensável a figura de Deus. Segundo ele, em sua Óptica: "Parece-me provável que Deus, no começo, formou a matéria em partículas sólidas, compactas, duras, impenetráveis e móveis, de tais dimensões e configurações, e com outras propriedades tais, e em tais proporções com o espaço, que sejam as mais compatíveis com a finalidade para que Ele as formou; e que essas partículas primitivas, sendo sólidas, são incomparavelmente mais duras do que quaisquer corpos porosos compostos por elas; realmente tão duras que nunca se desgastam nem se fragmentam, e não existe nenhuma força comum que seja capaz de dividir o que o próprio Deus unificou na criação original". Citado em CAPRA. O Tao da Física. op. cit. p. 59 e O Ponto de Mutação. op. cit. p. 61.