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    April 30

    Dossiê: A crise

     
     
     

     

    Economia e Infra-Estrutura

    Prensa Latina   

    Qui, 23 de abril de 2009 17:02


    Quais são os antecedentes da atual crise financeira?



    Os especialistas assinalam agosto de 2007 como a data fatídica da economia estadunidense. Foi nesse momento que se insinuou a atual crise financeira, que está vinculada a problemas no setor imobiliário dos Estados Unidos, em particular às hipotecas de tipo “subprime”, ou seja, empréstimos de alto risco,  que incluem devedores sem capacidade comprovada de pagamento ou com duvidoso histórico como tomadores de crédito.

    O que qualificaram de insignificante, tomou dimensões globais.  Muitos bancos internacionais fizeram grandes investimentos nesse setor e intercambiaram as hipotecas como instrumento financeiro no mercado. Dessa forma começava a se criar uma borbulha: os bancos emitiram créditos sem respaldo e sobre papeis se criou uma falsa riqueza.

    Como uma bolha de sabão, a borbulha estorou e seu efeito dominó arrastou o sistema bancário à atual crise, que põe a nu a inoperância de sua essência e as débeis bases sobre as quais se erigiu o fictício valor criado.

    A estrutura do Sistema Financeiro Internacional surgiu em 1945 com a integração econômica, ao se criar o Fundo Monetário Internacional (FMI) e o Banco Mundial, e posteriormente o Acordo Geral de Tarifas e Comércio (GATT), antecessor da Organização Mundial de Comércio.

    Através dessas instituicões se restauraram os fluxos mundiais de mercadorias e capitais, gerando uma interdependência entre as economias do mundo.

    Sob tal estrutura era de se esperar que se garantisse a cooperação monetária mediante o apoio aos Estados membros, para resolver problemas de balanço de pagamentos e o adequado funcionamento do sistema financeiro.

    Sem embargo, nunca chegou a funcionar como tal e as crises se repetiram nas últimas décadas.

    De 1970 a 1980, ocorreram 112 crises bancárias em 93 países, que deixaram elevadas perdas econômicas, com um custo médio superior a 12,8% do Produto Interno Bruto (PIB) dessas nações.

    Uma crise bancária se manifesta quando os ativos praticamente se esgotam, os devedores morosos se situam entre 15 e 20% do total dos empréstimos bancários e resolver esses problemas custa entre 3 e 5% do PIB.

    Isso ocorreu em agosto de 2007 nos Estados Unidos, quando se estancou o setor imobiliário e se desencadeou a chamada crise do “subprime” ou das hipotecas de alto risco.

    O cenário econômico se complicou com a queda do dólar estadunidense frente às demais divisas, o encarecimento do petróleo e dos alimentos, o que pavimentou o caminho para a atual crise financeira cujas consequências nem os especialistas sabem até onde chegarão.

    Em que setores se manifesta a crise?

    No setor imobiliário, no qual as pessoas obtiveram créditos sem ter um bom  fiador de respaldo, e nos bancos, que por sua vez especularam com títulos sem valor. Em poucas palavras, os bancos facilitaram empréstimos de alto risco a pessoas que geralmente tinham um duvidoso histórico como tomador de crédito. Isso criou uma cadeia de dívidas que ainda persistem.

    Na indústria da informática foi onde soou o alarme ao se desmoronar a borbulha dos negócios chamados “ponto com” ou, melhor dito, a criação de negócios virtuais sem riqueza material.

    Essas duas borbulhas empurraram com o efeito dominó o desmoronamento do sistema bancário, setor que viu quebrar instituições centenárias como o Lehman Brothers. Por sua vez,  a crise chegou a outros setores da economia material como:

    - Indústria.  Sabe-se que os pedidos nas fábricas estadunidenses caíram 4% em agosto, a contração mais forte nos últimos dois anos. O dado foi divulgado um dia depois que se conhecera igual indicador em setembro, o mais fraco desde a recessão de 2001. Sobressaem os ramos têxtil e automobilístico, no qual se reporta uma queda considerável na venda de automóveis, assim como um encarecimento das matérias primas.

    - Agricultura. Os altos preços dos alimentos prejudicam as exportações. Também incidem negativamente o incremento do custo dos insumos, principalmente os combustíveis. Ao que se somam a falta de créditos e a contração no investimento, com prejuízo direto para as atividades agroindustriais.

    - Petróleo.  Nessa área sobressai o preço, que chegou a cifras astronômicas, o que pressionou fortemente a atividad extrativa. A isso se agregam as paradas realizadas nos últimos meses na extração do cru, como consequência dos furacões que castigaram a zona do Golfo do México, e a redução da produção na Nigéria, por problemas políticos.

    - Comércio.  Nesse setor se registra uma queda substancial na venda de produtos, ocasionada pelo desemprego e,  em consequência, uma diminuição no poder aquisitivo da população, ademais de uma contração em função dos temores do consumidor com o futuro incerto da economia.

    Por que a crise bancária?

    A desregulamentação do mercado financeiro e a especulação sem límites, que têm sua origem em títulos da economia material, permitiram que se revendessem múltiplas vezes, a preços crescentes, papeis engendrados por outros papeis, sem que os mesmos tivessem uma expressão de valor real, criando à sua passagem uma borbulha que acaba de estourar.

    Primeiro se criaram negócios virtuais na Internet, que vendiam supostos ativos futuros, com uma sobrevaloração das posibilidades de criar riquezas; ao se desfazer essa borbulha, os capitais migraram para as hipotecas de alto risco ― subprime ― com as quais repetiram a falida fórmula, criando valores fictícios e super-lucros sem respaldo material.

    A falta de liquidez dos devedores subprime rompeu a cadeia especulativa, que arrastou consigo as entidades financeiras involucradas nas operações e provocou a derrubada de muitas delas e a necessária intervenção do Estado em outros casos para ao menos deter uma rápida debacle total.

    O setor financeiro e a economia estadunidenses estão num estado deplorável e sujeitos à especulação, como o revelam as dívidas doméstica, nacional e federal.

    Os mercados laborais estão frouxos, os salários estão estancados e o desemprego é alto e crescente. Ainda que o repontar do dólar desde seus mínimos recentes aliviou as pressões, é difícil predizer o curso dos preços das matérias primas.

    O crescimento econômico dos últimos cinco anos se baseou na borbulha imobiliária, que estourou em 2007. Essa situação debilitou o setor financeiro e está provado que as economias não funcionam sem finanças sólidas.

    A atual crise financeira está considerada como a mais intensa e profunda desde a depressão da década de 30 no século passado.

    A crise do “subprime” conduz à bancária?


    O estouro da borbulha imobiliária insinuou a atual crise e foi desatando capítulo a capítulo os fatos que conduziram à depauperada situação que hoje apresentam as finanças do capitalismo mundial, com os Estados Unidos à frente.

    Uma crise econômica é a manifestação mais concentrada, tempestuosa e destruidora das contradições antagônicas do sistema capitalista e essas crises se repetem com uma frequência mais curta.

    Em finais de 2007 houve a demostração fiel disso. Antes, de 1973 a 1979, houve uma crise do petróleo, a qual se repetiu no ano passado. Em Wall Street, em 1987, ocorreu a “segunda-feira negra”, com a queda das bolsas.  En 1997, a “crise asiática” estremeceu o mundo ao se depreciar bruscamente o Bath (moeda tailandesa) e, no ano seguinte, o Rublo russo também desmoronou.

    Argentina, Brasil e México foram afetados por situações similares no ano passado.

    Os estragos causados pela crise do “subprime” (hipotecas de alto risco) tiveram incidência no atual panorama do setor bancário estadunidense e nas instituições financeiras européias.

    No Velho Continente não se sabia muito bem que os prestamistas das hipotecas careciam de fundos suficientes para fazer frente aos pagamentos.

    Em que consiste o pacote de resgate apresentado por Bush?

    O plano de resgate, que já é Lei depois de ser assinado pelo Presidente e aprovado com antecedência pelo Senado e pelo Congresso, constitui a mais forte participação do Estado na economia: quer dizer, uma inesperada virada na política econômica norte-americana aferrada até então ao Mercado como único protagonista, seguindo a escola neoliberal.

    O Presidente e o Departamento do Tesouro esperam que com a injeção de 700 bilhões de dólares nos bancos (cifra incrementada para 850 bilhões em suas análises pelo Senado) os Estados Unidos não entre em recessão.

    A “Lei de Estabilização Econômica de Emergência de 2008" ─ nome oficial do pacote de 451 páginas ─ mantém a autorização dada ao Departamento do Tesouro para comprar créditos de alto risco das instituições financeiras com problemas, mas incorpora maior proteção para os depósitos bancários e aplica uma extensão de descontos fiscais a pessoas e empresas:

    1.- O Governo comprará de instituições financeiras créditos impagáveis, os chamados “ativos tóxicos”; para começar, tem para isso um orçamento de até 250 bilhões de dólares. O presidente poderá pedir adicionalmente outros 100 bilhões, mas antes deverão ser avaliados os resultados do primeiro pacote de resgate.

    2.- Outros 350 bilhões para o resgate deverão ser aprovados por uma nova lei.

    3.- O Governo estadunidense busca criar uma agência que injete fundos nos intermediários financeiros e pedirá em troca participações acionárias que num lapso de 5 anos, dependendo de seu valor, poderiam ser vendidas no mercado.

    4.- Aumenta o seguro de depósitos ante a possibilidade de quebra de bancos, que passa de 100 bilhões a 250 bilhões de dólares.  Autoriza uma extensão de rebaixas fiscais para particulares e empresas, em setores como a energia solar e as renováveis.  Estima-se que as rebaixas chegariam a 150 bilhões na próxima década.

    5.- O plano limita o salário dos executivos das instituições que se beneficiem do programa de resgate, e reduz significativamente os pacotes de compensação que recebem esses executivos quando são despedidos.

    6.- Cria um comitê especial do Congresso para que o Departamento do Tesouro comunique os avanços do programa de salvamento.

    7.- O programa inclui o resgate dos ameaçados planos de pensões, governos locais e pequenos bancos, ademais dos grandes bancos de Wall Street.

    8.- A FED terá competências para pagar juros sobre as reservas que as instituições financeiras guardam na Reserva Federal, para favorecer maiores depósitos dos bancos em fundos do Banco Central, em vez de levá-los aos mercados de dinheiro, o que por sua vez move a taxa de juros dos fundos federais a um dia.

    Os candidatos presidenciais e também senadores Barack Obama e John McCain deram o sim à iniciativa aprovada finalmente pela Câmara de Representantes.

    Os legisladores, que basicamente respeitaram as propostas do secretário do Tesouro Henry Paulson, aprovaram iniciativas adicionais para fortalecer o apoio aos contribuintes que pagarão o custo do resgate, estimado já em 850 bilhões de dólares.

    Quem são os grandes ganhadores com a crise?


    A crise financeira estadunidense levou à quebra dezenas de instituições financeiras no seu caminho, entre bancos de investimento, caixas hipotecárias e caixas de poupança, que tinham até um século e meio de tradição.

    Sem embargo, várias instituições financeiras líderes aproveitaram o momento para adquirir ativos a bom preço, fortalecer suas atividades financeiras, dominar mercados e expandir seus serviços.

    Citigroup

    O maior banco estadunidense compraria as operações bancárias do banco Wachovia Corp, num acordo assistido pela Comissão Federal de Seguro de Depósitos.

    O Citigroup adquiriria a maioria dos ativos e passivos do Wachovia, incluindo cinco instituições de poupança, e assumirá a dívida subordinada com o que absorverá até 42 bilhões de dólares de perdas sobre um grupo de empréstimos de 312 bilhões de dólares.

    Informações de última hora deram conta de que depois de encerrada a transação, o Wachovia vendia a Wells Fargo, o que produziu uma reação do Citigroup em aberto debate por devorar esta vítima da crise.

    Bank of América

    Em 15 de setembro, o Bank of América Corp acordou adquirir o Merrill Lynch & Co, numa operação de 50 bilhões de dólares totalmente em ações, ficando com a maior corretagem minoritária do mundo.

    Merrill foi duramente atingida pela crise de crédito e amortizou mais de 40 bilhões de dólares ao longo do último ano.

    JP Morgan

    Esse Banco adquiriu em março passado o seu rival Bear Stearns a um preço desvalorizado de dois dólares por ação, uns 236 milhões de dólares, depois que a crise hipotecária debilitara uma das instituições de maior tradição.

    O JP Morgan espera que o acordo lhe gere seis bilhões de dólares em gastos por litígios e indenizações.

    A recente aquisição permite que o JP Morgan supere o Bank of América como o segundo maior banco dos Estados Unidos, com 2,04 bilhões de dólares
    em ativos.

    Barclays

    O banco britânico acordou comprar alguns dos negócios principais de intermediação do banco de investimento estadunidense Lehman Brothers, declarado em bancarrota, por cerca de um bilhão 700 milhões de dólares.

    As operações que o Barclays comprará são as do banco de investimento e de mercado de capitais que contam com cerca de 10 mil empregados, segundo um comunicado do banco.

    O banco britânico pagará 250 milhões de dólares em efetivo pelos ativos e passivos; ademais comprará o edifício sede do Lehman Brothers em Nova Iorque e dos centros de dados que conjuntamente têm um valor de mercado de um bilhão 500 milhões de dólares.

    Santander

    O banco espanhol Santander pagará 612 milhões de libras esterlinas (cerca de um bilhão 100 milhões de dólares) pela aquisição da rede de sucursais e o negócio de depósitos do britânico Bradford & Bingley.  O resto deste banco será nacionalizado pelo governo britânico.

    Mitsubishi UFJ Financial Group

    O Mitsubishi UFJ Financial Group, o maior banco do Japão, adquirirá 21% do Morgan Stanley segundo acordaram ambas as instituições ao pactuar um preço de 9 bilhões de dólares, com o que buscam dar maior confiança aos investidores do banco estadunidense após a queda de ao redor de 50% no preço de suas ações.

    Goldman Sachs

    Um dos maiores grupos de investimento do mundo está estudando adquirir 50 bilhões de dólares em ativos de bancos estadunidenses afetados pela crise como parte de sua entrada no negócio de banco comercial, segundo disseram executivos do banco ao jornal Financial Times.

    O banco estadunidense vai realocar 150 bilhões de dólares dos ativos do grupo em sua unidade
    em Utah.

    O Goldam Sachs e o Morgan Staley informaram por separado que se converterão em grupos bancários com o que se derruba o modelo de banco de investimento. Notícia que foi confirmada pela Reserva Federal (FED, banco central estadunidense) ao anunciar que aceitou que os bancos Goldman Sachs e Morgan Stanley se transformem em holdings de bancos, o que poderia ajudá-los a levar a melhor na atual crise financeira.

    O neoliberalismo desmorona com a crise?


    A escola neoliberal cravou sua lápide em Wall Street.

    Os que apostavam no mercado como eixo da economia e deixavam que as forças cegas da Lei da Oferta e da Procura funcionassem em suas mãos sem regulamentos, controles, supervisões ou outra forma de intervenção do Estado hoje clamam pelo resgate.

    A atual crise, prolongamento da imobiliária iniciada nos Estados Unidos, há mais de um ano adquiriu características que permitem compará-la com o crack de 1929, que deu lugar à Grande Depressão de 1930.

    Essa situação mereceu já o qualificativo de a maior destruição na história de Wall Street e significa perdas reais de bilhões de dólares, refletidas na riqueza empresarial, petroleira, de bens de raízes, de bancos, de fundos de pensão e de outros setores.

    A crise, no dizer de alguns economistas, manifesta o papel do Estado como regulador do mercado, teoria que contradiz a corrente neoliberal. A partir da quebra de importantes e grandes bancos no Mundo, o Estado teve que buscar soluções como a nacionalização para paliar a debacle desse sistema.

    A desregulamentação financeira, um dos estandartes do neoliberalismo, não é mais do que a falta de controle sobre a atividade da banca, sob o dogma de que o mercado regula tudo, o que contribuiu para a presente crise financeira.

    Simultaneamente, pela primeira vez, confluem várias crises: financeira, ecológica, alimentar, energética e social, entre outras.

    A nacionalização de empresas significa a renúncia ao neoliberalismo e o reconhecimento do papel do Estado e da planificação?

    Segundo a teoria de Milton Friedman, pai do neoliberalismo, nessas circunstâncias o mercado deve se corrigir a si mesmo com a chamada "mão invisível", que foi profetizada no século XVIII pelo filósofo escocês Adam Smith, conhecido como "o pai da economia moderna".

    Qualquer distorção, segundo Friedman, é culpa do governo qque não deixa o mercado respirar. Não obstante, agora há uma espécie de consenso tanto na Europa como nos Estados Unidos de que é necessário intervir nas principais praças financeiras, como sucedeu na década de 1930.

    Na hora de buscar os culpados pela situação atual, muitos analistas acusam os banqueiros de arriscar mais recursos públicos em busca de maiores lucros.

    Mas nesse tipo de crise, os bancos são os agentes da especulação, não a causa. Há que se sinalizar como culpados os governos que aplicaram o neoliberalismo desde décadas atrás.

    Outra esquecida escola do capitalismo, encabeçada pelo economista britânico John Maynard Keynes (1883-1946), asegurava que deviam ser os governos (fator ignorado até então), os que teriam que converter-se em instrumentos econômicos ativos e compensar (através de políticas econômicas adequadas) a insuficiência de investimento privado durante uma recessão, com a redução de impostos e, sobretudo, com o incremento do gasto público.

    Keynes pensava que a economia não tendía de maneira automática para o pleno emprego e que não se podia esperar que as forças do mercado fossem suficientes para sair da recessão. Só a atuação do Governo, ─ opinaba Keynes ─ ao reduzir os impostos ou aumentar o gasto público, poderia conseguir que a economia voltasse a uma posição de pleno emprego. Definitivamente, os governantes têm que garantir uma demanda suficiente na economia para criar e manter o pleno emprego, mas que não deve ser excessiva para evitar que aumente a inflação, argumenta o keynesianismo.

    Essa teoria, sob a influência do Crack de 29 e suas consequências, justificava as ações empreendidas na Inglaterra e, muito especialmente, nos Estados Unidos, onde o presidente Franklin Delano Roosevelt havia enfrentado a luta contra a Grande Depressão com sua política de New Deal (Novo Reparto ou Novo Trato).

    Tanto Roosevelt como o Congresso dos Estados Unidos aprovaram um programa de medidas econômicas e criaram novos organismos federais para tentar reduzir o desemprego e restabelecer a prosperidade mediante uma série de novos serviços, regulamentos e subsídios.

    Foi desenhado com a ajuda do denominado Brain Trust (escritório de especialistas da Universidade de Columbia, que assessorou o presidente especialmente em matéria econômica) e fez do governo do país pela primeira vez o impulsionador da mudança econômica, em contraste com seu tradicional papel passivo de índole liberal.

    O presidente John F. Kennedy aplicou esse tipo de medidas para tirar a economia estadunidense da recessão em princípios da década de 1960.

    A crise financeira significa a derrocada dos Estados Unidos como superpotência?

    Para alguns como o filósofo político John Gray, professor jubilado da London School of Economics, “a era da liderança global estadunidense, que remonta à Segunda Guerra Mundial, acabou... o credo do livre mercado estadunidense se autodestruiu, enquanto que os países que mantiveram um controle geral dos mercados são reivindicados".

    Outros, pelo contrário, negam o apocalipse estadunidense, porque o sistema saiu airoso de provas anteriores. Em tal sentido, se referem à queda de mais de 20% num só dia do índice da bolsa Dow Jones, e à borbulha das "ponto com" que estourou em 2000. Em ambos os casos, os Estados Unidos, agregam, soube levantar-se.

    A favor ou contra, o certo é que alguns pensadores neoconservadores reconhecem o ressurgimento de um mundo multipolar.

    A esse respeito, Robin Niblett, diretor do centro de investigação britânico Chatham House, apontou que aos Estados Unidos se lhe vê como estando em queda relativa e que ocorreu uma aceleração enorme nessa percepção na etapa declinante do governo de George Bush. A isso se acrescenta o auge de novas potências, o aumento na riqueza petroleira entre alguns países e a diseminação do poder econômico em todo o mundo.

    O economista cubano Osvaldo Martínez, diretor do Centro de Estudos da Economia Mundial, com sede em Havana, opina que assistimos à crise mais intensa e profunda do capitalismo desde 1929, e, sem ter um prognóstico apocalíptico, prognostica o fim do neoliberalismo e da supremacia do dólar como moeda de comércio internacional.

