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    August 06

    Convergência tecnológica

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    Divulgação Científica

    Convergência tecnológicaiPhone: terminal convergente
                                                                                  iPhone: terminal convergente
     

    Convergência tecnológica é um termo que, de uma maneira geral, é utilizado para designar a tendência de utilização de uma única infra-estrutura de tecnologia para prover serviços que, anteriormente, requeriam equipamentos, canais de comunicação, protocolos e padrões independentes.Faz-se para permitir que o utilizador aceda às informações de qualquer lugar e através de qualquer meio de comunicação por uma interface única e as suas evidências revelam-se em muitos sectores - na economia, na comunicação e na produção, entre outros. O Deutsche Bank Research define convergência como "um processo de mudança qualitativa que liga dois ou mais mercados existentes e anteriormente distintos"[1].

    As tecnologias envolvidas no processo de convergência são, de forma geral, tecnologias modernas de telecomunicações tais como rádio, televisão, redes de computadores e de telefonia.

    Embora todos os horizontes apontem agora para outro tipo de convergência, mais alargada e cujas oportunidades de aplicação são ainda mais abrangentes do que as da Web, o encontro entre a nanotecnologia, biotecnologia e tecnologia da informação, a atenção deste artigo visa apenas a convergência em telecomunicações.

    Histórico

    T-Concept: telefone RDSI

    Provavelmente o histórico das tecnologias em convergência inicia-se com o desenvolvimento da rede telefónica tradicional, comutada por circuitos, que serviu de base para a prestação dos primeiros serviços de maneira convergente. Na década de 1980, as redes de telefonia deixaram de exercer exclusivamente sua função tradicional de transmissão por sinais analógicos de voz para incorporar também a possibilidade de transmissão de dados digitais, através da tecnologia RDSI que começou a ser implantada na Europa.

    Nesta época, as expressões "convergência tecnológica" ou "convergência digital" (já que as aplicações analógicas têm vindo a ser, progressivamente, substituídas por soluções digitais, que apresentam vantagens como melhor regeneração do sinal) não eram difundidas, embora já começasse a surgir a preocupação com um dos fatores impulsionadores da convergência que é a possibilidade de diversificar o uso de um mesmo canal de comunicação, optimizando este uso para atender a diversas necessidades do utilizador. O amadurecimento dessa tendência não foi súbito e arrastou-se ao longo de pelo menos duas décadas. Havia restrições tecnológicas significativas, já que ainda predominavam os enlaces analógicos em banda base e a fibra óptica ainda tinha custo elevado para instalação e operação.

    Na década de 1990, acompanhando o avanço das redes de telecomunicações, tornou-se mais comum falar em convergência tecnológica. A popularização da Internet foi um passo fundamental para que o conceito se difundisse, principalmente fora dos meios corporativos. Na verdade os primeiros "internautas" não dispunham de recursos adequados para obter a qualidade esperada em serviços convergentes, pois a maioria dependia de conexões discadas por enlaces analógicos sobre par de cobre. O usuário doméstico comum só começou a beneficiar-se da convergência com a adoção em massa de conexões xDSL, que pela primeira vez forneceram, a um custo acessível, capacidade de transmissão suficiente para utilização de serviços tais como VoIP.

    Com a consolidação da Internet como a mais importante rede de informações do mundo globalizado, também se estabeleceram os padrões tecnológicos que ela emprega, tais como o protocolo IP e a comutação de pacotes. Esses elementos, aliados ao barateamento e aprimoramento dos meios de transmissão em banda larga, crescente demanda por serviços multimédia, criação de novos protocolos como o SIP e de mecanismos como MPLS, estão a dar forma à arquitetura de redes convergentes que se chamaNext Generation Networking.

    Tipos de convergência

    Há três tipos principais de convergência, que serão detalhados a seguir:

    ( O diagrama da convergência Clica neste branco)

    Imagem:Diagrama sobre Convergencia.png 

    Convergência tecnológica

    O ponto de partida para o fenómeno da convergência tecnológica é, evidentemente, a viabilidade de desenvolvimento e comercialização em grande escala de soluções de tecnologia convergentes, sejam redes, serviços ou terminais.

    Convergência de redes

    É a unificação entre duas ou mais redes de comunicação distintas numa única rede capaz de prover os serviços antes prestados pelas diversas redes.

    Um dos primeiros exemplos é a convergência entre redes de voz e dados, inicialmente através de tecnologia RDSI e, mais recentemente, pela tecnologia xDSL. Outro exemplo de [convergência] a ser considerado seria entre voz e fax, ainda anterior, que começou a ser empregue em escala comercial na década de 1970. Todavia, é questionável se se trata de verdadeira convergência, já que o fax, como o conhecemos hoje, sempre se utilizou da rede de telefonia, ao contrário das redes de dados que tiveram uma origem independente.