    O doutor Martínez explicou que pela primeira vez convergem cinco crises: financeira, ecológica, alimentar e social, o que torna difícil o caminho para a solução da crise econômica, tanto nos Estados Unidos como no resto dos países que recebem desde já os impactos.

    Quais são os pontos de contato entre a crise de 1929 e a atual?

    1- Incremento do desemprego.

    2- Falta de pagamento de créditos privados e entre bancos.

    3- Diminuição da liquidez das entidades financeiras.

    4- Quebra de bancos.

    5- As grandes empresas e bancos clamam pela proteção do Estado.

    6- Recessão econômica.

    7- Abarca todos os setores econômicos e sociais.

    8- Estende-se para a Europa e o resto do mundo.

    9- Desenvolve-se uma crise na produção industrial.

    10- Renúncia ao liberalismo econômico.

    11- Intervenção do Estado para solucionar a crise.

    12- Estabeleceram-se as respectivas leis de emergência para restabelecer a atividade bancária e a confiança no sistema financeiro.

    13- As políticas de ambos os governos (Bush e Obama) encontraram forte oposição.

    14- O Partido Democrata apoiou o New Deal (política para enfrentar a Grande Depressão de 29) do Presidente Roosevelt e também votou maciçamente o plano de resgate financeiro do Presidente Bush.

    15- O êxito do New Deal permitiu aos democratas a reeleição de Roosevelt…  A história repetir-se-á?

    Que lições deixa a atual crise financeira?


    • Assistimos ao capítulo final do neoliberalismo como política econômica e do papel preponderante do mercado e da sua lei cega como regulador.  Impõe-se, portanto, a atuação do Estado na economia seguindo os fios que conduzam com harmonia as atividades das finanças e da produção de bens materiais.

    • Viu-se a inoperância do Fundo Monetário Internacional e do Banco Mundial. Por consequência, a globalização neoliberal deverá ceder seu lugar a uma Nova Ordem Econômica Mundial e a uma Nova Ordem Financeira Mundial.

    • É preciso renunciar à especulação como instrumento comercial, tendo em conta de que foi a causa da criação de borbulhas de valores fictícios, cujo estouro constitui a essência da atual crise.

    • O dólar não deverá continuar no futuro como moeda preponderante na cotização dos mercados internacionais e deverá ser substituído por uma cesta de moedas ou alguna outra fórmula que impeça a influência de uma crise sobre todos os países.

    • Reafirma-se o caráter destrutivo do Capitalismo, como sistema, cujas crises cíclicas deixam a grande maioria dos habitantes do planeta na insegurança .

    • A integração da América Latina se reafirma como necesidade para a sobrevivência, ademais de considerações culturais, sociais e políticas.  Os países do continente que estão unidos nos pactos regionais estão em vantagem para enfrentar a atual crise.

    • Os Tratados de Livre Comércio com os Estados Unidos constituem as correias de transmissão, por excelência, da crise; portanto, seus subscritores estão recebendo a exportação das consequências das negligências cometidas pelo centro do capitalismo mundial e sua política neoliberal.


    Tradução: Sergio Granja

     http://miseriadaciencia.blogspot.com/search?updated-min=2009-01-01T00:00:00-08:00&updated-max=2010-01-01T00:00:00-08:00&max-results=1

    April 29

    Chomsky: "Nacionalizações são um passo para a democratização

    Chomsky: "Nacionalizações são um passo para a democratização

     

     

     

     

    Internacional

    Paul Jay   

    Qua, 15 de abril de 2009 17:38

     

    Noam Chomsky

    Nesta entrevista à The Real News Network, Noam Chomsky defende as nacionalizações e que as empresas nacionalizadas sejam administradas democraticamente. "Com a participação de conselhos de trabalhadores, da organização da comunidade em reuniões, discussões nas quais são delineadas as políticas". Chomsky defende também que os sindicatos "são um dos poucos meios que permitem ao povo comum reunir-se, fazer planos e influenciar as escolhas públicas."

    Paul Jay: Benvindo à The Real News Network. Estamos no MIT, em Cambridge, com o professor Noam Chomsky, que julgo não precisar de apresentação. Muito obrigado por aceitar estar conosco. Há uns dias, a administração Obama e Geithner anunciaram o seu plano para os bancos. Qual é a sua opinião sobre ele?

    Chomsky: Bem, na verdade há vários planos. Um é a capitalização. O outro, o mais recente, é o resgate dos ativos tóxicos através de uma união público-privada. Essa medida fez subir imediatamente a bolsa de valores. E compreende-se porquê: é extremamente boa para os banqueiros e investidores. Significa que um investidor pode, se quiser, comprar estes ativos sem valor. E se por acaso eles subirem, ótimo, ganha dinheiro; se caírem, o governo garante-os. Assim, pode haver uma pequena perda, mas também pode haver um grande ganho. Um gestor financeiro disse esta manhã no Financial Times que "é uma situação de ganhar-ganhar."

    Paul Jay: Uma situação de ganhar ou ganhar, se for investidor.

    Chomsky: Sim, se for investidor. Para o público, é uma situação de perder-perder. Este plano é uma reciclagem das medidas de Bush-Paulson, com pequenas alterações, mas essencialmente a mesma idéia: manter igual a estrutura institucional, tentar iludir a gravidade da situação, subornar os banqueiros e investidores, mas evitar as medidas que podiam ir ao cerne do problema, impondo mudanças da estrutura institucional.

    Paul Jay: Que plano o senhor apoiaria?

    Chomsky: Por exemplo, veja a questão dos bônus da AIG que estão causando tanto justo repúdio. Dean Baker mostrou que havia uma forma fácil de tratar da questão. Já que o governo, de qualquer forma, é o dono da AIG (só não usa esse poder para tomar decisões), podia separar a seção de investimentos financeiros, que causou todos os problemas, e deixá-la ir à falência. Depois disto, os executivos podem procurar obter os seus bônus de uma empresa falida, se quiserem. Isso resolveria muito bem o problema da falência, e o governo manteria ainda o seu controlo efetivo em larga-escala, se quisesse exercê-lo sobre a parte viável da AIG.

    E com os grandes bancos, como o Bank of America, um dos maiores problemas é que ninguém sabe o que se passa lá dentro. São aparelhos muito opacos e que fazem muitas manipulações - não são eles que vão falar. Por que o fariam? De fato, quando a Associated Press enviou jornalistas para entrevistar os gestores do banco e lhes perguntaram o que fizeram com o dinheiro do TARP (programa governamental de recuperação de ativos problemáticos), eles simplesmente riram-se. Disseram: "Não têm nada com isso. Somos empresas privadas. A vossa tarefa, a do serviço público, é de dar-nos fundos, mas não de saber o que estamos fazendo." Mas o governo podia descobrir facilmente - nomeadamente, assumindo o controle dos bancos.

    Paul Jay: Todas estas maquinações políticas são para evitar a nacionalização?

    Chomsky: Não é preciso usar a palavra "nacionalização" se ela incomoda as pessoas, mas alguma forma que permitisse que investigadores independentes, investigadores do governo tivessem acesso aos livros e descobrissem o que eles estão fazendo, quem deve o quê a quem, que é a base de qualquer forma de mudança. Não há uma lei da natureza que diga que as empresas têm apenas de se dedicar a dar lucro aos seus acionistas. Nem sequer está na lei. Na sua maioria são decisões de tribunais e decisões de gestão e por aí adiante. É perfeitamente concebível que as empresas, se existem, sejam responsáveis diante dos acionistas, da comunidade, dos seus trabalhadores.

    Paul Jay: Especialmente quando é o dinheiro público que está fazendo o sistema funcionar...

    Chomsky: Veja, o fato é que é quase sempre dinheiro público. Veja o homem mais rico do mundo, Bill Gates. Como é que ele se tornou o mais rico? Muito do que ganhou veio de dinheiro público. De fato, lugares como este onde estamos agora...

    Paul Jay: O MIT...

    Chomsky: É onde foram desenvolvidos os computadores, a Internet, software sofisticado, aqui ou em lugares semelhantes, e quase inteiramente financiados por dinheiro público. No essencial, o sistema funciona assim: o público paga os custos e assume os riscos, e os lucros são privatizados.

    Paul Jay: Que é o que está acontecendo com todos os planos de resgate.

    Chomsky: Bem, fala-se muito disso agora porque são as instituições financeiras e é tudo muito visível, mas isto acontece o tempo todo. Quer dizer: computadores e Internet foram a base para a revolução das tecnologias de informação no final dos anos 90.

    Paul Jay: Quando fala em "desafiar a estrutura institucional" o que gostaria que acontecesse?

    Chomsky: Para começar, empresas, bancos e outros deveriam, penso, ser responsáveis diante de todos os interessados, não só dos acionistas. Não é uma grande mudança. De fato, já foi até levado aos tribunais. Há cerca de 30 anos, as maiores empresas siderúrgicas queriam destruir as fábricas de aço de Youngstown - o núcleo central da comunidade fora construído em torno delas - e os trabalhadores e a comunidade queriam mantê-las e achavam que podiam geri-las privadamente. Levaram o caso aos tribunais, argumentando que as regras de gestão tinham de ser mudadas de forma a que todos os interessados e não só os acionistas tivessem o controle da empresa. Bem, perdeu nos tribunais, naturalmente, mas é uma idéia perfeitamente factível. Podia ser uma maneira de manter viva a comunidade e as indústrias.

    Paul Jay: Assim, se olhar agora para o sistema financeiro e aplicar esse princípio, de representar os interesses gerais, e não só os dos acionistas, o que significaria isso em termos de política?

    Chomsky: Antes de mais nada, para começar, significaria que o governo não resgataria os bancos, aplicaria capital mas exerceria o controle. E controle começa com a fiscalização. Assim, descobrimos o que eles estão fazendo. Em seguida, mantemos as partes viáveis. E se são viáveis deveriam ser postas sob controle público. O governo poderia ter comprado a AIG ou o Citigroup por muito menos do que está gastando agora. Numa sociedade democrática, o governo deveria seguir os interesses do povo, e haver um compromisso público direto no que estas instituições devem fazer e como elas devem distribuir o seu dinheiro, em que termos, etc. Podiam ser democraticamente geridas pelos seus trabalhadores, pela comunidade.

    Paul Jay: Mas, use-se ou não a palavra, isso não requer uma espécie de nacionalização? O banco não se torna uma instituição de propriedade pública?

    Chomsky: Tornam-se instituições de propriedade pública que servem o público e cujas decisões são tomadas pelo público. É uma via longa. É preciso aproximar-se dela passo a passo. Quando se pensa em nacionalização, o sistema doutrinal, por razões históricas, associa nacionalização a uma espécie de Big Brother que toma o controle e dá ordens ao público. Mas não tem de ser necessariamente assim. Há muitas instituições nacionalizadas que funcionam de forma bastante eficiente. De fato, veja, digamos, o exemplo do Chile, que é suposto ser a imagem de marca das economias de livre-mercado Thatcheristas/Reaganistas. Uma grande parte da economia é baseada na muito eficiente produtora de cobre, a Codelco, que foi nacionalizada por Allende, mas era tão eficiente que durante os anos de Pinochet nunca foi desmantelada.

    Na verdade, está de certa forma sendo enfraquecida mas penso que ainda é a maior produtora de cobre do mundo, recolhe a maior parte dos ganhos do Estado. Noutros lugares também há empresas nacionalizadas com muito sucesso. Mas a nacionalização é só um passo em direção à democratização. A questão é quem as gere, quem toma as decisões, quem as controla. Agora, nas instituições nacionalizadas, as decisões ainda são tomadas de cima para baixo, mas não tem de ser assim. Não há uma lei da natureza que diga que não podem ser administradas democraticamente.

    Paul Jay: Como seria feito?

    Chomsky: Com a participação de conselhos de trabalhadores, da organização da comunidade em reuniões, discussões nas quais são delineadas as políticas - é assim que, supostamente, funciona a democracia. Claro que ainda estamos muito longe disso, mesmo no sistema político. Veja o exemplo das eleições primárias. Da forma como funciona o nosso sistema, os chefes de campanha dos candidatos vão a alguma cidade de New Hampshire e fazem uma reunião, e o candidato vai e diz: "Vejam como sou um cara simpático. Votem em mim. E as pessoas ou acreditam nele ou não, e vão para casa. Imagine que tínhamos um sistema democrático que funcionava ao contrário. O povo da cidade de New Hampshire se reuniria em conferências, reuniões, organizações públicas, etc., e delinearia as políticas que queriam ver aplicadas. Depois, se alguém se candidatava, podia ir lá; se quiserem, podem convidá-lo e ele iria ouvi-los. Eles diriam: olhe, eis as políticas que queremos que implemente; se pode fazê-lo, vamos aceitar que nos represente, mas vamos destituí-lo se não o fizer.

    Paul Jay: Como disse, isso está muito longe em termos da política de hoje.

    Chomsky: Não está tão longe, acontece.

    Paul Jay: Mas em nível nacional...

    Chomsky: Nesse nível está mais distante. Mas vejamos aquele que é provavelmente o mais democrático país do hemisfério ocidental, apesar de as pessoas não gostarem de pensar dessa forma: a Bolívia. É o país mais pobre do hemisfério. É o mais pobre da América do Sul. Houve eleições nos últimos anos nas quais a grande maioria da população, que é o povo mais reprimido do hemisfério, a população indígena, entrou pela primeira vez em 500 anos na arena política, determinou as políticas que quis, e elegeu um líder das suas próprias fileiras, um camponês pobre. E as questões são muito sérias - o controle sobre os recursos, a justiça econômica, os direitos culturais, as complexidades de um sociedade multiétnica muito diversa. As políticas vêm do próprio povo, e é suposto que o presidente as implemente. Há todo o tipo de problemas, nada funciona tão perfeitamente, mas é a democracia a funcionar. É quase o oposto da forma como funciona o nosso sistema.

    Paul Jay: Voltando aos EUA, pensa que os atuais planos para o setor financeiro, o setor automobilístico, o plano de estímulo geral vão funcionar? E se não, para onde estamos caminhando em termos de intensidade de crise? E o que significa em termos de democracia americana?

    Chomsky: Não creio que alguém saiba se vão funcionar. É uma espécie de tiro no escuro. O meu palpite é que não vai ser a Grande Depressão, mas pode haver anos difíceis pela frente e muitos remendos se as atuais políticas forem aplicadas. O núcleo central das atuais políticas é manter a atual estrutura estável, decisões tomadas de cima.

    Paul Jay: E pôr dinheiro para os planos de resgate.

    Chomsky: Pode entrar com o dinheiro para os planos de resgate, mas sem fazer parte do aparelho de decisão. É certo que vai haver alguma forma de regulação. A mania de desregulação dos últimos 30 anos, baseada em conceitos religiosos realmente fundamentalistas sobre a eficiência dos mercados em grande parte desapareceu, e muito rapidamente. Veja por exemplo Lawrence Summers, que é hoje praticamente o principal conselheiro econômico de Obama, conseguiu reconstruir o sistema regulatório que ele destruiu há poucos anos. Ele foi um dos principais a impedir o Congresso a regulamentar os derivados e outros instrumentos exóticos, sob a influência destas idéias sobre eficiência dos mercados e escolha racional, etc. Essas idéias estão agora muito abaladas, e parte do aparelho regulatório vai ser reconstruído. Mas a história disto é muito clara e fácil de entender: os sistemas de regulação tendem a ser tomados pelas empresas que deveriam regulamentar. Foi o que aconteceu com as ferrovias e outros casos. E é natural. Elas têm o poder, poder concentrado, capital concentrado, influência política enorme - de certa forma regem o governo. Acaba que eles assumem o controle do aparelho regulatório no seu próprio interesse. Assim, por exemplo durante o que muitos economistas chamam a época de ouro do moderno capitalismo de estado, entre os 50 e meados de 70, não havia grandes crises. Havia um sistema regulatório, havia regulação dos fluxos de capitais, taxas de câmbio, etc., o que levou ao maior crescimento em época de paz da história. Mudou em meados dos 70, quando a economia foi em direção à desregulamentação e financeirização, enorme crescimento dos fluxos de capital especulativo, mitologias sobre a eficiência dos mercados. Houve, é claro, crescimento, mas concentrado em poucos bolsos, e estamos há 30 anos em relativa estagnação de salários reais para a maioria da população.

    Paul Jay: E como é que isso muda?

    Chomsky: Há um pequeno aspecto distributivo na política fiscal, chamam-lhe socialismo, comunismo, etc., mas mal regressa aonde estava há poucos anos. Por outro lado, a melhor maneira de chegar a um sistema mais igualitário seria, simplesmente, ampliar a sindicalização. Os sindicatos tradicionalmente não só melhoraram as vidas e os benefícios e as condições de trabalho e os salários dos trabalhadores, mas também ajudaram a democratizar a sociedade. Os sindicatos são um dos poucos meios que permitem ao povo comum reunir-se, fazer planos e influenciar as escolhas públicas. Houve um grande exemplo disto há umas semanas. O presidente Obama queria demonstrar a sua solidariedade ao povo trabalhador; foi a Illinois e falou numa fábrica. A escolha foi marcante; escolheu a Caterpillar. Teve de se contrapor às objeções da igreja e dos grupos de direitos humanos, devido ao efeito devastador que as máquinas da Caterpillar estão tendo nos territórios ocupados por Israel, onde estão destruindo terra agrícola, estradas e aldeias. Mas ninguém, que eu saiba, noticiou algo ainda mais dramático. A Caterpillar tem um papel na história do trabalho nos EUA. Foi a primeira fábrica, em gerações, a usar fura-greves para destruir uma greve. Foi, se não me engano, em 1988, como parte dos ataques de Reagan aos trabalhadores, mas foi a primeira instalação industrial a fazê-lo. Isso é um fato grande, importante. Nessa altura, os Estados Unidos eram os únicos, junto com a África do Sul, a permitir uma coisa dessas. E isso destrói na essências o direito de associação do povo trabalhador.

    Paul Jay: O Employee Free Choice Act (lei de livre-escolha do empregado) supostamente é algo que facilita a sindicalização, mas não ouvimos muito falar dela desde as eleições.


    Chomsky: Não ouvimos falar muito dela. Não ouvimos quando Obama foi à fábrica, que é o símbolo de destruição do trabalho por práticas injustas, porque isto foi tirado da memória das pessoas. O Employee Free Choice Act é sempre mal interpretado. É descrito como um esforço para evitar eleições secretas. Não é isso. É um esforço para permitir que os trabalhadores decidam se deve haver eleições secretas, em vez de deixar as decisões inteiramente nas mãos dos empregadores. Durante a campanha, Obama falou nisso, mas rapidamente o tema foi deixado de lado. Mas um passo muito maior para superar a redistribuição radical para os mais ricos, que ocorreu nos últimos 30 anos, seria simplesmente facilitar os esforços de sindicalização. Mas cada presidente desde Reagan atacou isto. Reagan disse diretamente: "não vamos aplicar a lei". Assim, a demissão de trabalhadores - demissão legal - por organizar os trabalhadores triplicou, de acordo com a Business Week, durante os anos Reagan. Quando chegou Clinton, havia basicamente um dispositivo diferente. Chamava-se Nafta. O Nafta oferecia aos empregadores uma maravilhosa forma de impedir a organização dos trabalhadores: bastava pôr um grande cartaz a dizer: "Operação de transferência para o México". É ilegal, mas se o governo é fora da lei, pode ter sucesso nisto. E nem vale a pena falar dos anos Bush. Mas pode-se reverter isto, e isso seria um passo significativo não só para reverter a enorme redistribuição de rendimento para os de cima, mas também para redemocratizar a sociedade, fornecendo mecanismos pelos quais o povo possa atuar politicamente no seu próprio interesse. Mas isso mal está sendo discutido, até agora, nas margens. E coisas como, por exemplo, o controle dos interessados sobre as instituições, trabalhadores e comunidade, não está muito abaixo da superfície no espírito das pessoas. Está sendo empurrado para o lado. Mas se olharmos para trás, para os anos 30, quando questões semelhantes - não as mesmas, mas questões bastante parecidas estavam sendo levantadas, o que realmente causou medo nos corações do mundo dos negócios foram as greves de ocupação (sit-in strikes). Foi quando os empresários começaram a falar sobre o risco de que enfrentavam e sobre o poder das massas.

    Mas o que tem de ameaçador uma greve de ocupação? Bem, uma greve de ocupação está apenas a cinco segundos de fazer emergir a idéia: "Por que nós devemos sentar aqui? Por que não dirigir a fábrica? Podemos fazê-lo, melhor que os gerentes, porque sabemos como tudo funciona". Isso assusta. E está começando a acontecer. Há um mês, houve uma greve de ocupação numa fábrica de Chicago, a Republic Windows and Floors. A multinacional proprietária queria fechá-la ou transferi-la para outro lado. E os trabalhadores manifestaram-se e protestaram, mas finalmente fizeram uma greve de ocupação. Bem, tiveram uma meia-vitória; não venceram totalmente. Muitos mantiveram os empregos. Uma outra empresa comprou-a. Mas não deram o passo seguinte, que era: "Bem, por que não dirigimos a fábrica, junto com a comunidade, que se importa com a fábrica, e talvez uma comunidade mais ampla, que também se importa, no público em geral?" Essas eram questões que deviam ser discutidas.

    Tradução de Luis Leiria/Esquerda.Net

    Fonte: www.cartamaior.com.br

     

    Gripe suína deve chegar ao país

     
     

    Vírus influenza

    Gripe suína deve chegar ao país; sistema de saúde está preparado, diz infectologista

    A Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) informou hoje que os voos procedentes do Reino Unido, Espanha e Nova Zelândia também serão inspecionados por uma equipe da agência e por médicos da Empresa Brasileira de Infra-Estrutura Aeroportuária (Infraero) para a identificação de pacientes com sintomas de gripe suína.

    Até agora, apenas os voos vindos do México, Canadá e Estados Unidos estavam sendo avaliados. A decisão foi tomada durante reunião da Anvisa com representantes das companhias aéreas, da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) , na Grande São Paulo.


     

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    April 27

    Em busca de outras formas de ver e pensar

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     Em busca de outras formas de ver e pensar
    Carlos Fioravanti *
    01/10/2008
     
    Não tem sido fácil escrever sobre mudanças climáticas: esta área relativamente nova do noticiário provoca nossos condicionamentos. Como jornalistas e leitores, preferimos notícias com respostas claras e rápidas. Desta vez, porém, estamos diante de transformações ambientais, sociais e políticas que seguem na direção oposta, já que são nebulosas, cheias de incertezas e sem respostas imediatas, além do fato de que sugerem formas de ver a realidade que ainda não estão plenamente articuladas.
     
    Suren Erkman, diretor do (Icast) e professor da Universidade de Lausanne, na Suíça, expôs o desafio que aguarda os jornalistas ao comparar o universo dos temas ambientais e de sustentabilidade à mídia de massa. Segundo ele, os temais ambientais e os ligados à mídia de massa são dois reinos opostos: enquanto a agenda ambientalista implica uma visão de longo prazo histórica, social e institucional (além de interconectada, pública e sistêmica), as notícias da mídia de massa trazem episódios imediatos, singulares e espetaculares (tratados sem complexidade, de modo que todos os leitores sejam atingidos).
     
    Reconhecer e se possível superar nosso desejo pelo espetáculo talvez ajude a dar a cada área o tratamento mais adequado. Há pouco tempo, um jornalista de uma redação paulista contou que um colega havia lhe perguntado se as mudanças climáticas eram uma coisa ruim ou não. Esse maniqueísmo não faz mais sentido. Enquanto os moradores dos países mais pobres da África devem ser os mais prejudicados com os impactos do clima, que deve agravar a fome e facilitar a propagação de doenças como a malária, os russos talvez estejam na torcida para a temperatura média da Terra subir e permitir o cultivo agrícola em áreas hoje cobertas por gelo. 
     
    Podemos buscar outras abordagens e, se necessário, rever nossos hábitos. Na Inglaterra – país que tem liderado a produção científica e os debates sobre mudanças climáticas – a cobertura jornalística nessa área tem expressado os interesses e as opiniões dos mais diferentes atores sociais: cientistas, economistas, organizações não-governamentais, empresários, representantes do governo e cidadãos comuns.
     
    No primeiro semestre de 2007, quando foram publicados os relatos do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), debates sobre esse tema ocupavam rotineiramente os auditórios da universidade, as igrejas e a prefeitura da cidade de Oxford, próxima a Londres. Os encontros facilitavam o diálogo do público com especialistas de diferentes áreas por meio de um lembrete estampado nos convites: All Welcome. Clique aqui  para ler um relato sobre os debates e a movimentação em torno das mudanças climáticas em Oxford. 
     
    O jornal britânico The Independent  assumiu uma posição pró-ativa: além de dar voz a grupos sociais distintos, reuniu propostas e publicou análises sobre o que poderia ser feito para reduzir os impactos das mudanças climáticas. Dias antes do pronunciamento do primeiro-ministro, o diário apresentou suas próprias propostas para enfrentar esse problema, sob o argumento de que as do primeiro-ministro não eram suficientemente ambiciosas. O jornal registrou também o desapontamento dos ambientalistas e a preocupação dos empresários com as medidas lançadas pelo então chanceler Gordon Brown para reduzir os impactos do problema. De igual forma abriu espaço para a sociedade civil se manifestar, destacando como manchete do dia a passeata de apoio à luta contra as mudanças climáticas (que se seguiu à apresentação do Relatório Stern e reuniu cerca de 20 mil pessoas no centro comercial de Londres.
     
    O periódico londrino chegou até mesmo a criar uma manchete sobre a previsão de um tsunami gigante que poderá chegar à costa do Reino Unido em 2050 – um exemplo tanto do que pode acontecer se nada for feito para evitar os impactos das mudanças climáticas quanto do tipo de notícia que os editores não gostariam de publicar novamente.
     

    O desafio da imprensa brasileira

    O Brasil passou ao largo dessa tempestade midiática, embora o número de reportagens sobre as mudanças climáticas também tenha crescido. Em uma comparação direta, a Folha de S.Paulo publicou 32 matérias no segundo semestre de 2006 e 126 no primeiro de 2007, enquanto o jornal The Independent publicou 75 e 203, respectivamente. Diferentemente do jornal britânico, o noticiário brasileiro concentrou-se nos resultados de estudos científicos – geralmente apresentados em tom fatalista. Pesquisadores das ciências naturais, principalmente das áreas de meteorologia e biologia, persistiram como protagonistas exclusivos e, pelo visto, as conclusões a que chegaram em seus trabalhos não comoveram a ponto de mobilizar outros grupos de atores, em especial os representantes do governo. Clique aqui  para fazer uma comparação entre as coberturas do The Independent e da Folha.
     
    Os noticiários do Brasil e da Inglaterra, cada um a seu modo, exibem não só a participação e o entrosamento como também a omissão dos atores sociais – o governo, expressivo na Inglaterra, mantém-se em silêncio e distante do debate no Brasil. Enquanto no cenário britânico os estudos e as perspectivas de impacto das mudanças climáticas atraem novos participantes e contribuem para motivar o Estado a intervir sobre a realidade, no Brasil acentuam a assimetria de poder, mantendo os cientistas como protagonistas e postergando a participação de outros atores sociais e a ação do Estado.
     
    O noticiário britânico agiu como participante e como juiz do jogo da política, não só relatando as lutas sociais. Já no Brasil – talvez pelo escasso apego a controvérsias e pela falta de tradição em reconhecer as demandas sociais – a agenda é interna ao Estado. Suas instituições impõem uma maneira de conceber o problema e de legitimar a demanda social conforme interesses próprios, puramente administrativos. Curiosamente, ambos os países se enquadram entre os de alta vulnerabilidade aos impactos das mudanças climáticas.
     

    Mediando debates e soluções

    O contraste entre as realidades inglesa e brasileira levanta algumas dúvidas. Apenas as diferenças entre o modo de funcionamento de cada sociedade, com maior ou menor participação dos cidadãos comuns, explicam o noticiário abrangente e multifacetado na Inglaterra e aquele restrito e unilateral no Brasil? Será que por aqui só mesmo os cientistas tinham o que falar? Outros grupos sociais não lidavam com dúvidas e preocupações ou simplesmente não eram vistos e reconhecidos?
     
    Emergem também algumas possibilidades de ação que, depuradas e ajustadas, poderiam ajudar a fortalecer o noticiário: olhar perto (para os problemas mais próximos) sem deixar de olhar longe; dar voz também a especialistas de outras áreas e grupos sociais; e ousar um pouco mais ao expor e tratar esses novos problemas.
     
    O desafio de aperfeiçoar o trabalho jornalístico não persegue apenas quem escreve sobre ciência ou ambiente. O jornalista e escritor Humberto Werneck já havia convidado os jornalistas que escrevem sobre literatura, cinema e teatro para que vissem o que se passa além do mainstream, em um ensaio publicado em Rumos do Jornalismo Cultural. No mesmo livro, Teixeira Coelho argumenta que o profissional da imprensa deve dialogar com as idéias que apresenta em vez de apenas as transmitir como um carteiro desatento.
     
    Estamos, portanto, diante da possibilidade de um salto no papel do jornalista: de intermediário – entendido como aquele que transporta uma idéia ou informação sem a transformar – para mediador, definido como um ser que transforma e negocia significados, nem sempre aceitando o que os protagonistas esperavam que fosse aceito, mas sim aproximando pólos distantes e, em essência, fazendo as coisas acontecerem.  
     
     
    * Jornalista com especialização pelo Reuters Institute for the Study of Journalism da Universidade de Oxford, Inglaterra. Desde 2006, participa do Programa de Pós-Graduação do Departamento de Política Científica e Tecnológica (DPCT) do Instituto de Geociências da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e é editor especial da revista Pesquisa Fapesp. 
     
     
    ** Agradeço ao Reuters Institute for the Study of Journalism pela oportunidade de acompanhar os debates sobre mudanças climáticas que ocorreram em Oxford no primeiro semestre de 2007 e à Media21 – Global Journalism Network pela possibilidade de participar de um workshop sobre mudanças climáticas em junho de 2008, em Genebra.
                                                 
     
    Referências bibliográficas
    Coelho, Teixeira. “Outros olhares”. In Rumos do Jornalismo Cultural, Summus Editorial e Itaú Cultural, 2007, págs. 24-29.
    Werneck, Humberto. “A ditadura do best-seller”. In Rumos do Jornalismo Cultural, Summus Editorial e Itaú Cultural, 2007, págs. 64-71
     

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    A VOZ DO SILÊNCIO Pensamento: Poder e Luz

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    A VOZ DO SILÊNCIO

    Pensamento: Poder e Luz

     

    Walter Barbosa,

    SOCIEDADE TEOSÓFICA

    Todo poder tem duas faces, além da neutra: a construtiva e a destrutiva. O que ele vai ser, como diz o teósofo Rogê Teissére Delgado no texto abaixo, depende da “intenção” do operador, sendo este, inclusive, o verdadeiro fator determinante do seu carma.

           O poder é de fato um atributo do Espírito. Mas sua atuação no mundo se dá por meio da mente. A origem do Universo teve por base os “arquétipos” (ou modelos) criados primeiro na Mente Divina, daí passando às formas materiais com ajuda dos Seres da Natureza (devas, gnomos, etc.). Quanto às criações humanas, tudo também começa ali, inclusive pelos efeitos em termos de saúde ou doença. Passemos às palavras de Delgado:

    “A antiga máxima hindu ‘o homem se converte naquilo que pensa’ define claramente o seguinte: tudo que o homem faz e sente, é resultado de seu pensamento. Eis porque ele se converte no que pensa. Se pensa bem, age bem e sente bem; se pensa mal, age mal e sente-se mal. Desta trindade da personalidade, a mente é o guia; dela dependem todas as nossas ações e sentimentos. Se sua função é guiar, é importante que a mente seja educada, e esse é o dever precípuo de todos. Quem não a educa, jamais conseguirá o menor progresso.

    De nada vale a fé quando desordenada por uma mente inquieta e intranqüila. De nada vale a freqüência às reuniões religiosas ou esotéricas se é feita unicamente para cumprir um dever, sem que a mente esteja educada e preparada para beneficiar-se e beneficiar os outros. Toda corrente mental para ser forte depende da educação mental daqueles que a compõem.

    O pensamento é uma ferramenta cujo poder pode ser aplicado tanto para o bem como para o mal, conforme seja a intenção do seu manejador, que ficará, entretanto, carmicamente responsável pelos bons ou maus efeitos de seus pensamentos. Se os pensamentos são dispersivos e indiferentes, eles se diluem e desperdiçam nossas energias; se são dominados e treinados, podem produzir notáveis resultados; e se além de dominados e treinados, se concentram, combinados por um agrupamento de pessoas, podem criar poderosos centros ou focos de energias mentais, impenetráveis e irradiantes de forças em todos os sentidos.

    O pensamento inerente ao homem constitui sua verdadeira força para vencer todas as dificuldades criadas por si mesmo em existências passadas, bem como para anular as oriundas do meio em que vive. O ambiente em que vive o homem atual, fruto de sua própria criação, pode apresentar-se como um entrave para a sua evolução. Mas como ele possui em si o poder do pensamento, se souber aproveitá-lo poderá vencer tais obstáculos e criar um futuro melhor, acontecendo o contrário, entretanto, se não o aproveita bem: a própria força do pensamento, mal dirigida, aumentará suas dificuldades. Vemos assim que tal força representa, como se diz, uma ‘faca de dois gumes’, tanto podendo ajudar o homem como contribuir para sua ruína. 

    Pioneiros são todos os que, após perfeita educação do pensamento, transformam suas mentes em receptáculos perfeitos da luz de seus Egos e transmissores das Verdades Eternas que, até a algum tempo atrás ocultas, agora encontram-se reveladas à humanidade para que esta possa sair das trevas do velho mundo e entrar na estrada da luz. São os que já não se prendem à análise e raciocínio da mente fria e, unificando-a com o coração, fazem da intuição a sua espada flamejante de poder e luz”.

    PRÁTICAS E CURSOS - Meditação, Teosofia, Hatha-Yoga e Iniciação Musical. Palestras públicas aos sábados, 18 horas, na Rua Pernambuco, 824, São Francisco. Informações: (67) 9988-1010. Visite o site educacional: www.educbesant.org.br

    walter.barbosa@gmail.com

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    April 23

    Jornalismo, política e clima: uma relação fundamental

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    Jornalismo, política e clima:

    uma relação fundamental

     

    As mudanças climáticas superam as dimensões de um problema ambiental. O fenômeno vem, paulatinamente, sendo abordado nos debates internacionais a partir de suas implicações econômicas e políticas. Cada vez mais, o tema está ganhando centralidade nesses campos, seja em discursos de lideranças mundiais – como o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, e o Gordon Brown –, seja como eixo de reflexão e formulação de estratégias destinadas à promoção do desenvolvimento.

    Com a finalidade de discutir essas inter-relações, especialistas e jornalistas se reuniram no Encontro Jornalismo, Política e Clima, promovido pela ANDI e a Embaixada Britânica no Brasil em 31 de março de 2009, em Brasília. Participaram do debate Eduardo Viola, professor do Instituto de Relações Internacionais da Universidade de Brasília (UnB), Sérgio Leitão, diretor de Campanhas do Greenpeace, Veet Vivarta, secretário-executivo da ANDI, Daniela Chiaretti, repórter especial do jornal Valor Econômico e a jornalista britânica Fiona Harvey, do Financial Times.

    Os especialistas consideram fundamental para o avanço da discussão sobre o fenômeno a adoção por parte do Brasil de metas de redução de emissões de carbono perante a comunidade internacional, o estabelecimento de medidas concretas relacionadas ao fenômeno climático no enfrentamento da crise financeira, a ampliação do tema para diversas esferas do âmbito governamental e a adoção de políticas rumo a uma economia de baixo carbono.


    Economia de baixo carbono

    Embora falem a partir de pontos de vista distintos, é possível identificar uma linha comum nos discursos dos expositores: todos apontam para a necessidade de olhar as mudanças climáticas de forma transversal. Para isso é necessário conhecer os principais pontos em jogo nessa complexa inter-relação.

    “Continuamos falando basicamente de mudanças climáticas ou aquecimento global”, analisa o professor da UnB Eduardo Viola. “Pouco se fala no Brasil de outros conceitos que já entraram no centro da mídia internacional, como economia de baixo carbono”, diz o pesquisador, que se dedica, entre outras coisas, ao estudo da economia política da mudança climática.

    * Leia os principais pontos da apresentação de Eduardo Viola no encontro
    Assista ao vídeo com a fala do professor da UnB

    Fiona Harvey, do Financial Times, aponta que a relação entre economia e questão climática encontra um importante exemplo no debate sobre a crise financeira mundial. “O mundo está gastando trilhões de dólares para reestruturar a economia do planeta. Porém, se esse montante for investido no tipo de infra-estrutura que já temos, será impossível reduzir as emissões de carbono ao nível necessário para minimizar o aquecimento global”. Portanto, para ela, é vital que esses recursos sejam alocados para a construção de uma economia de baixo carbono, o que significa energia renovável, transporte público limpo, carros mais eficientes. “Esse dinheiro pode ser gasto de uma maneira mais positiva para o meio ambiente”, afirma.

    * Leia os principais pontos da apresentação de Fiona Harvey no encontro
    * Assista ao vídeo com a fala da jornalista (em ingês)

    Esse enfoque voltado para uma economia de baixo carbono, que vem ganhando espaço em outros países, está vinculado ao fato de que a mudança climática chegou ao centro do sistema internacional, tornando-se notícia em editorias de política e economia. “Em 2009, essa centralidade se acentua. Uma razão decisiva é a eleição de Barack Obama, que gerou uma mudança na opinião majoritária nos Estados Unidos a respeito do fenômeno”, afirma o professor Viola.

    Segundo ele, com algumas exceções, tal fenômeno ainda não se refletiu na imprensa brasileira, o que acarreta o confinamento da cobertura sobre mudanças climáticas nos cadernos especiais e de ciências. “Mesmo nos segmentos de maior educação no Brasil, a questão ambiental e a climática continuam sendo tratadas como sinônimos. E isso é um atraso em relação a entender o mundo em que estamos vivendo e o desenvolvimento científico quanto a essa realidade”.


    Desenvolvimento e negócios

    De acordo com Sérgio Leitão, do Greenpeace, o ponto central da discussão em torno das mudanças climáticas possui um caráter muito mais amplo do que o estritamente ambiental. Trata-se de um assunto de desenvolvimento e política. “O principal embate a respeito da questão pode ser resumido naquele entre as nações que têm taxa de conforto e as que querem passar a ter taxa de conforto”, afirma. Entretanto, segundo ele, os países não estão dispostos a abrir mão desse conforto.

    “É nesse ponto que reside o confronto político, econômico e ideológico em torno do fenômeno, fazendo com que essa discussão tenha uma dificuldade muito grande de ser traduzida para o mundo real”, afirma.

    * Leia os principais pontos da apresentação de Sérgio Leitão no encontro 
    * Assista ao vídeo com a fala do especialista 

    Diante desse conflito entre abrir mão ou não de determinadas estratégias de desenvolvimento, fica mais do que claro que o tratamento político e econômico das mudanças climáticas passa pelos negócios. E isso se apresenta como uma grande oportunidade de abordagens para os jornalistas. “A mudança climática é, sim, uma questão empresarial e esses aspecto deve ser discutido pela imprensa”, acredita Fiona Harvey.

    A nova regulamentação das emissões de carbono em discussão em âmbito mundial, por exemplo, terá um impacto fundamental nas empresas. “A Europa possui um sistema no qual as grandes empresas têm que monitorar e controlar todas as emissões de dióxido de carbono. Isso se torna uma questão empresarial seríssima, uma vez que deve-se pagar pela quantidade de CO2 emitida. Quando abordo as mudanças climáticas , tenho o cuidado de tratar o assunto sob esse prisma”, diz.


    Pacotes econômicos

    De acordo com os palestrantes do encontro, a ausência de nexo entre as mudanças climáticas e essas questões econômicas e políticas faz com que as pessoas percam de vista, de um lado, os possíveis impactos das políticas e ações dos governos sobre o clima do planeta e, de outro, as consequências diretas desse processo sobre suas vidas.

    O professor Viola dá um exemplo: em alguns países, a mídia tem buscado analisar os pacotes econômicos propostos pelo governo em termos de seus impactos sobre o meio ambiente, bem como do seu potencial para a transição de matriz energética e rumo a uma economia de baixo carbono. Na opinião dele, a mídia brasileira está ausente desse debate, seja ao abordar as propostas dos governos norte-americano, britânico ou alemão, seja ao comentar as ações do governo brasileiro.

    “O estímulo governamental à indústria automotiva no país, por exemplo, é um dos mais atrasados do mundo. Está criando um problema cada vez mais grave, congestionamento urbano, pouca qualidade de vida e aumento das emissões de carbono. Ou seja, a defasagem entre números de carros e infraestrutura é um problema bastante específico do Brasil”, analisa.

    Como esse enfoque está ausente da imprensa, a sociedade perde uma oportunidade de refletir e debater os impactos decorrentes do incremento da venda de automóveis, como tem acontecido neste início de 2009, como resultado das ações do governo para aquecer a economia.


    A postura governamental

    Para a Daniela Chiaretti, o comportamento da mídia brasileira reflete a falta de integração entre as várias áreas do governo federal no que diz respeito à questão das mudanças climáticas. Segundo ela, o tema é pautado num tripé: o Ministério do Meio Ambiente, o Ministério da Ciência e Tecnologia e o Ministério das Relações Exteriores, o Itamaraty. “Dificilmente ela se afasta desses três organismos do governo. Isso dificulta bastante a cobertura”, diz a repórter. “É difícil sair desse esquema, porque os ministros de outras áreas não respondem às perguntas nesse sentido”.

    Além disso, Daniela aponta que falta integração. “De um lado, o país tem o Plano Nacional de Mudanças Climáticas (PNMC), que prevê que até 2017 nós vamos conseguir conter o desmatamento em até 72%. E por outro, o Plano Nacional de Energia, que não se relaciona com o primeiro. A construção de estradas também não está relacionada ao PNMC”, exemplifica. Ao não estabelecer relações entre essas questões, a mídia reproduz uma “esquizofrenia do governo”.

    Outro aspecto que dificulta uma cobertura mais aprofundada e reflexiva, na opinião de Daniela, é o fato de o tema estar fora da pauta mais abrangente do governo. “Eu não me lembro de ter visto a ministra da Casa Civil, Dilma Roussef, falando de mudança climática. Não me lembro de uma única citação sobre aquecimento global vinda da ministra mais forte do governo Lula”, assinala a repórter Daniela.

    * Leia os principais pontos da apresentação de Daniela Chiaretti no encontro
    * Assista ao vídeo com a fala da jornalista


    A questão das metas

    Uma outra postura governamental comentada pelos especialistas ao longo do evento foi o compromisso com metas de redução de emissões. Para o professor Eduardo Viola, um dos principais problemas em relação à mitigação das mudanças climáticas é o fato de o Protocolo de Quioto ter estabelecido metas de redução de emissões apenas para países desenvolvidos. Entretanto, o novo acordo global a ser estabelecido em dezembro de 2009 terá uma arquitetura diferente. “A redução das emissões será compulsória para países de renda média”, prevê Viola.

    Nesse ponto, o Ministério do Meio Ambiente foi revolucionário, acredita o professor. O Ministro Carlos Minc assumiu, pela primeira vez, controle da posição brasileira no diálogo internacional a respeito do tema – até então todas as decisões e posicionamentos do país perante à comunidade internacional eram tomadas exclusivamente pelo Itamaraty. “Internamente, se assume corretamente a posição de que o país tem sim, que adotar metas de redução de emissões na construção de um novo acordo climático”, afirma Viola.

    Segundo ele, o Brasil é o país com o menor custo de redução de emissões do mundo. Isso porque a principal fonte de emissões de carbono brasileira é o desmatamento. “Há uma diferença enorme, associada ao Produto Interno Bruto dos países, entre deixar de desmatar (caso do Brasil) e não construir uma termoelétrica (situação da China)”, exemplifica.

    O estabelecimento de compromisso internacional com metas de redução por parte do Brasil, segundo Viola, é decisivo para que outros países em desenvolvimento, como China e Índia, aceite as novas regras a serem definidas. “Se isso não acontecer, não há acordo. Sem acordo, os que mais perdem primeiro são os mais pobres, mas em segundo lugar perdemos nós”.

    De acordo com Sérgio Leitão, para que isso aconteça é necessário que o Itamaraty mude seu discurso oficial. “O Brasil afirma que só pode fazer algo em relação às mudanças climáticas depois que superar suas assimetrias”. O problema, segundo ele, é que o país tem assimetrias em relação a países desenvolvidos, mas também possui desigualdades internas – que sequer são mencionadas nos discursos.


    Limitações da imprensa e das fontes

    Para Leitão, existe uma dificuldade por parte da imprensa em esmiuçar todos os matizes apresentados pelos especialistas e oferecer ao leitor ou telespectador uma abordagem mais concreta em a respeito do fenômeno e suas implicações.

    “Temos observado que a imprensa brasileira avança em relação a um viés de cobrança, de investigação no campo político-econômico relacionado às mudanças climáticas. Mas ainda é um potencial que não corresponde ao que se tornou a própria agenda brasileira, já que o Brasil hoje é considerado um dos países centrais em relação a essa questão, seja a agenda brasileira externa, seja a agenda brasileira interna”, analisa o secretário-executivo da ANDI, Veet Vivarta.

    * Veja apresentação de Veet Vivarta no encontro

    As limitações dos veículos de comunicação, porém, não podem ser atribuídas somente aos jornalistas, enfatiza Sérgio Leitão. “Isso acontece porque nós temos – o setor ambientalista, as ONGs ambientais e os cientistas – uma dificuldade muito grande de tornar esse assunto interessante para quem lê”. Ou seja, segundo o ativista, as fontes de informação têm sua parcela de responsabilidade no sentido de promover não só a mudança do tom da cobertura sobre o tema, bem como a percepção dos cidadãos em relação a ele.

    “Muitas vezes, o discurso sobre mudanças climáticas fica no campo da ciência, de uma maneira muito fechada. A gente precisa ter a humildade de saber que existe uma barreira de comunicação, a qual precisa ser superada, para falar com a população. A gente fala para achando que está falando com – e as pessoas não estão entendendo nada”.

    Para ele, existe uma tendência, inclusive entre as fontes de informação, de tratar a questão das mudanças climáticas de uma maneira apocalíptica, o que acaba gerando um imobilismo por parte da população em geral. “Nós assustamos as pessoas, nós criamos um terror e não conseguimos sair disso. E mídia reflete essa atitude, que muitas vezes gera uma paralisia. Esse é o equilíbrio que a gente ainda não conseguiu encontrar, entre a disseminação da informação e um processo de indução à tomada de atitude ou mudança de atitude”, continua Leitão.


    Uma proposta viável, com ressalvas

    A proposta de tornar a cobertura mais transversal, ou seja, abordar o tema das mudanças climáticas estabelecendo relações entre diversos campos da vida humana, é, de fato, visto como uma alternativa viável – a qual, pouco a pouco, vem sendo construída no âmbito da mídia internacional.

    Tal transversalização nos veículos estrangeiros, entretanto, não foi realizada sem desafios. Fiona Harvey, que trabalha como correspondente de Meio Ambiente desde 2004 no Financial Times, do Reino Unido, conta que teve de convencer seus editores que o assunto era realmente importante e que soaria interessante inclusive aos seus leitores, na maioria pessoas de negócios.

    “No início de meu trabalho com o tema, percebi rapidamente uma questão importante: mudanças climáticas não são apenas uma questão ambiental. Isso é um ponto importante que editores têm que ter em mente. É fácil para os veículos de comunicação deixarem de lado matérias sobre meio ambiente. Elas não são levadas muito a sério”, diz Fiona.

    Dentro dessa perspectiva, propõe a jornalista, é preciso apresentar o tema com todas as suas implicações sociais, políticas e econômicas. Mas é necessário também mostrar soluções. “É muito fácil para o jornalista ver a mudança climática como um problema terrível, em que tudo é ruim. É importantíssimo apresentar o fenômeno não apenas como um problema, mas como um problema que tem solução. No Financial Times, nunca tratamos apenas por esse enforque. Nossos leitores, em especial empresários e políticos – aqueles que são realmente podem trabalhar para resolver a questão – querem receber respostas e potenciais soluções para aquele problema”, analisa Fiona.

    Por isso, defende, essa é a hora para todos nós, em conjunto, apresentarmos o aquecimento do planeta como uma questão que pode ser mudada. “É claro que a ameaça é imensa, mas nós temos uma oportunidade ímpar de refazer o mundo”, conclui.

    Para o jornalista Luis Nassif, que acompanhou o encontro, o modo de organização das redações brasileiras pode se constituir em um empecilho para a transversalização da pauta no país. Segundo ele, esse modo de organização não condiz com a maneira como a informação é produzida e circula na sociedade contemporânea. “Hoje, o conhecimento, até em nível de empresa, passou a ser sistêmico. As empresas acabaram com aquela história de um departamento de finanças, outro de outro assunto”, analisa. Mas, continua o jornalista, na imprensa persiste esse modelo de compatimentalização. “Isso dificulta muito pegar o mesmo objeto e obtter várias abordagens simultâneas”.

    * Veja entrevista com Luis Nassif

    A diversificação das fontes também pode colaborar para mudar essa realidade, afirma Nassif. “Outro ponto em relação à mídia é a incapacidade de buscar fontes alternativas. Há ciclos viciosos de fontes e ainda há uma dependência muito grande de governo”.

    Para o editor de política do jornal Correio Braziliense, Alon Feuerwerker, é preciso mudar a perspectiva da cobertura. Na visão dele, a agenda política a respeito de mudanças climáticas que chega à imprensa se resume ao que não pode ser feito. “E existem diversos grupos e diversos movimentos, cada um com sua micro agenda sobre o que não pode ser feito”, afirma. No fim, segundo ele, o que resta é uma macro agenda negativa: não construir hidrelétricas, termoelétricas, estradas, hidrovias, ferrovias, porque cada empreendimento tem um impacto ambiental diferenciado. Tal cenário, completa, não condiz com a realidade brasileira: “É preciso que, quando os assuntos sejam trazidos para nós, venham de uma maneira que faça sentido à nossa realidade”.

    *Ouça entrevista com Alon Feuerwerker

    Numa linha de raciocínio semelhante, Lisandra Paraguassú, repórter de O Estado de S. Paulo, acredita que tanto a imprensa quanto as fontes de informações, ao falar em enfrentamento às mudanças climáticas, se concentra na cobrança de atitudes individuais da população. “Se joga uma culpa muito grande em cima das pessoas, no dia a dia, quando o foco central deveria ser o governo“.

    *Conheça a resposta dos especialistas a essas e outras questões, bem como mais opiniões dos profissionais de comunicação assistindo aos vídeos do debate entre os presentes no encontro

    Esse é, inclusive, na opinião do especialista, o discurso utilizado pelo Brasil em seus posicionamentos internacionais. O país afirma que é preciso superar as assimetrias que o separam das nações desenvolvidas antes de lidar com as mudanças climáticas.

     
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    April 22

    Biblioteca Virtual da UNESCO

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    Biblioteca Virtual

    A Biblioteca UNESCO no Brasil oferece serviços eletrônicos de referência, informação e distribuição de publicações da UNESCO no Brasil,  para a equipe da UNESCO e para o público em geral, concentrando-se nos interesses que competem às áreas de atuação da Organização.

    As Fontes de Informação da UNESCO estão disponíveis em um ponto único de acesso reunindo 118 Bases de Dados bibliográficos, de referência (diretórios, projetos, etc) e textos na íntegra produzidos pela UNESCO; além de 67 Serviços de Informação localizados na Sede da UNESCO em Paris e em seus Escritórios de Representação da UNESCO espalhados pelo mundo, incluindo no Brasil.

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    Lula está construindo um gigante regional único, diz 'Newsweek'

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    Lula está construindo um gigante regional único, diz 'Newsweek'


    O Brasil vem se transformando na última década em uma potência regional única, ao se tornar uma sólida democracia de livre mercado, uma rara ilha de estabilidade em uma região conturbada e governada pelo Estado de direito ao invés dos caprichos dos autocratas. A afirmação é feita em artigo publicado na última edição internacional da revista americana Newsweek.

    "Contando com a cobertura da proteção de segurança americana, e um hemisfério sem nenhum inimigo crível, o Brasil tem ficado livre para utilizar sua vasta vantagem econômica de seu tamanho dentro da América do Sul para auxiliar, influenciar ou cooptar vizinhos, ao mesmo tempo conseguindo conter seu rival regional problemático, a Venezuela", afirma o artigo.

    Segundo a revista, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva "preside uma superpotência astuta como nenhum outro gigante emergente".

    O artigo foi publicado menos de um mês após Lula ter aparecido na capa da Newsweek, com uma entrevista exclusiva à revista após seu encontro com o presidente americano, Barack Obama, na Casa Branca.
    não acredita?, então clique aqui para ver matéria da "Newsweek" na BBC Brasil

     

    “My Man”

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    “My Man”

     

     

     

     

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    Economia e Infra-Estrutura

    Paulo Passarinho   

    Qua, 15 de abril de 2009 20:17

     

     

    Obama, o presidente dos Estados Unidos, ao chamar Lula de “meu chapa”, em meio a outras referências pessoalmente simpáticas ao nosso presidente, talvez tenha revelado, em termos políticos, o significado do que representa, hoje, o ex-operário e ex-sindicalista, no mundo da política hegemonizada pelas grandes potências

    São notórias as dificuldades em que se encontram os países líderes da Europa, o Japão e a superpotência norte-americana. A crise econômica que assola o mundo capitalista superdesenvolvido já apresenta desdobramentos inevitáveis, em termos sociais e políticos. Esforços têm sido feitos por esses países, em ações coordenadas pelos seus respectivos bancos centrais, desde o segundo semestre de 2007, para estancar uma crise que está muito longe de ser meramente uma deformação da conduta de bancos e financeiras, ou de executivos acostumados a orientar a maquiagem dos balanços das instituições que dirigem.

    As populações desses ditos países do primeiro mundo possuem uma consciência de seus direitos como cidadãos, o que obriga a própria direita desses países a respostas que não podem e não devem implicar retrocessos que ameacem conquistas que se consolidaram nas últimas décadas, mesmo levando-se em conta as experiências de natureza neoliberal.

    A crise possui várias dimensões, afetando o sistema de crédito, a capacidade de consumo de populações que vêem o seu poder aquisitivo diminuir, e que acaba por atingir a esfera produtiva e o comércio global de produtos e serviços.

    A reunião de cúpula de Londres, contando com uma participação ampliada dos países que compõem o G-20 financeiro – não confundi-lo com o G-20 das reuniões da OMC –, procurou, em linhas gerais, reforçar as medidas anticrise em três direções: no reforço do capital disponível pelo FMI para socorro de países em dificuldades de balanço de pagamentos, cuja tradução é o risco de deixar credores na mão (especialmente bancos dos países mais ricos); na injeção de recursos para reanimar o comércio internacional; e em medidas voltadas aparentemente para uma maior transparência das transações financeiras internacionais.

    Com relação ao pacote financeiro de reforço ao FMI, muito se falou da astronômica cifra de US$ 1,1 trilhão, mas nesse número se misturam muito mais intenções e outras finalidades do que propriamente recursos líquidos, e com fontes definidas, disponíveis para países em dificuldades. Objetivamente, o que a reunião de Londres aprovou foi um chamamento aos países-membros do FMI para, no curto prazo, subscreverem capital na instituição da ordem de US$ 250 bilhões.

    A resposta dos países para esse aporte é muito tímida. O Japão já havia – desde novembro passado – se comprometido em fazer um aporte de US$ 100 bilhões. A União Européia, em março, havia prometido algo semelhante. O Canadá, a China e o Brasil também se declararam dispostos a pingar algum. É daí que saiu aquele papo do Lula que “emprestar dinheiro ao FMI é chique”. Outros US$ 250 bilhões seriam integralizados pelos países-membros, um pouco mais adiante, mas sem nenhum tipo de definição mais precisa. Haverá também a emissão de US$ 250 bilhões em DES – Direitos Especiais de Saque, a moeda escritural da instituição.

    Houve ainda uma recomendação de um aporte de US$ 250 bilhões para o incremento do comércio internacional. Entretanto, esses recursos deveriam ser disponibilizados pelos países-membros do FMI, através das suas próprias agências de crédito às exportações e dos bancos regionais de desenvolvimento. Por fim, para se “fechar a conta” do US$ 1,1 trilhão, haveria uma soma de US$ 100 bilhões para o Banco Mundial, destinada aos países mais pobres, mas com a fonte objetiva da totalidade desses recursos ser, em boa parte, obscura.  Dessa forma, somando-se alhos com bugalhos, intenções com definições, chegaríamos ao montante trilionário.

    No que diz respeito à busca de uma maior transparência das movimentações financeiras internacionais, bem como dos próprios balanços das instituições financeiras, cabe destacar que no mesmo dia em que a cúpula do G-20 se reunia em Londres, o Comitê Contábil Americano anunciava mudanças nas regras contábeis dos bancos, facilitando, na ótica de muitos especialistas, a maquiagem de seus resultados. E o brado de Londres contra os refúgios fiscais, ou paraísos financeiros, deverá ainda ser muito bem traduzido em medidas concretas para que tenha condição de superar o plano de uma mera intenção sem nenhuma conseqüência prática. Esse tipo de proposta foi, por exemplo, solenemente ironizada por autoridades e formadores de opinião da Suíça, país que se gaba de dispor de uma vantagem comparativa inigualável nessa matéria, sem contar que esse tipo de medida não mereceu nenhum apoio dos chineses, interessadíssimos em preservar Hong Kong e Macau.

    Para um balanço mais sério da reunião de Londres, cabe destacar a vitória diplomática e performática, respectivamente, dos Estados Unidos e de Barack Obama. O presidente americano levou a sua simpatia não somente aos seus pares do G-20, mas consolidou junto à opinião pública da Europa a imagem de um líder que deixa para trás a antipatia e arrogância de Bush. E sem recuar um milímetro sequer dos propósitos do Estado nacional que ele preside. Em Praga, por exemplo, chegou a deixar claro que não recuará do projeto do chamado escudo antimísseis, que tanta irritação provoca nos russos.

    No tocante aos interesses de Estado da principal potência do planeta, cabe o destaque para o papel de relevo que o FMI volta a exercer, em um momento em que para muitos a instituição já se encontrava para lá de sepultada. O FMI, de acordo com opiniões insuspeitas, como é o caso de Delfim Neto, não passaria de uma extensão da Secretaria do Tesouro dos Estados Unidos.

    Em Londres, por exemplo, a discussão sobre o papel do dólar como a principal moeda internacional de trocas não mereceu nenhuma atenção, nem tampouco algum tipo de ação comum sobre o que fazer com os chamados títulos podres, ou ativos tóxicos, do sistema financeiro.

    Com novos acenos de uma reestruturação do órgão, para o ano de 2011, o papel do FMI como pronto-socorro de países em dificuldades para honrar os seus compromissos com instituições dos países mais ricos é fortalecido, e com recursos de países em desenvolvimento, como o Brasil.

    Talvez, neste ponto, seja pertinente atentar que esse Obama que adula Lula como “my man” deva merecer, de quem se julga cidadão brasileiro, a observação que de fato o presidente norte-americano é “muy amigo...”.


    "Meu chapa, adoro esse cara"' (My man, I love this guy), ... Quando eu virei governo, eu culpei a Europa e os Estados Unidos.


    Paulo Passarinho é economista e presidente do CORECON~RJ

     

    Privatizações e suas tenebrosas consequências

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    Privatizações e suas tenebrosas consequências

     

     

     

     

    Transporte

    Milton Temer   

    Qui, 16 de abril de 2009 15:04

    Milton Temer

    Quem viveu as batalhas contra as privatizações, marco principal da implantação do neoliberalismo em nossas plagas nos trágicos períodos Collor e FHC, já previa. Não há surpresa com o quadro de insegurança caótica dos transportes no Rio de Janeiro. Greves de ferroviários e rodoviários, quebradeira na estação das barcas, tudo isso era previsível quando se fazia a denúncia da entrega desses essenciais serviços públicos à sanha do lucro privado.

    “Dinossauros” incapazes de compreender o avanço da modernidade e a necessidade de diminuir o papel do Estado na economia real, era o que gritavam, em retorno, os principais meios de comunicação, através de seus colunistas cooptados, ou vendidos.

    Desde as tribunas da Câmara dos Deputados, ainda reverberam os discursos candentes dos ex-esquerdistas alojados na legenda do PSDB e dos reacionários empedernidos abrigados no PFL, com a anuência dos cínicos de sempre, ressaltadas as raras exceções regionais, ocultados no bonde do PMDB. Afirmavam, todos, a necessidade de combater os “privilégios dos marajás das estatais”, com apoio, aliás, de parte expressiva da bancada do próprio PT, quando na oposição.

    Os que combatiam as privatizações, não mitificavam a pureza da empresas estatais. Mas exigiam, para saná-las de suas deficiências, uma democratização do controle público, sobre suas administrações. E combatiam as privatizações porque isso representaria exatamente a entrega do galinheiro às raposas. Aos que sempre haviam sido privilegiados pela privatização dos espaços governamentais decisórios.

    A privatização das barcas e do Metrô, como exemplos oportunos na conjuntura atual, só se justificava pela lei da vantagem. Não havia reclamações objetivas contra o serviço público. Pelo contrário. O Metrô, principalmente, sempre foi exemplar quando administrado pelo Estado. Horários respeitados, segurança para os que dele se serviam; estava ali um exemplo de algo que pertencia ao patrimônio público e não tinha por que ser alienado. Mas a “modernidade” exigia a privataria.

    Está aí o resultado. Risco de vida para entrar num vagão do Metrô no hora do rush. Risco de vida para entrar num trem da Supervia. Risco de vida para entrar numa barca para Niterói.

    O governo Sérgio Cabral, principal aliado do governo Lula entre os governadores do PMDB – e que se empenha, não sabemos com que interesse, na privatização do Galeão –, não tinha outra saída mais coerente com sua história. Para reforçar a bandalheira que a empresa concessionária dos serviços de barcas continua a operar, emprestou-lhe – sem que o prezado público tenha sido informado das condições – R$ 8 milhões do Estado.  Para quê? Para que esses predadores cumpram obrigações contratuais, já estabelecidas e assinadas no momento de privatização dos serviços,  mas nunca cumpridas, principalmente no que diz respeito à estação de São Gonçalo, fundamental para desanuviar – a partir de utilização de terminal distinto na Praça XV – concentração em direção a Niterói. Pior que isso, só a declaração do porta-voz da Barcas S.A., convocando os interessados a dispensar a barca na hora de rush,trocando-a por outro meio de transporte. Sem vergonha. Por coincidência, quem controla o monopólio da linha de ônibus entre Rio e Niterói? A empresa 1001, do grupo que tem a concessão das barcas. 

    Mas, voltando aos R$ 8 milhões. São tirados de onde? Do erário, que continua com déficits brutais em relação à saúde e educação, “por falta de recursos” em função da famigerada Lei de Responsabilidade Fiscal, imposta pelo mandarinato tucano-pefelista de FHC, para garantir o lucro dos banqueiros. Ou seja; sacou do que falta às políticas públicas o que poderia ser um investimento lucrativo, caso o Estado do Rio de Janeiro ainda contasse com o seu banco público.

    Mas qual o quê...Vamos esquecer que Sergio Cabral, então presidente da Alerj, foi quem conduziu a votação da emenda à Constituição Estadual, legalizando a entrega do Banerj, na bacia das almas  – no período obscuro do governo Marcelo- Marco Aurélio Alencar –, ao Banco Itaú, um dos principais controladores dos títulos da dívida pública do governo brasileiro?

    Nesse contexto, não há outra saída para o problema. A se manterem em mãos de monopólios sem compromisso com algo além do lucro sem limites, é muito mais justo entregar os serviços públicos essenciais à cidadania ao monopólio estatal, sobre forte controle social.

    Vamos abrir uma discussão sobre a reestatização desses serviços essenciais. Reestatização, a despeito da  inexplicável prorrogação da concessão do Metrô, por mais vinte anos, antes mesmo da extinção do prazo em andamento e não vencido. Coisa só explicável pela submissão de governantes aos interesses de Daniel Dantas.

    Vamos retomar a bandeira, que nunca deveria ter sido arriada,  contra as privatizações, ora ainda sendo executada, no plano federal, pelo governo Lula, com a injeção de recursos no bolso dos banqueiros, do agronegócio e nas grandes empreiteiras, para compensá-los da crise especulativa dos “mercados”.

     

    Milton Temer é jornalista e presidente da Fundação Lauro Campos

     

    April 20

    A Arte de Escutar

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    A Arte de Escutar

    Jiddu Krishnamurti

    Alpino, Itália - 1ª palestra 1 de julho, 1933

    Amigos, eu gostaria que fizessem uma descoberta viva, não uma descoberta induzida pela descrição de outros. Se alguém, por acaso, lhes tivesse falado sobre este cenário, teriam vindo com as vossas mentes preparadas para tal descrição, e talvez ficassem depois desapontados pela realidade. Ninguém pode descrever a realidade. Devem experimentá-la, vê-la, sentir toda a sua atmosfera. Quando virem a sua beleza e graciosidade, experimentarão uma renovação, uma aceleração na alegria.

    A maioria das pessoas que pensam que estão à procura da verdade preparou já as suas mentes para a receber estudando descrições do que procura. Quando se examinam religiões e filosofias, descobrir-se-á que todas elas tentaram descrever a realidade; tentaram descrever a verdade para vossa orientação.

    Não vou tentar descrever o que é para mim a verdade, já que isso seria um intento impossível. Não se pode descrever ou transmitir a outro a amplitude de uma experiência. Cada um deve vivê-la por si próprio.

    Como a maioria das pessoas, vocês leram, ouviram e imitaram; tentaram descobrir o que os outros disseram sobre a verdade e sobre Deus, sobre a vida e a imortalidade. Possuem, portanto, uma imagem na mente, e querem agora comparar essa imagem com o que eu vou dizer. Ou seja, a vossa mente procura apenas descrições; não tentam descobrir de novo, tentam apenas comparar. Mas como eu não vou tentar descrever a verdade, porque ela não pode ser descrita, haverá naturalmente confusão na vossa mente.

    Quando retêm uma imagem que vão tentar copiar, ou se atêm a um ideal que vão tentar seguir, jamais poderão enfrentar uma experiência completamente; nunca serão francos, nunca serão verdadeiros no que respeita a vocês mesmos e às vossas acções; estão sempre a autoproteger-se com um ideal. Se realmente sondarem a vossa mente e o vosso coração, descobrirão que vêm aqui para obter algo novo; uma ideia nova, uma sensação nova, uma nova explicação da vida, de forma a poderem moldar a vossa própria vida de acordo com ela. Por isso estão realmente à procura de uma explicação satisfatória. Não vieram com uma atitude de frescura, para que com a vossa própria percepção, a vossa própria intensidade, pudessem descobrir a alegria da acção natural e espontânea. Muitos de vocês procuram apenas a explicação descritiva da verdade, pensando que se conseguirem descobrir o que é a verdade, poderão então moldar as vossas vidas de acordo com essa luz eterna.

    Se for esse o motivo da vossa procura, então não se trata de uma procura da verdade. É mais propriamente uma procura de consolo, de conforto; não é mais que uma tentativa de escapar aos inumeráveis conflitos e batalhas que têm que enfrentar todos os dias.

    Do sofrimento nasceu o impulso de buscar a verdade; no sofrimento reside a causa da inquirição insistente, da procura da verdade. No entanto quando sofrem – pois todos sofrem – procuram remédio e conforto imediatos. Quando sentem uma dor física momentânea, obtêm um paliativo na farmácia mais próxima para atenuar o vosso sofrimento. Da mesma forma, quando experimentam uma angústia mental ou emocional momentânea, procuram consolo, e imaginam que tentar encontrar alívio para a dor é a procura da verdade. Dessa forma estão continuamente à procura de uma compensação para as vossas dores, uma compensação pelo esforço que são assim obrigados a fazer. Evitam a causa principal do sofrimento e vivem portanto uma vida ilusória.

    Portanto, essas pessoas que estão sempre a proclamar que estão na busca da verdade estão, na verdade, a deixá-la escapar. Chegaram à conclusão que as suas vidas são insuficientes, incompletas, com falta de amor, e pensam que tentando procurar a verdade encontrarão satisfação e conforto. Se tiverem a franqueza de dizer a vocês próprios que vão apenas à procura de consolo e compensação pelas dificuldades da vida, serão capazes de procurar resolver o problema de forma inteligente.

    Mas enquanto fingirem que estão à procura de algo mais que de simples compensação, não poderão ver a questão com clareza. A primeira coisa a descobrir, portanto, é se estão realmente à procura, fundamentalmente à procura da verdade.

    Um homem que procura a verdade não é um discípulo da verdade. Suponham que me dizem: “Não tive amor na minha vida; foi uma vida pobre, uma vida de constante sofrimento; por isso, para obter conforto, procuro a verdade.” Devo então chamar a atenção para o facto de que a vossa procura de conforto é uma total ilusão. Na vida não existe isso de conforto e segurança. A primeira coisa a perceber é que devem ser absolutamente francos.

    Mas vocês próprios não estão certos do que realmente querem: querem conforto, consolação, compensação, e no entanto, ao mesmo tempo, querem algo que é infinitamente maior que a compensação e o conforto. A vossa mente está tão confusa que num momento vocês confiam numa autoridade que lhes oferece compensação e conforto e, no momento seguinte, voltam-se para outra que lhes nega conforto. A vossa vida portanto torna-se numa refinada e hipócrita existência, uma vida de confusão. Tentem descobrir o que realmente pensam; não finjam pensar o que acham que devem pensar; então, se estiverem conscientes, totalmente vivos no que estão a fazer, saberão por vocês próprios, sem auto-análise, o que realmente desejam. Se forem totalmente responsáveis nos vossos actos, saberão então sem auto-análise o que realmente procuram. Este processo de descoberta não precisa de grande força de vontade, de grande vigor, mas apenas de interesse em descobrir o que pensam, descobrir se realmente são honestos ou se vivem numa ilusão.

    Ao falar com grupos de ouvintes em todo o mundo, descubro que cada vez mais pessoas parecem não compreender o que eu digo porque vêm com ideias fixas; ouvem com a sua atitude tendenciosa, sem tentar descobrir o que tenho para dizer, mas apenas esperando descobrir o que secretamente desejam. É inútil dizer, “Aqui está um novo ideal pelo qual devo moldar-me”. Descubram de preferência o que realmente sentem e pensam.

    Como é que podem descobrir aquilo que realmente sentem e pensam? Do meu ponto de vista, só o poderão fazer tendo consciência de toda a vossa vida. Descobrirão então até que ponto são escravos dos vossos ideais, e ao descobri-lo, verão que criaram ideais apenas para vossa consolação.

    Onde existe dualidade, onde existem opostos, deve haver a consciência de incompletude. A mente está presa entre opostos, tais como castigo e recompensa, bom e mau, passado e futuro, ganho e perda. O pensamento é apanhado nesta dualidade, e por isso há incompletude na acção. Esta incompletude gera sofrimento, o conflito da escolha, esforço e autoridade, e a fuga do não essencial para o essencial.

    Quando se sentem incompletos, sentem-se vazios, e desse sentimento de vazio surge o sofrimento; devido a essa incompletude vocês criam padrões, ideias, para sustentá-los no vosso vazio, e estabelecem esses padrões e ideais como sendo a vossa autoridade externa. Qual é a causa interior da autoridade externa que criam para si mesmos? Primeiro, sentem-se incompletos e sofrem por causa dessa incompletude. Enquanto não compreenderem a causa da autoridade, não passarão de uma máquina imitativa, e onde existe imitação não pode existir a preciosa realização da vida. Para compreender a causa da autoridade deverão acompanhar o processo mental e emocional que a cria. Em primeiro lugar sentem-se vazios e para se livrarem desse sentimento fazem um esforço; ao fazer esse esforço estão somente a criar opostos; criam uma dualidade que apenas aumenta a incompletude e o vazio. Vocês são responsáveis por autoridades externas tais como religião, política, moralidade, por autoridades tais como padrões económicos e sociais. Devido ao vosso vazio, à vossa incompletude, criaram estes padrões externos dos quais tentam agora libertar-se. Evolucionando, desenvolvendo, crescendo longe deles, querem criar uma lei interna para vocês próprios. À medida que vão compreendendo os padrões externos, querem libertar-se deles e desenvolver o vosso próprio padrão interno. Este padrão interno, a que vocês chamam de “realidade espiritual”, vocês identificam-no como uma lei cósmica, o que significa que não criaram senão outra divisão, outra dualidade.

    Portanto, primeiro criam uma lei externa, e depois procuram libertar-se dela desenvolvendo uma lei interna que identificam com o universo, com o todo. É isso o que está a acontecer. Continuam conscientes do vosso egotismo que agora identificam como uma grande ilusão, chamando-lhe cósmica. Portanto, quando dizem, “Eu obedeço à minha lei interna”, não estão senão a utilizar uma expressão para encobrir o vosso desejo de se libertarem. Para mim, o homem que esteja ligado seja a uma lei externa seja a uma interna está enclausurado numa prisão; está dominado por uma ilusão. Por isso, um homem assim não pode compreender a acção espontânea, natural e saudável.

    Ora bem, porque é que criam leis internas para vocês próprios? Não será porque a luta da vida diária é tão grande, tão inarmónica, que querem libertar-se dela e a criação de uma lei interna torna-se o vosso conforto? E tornam-se escravos dessa autoridade interna, desse padrão interno, porque rejeitaram somente a imagem exterior, e criaram no seu lugar uma imagem interior à qual se escravizaram.

    Por este método não alcançarão o verdadeiro discernimento, e o discernimento é completamente diferente de escolha. A escolha tem que existir onde houver dualidade. Quando a mente está incompleta e está consciente dessa incompletude, tenta libertar-se dessa incompletude e em consequência cria o oposto a essa incompletude. Esse oposto pode ser um padrão tanto externo como interno, e uma vez estabelecido esse padrão, julga cada acção, cada experiência por esse padrão, e vive assim num estado contínuo de escolha. A escolha nasce somente da resistência. Se não houver discernimento, não há esforço.

    Portanto para mim toda esta ideia de fazer um esforço em direcção à verdade, em direcção à realidade, esta ideia de efectuar um esforço continuado, é absolutamente falsa. Enquanto estiverem incompletos experimentarão sofrimento, e por isso estarão comprometidos com a escolha, o esforço, a luta incessante por aquilo a que chamam de “conhecimento espiritual”. Por isso eu digo que quando a mente fica aprisionada na autoridade não pode ter compreensão verdadeira, pensamento verdadeiro. E uma vez que as mentes da maioria das pessoas estão aprisionadas na autoridade – que não é mais que uma evasão à compreensão, ao discernimento – não poderão experimentar completamente a experiência da vida. Por esse motivo vivem uma vida dupla, uma vida de fingimento, de hipocrisia, uma vida na qual não existe nenhum momento de plenitude.

    textos Jiddu Krishnamurti português Alpino, Itália - 1ª palestra 1 de julho, 1933.


    A VOZ DO SILÊNCIO “Agitação”: caminhos da mente sem rumo

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    A VOZ DO SILÊNCIO

    “Agitação”: caminhos da mente sem rumo

     

    Walter Barbosa

     SOCIEDADE TEOSÓFICA

         

    Movimento é vida, e consciência também. Por isso, onde há vida, há consciência e movimento. Apesar de a vida estar em toda parte no Universo, ela se expressa com maior liberdade nas formas mais evoluídas, onde a consciência está mais desperta. Assim, há mais vida e consciência num vegetal do que numa rocha, ou num animal do que num vegetal. Há certamente muito mais vida no sábio do que no bruto.

    Costumamos achar que agitação é vida. Para algumas pessoas, “viver intensamente” é não ter parada, atirar-se em todas as direções. Há quem, ache, inclusive que isso é “viver no Agora”. Esse é, porém, o estágio da criancinha espiritual, dominada pela vida “elemental” dentro de si. As crianças têm de fato essa característica, por não terem ainda obtido o domínio de seu corpo, mas muitos adultos arrastam tal condição pela vida afora.

    A vida elemental (consciência inerente à matéria, demonizada pelas religiões), pode ser considerada a mola mestra da evolução. É o Primeiro Ministro de nosso “reino interno”, enquanto o Espírito é o Rei. Dela vêm os instintos do corpo físico, provendo sua manutenção. Em nosso corpo emocional, por meio dos desejos, ela assegura a reprodução da espécie e as realizações humanas. No corpo mental, cria a noção do “eu separado”, cujo egoísmo gera sofrimento, mas também as experiências necessárias ao Espírito.

    Por enquanto, o Primeiro Ministro manda mais do que o Rei dentro de nós. Mas a missão do Espírito é justamente assumir o comando, desenvolvendo os poderes que lhe são inerentes como “Filho de Deus”. Realizamos isso ao colocar consciência - como percepção plena, isenta de julgamentos - em todos os atos, pensamentos e sentimentos compulsivos e egoístas, iluminando-os, transformando-os. É o que chamamos “evolução”, aos poucos indo do predomínio da vida elemental em nós, para a consciência da vida espiritual.

    O movimento está na matéria, como reflexo da consciência que existe nela. A teósofa Annie Besant diz: “Não há matéria sem consciência, nem há consciência sem matéria”. Agitação, porém, o que é? É o movimento desordenado, sob o império irrefletido dos estímulos exteriores, em busca de prazer. O prazer - como versão de “felicidade” que a matéria oferece - gera o apego sob o estímulo da memória. O foco aí é: repetir o prazer, buscá-lo indefinidamente, sendo tal condicionamento o nosso problema com ele.

    As pessoas viciadas em agitação parecem, às vezes, não estar apegadas a coisa alguma. Contudo, ao viverem seus relacionamentos em total descompromisso, mostram-se, isto sim, como verdadeiras “atletas do ego”: profundamente apegadas a si mesmas, à sua satisfação pessoal. Assim, vão passando um rolo compressor sobre as oportunidades de consciência de sua vida, perdendo as chances de crescimento espiritual que elas representam.

    Jiddu Krishnamurti diz: “O autoconhecimento é o começo da sabedoria. Esse autoconhecimento não pode ser conseguido nos livros, mas você pode encontrá-lo por si próprio através da observação de seu relacionamento diário com a sua mulher ou com o seu marido, com os seus filhos, com o seu patrão, com o motorista do ônibus. Através do tomar ciência de você mesmo no seu relacionamento com o outro, você descobre os mecanismos de sua mente, essa compreensão de si mesmo dá início à libertação em relação ao condicionamento. Se você entrar nisso com profundidade, você descobrirá que a mente torna-se bastante quieta, realmente serena” (“Sobre relacionamentos”, Editora Cultrix).

       Viver agitadamente pode ser apenas uma tentativa de fuga à dificuldade dos relacionamentos. Eles requerem atenção, doação. Por isso mesmo, são a abertura para a tarefa mais difícil de todas: nos relacionarmos conosco mesmos, integrando os vários “eus” de nossa vida interna, rumo ao Eu total. Afinal de contas, somos o nosso maior mistério.

    PRÁTICAS E CURSOS

    – Introdução à Teosofia (gratuito), Meditação e Hatha-Yoga. Palestras aos sábados, 18 hs, na R. Pernambuco, 824, São Francisco. Tel.: (67) 9988-1010.
    waltersbarbosa@yahoo.com.br

    April 18

    Zumbido: O que é?

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    Zumbido

    O que é?

    O zumbido, também denominado acúfeno, tinnitus ou tinido, é uma sensação de som percebido pelo indivíduo na ausência de uma fonte sonora externa. É uma das queixas de problemas no ouvido mais comum e freqüentemente vem associada com tontura e surdez.

    O zumbido pode ser considerado como um sintoma de alguma doença ou como seqüela de alguma agressão sofrida pelo ouvido (externo, médio, interno). Existe uma estimativa de que 11% a 17% da população apresenta zumbido. Aqueles pacientes que realmente sofrem com o zumbido (cerca de 20% dos casos), a queixa costuma ser dramática na consulta médica.

    Felizmente, a maioria dos pacientes não sofre com o zumbido; referem-no secundariamente ou quando são inquiridos.

    Como é?

    O barulho (zumbido) pode ser referido como um chiado, apito, barulho de chuveiro, de cachoeira, de concha, de cigarra, do escape da panela de pressão, de campainha, do esvoaçar de inseto, de pulsação do coração, batimento da asa de borboleta e de outros modos. Pode ser de forma contínua ou intermitente, constante, mono ou politonal.

    O zumbido pode ser subjetivo quando é somente ouvido pelo paciente; ou objetivo, quando outras pessoas também podem ouvi-lo.

    Pode ser considerado leve quando só é percebido pelo paciente em certas situações; moderado quando o paciente sabe da sua existência, porém não o incomoda; intenso quando a sensação desagradável o incomoda, prejudicando-o em diversas situações ou atividades; severo quando a manifestação se torna intolerável, acompanhando-o todo o tempo e dele não conseguindo se livrar, prejudicando-o ininterruptamente em suas atividades.

    O grau de desconforto, intolerância ou incapacidade causado ao paciente frequentemente não esta relacionado com o grau de intensidade do zumbido. As alterações psicológicas, muitas vezes presentes, exercem fortes influências no agravamento do sintoma zumbido.

    Zumbido tem causa?

    Muito se fala sobre a dificuldade de tratamento do zumbido, mas essa dificuldade será bem menor se soubermos a causa que o originou.

    O zumbido continua sendo considerado como um sintoma sem cura estabelecida. Entretanto, isto não significa que nada se possa fazer pelo paciente, principalmente sabendo que a determinação da causa é de suma importância para obter maior possibilidade de êxito no tratamento.

    Basicamente existem dois tipos de zumbido:
     


    zumbidos gerados pelo sistema auditivo.


    zumbidos gerados pelo sistema auditivo, formado pelas estruturas próximas ao sistema auditivo.

    Os zumbidos gerados pelo sistema auditivo são os mais freqüentes e podem se originar em qualquer local das vias auditivas, desde o conduto auditivo externo até o cérebro. São divididos em sete principais grupos causadores.
     


    Causas otológicas

    a princípio, qualquer doença ou distúrbio do ouvido pode vir acompanhado de zumbido, desde o ouvido externo (cera no conduto auditivo), ouvido médio (otite) e ouvido interno (ruido intenso).


    Causas metabólicas

    alterações metabólicas, especialmente da glicose, triglicerídios e hormônios tireoideanos podem causar ou acentuar o zumbido.


    Causas cardiovasculares

    devem ser analisadas, pois são doenças facilmente encontradas na população em geral. As mais comuns são: anemia, hipertensão arterial, insuficiência cardíaca, entre outras. De modo geral, essas doenças promovem uma diminuição do fluxo sangüíneo na cóclea (ouvido interno), provocando um zumbido agudo.


    Causas neurológicas

    doenças neurológicas (esclerose múltipla), traumatismo de crânio, tumores, seqüelas de infecções neurológicas (meningite), entre outras, podem ser causa de zumbido. Algumas vezes, o zumbido pode ser referido na cabeça e não propriamente nos ouvidos.


    Causas farmacológicas

    que merecem um alerta. O American Physician's Desk Reference lista mais de 70 medicamentos que podem provocar zumbido como efeito colateral, entre eles: ácido acetilsalicílico (aspirina), antiinflamatórios, certos antibióticos e alguns antidepressivos.


    Causas odontológicas

    segundo alguns autores, a disfunção da articulação têmporo-mandibular (ATM), bem como do aparelho mastigador podem causar zumbido.


    Causas psicológicas

    ansiedade e depressão podem estar envolvidas com zumbido. Muitas vezes, é difícil diferenciar se isso é causa ou conseqüência ou mera coincidência, principalmente, no paciente que já apresenta ambos os problemas há vários anos.

    Os zumbidos gerados pelo sistema pára-auditivo (estruturas próximas ao sistema auditivo) são geralmente causados por alterações nos vasos arteriais ou venosos, nos músculos ou na tuba auditiva. Resumidamente, são divididos em vasculares (pulsáteis) e musculares (cliques). As principais causas são os tumores vasculares, as malformações vasculares, as contrações rápidas (involuntárias, rítmicas) de um ou vários grupos musculares e a disfunção da tuba auditiva.

    O ouvido é divido em três partes: externo, médio e interno. O ou vido externo é formado pelo pavilhão auricular e canal auditivo com a membrana timpânica no fundo do canal. No ouvido médio estão os três ossículos (martelo, bigorna, estribo) e a abertura da tuba auditiva. O ouvido interno também chamado de labirinto, é formado pelo aparelho vestibular (equilíbrio) e cóclea (audição). O som chega ao cérebro através do nervo coclear.

    Causa do zumbido: como o médico faz o diagnóstico?

    A história do paciente é o primeiro e o mais importante passo no diagnóstico. A descrição de alguns tipos de zumbido, a maneira como o paciente relata, o desconforto que ele produz, podem ser informações úteis na avaliação do médico, sugerindo as prováveis etiologias de cada caso.

    O passo seguinte na avaliação do médico é o exame do paciente. Consiste no exame físico (pressão arterial, pulso, peso, exame otorrinolaringológico), avaliação da audição e equilíbrio. Um exame de imagem como a tomografia computadorizada ou ressonância magnética poderá ser necessário para estudo do ouvido médio, interno e estruturas crânio-encefálicas relacionadas. Exames laboratoriais poderão ser solicitados como sangue, secreções, excreções ou fragmento de tecido, a fim de detectar possíveis alterações tóxicas, infecciosas, sangüíneas, metabólicas, endócrinas, renais, hepáticas, intestinais.

    A avaliação cuidadosa, minuciosa, criteriosa e global de todas as informações obtidas poderá determinar o diagnóstico etiológico (causa) do zumbido. Sabendo-se a causa, será dado um passo à frente na obtenção de melhores resultados, pois vai tornar possível tratar de modo específico a doença da qual o zumbido é apenas um sintoma. É claro que isso nem sempre é possível, mas com certeza as chances serão bem melhores do que quem pensa "zumbido é tudo igual..., é muito difícil..., não tem cura..., não há nada que se possa fazer...".

    Como se trata?

    Antes de tudo, o médico deve tranqüilizar o paciente quanto à pequena probabilidade de doença grave. Muitos pacientes diminuem a percepção de seu zumbido apenas com palavras confortantes que lhe tirem quaisquer suspeita de "tumor na cabeça" ou "enlouquecimento".É importante assegurar ao paciente que dificilmente seu zumbido vai piorar, mas pelo contrário, na maioria dos casos pode ocorrer uma melhora com o passar do tempo.

    Após concluida uma minuciosa avaliação e tendo sido constatado que não existe uma doença causadora do zumbido, é muito importante dizer ao paciente que o zumbido que ele tem não é nenhuma ameaça para a sua saude.

    Os ambientes excessivamente barulhentos devem ser evitados, pois é muito freqüente a queixa de piora após exposição ao ruído.

    Também evitar o abuso de cafeína, limitando seu uso a três xícaras de café caseiro por dia. Chocolate, chá (preto e mate) e refrigerantes (tipo cola) também contêm cafeína e, além disso, muitos produtos ditos descafeinados não são isentos de cafeína, mas apresentam redução de 50% no seu teor.

    Evitar o fumo e o consumo exagerado de bebidas alcoólicas, fatores considerados agravantes do zumbido.

    Certos medicamentos em uso podem ser a causa do zumbido, como, por exemplo, o ácido acetilsalicílico (aspirina) e os antiinflamatórios. Alguns pacientes podem, ao mesmo tempo, estarem tomando vários remédios (diabete, hipertensão, coração, depressão, ansiedade, reumatismo) e, nesses casos, fica difícil saber qual das medicações pode ter feito o zumbido aparecer ou piorar.

    Se houver a constatação de alterações psicológicas relevantes como depressão e ansiedade, agravando o zumbido, um tratamento com o psicólogo ou psiquiatra tornar-se-á necessário.

    Tratamento medicamentoso: não existe fórmula única de tratamento para o zumbido. Cada caso é um caso e, portanto, o tratamento deve ser adequado para cada paciente.

    O tratamento da causa é o mais eficaz, neutralizando ou suprimindo o agente agressor, curando ou melhorando o zumbido. Muitas vezes, a causa não ficou estabelecida e para esses pacientes existem vários medicamentos disponíveis com potencial para promover alívio. Caso isso não aconteça com a primeira opção, muitas outras podem ser usadas. Entre os medicamentos prescritos estão os que agem nas células nervosas hiperexc itadas das vias auditivas, drogas que influenciam o estado emocional (ansiolíticos, anti-depressivos), vasodilatadores diretos, reguladores do fluxo sangüíneo e outros.

    Terapia de habituação: é uma terapia comportamental, um retreinamento das vias auditivas (Tinnitus Retraining Therapy - TRT) cujo objetivo é provocar o desaparecimento de reação ao som do zumbido e a perda de sentimentos negativos associados.

    A TRT envolve dois principios basicos: a orientação que é feita através de entrevistas, reuniões periódicas, com palestras e troca de experiências entre os pacientes, visando desmistificar o zumbido; o enriquecimento sonoro que visa aumentar a quantidade de sons a que o paciente é exposto, como por exemplo, o emprego de CDs com sons ambientais. a orientação basica ao paciente é: evite o silêncio.

    Para o enriquecimento sonoro existem aparelhos geradores de som, esteticamente semelhantes aos aparelhos de surdez.O gerador de som, que produz som constantemente é fixado na cabeça por cerca de 8 horas diárias.

    Em pacientes com perda auditiva e zumbido é importante prescrever um aparelho auditivo, que muitas vêzes, por si só, é capaz de melhorar significativamente a tolerância do paciente ao zumbido.

    Terapias alternativas poderão ser empregadas para diminuir a percepção do zumbido, como a estimulação elétrica da cóclea, a acupuntura, a homeopatia.

    Como o zumbido evolui?

    A maneira como o zumbido severo evolui com o passar do tempo é uma informação importante no aconselhamento médico-paciente. Respondendo a questionários, a maioria dos pacientes afirmou que passou a tolerar melhor o zumbido com o passar do tempo; aqueles que completarm a terapia da habituação, 80% tiveram uma melhora importante .

    Perguntas que você pode fazer ao seu médico

    Zumbido é doença?

    Por que estou com zumbido?

    O meu zumbido tem cura?

    Se o meu zumbido nãso tem cura no momento, o que devo fazer para conviver com ele?

     




    April 17

    MISÉRIA DA CIÊNCIA é um livro polêmico

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    MISÉRIA DA CIÊNCIA

    é um livro polêmico, que pretende entender os fundamentos da crise contemporânea e de suas dimensões intelectuais, morais e espirituais pela releitura da história da filosofia.

    Porque busca radicalizar o enfoque transdisciplinar sobre a história dos homens e a história das idéias dos homens. Porque ousa questionar o Logos da Razão Material e a Concepção Dicotômica de Mundo.  Porque procura deslindar a razão patriarcal de mundo e evidenciar a aporia do racionalismo. Porque busca analisar a encruzilhada teórica que teria contribuído para fortalecer a lógica da separatividade (com base em Parmênides, Pitágoras e Aristóteles) em oposição à idéia de totalidade (de acordo com Heráclito, Platão e Sócrates). Porque procura entender os fundamentos da crise contemporânea e de suas dimensões intelectuais, morais e espirituais. E, ao fazê-lo, MISÉRIA DA CIÊNCIA chama a atenção para uma necessidade, cada vez mais urgente, de se questionar o materialismo e recuperar uma dimensão ontológica do mundo e das coisas...


    QUANDO REALIDADE E PROFECIA SE ENTRELAÇAM

    Quando se lê o livro MISÉRIA DA CIÊNCIA, é impossível deixar de estabelecer um paralelo entre a discussão teórico-filosófica que ele desenvolve e o conteúdo simbólico da chamada pedra da profecia. Esta pedra pode ser encontrada na região dos Quatro Cantos dos Estados Unidos (perto de Oraibi, no Arizona), datando do primeiro milênio antes de Cristo (aproximadamente 1150 A.C.). Segundo os índios Hopi, que são os guardiões da pedra da profecia, o mundo teria abandonado a via espiritual, enquanto fortalecia, progressivamente, o materialismo. E hoje, mais de três mil anos depois, profecia e realidade se confundem, já que o mundo estaria se defrontando com uma nova encruzilhada (negação da negação, segundo Hegel): materialismo ou reencontro com a via principal da humanidade? Dentro deste contexto, o racionalismo, que teria contribuído para exacerbar o materialismo, se encontraria num verdadeiro “beco sem saída” (aporia) e precisaria ser transcendido para que a humanidade possa se reencontrar. O caminho – quem sabe? – pode ser indicado pelo desenvolvimento de um maior equilíbrio entre razão, emoção, sentimento e intuição e pela reinstalação do primado de uma visão não dicotômica (e, portanto, não conflituosa) de mundo...

     

     

    LANÇAMENTO

    Dia 11 de maio, às 19 hs. no Carpe Diem - CLS 104 Bl. D s/n loja 1 – Tel. 33217891

     

     

     

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     http://www.thesaurus.com.br/livro/1913/miseria-da-ciencia-a-condicao-humana-na-aporia-do-racionalismo? affid = helioblog  

     

     

     

     

     





    April 16

    A Vida e as Obras Tomás de Aquino

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    A Vida e as Obras Tomás de Aquino


    Após uma longa preparação e um desenvolvimento promissor, a escolástica chega ao seu ápice com Tomás de Aquino. Adquire plena consciência dos poderes da razão, e proporciona finalmente ao pensamento cristão uma filosofia. Assim, converge para Tomás de Aquino não apenas o pensamento escolástico, mas também o pensamento patrístico, que culminou com Agostinho, rico de elementos helenistas e neoplatônicos, além do patrimônio de revelação judaico-cristã, bem mais importante.

    Para Tomás de Aquino, porém, converge diretamente o pensamento helênico, na sistematização imponente de Aristóteles. O pensamento de Aristóteles, pois, chega a Tomás de Aquino enriquecido com os comentários pormenorizados, especialmente árabes.

    Nasceu Tomás em 1225, no castelo de Roccasecca, na Campânia, da família feudal dos condes de Aquino. Era unido pelos laços de sangue à família imperial e às famílias reais de França, Sicília e Aragão. Recebeu a primeira educação no grande mosteiro de Montecassino, passando a mocidade em Nápoles como aluno daquela universidade. Depois de ter estudado as artes liberais, entrou na ordem dominicana, renunciando a tudo, salvo à ciência. Tal acontecimento determinou uma forte reação por parte de sua família; entretanto, Tomás triunfou da oposição e se dedicou ao estudo assíduo da teologia, tendo como mestre Alberto Magno, primeiro na universidade de Paris (1245-1248) e depois em Colônia.

    Também Alberto , filho da nobre família de duques de Bollstädt (1207-1280), abandonou o mundo e entrou na ordem dominicana. Ensinou em Colônia, Friburgo, Estrasburgo, lecionou teologia na universidade de Paris, onde teve entre os seus discípulos também Tomás de Aquino, que o acompanhou a Colônia, aonde Alberto foi chamado para lecionar no estudo geral de sua ordem. A atividade científica de Alberto Magno é vastíssima: trinta e oito volumes tratando dos assuntos mais variados - ciências naturais, filosofia, teologia, exegese, ascética.

    Em 1252 Tomás voltou para a universidade de Paris, onde ensinou até 1269, quando regressou à Itália, chamado à corte papal. Em 1269 foi de novo à universidade de Paris, onde lutou contra o averroísmo de Siger de Brabante; em 1272, voltou a Nápoles, onde lecionou teologia. Dois anos depois, em 1274, viajando para tomar parte no Concílio de Lião, por ordem de Gregório X, faleceu no mosteiro de Fossanova, entre Nápoles e Roma. Tinha apenas quarenta e nove anos de idade.

    As obras do Aquinate podem-se dividir em quatro grupos:

    1. Comentários: à lógica, à física, à metafísica, à ética de Aristóteles; à Sagrada Escritura; a Dionísio pseudo-areopagita; aos quatro livros das sentenças de Pedro Lombardo.

    2. Sumas: Suma Contra os Gentios , baseada substancialmente em demonstrações racionais; Suma Teológica , começada em 1265, ficando inacabada devido à morte prematura do autor.

    3. Questões: Questões Disputadas (Da verdade , Da alma , Do mal , etc.); Questões várias .

    4. Opúsculos: Da Unidade do Intelecto Contra os Averroístas ; Da Eternidade do Mundo , etc.

    O Pensamento: A Gnosiologia

    Diversamente do agostinianismo, e em harmonia com o pensamento aristotélico, Tomás considera a filosofia como uma disciplina essencialmente teorética, para resolver o problema do mundo. Considera também a filosofia como absolutamente distinta da teologia, - não oposta - visto ser o conteúdo da teologia arcano e revelado, o da filosofia evidente e racional.

    A gnosiologia tomista - diversamente da agostiniana e em harmonia com a aristotélica - é empírica e racional, sem inatismos e iluminações divinas. O conhecimento humano tem dois momentos, sensível e intelectual, e o segundo pressupõe o primeiro. O conhecimento sensível do objeto, que está fora de nós, realiza-se mediante a assim chamada espécie sensível . Esta é a impressão, a imagem, a forma do objeto material na alma, isto é, o objeto sem a matéria: como a impressão do sinete na cera, sem a materialidade do sinete; a cor do ouro percebido pelo olho, sem a materialidade do ouro.

    O conhecimento intelectual depende do conhecimento sensível, mas transcende-o. O intelecto vê em a natureza das coisas - intus legit - mais profundamente do que os sentidos, sobre os quais exerce a sua atividade. Na espécie sensível - que representa o objeto material na sua individualidade, temporalidade, espacialidade, etc., mas sem a matéria - o inteligível, o universal, a essência das coisas é contida apenas implicitamente, potencialmente. Para que tal inteligível se torne explícito, atual, é preciso extraí-lo, abstraí-lo, isto é, desindividualizá-lo das condições materiais. Tem-se, deste modo, a espécie inteligível , representando precisamente o elemento essencial, a forma universal das coisas.

    Pelo fato de que o inteligível é contido apenas potencialmente no sensível, é mister um intelecto agente que abstraia, desmaterialize, desindividualize o inteligível do fantasma ou representação sensível. Este intelecto agente é como que uma luz espiritual da alma, mediante a qual ilumina ela o mundo sensível para conhecê-lo; no entanto, é absolutamente desprovido de conteúdo ideal, sem conceitos diferentemente de quanto pretendia o inatismo agostiniano. E, ademais, é uma faculdade da alma individual, e não noa advém de fora, como pretendiam ainda i iluminismo agostiniano e o panteísmo averroísta. O intelecto que propriamente entende o inteligível, a essência, a idéia, feita explícita, desindividualizada pelo intelecto agente, é o intelecto passivo , a que pertencem as operações racionais humanas: conceber, julgar, raciocinar, elaborar as ciências até à filosofia.

    Como no conhecimento sensível, a coisa sentida e o sujeito que sente, formam uma unidade mediante a espécie sensível, do mesmo modo e ainda mais perfeitamente, acontece no conhecimento intelectual, mediante a espécie inteligível, entre o objeto conhecido e o sujeito que conhece. Compreendendo as coisas, o espírito se torna todas as coisas, possui em si, tem em si mesmo imanentes todas as coisas, compreendendo-lhes as essências, as formas.

    É preciso claramente salientar que, na filosofia de Tomás de Aquino, a espécie inteligível não é a coisa entendida, quer dizer, a representação da coisa (id quod intelligitur) , pois, neste caso, conheceríamos não as coisas, mas os conhecimentos das coisas, acabando, destarte, no fenomenismo. Mas, a espécie inteligível é o meio pelo qual a mente entende as coisas extramentais (é, logo, id quo intelligitur ). E isto corresponde perfeitamente aos dados do conhecimento, que nos garante conhecermos coisas e não idéias; mas as coisas podem ser conhecidas apenas através das espécies e das imagens, e não podem entrar fisicamente no nosso cérebro.

    O conceito tomista de verdade é perfeitamente harmonizado com esta concepção realista do mundo, e é justificado experimentalmente e racionalmente. A verdade lógica não está nas coisas e nem sequer no mero intelecto, mas na adequação entre a coisa e o intelecto: veritas est adaequatio speculativa mentis et rei . E tal adequação é possível pela semelhança entre o intelecto e as coisas, que contêm um elemento inteligível, a essência, a forma, a idéia. O sinal pelo qual a verdade se manifesta à nossa mente, é a evidência; e, visto que muitos conhecimentos nossos não são evidentes, intuitivos, tornam-se verdadeiros quando levados à evidência mediante a demonstração.

    Todos os conhecimentos sensíveis são evidentes, intuitivos, e, por conseqüência, todos os conhecimentos sensíveis são, por si, verdadeiros. Os chamados erros dos sentidos nada mais são que falsas interpretações dos dados sensíveis, devidas ao intelecto. Pelo contrário, no campo intelectual, poucos são os nossos conhecimentos evidentes. São certamente evidentes os princípios primeiros (identidade, contradição, etc.). Os conhecimentos não evidentes são reconduzidos à evidência mediante a demonstração, como já dissemos. É neste processo demonstrativo que se pode insinuar o erro, consistindo em uma falsa passagem na demonstração, e levando, destarte, à discrepância entre o intelecto e as coisas.

    A demonstração é um processo dedutivo, isto é, uma passagem necessária do universal para o particular. No entanto, os universais, os conceitos, as idéias, não são inatas na mente humana, como pretendia o agostinianismo, e nem sequer são inatas suas relações lógicas, mas se tiram fundamentalmente da experiência, mediante a indução, que colhe a essência das coisas. A ciência tem como objeto esta essência das coisas, universal e necessária.

    A Metafísica

    A metafísica tomista pode-se dividir em geral e especial. A metafísica geral - ou ontologia - tem como objeto o ser em geral e as atribuições e leis relativas. A metafísica especial estuda o ser em suas grandes especificações: Deus, o espírito, o mundo. Daí temos a teologia racional - assim chamada, para distingui-la da teologia revelada; a psicologia racional (racional, porquanto é filosofia e se deve distinguir da moderna psicologia empírica, que é ciência experimental); a cosmologia ou filosofia da natureza (que estuda a natureza em suas causas primeiras, ao passo que a ciência experimental estuda a natureza em suas causas segundas).

    O princípio básico da ontologia tomista é a especificação do ser em potência e ato. Ato significa realidade, perfeição; potência quer dizer não-realidade, imperfeição. Não significa, porém, irrealidade absoluta, mas imperfeição relativa de mente e capacidade de conseguir uma determinada perfeição, capacidade de concretizar-se. Tal passagem da potência ao ato é o vir-a-ser , que depende do ser que é ato puro; este não muda e faz com que tudo exista e venha-a-ser. Opõe-se ao ato puro a potência pura que, de per si, naturalmente é irreal, é nada, mas pode tornar-se todas as coisas, e chama-se matéria.

    A Natureza

    Uma determinação, especificação do princípio de potência e ato, válida para toda a realidade, é o princípio da matéria e de forma. Este princípio vale unicamente para a realidade material, para o mundo físico, e interessa portanto especialmente à cosmologia tomista. A matéria não é absoluto, não-ente; é, porém, irreal sem a forma, pela qual é determinada, como a potência é determinada, como a potência é determinada pelo ato. É necessária para a forma, a fim de que possa existir um ser completo e real (substância ). A forma é a essência das coisas (água, ouro, vidro) e é universal. A individuação, a concretização da forma, essência, em vários indivíduos, que só realmente existem (esta água, este ouro, este vidro), depende da matéria, que portanto representa o princípio de individuação no mundo físico. Resume claramente Maritain esta doutrina com as palavras seguintes: "Na filosofia de Aristóteles e Tomás de Aquino, toda substância corpórea é um composto de duas partes substanciais complementares, uma passiva e em si mesma absolutamente indeterminada ( a matéria ), outra ativa e determinante ( a forma )" .

    Além destas duas causas constitutivas (matéria e forma), os seres materiais têm outras duas causas: a causa eficiente e a causa final. A causa eficiente é a que faz surgir um determinado ser na realidade, é a que realiza o sínolo , a saber, a síntese daquela determinada matéria com a forma que a especifica. A causa final é o fim para que opera a causa eficiente; é esta causa final que determina a ordem observada no universo. Em conclusão: todo ser material existe pelo concurso de quatro causas - material , formal , eficiente , final ; estas causas constituem todo ser na realidade e na ordem com os demais seres do universo físico.

    O Espírito

    Quando a forma é princípio da vida, que é uma atividade cuja origem está dentro do ser, chama-se alma . Portanto, têm uma alma as plantas (alma vegetativa: que se alimenta, cresce e se reproduz), e os animais (alma sensitiva: que, a mais da alma vegetativa, sente e se move). Entretanto, a psicologia racional , que diz respeito ao homem, interessa apenas a alma racional. Além de desempenhar as funções da alma vegetativa e sensitiva, a alma racional entende e quer, pois segundo Tomás de Aquino, existe uma forma só e, por conseguinte, uma alma só em cada indivíduo; e a alma superior cumpre as funções da alma inferior, como a mais contém o menos.

    No homem existe uma alma espiritual - unida com o corpo, mas transcendendo-o - porquanto além das atividades vegetativa e sensitiva, que são materiais, se manifestam nele também atividades espirituais, como o ato do intelecto e o ato da vontade. A atividade intelectiva é orientada para entidades imateriais, como os conceitos; e, por conseqüência, esta atividade tem que depender de um princípio imaterial, espiritual, que é precisamente a alma racional. Assim, a vontade humana é livre, indeterminada - ao passo que o mundo material é regido por leis necessárias. E, portanto, a vontade não pode ser senão a faculdade de um princípio imaterial, espiritual, ou seja, da alma racional, que pelo fato de ser imaterial, isto é, espiritual, não é composta de partes e, por conseguinte, é imortal.

    Como a alma espiritual transcende a vida do corpo depois da morte deste, isto é, é imortal, assim transcende a origem material do corpo e é criada imediatamente por Deus, com relação ao respectivo corpo já formado, que a individualiza. Mas, diversamente do dualismo platônico-agostiniano, Tomás sustenta que a alma, espiritual embora, é unida substancialmente ao corpo material, de que é a forma. Desse modo o corpo não pode existir sem a alma, nem viver, e também a alma, por sua vez, ainda que imortal, não tem uma vida plena sem o corpo, que é o seu instrumento indispensável.

    Deus

    Como a cosmologia e a psicologia tomistas dependem da doutrina fundamental da potência e do ato, mediante a doutrina da matéria e da forma, assim a teologia racional tomista depende - e mais intimamente ainda - da doutrina da potência e do ato. Contrariamente à doutrina agostiniana que pretendia ser Deus conhecido imediatamente por intuição, Tomás sustenta que Deus não é conhecido por intuição, mas é cognoscível unicamente por demonstração; entretanto esta demonstração é sólida e racional, não recorre a argumentações a priori , mas unicamente a posteriori , partindo da experiência, que sem Deus seria contraditória.

    As provas tomistas da experiência de Deus são cinco: mas todas têm em comum a característica de se firmar em evidência (sensível e racional), para proceder à demonstração, como a lógica exige. E a primeira dessas provas - que é fundamental e como que norma para as outras - baseia-se diretamente na doutrina da potência e do ato. "Cada uma delas se firma em dois elementos, cuja solidez e evidência são igualmente incontestáveis: uma experiência sensível, que pode ser a constatação do movimento, das causas, do contingente, dos graus de perfeição das coisas ou da ordem que entre elas reina; e uma aplicação do princípio de causalidade, que suspende o movimento ao imóvel, as causas segundas à causa primeira, o contingente ao necessário, o imperfeito ao perfeito, a ordem à inteligência ordenadora".

    Se conhecermos apenas indiretamente, pelas provas, a existência de Deus, ainda mais limitado é o conhecimento que temos da essência divina, como sendo a que transcende infinitamente o intelecto humano. Segundo o Aquinate, antes de tudo sabemos o que Deus não é (teologia negativa), entretanto conhecemos também algo de positivo em torno da natureza de Deus, graças precisamente à famosa doutrina da analogia. Esta doutrina é solidamente baseada no fato de que o conhecimento certo de Deus se deve realizar partindo das criaturas, porquanto o efeito deve Ter semelhança com a causa. A doutrina da analogia consiste precisamente em atribuir a Deus as perfeições criadas positivas, tirando, porém, as imperfeições, isto é, toda limitação e toda potencialidade. O que conhecemos a respeito de Deus é, portanto, um conjunto de negações e de analogias; e não é falso, mas apenas incompleto.

    Quanto ao problemas das relações entre Deus e o mundo, é resolvido com base no conceito de criação, que consiste numa produção do mundo por parte de Deus, total, livre e do nada.

     



    April 14

    Um novo tipo de organização

     
     
     

    Um novo tipo de organização

     

     

     

     

    Questões Ideológicas

    Rosa Luxemburgo   

    Ter, 07 de abril de 2009 17:37

     

    Rosa Luxemburgo

    [...] Na história da sociedade de classes, o movimento social-democrata foi o primeiro que sempre contou, em todos os seus momentos e em todo o seu percurso, com a organização e a ação autônoma e direta da massa.

    Assim sendo, a social-democracia cria um tipo de organização totalmente diferente dos anteriores movimentos socialistas, como, por exemplo, os de tipo jacobino-blanquista.

    Lenin parece subestimar isso quando, no seu livro [Um passo à frente, dois passos atrás], exprime a opinião de que o revolucionário social-democrata nada mais é que “um jacobino indissoluvelmente ligado à organização do proletariado com consciência de classe”.  Para Lenin, toda a diferença entre a social democracia e o blanquismo consiste na organização e na consciência de classe do proletariado, em lugar da conspiração de uma pequena minoria.  Esquece que com isso produz-se uma completa reavaliação do conceito de organização, um conteúdo inteiramente novo para o conceito de centralismo, uma concepção inteiramente nova da relação recíproca entre a organização e a luta.

    O blanquismo não levava em consideração a ação imediata da massa operária e, portanto, também não precisava de uma organização de massa.  Ao contrário, como a grande massa popular só devia aparecer no campo de batalha no momento da revolução, e a ação temporária consistia na preparação de um golpe revolucionário por uma pequena minoria, o sucesso da tarefa exigia diretamente a clara demarcação entre as pessoas encarregadas dessa ação determinada e a massa popular.  Mas isso era igualmente possível e realizável porque não existia nenhuma ligação interna entre a atividade conspirativa de uma organização blanquista e a vida cotidiana da massa popular.

    Ao mesmo tempo, a tática, bem como as tarefas detalhadas da ação, já que sem ligação com o solo da luta de classes elementar, eram, sob a forma de um plano determinado, livremente improvisadas, elaboradas em detalhe, fixadas e prescritas de antemão.  Assim, os membros ativos da organização transformavam-se naturalmente em simples órgãos executivos de uma vontade predeterminada fora de seu próprio campo de ação, em instrumentos de um comitê central.  Com isso estava dado também o segundo momento do centralismo conspirador: a submissão absoluta e cega das células do partido às autoridades centrais e a extensão do poder decisivo destas últimas até a mais extrema periferia da organização partidária.

    Radicalmente diversas são as condições da atividade social-democrata.  Esta nasce historicamente da luta de classes elementar.  E move-se na contradição dialética de que só na própria luta é recrutado o exército do proletariado e que também, só na luta, as tarefas da luta se tornam claras.  Organização, esclarecimento e luta não são aqui momentos separados, mecânica e temporalmente distintos, como num movimento blanquista, mas são apenas diferentes aspectos do mesmo processo.  Por um lado, exceto quanto aos princípios gerais da luta, não existe um conjunto detalhado de táticas, já pronto, preestabelecido, que um comitê central possa ensinar aos membros da social democracia, como se estes fossem recrutas.  Por outro lado, o processo de luta que cria a organização conduz a uma constante flutuação da esfera de influência da social democracia.   

    Disso resulta que a centralização social-democrata não pode se fundar na obediência cega, na subordinação mecânica dos militantes a um poder central.  E, por outro lado, nunca se pode erguer uma parede divisória absoluta entre o núcleo do proletariado com consciência de classe, solidamente organizado no partido, e as camadas circundantes, já atingidas pela luta de classes, que se encontram em processo de esclarecimento de classe.  O estabelecimento da centralização na social democracia sobre esses dois princípios, a cega subordinação, até nos menores detalhes, da atividade de todas as organizações partidárias a um poder central que, sozinho, pensa, cria e decide por todos, assim como a rigorosa separação entre o núcleo organizado do partido e o meio revolucionário que o cerca, tal como é defendido por Lenin, parece-nos uma transposição mecânica dos princípios organizativos do movimento blanquista de círculos de conspiradores para o movimento social-democrata das massas operárias.  Talvez Lenin tenha caracterizado mais penetrantemente seu ponto de vista do que qualquer dos seus adversários, ao definir seus “revolucionários social-democratas” como “jacobinos ligados à organização dos operários com consciência de classe”.  Mas de fato a social democracia não está ligada à organização da classe operária, ela é o próprio movimento da classe operária.  O centralismo social-democrata precisa, pois, ser de natureza essencialmente diferente do centralismo blanquista.  Ele só pode ser a concentração imperiosa da vontade da vanguarda esclarecida e militante do operariado perante seus diferentes grupos e indivíduos.  É, por assim dizer, um “autocentralismo” da camada dirigente do proletariado, é o domínio da minoria no interior da sua própria organização partidária.

    [...] A disciplina que Lenin tem em vista não é, de forma alguma, inculcada no proletariado apenas pela fábrica, mas também pela caserna e pelo moderno burocratismo.  Numa palavra, por todo o mecanismo do estado burguês centralizado.  É apenas fazer mau uso dessa palavra de ordem designar-se igualmente por “disciplina” dois conceitos tão opostos quanto a ausência de vontade e de pensamento numa massa de carne com muitas pernas e braços, executando movimentos mecânicos de acordo com uma batuta, e a coordenação voluntária de ações políticas conscientes de uma camada social, dois conceitos tão opostos quanto a obediência cadavérica de uma classe dominada, e a rebelião organizada de uma classe que combate pela sua libertação.  Não é partindo da disciplina nela inculcada pelo Estado capitalista, com a mera transferência da batuta da mão da burguesia para a de um comitê central social-democrata, mas pela quebra, pelo extirpamento desse espírito de disciplina servil que o proletariado pode ser educado para a nova disciplina voluntária da social democracia.

    [Questões de organização da social democracia russa, in LUXEMBURGO, Rosa.  A revolução russa.  Petrópolis: Vozes, 1991, pp. 42-45]


    Rosa Luxemburgo (1871-1919), neste artigo de 1904 ― Questões de organização da social democracia russa ―, que se tornou famoso, polemiza com as concepções defendidas por Lenin no livro Um passo à frente, dois passos atrás, criticando a proposta leninista do partido de novo tipo como uma vanguarda centralizada e disciplinada de revolucionários profissionais.  O dissídio talvez possa ser esclarecido, ao menos em parte, pelas diferentes situações concretas em que atuavam os revolucionários russos e  alemães.

     

    April 13

    Documentário “Mataram Irmã Dorothy”

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    Documentário

    “Mataram Irmã Dorothy” estreia no dia 17 de abril

    Filme revela os bastidores do controvertido julgamento dos assassinos da missionária americana, que teve novos desdobramentos na última terça-feira (7).

     

    No dia 17 de abril, estreia nos cinemas de São Paulo, Rio de Janeiro, Brasília e Belém o documentário “Mataram Irmã Dorothy”, sobre o assassinato da freira Dorothy Stang, executada brutalmente com seis tiros, em 2005, em Anapu, interior do Pará.

    O filme, dirigido pelo americano Daniel Junge e narrado pelo ator Wagner Moura, revela os bastidores do julgamento dos assassinos da missionária americana, investigando as razões de sua morte e os verdadeiros mandantes do crime.

    Em 2008, “Mataram Irmã Dorothy” venceu o Prêmio do Público e Grande Prêmio do Júri no Festival South by Southwest; recebeu Menção Honrosa do Júri no FIC Brasília; e participou das seleções oficias do Festival do Rio e Mostra Internacional de São Paulo.

    Nesta terça-feira, dia 7, aconteceram novas reviravoltas no caso: o Tribunal de Justiça do Pará acaba de anular o julgamento, ocorrido em maio de 2008, que absolveu o fazendeiro Vitalmiro Bastos de Moura, o Bida, um dos acusados de ser mandante do crime, assim como o julgamento que condenou Rayfran das Neves Sales, apontado como executor do assassinato, a 28 anos de prisão.

    No caso de Bida, a promotoria alega que a defesa usou uma prova ilegal ao exibir um vídeo em que outro participante do crime, Amair Feijoli da Cunha, o Tato, inocenta o fazendeiro. Tal prova foi incluída nos autos sem o conhecimento do Juiz e do Ministério Público.

    No caso de Rayfran, os desembargadores acreditam que a avaliação dos jurados tenha sido prejudicada porque, na época do julgamento, a promotoria não conseguiu provar a qualificadora de promessa de recompensa. Para o Tribunal de Justiça do Pará, se isso tivesse ocorrido, a pena de Rayfran poderia ser maior.

    Novos julgamentos para ambos os acusados ainda devem ser marcados pela Justiça. Veja abaixo o trailer do filme.

    http://www.youtube.com/watch?v=RFVXtvNZpA4&feature=player_embedded

    MATARAM IRMÃ DOROTHY (They Killed Sister Dorothy)
    de Daniel Junge. Documentário. Estados Unidos / Brasil, 2008. 94min.
    Narração de Wagner Moura


    Em fevereiro de 2005, a irmã Dorothy Stang, de 73 anos, foi brutalmente assassinada. Ativista na defesa do meio ambiente e das comunidades carentes exploradas por madeireiros e donos de terra na Amazônia, a freira americana foi executada com seis tiros no interior do Pará. O documentário revela os bastidores do julgamento dos assassinos de Dorothy e investiga as razões de sua morte e seus verdadeiros mandantes. Por trás do drama criminal, vem à tona o legado de seu trabalho humanitário na floresta brasileira.


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    April 09

    G20: Um pequeno retoque de pintura em um planeta em ruínas

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    Economia e Infra-Estrutura

    Eric Tousssaint e Damien Millet   

    Sex, 03 de abril de 2009 11:57

     

    Não falta publicidade à Cúpula do G20, que está reunida em Londres desde ontem, 1º de Abril. O grupo dos vinte países mais industrializados e emergentes (G20) reuniu-se para apontar soluções à crise. Porém, muito antes do encerramento da cúpula, a constatação é certa: o G20 não estará à altura do desafio.

    Isso porque o G20 não foi organizado com o objetivo de apontar soluções, mas foi convocado às pressas e correndo, em novembro de 2008, para salvar a cara dos poderosos e tentar rechear as brechas de um capitalismo em plena crise. Portanto, é impossível que adote medidas suficientemente radicais para inverter a tendência.

    Foi pedido à opinião pública que olhasse em duas direções que serviam para cristalizar a exasperação: os paraísos fiscais e as remunerações dos diretores das grandes empresas.

    Supostamente, têm que abolir os paraísos fiscais. Para isso, é suficiente proibir as empresas e os residentes de ter ativos ou manter relações com associados estabelecidos em paraísos fiscais. Os países da União Europeia (EU) que funcionam como paraísos fiscais (Áustria, Bélgica, Reino Unido, Luxemburgo...) e a Suíça devem suspender o segredo bancário e por fim à sua prática escandalosa. Porém, esta não é a orientação tomada pelo G20: serão sancionados alguns casos emblemáticos; será pedido que esses países tomem umas medidas mínimas; e será feita uma ‘lista suja’ de territórios não cooperativos, depurada com todo o cuidado (La City de Londres, Luxemburgo e Áustria conseguiram não aparecer nessa lista).

    Por outro lado, as remunerações dos diretores das grandes empresas, que inclui pára-quedas de ouro e bônus diversos, são realmente insuportáveis. Em período de crescimento, os padrões afirmavam que era necessário recompensar os que colaboravam com tantos benefícios à empresa para evitar sua quebra. Agora que a crise está solidamente instalada e que as empresas veem como aumentam suas perdas, os de sempre continuam reclamando o que lhes é devido. O G20 tentará regular essas remunerações durante um curto tempo. O que não será tocado é e própria lógica de tudo isso.

    Além dos paraísos fiscais e dos super bônus dos patrões, para quem tampouco foram especificadas as eventuais sanções, os países do G20 continuarão alisando os bancos. O FMI (Fundo Monetário Internacional), apesar de seu descrédito e desletimação em escala mundial, o colocará de novo no centro do jogo político e econômico graças a uma colaboração de fundos que será produzida de agora até 2010.

    Um pequeno retoque de pintura em um planeta em ruínas é o que resta ao G20. Somente uma forte mobilização popular poderá permitir a construção de cimentos sólidos para elevar por fim um mundo no qual as finanças estejam a serviço dos seres humanos e não ao contrário. As manifestações de 28 de março a 1º de abril foram muito importantes: 40.000 pessoas em Londres, dezenas de milhares em Viena, Berlim, Stuttgart, Madri, São Paulo, Brasília, Roma, Buenos Aires,... com o lema "Que os ricos paguem a crise!". A Semana de ação mundial convocada pelos movimentos sociais do mundo inteiro durante o Fórum Social Mundial (FSM) de Belém, em janeiro de 2009, teve por conseguinte um eco gigantesco. Aqueles que anunciaram o fim do movimento altermundista se equivocaram. O movimento tem demonstrado que é perfeitamente capaz de conseguir grandes mobilizações e é somente o começo. O êxito das realizadas na França no dia 29 de janeiro e em 19 de março, com três milhões de manifestantes nas ruas, demonstra que os trabalhadores, os desempregados, os jovens querem outras soluções para a crise, não as que consistem em salvar os bancos e obrigar os de baixo a ajustar ainda mais o cinto.

    De forma simultânea, porém independente do G20, o presidente da Assembleia Geral das Nações Unidas, Miguel D’Escoto, convocou uma reunião geral de chefes de Estado para o próximo mês de junho e pediu ao economista Joseph Stiglitz que presida uma comissão de propostas para responder à crise global. As soluções que se apresentam não são apropriadas, demasiado tímidas, porém, terão o mérito de ser objeto de discussão na Assembleia Geral da ONU.

    Uma nova crise da dívida está se preparando no Sul e é a consequência da explosão da bolha da dívida privada imobiliária no Norte. Esta crise que atinge atualmente a economia real de todos os países do Norte tem provocado uma queda nos preços dos produtos primários, o que tem reduzido as entradas de divisas com as quais os governos dos países do Sul reembolsam sua dívida externa. A contração do crédito tem conduzido a um aumento do custo dos empréstimos aos países do Sul. Esses dois fatores já estão produzindo suspensões do pagamento da dívida por parte dos governos dos países mais expostos à crise (começando pelo Equador). Dentro de um ou dois anos, outros estarão na mesma situação.

    A situação é absurda: os países do Sul são prestadores netos em relação ao Norte, em primeiro lugar Estados Unidos, com uma dívida externa total de mais de 6 bilhões de dólares (o dobro da dívida externa do Terceiro Mundo). Os Bancos Centrais dos países do Sul compram bônus do Tesouro dos Estados Unidos. Ao contrário, deveriam formar um Banco do Sul, democrático (um país = um voto), com o objetivo de financiar projetos de desenvolvimento humano; sair do Banco Mundial, do FMI e do BID (Banco Interamericano de Desenvolvimento), que são instrumentos de dominação; desenvolver as relações de solidariedade Sul-Sul, como o estão fazendo os países membros da Alba (Venezuela, Cuba, Bolívia, Nicarágua, Honduras, Dominica); realizar auditorias das dívidas que lhes reclamam e deixar de pagar as dívidas ilegítimas.

    O G20 vigiará para que se preserve o essencial da lógica neoliberal. OS princípios são de novo apontados, mesmo que seu fracasso esteja claro. O G20 reafirma seu apego a "uma economia mundial aberta baseada nos princípios do mercado". Portanto, seu suporte ao deus mercado não é negociável. O resto é mero palavrório.


    Eric Toussaint, doutor em ciências políticas, é presidente de CADTM Bélgica (Comitê para a Anulação da Dívida do Terceiro Mundo, www.cadtm.org), autor de ‘El Banco del Sur y la nueva crisis internacional’, El Viejo Topo, 2008, 230 páginas (también publicado em 2008 no Equador por Abya Yala e na Bolívia pelo Observatorio DESC).  Damien Millet, matemático, é portavoz de CADTM França, autor de ‘África sin Deuda’, Icaria, Barcelona, 2007.  Conjuntamente, escreveram 60 perguntas, 60 respostas sobre a dívida, o FMI e o Banco Mundial, próxima edição Icaria/Intermón Oxfam, Barcelona.


    Tradução: ADITAL


    Fonte: http://www.adital.org.br/site/noticia.asp?lang=PT&cod=38047

     

    MEM Philippe de Lyon

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    MEM Philippe de Lyon

    MEM é a abreviatura de Muito Excelso Mestre.


     

    NIZIER ANTHELME PHILIPPE, conhecido como Mestre Philippe de Lyon, (YouTube)  foi pessoa simples e cativante; nasceu em Rubathier (Loisieux sur Savoie) no dia 25 de abril de 1849, às três da manhã [1]. Seu pai chamava-se José e sua mãe Maria Vachod. Teve quatro irmãos, sendo que um deles, Benoit, ao morrer com varíola aos 26, tinha habilidades paranormais, era o que se dizia: Philippe lamentou a passagem do irmão, ao dizer que poderiam ter feito uma bela dupla na Terra (para ler um pouco mais sobre o MEM, veja os posts no Filosofix, Sádhana e os 50.000 acessos - AQUI e Sádhana e a Generosidade - AQUI).

    SÁDHANÃ. Sabedoria da Vida

     Eis uma lembrança para quem considera MEM Philippe, pois entramos no signo em que ele nasceu. Guarde com cuidado e atenção cada palavra abaixo de sua mais preciosa aluna:
    "Para qualquer coisa importante peça sempre três confirmações de diferentes fontes, e espere dentro de um prazo marcado de antemão. Uma entrega à vontade de Deus facilita a espera."
     

    Aos 14 anos, Philippe transferiu-se para Lyon, com o objetivo de estudar. Nesse período, morou com seu tio materno Vachod, um açougueiro, para trabalhar e pagar o próprio sustento. Vachod, o tio, era materialista e, no leito de morte, foi agraciado pelo sobrinho: Philippe colocou o dedo sobre sua testa e disse-lhe: “O Senhor não foi um crente, veja agora!” Vachod, com o rosto iluminado, possivelmente por imagens magníficas, então, expirou!

    Na Santa Casa, em Lyon, estudou medicina com Benédict Tessier. Todos admiravam-se com as curas realizadas. Certa feita, Philippe prometeu a um doente desesperado que não iriam amputar uma de suas pernas. No dia seguinte, médicos que iriam realizar a cirurgia souberam que um “jovem senhor castanho” havia feito a cura. Num outro relato, três soldados que estavam com febre tifóide, à beira da morte, receberam a visita do Mestre. Ao aproximar-se, Philippe disse-lhes: “Todos vos consideram perdidos, não creiam nisso; todos os três ficarão curados. Amanhã entrareis em convalescência e sereis enviados a Longchène.” O que aconteceu de fato.

    Contudo, infelizmente, a inveja e o ódio dos médicos foi despertada. Mestre Philippe foi expulso da Escola de Medicina, acusado de charlatanismo.

    Na guerra de 1870, entre França e Prússia, atuou como médico. Àquela altura, já possuía uma sala em Lyonez de Perrache, onde tratava pacientes muito enfermos. Pessoas que freqüentavam o salão, solicitavam ao prefeito que Philippe saísse do exército, a fim de que cuidasse, exclusivamente, dos doentes da cidade. O prefeito mandou chama-lo para uma entrevista e, para tanto, ousou desafia-lo, pedindo-lhe uma prova de seus poderes. Para atender ao desafio, imediatamente um conselheiro do prefeito desmaiou naquele instante.

    Todavia, as sessões de curas e trabalhos espirituais continuaram em sua “salinha”, no bosque de L’Arbresle. (departamento do Rhône, na região de Lyon), (Uma dica:  à estação de Nîmes para marcar a viagem Nîmes/Lyon/L’Arbresle.)

    Em 1877 casou-se com Jeanne Julie Landar, curada por ele e que veio a tornar-se sua assistente. O dia 11 de novembro de 1878 foi especial: nasceu, em l’Arbresle, a filha Jeanne Victoire, futura esposa de Emmanuel Lalande (Marc Haven).

    MEM Philippe pregou a reencarnação; dizia que a dor era resultado de dívidas contraídas com o semelhante em encarnações passadas. “Ninguém arrancará um fio de cabelo de seu próximo que não seja obrigado a pagar. O sofrimento vem a ser uma maneira do homem tornar-se melhor e mais consciente da espiritualidade.”

    Entre alguns de seus ensinamentos mais elucidativos, encontram-se os seguintes:

    a) “Meus amigos e irmãos: não se preocupem; creiam, vim trazer a luz na confusão e não vim sem armas, sem escolta, vim armado com a verdade e a luz!”

    b) Que teria vivido ao tempo de Jesus Cristo, e que era um pobre pecador. “Ainda sou pequeno e é por isso que Deus exalta minhas orações. Vocês são grandes demais e é por isso que Deus não vos ouve. Quando forem humildes e tão velhos como eu, tereis o poder de elevar o véu que separa os planos. É necessário, igualmente, amar vosso próximo como a vós mesmos”.

    c) “Meu país não é este. Vim inspecionar uma propriedade que devo comprar a qualquer momento, mas não me arrependo de ter vindo. Vim por minha livre e espontânea vontade e o que vejo interessa-me”.

    d) “Tenho um amigo que está sempre comigo, mas que vocês não vêem. Esse amigo, que não me abandona jamais, não gosta que me insultem. Posso perdoar aqueles que me insultam, mas ele jamais o faz! Nosso Senhor Jesus Cristo tinha dito isto: “Se você insultar Aquele que está comigo, não terá seu perdão”. Aquele que me ofende, ofende Aquele que está comigo. O que diria uma pessoa se, diante de si, déssemos um pontapé em seu cachorro?”

    e) Nas acusações que recebia, por charlatanismo, mostrava-se tranquilo e nunca perdeu um único processo: - “Se o tribunal me condena, o Tribunal Celeste absolver-me-à, pois ele deu-me uma missão a cumprir e não será a potência humana que irá executá-la por mim e não poderá impedir-me de cumprir os meus deveres. A hora soou e deu o sinal de minhas provações; estarei firme e não cederei um palmo do território confiado por meu Pai.

    f) “Meu Pai enviou-me aqui para que cuidasse e encorajasse seus filhos, que são meus irmãos, para lhes amar, abençoar e liberá-los a Ele, tirando-os das dificuldades. Não cessarei minha obra a não ser quando ela estiver concluída.”

    Dos inúmeros episódios marcantes da vida de MEM Philipe, é bom citar os seguintes:

    - MEM Philippe, para além de suas curas milagrosas e outros ensinamentos ministrados durante as seções, mostrava conhecimento do passado das pessoas. Certa vez, em um trem, ao lado de um bispo, foi desafiado por este a contar-lhe algo do passado ou da família. O Mestre, então, revelou o seguinte: - “Pois bem, vou satisfazer sua curiosidade: há alguns anos, um membro de sua família apareceu enforcado junto à janela e todos acreditaram em suicídio. Seu parente foi assassinado primeiro e depois dependurado para simular o suicídio”. O bispo concordou e calou-se.

    - Numa outra ocasião, Philippe não quis curar um paralítico. Haehl perguntou-lhe o porque de tal gesto e a resposta veio: “Acontece que é a segunda existência em que esse infeliz está neste estado, mendigando, pois não quer trabalhar.”

    - Noutra vez, durante uma das reuniões em L’Arbresle, um senhor arrogante disse, em voz alta, que era preciso ser idiota para acreditar em Philippe e no que o Mestre dizia e fazia. Após algum tempo, Mestre chamou-lhe em uma sala ao lado e perguntou-lhe por qual motivo havia estrangulado uma mulher (mostrando-lhe a cena). “Eu estava ao teu lado.” O homem, de joelhos, pediu perdão e segredo contra a polícia. O diálogo foi o seguinte: - “Satisfaço teu desejo se mudares de vida e se seguires tua religião de nascimento.” - “Se eu seguir minha religião, terei de confessar-me.” - “Não precisa, tu já te confessaste a mim e isto basta”.

    - Numa das sessões, um camponês sacudiu violentamente a porta. O diálogo foi hilário, porque o MEM perguntou se o camponês queria derrubar a casa: - “Não senhor, eu apenas quero ir imediatamente ao banheiro.” - “Então, diga apenas à porta que se abra e ela abrir-se-á.” - “Porta, abre-te.” Como Sésamo, a porta se abriu e os presentes olharam para tentar identificar quem teria aberto a porta, mas o corredor não tinha ninguém; todos riram.

    Philipe sempre pedia (e pede) aos seus “ouvintes”, em nome de Jesus: que todos tentem melhorar a cada instante; isto pode parecer algo simples, mas guarda conseqüências graves. Bons sentimentos, mesmo que por alguns instantes, produzem efeitos no corpo e na alma. O MEM dizia que é dever moral de qualquer ser humano levantar o próximo, dar-lhe apoio e nunca rebaixa-lo com qualquer tipo de comentário.

    Talvez, uma das exigências mais difíceis de se cumprir, para atender aos pedidos de MEM Philippe, seja aquela de suspender todo e qualquer processo em andamento, seja na justiça comum, seja numa discussão entre pessoas. Em Suas palavras, quem não está de acordo neste mundo, não poderá estar em outros mundos também.

    Philippe jamais curou alguém que estivesse a perseguir algum semelhante:

    - “Teu vizinho quer um pedaço de terreno, afirmando que lhe pertence? Pois dá-lhe! Toda a terra pertence a Deus e o homem aqui embaixo não passa de um ocupante provisório. Após a morte, nada levará. Os herdeiros, que trabalhem para conquistar o necessário para viver ou para enriquecer se desejarem. A riqueza não é um mal em si, pois pode dar ocupação a outras pessoas. O que não se deve é guardar para si sem beneficiar o próximo, mas fazer circular. Não se deve, também, querer o dinheiro como um fim em si, mas como um meio de ajudar o próximo”.

    Como a lição é de que se deve vencer o inimigo dentro de nós, o inimigo fora de nós ficará sempre enfraquecido se praticarmos o bem contra ele - isso é algo tão evidente, que custa crer que seres humanos acostumados a “pensar” não percebam com clareza.

    Tais exigências do MEM Philippe, que podem parecer pequenas, eram sempre destinadas àquele que ia - ou que vá - ao seu encontro para pedir alguma coisa.

    Àquele que, por acaso, queira algo do MEM, é bom saber, no entanto, que deverá dar em troca um “pequeno esforço e, mais, que pareça simples”; por exemplo, decidir doar, todo mês, uma cesta ao asilo de sua cidade, ou prometer visitar, pelo menos uma hora por semana, os enfermos desconhecidos em algum hospital, ou simplesmente parar de fumar. Talvez se pense em fazer algo mais difícil ainda, como, por exemplo, engolir o orgulho e pedir desculpas àquela pessoa com a qual se desentendeu há tempos e supõe, até hoje, que a culpa do desentendimento tenha sido dela. Sem algumas dessas “ofertas” ao MEM - que ele chamava de Balança Moral -, é melhor esquecer o pedido. Nada será “dado”.

    Bem, Navegante: você pode ou não crer nas histórias de MEM Philippe, que acabo de rasurar; pode ou não pensar que Ele não passa de mais um charlatão e, mais, que toda esta história não tenha nenhuma sustentação, digamos, científica; que, portanto, é mais conversa fiada, como aquelas onde o Boi Mudo - São Tomás de Aquino - ouvia de seu Mestre Alberto, o taumaturgo. Mas eu digo algo mais, além de qualquer suposição ou avaliação:

    - Numa lista de homens que passaram pela face da Terra e que nada mais fizeram a não ser pregar a não-violência, pregar o amor ao próximo, pregar a benevolência, como remédio para todos - repito, TODOS - os males da humanidade, incluo o MEM PHILIPPE. E Ele está em segundo lugar de minha lista, até porque, para Ele, seu Amigo, o Divino Mestre, é insuperável.

    Na manhã de 2 de agosto de 1905, a sogra e o genro de MEM olhavam o jardim de sua casa, pela vidraça. Philippe estava sentado em sua poltrona; levantou-se, deu poucos passos em seu “quartinho” e caiu, para as alturas das Regiões Celestes.

    Portanto, com sua licença, Navegante, deixo aqui minha lembrança ao Aniversário de MEM Philippe, que ocorre neste próximo 25 de Abril. A bem da verdade, deixo aqui registrada a minha fé no amor.

    A ti, MEM, meu afeto e minha completa submissão. Feliz Aniversário, MEM.

    (MEM Philippe: 25/04/1849 - 02/08/1905)

     

    MEM Philippe de Lyon

     

    http://www.filosofix.com.br/blogramiro/?p=533

    http://maps.google.com.br/maps?hl=pt-BR&q=Lyon&um=1&ie=UTF-8&split=0&gl=br&ei=ZBPeSeK6DoustgeNw4yWDg&sa=X&oi=geocode_result&ct=title&resnum=1

    http://pt.franceguide.com/viagens-tematicas/turismo-na-cidade/descubra-as-cidades/lyon/home.html?NodeID=233

     

     

    April 08

    A VOZ DO SILÊNCIO - O poder da imaginação

    HÉLIO'S BLOG

    Divulgação  Científica

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    A VOZ DO SILÊNCIO

     

    O poder da imaginação

     

    Walter Barbosa

     SOCIEDADE TEOSÓFICA

     

         Segundo Rohit Mehta, a mente tem três faculdades principais: o raciocínio, a memória e a imaginação (A Ciência da Meditação, Editora Teosófica).

         O raciocínio segue as leis da lógica. Apesar de esta palavra, por definição, relacionar-se com os processos que devem levar “ao conhecimento verdadeiro”, sabemos que, exceto na matemática, cada um segue sua “lógica” pessoal. Isso, contudo, está de acordo com o relativismo do próprio conhecimento, em função do estágio consciencial de cada pessoa, às vezes afetando um grupo. Mesmo a ciência, com sua estrutura experimental, de vez em quando volta atrás em seus enunciados, porque então um fato novo - submetido aos mesmos processos anteriores de lógica - passa a apontar uma “nova verdade”, um novo caminho.

         O conteúdo do raciocínio é alimentado pela imaginação e pela memória. Esta se refere ao passado, enquanto a imaginação relaciona-se ao futuro. Mas “com respeito às atividades da mente, o futuro é apenas uma projeção do passado, positiva ou negativamente”. Ou seja, nossa imaginação - mesmo agindo com todas as potencialidades de renovação que existem no presente, no agora - acaba trabalhando apenas com as ferramentas da memória, repetindo as condições do passado. Uma pena, não é mesmo?

         Isso é realmente uma pena. Principalmente porque a imaginação é um instrumento de criação, facultando-nos mudar o rumo de nossas vidas por meio dela. Podemos até ajudar na mudança do mundo, sem sair de casa, porque o pensamento não fica preso “atrás das grades” de nossa caixa craniana. Ele tem o poder de deslocar-se na matéria mental, que está em toda parte. Não há “espaço vazio” no universo. Com sete naturezas diferentes - e variados graus de densidade - a matéria fornece corpos para a consciência, e ainda é veículo para todos os tipos de energia que dão vida a esses corpos, inundando-os da “onipresença divina”.

         É na matéria do plano mental que caminham as “mensagens telepáticas”, que têm na imaginação o seu útero. A imaginação é “o poderoso holofote da mente humana. Certamente porque é a força construtiva mais potente que a mente humana possui” diz Mehta. Para isso, a imaginação deve ser muito mais do que a simples divagação da mente pelos caminhos do devaneio ou da fantasia, como estamos acostumados a usá-la até perniciosamente.

         “Quando se visualiza alguma coisa, se essa coisa é clara e vívida, então o cérebro e o sistema nervoso imediatamente entram em atividade. O cérebro percebe a imagem, considerando-a como algo que está de fato acontecendo no plano físico. O movimento no sistema nervoso é prova da visualização de uma imagem intensa”. Não é comum - ao evocar uma imagem ou situação “amedrontadora” - sentir o sangue gelar nas veias, o coração pulsar mais rápido, as mãos imediatamente começarem a suar? A coisa está apenas na mente, mas o corpo reage como se estivesse fisicamente diante dela.

         “A construção de imagens é tanto uma arte quanto uma ciência”, ensina Mehta. “Pode-se ajudar uma pessoa por meio de pensamentos, e de maneira bastante eficaz. Mas para isso deve ser criada uma imagem clara da pessoa. Tendo feito isso, pode-se conversar com essa imagem da mesma maneira como se conversaria com uma pessoa verdadeira e fisicamente presente”. Essa “conversa”, feita com intenção elevada, é uma relação de Ego para Ego, rompendo as barreiras geradas pelo ódio e pelo orgulho no nível da personalidade, o “eu humano”.

         Na superação de hábitos nocivos deve-se fazer o contrário: evitar a imagem que está ligada ao hábito, pois se a imagem é evocada a repetição do hábito será inevitável. “Quando a imaginação e a vontade estão em guerra, a imaginação sempre vence”, cita aquele eminente teósofo indiano. Quem já não experimentou essa realidade em sua própria vida? 

    PRÁTICAS E CURSOS – Introdução à Teosofia (gratuito), Meditação e Hatha-Yoga. Palestras aos sábados, 18 h, na R. Pernambuco, 824, São Francisco. Tel.: (67) 9988-1010.

     

    waltersbarbosa@yahoo.com.br