    Ultimamente, aos serviços de voz e dados tem incluído serviços de vídeo e/ou multimédia. Muitos desses serviços não existiam antes de se começar a falar em convergência de redes, por isso pode-se dizer que já "nasceram convergentes", como IPTV (que, a despeito do nome, é diferente de simplesmente enviar a transmissão da televisão analógica tradicional por protocolo IP). A oferta combinada de serviços de voz, Internet banda larga e televisão recebe o nome de Triple play, embora esse termo tenha origem no marketing e seja um modelo de negócios para comercialização dos produtos e não uma solução ou padronização tecnológica.

    Convergência fixo-móvel

    Nos anos 1990 começou a falar-se na convergência entre telefonia fixa e móvel, mas sem resultados práticos. Uma década depois o assunto ressurge, ainda sem uma definição clara do que seria tal convergência, embora se possa dizer, em linhas gerais, que "tem como objetivo disponibilizar serviços convergentes pelos ambientes fixo, móvel e Internet"[2].

    Actualmente, as operadoras de telefonia enfrentam desafios para desenvolver estratégias para convergência fixo-móvel. As tecnologias que recebem mais atenção (Unlicensed Mobile Access, IP Multimedia Subsystem) são centradas na própria rede e estão em estágio imaturo, despendendo esforços que divergem da real necessidade da prestação efetiva de serviços para competir com outros provedores como Skype. Ainda falta demanda de mercado consistente, tanto de consumidores quanto empresas[2].

    O Yankee Group publicou um estudo que identifica quatro estágios sucessivos na convergência fixo-móvel[3]:

    1. Convergência por pacotes (packaging convergence): Forma mais básica de convergência que consiste simplesmente na oferta comercial de telefonia fixa e móvel num único pacote de serviços. Não há integração entre tecnologias, mas unificação do atendimento ao consumidor e cobrança de faturas.
    2. Convergência de recursos (feature-based convergence): Integração de recursos que, anteriormente, existiam apenas para telefones fixos ou móveis. Pode-se citar funcionalidades de transferência automática de chamadas direcionadas para um telefone fixo (como na residência do cliente) para seu celular ou vice-versa, bem como caixa de mensagens de voz integrada.
    3. Convergência de produto (product convergence): Convergência resultante da redundância entre produtos fixo e móvel, fazendo com que efetivamente se tornem um só. É um amadurecimento da convergência de recursos, pois à medida que começam a ser oferecidos em um produto recursos que só eram disponíveis no outro (por exemplo, suporte a E911 em telefones móveis e melhoria do sinal dentro das residências), a telefonia fixa tende a cair em desuso.
    4. Convergência total (seamless convergence): Quando a experiência do usuário ocorre de maneira transparente, coesa, contínua. Pode-se mudar de localização ou terminal sem sobressaltos, mantendo acesso às mesmas informações e serviços. A mesma agenda de contatos telefônicos, perfis e configurações ou arquivos multimídia estariam sempre disponíveis e sincronizados seja no telefone móvel, PDA ou computador desktop (PC).

    Convergência de serviços

    É a disponibilização de um mesmo serviço através de diferentes meios de comunicação. 

    Sony Ericsson W810i:
    Sony Ericsson W810i: "Walkman"

    Essa modalidade de prestação de serviços tem sido utilizada por diversos segmentos, entre eles o segmento bancário, traduzindo o uso do dinheiro virtual. Há cada vez mais opções para servir o cliente com simples operações, que originalmente só podiam ser realizada através do caixa humano ou pelo caixa eletrônico, já está disponível através da Internet, telefone fixo ou dispositivo móvel.

    O pacote de serviços que inclui os três serviços do Triple play mais telefonia móvel recebeu o nome de Quadruple play, também sem representar qualquer inovação do ponto de vista tecnológico.

    Convergência de terminais

    iPhone: terminal convergente

    É a utilização de um único terminal para acesso a múltiplas redes e serviços diversos.

    O iPhone, anunciado em 9 de janeiro de 2007, é um smartphone da Apple Inc. apresentado como um "telefone revolucionário"[4], tanto que na mesma data do anúncio a empresa alterou sua razão social de "Apple Computer, Inc." para simplesmente "Apple Inc."[5]. O objetivo das pesquisas que resultaram no iPhone foi a experimentação de telas sensíveis ao toque[6] que, assim como o design e a facilidade de uso, é considerado um dos pontos fortes do aparelho.

    Por outro lado, além da comunicação por voz que se espera de qualquer telefone, o iPhone integra recursos multimédia, ligação à Internet por tecnologia EDGE com acesso à web e e-mails, e ligação local por Wi-Fi e Bluetooth. Tais recursos conferem ao aparelho características de um terminal convergente.

    Outros aparelhos ditos convergentes incluem:

    • UTStarcom GF200 - telefone fixo-móvel, capaz de fazer chamadas por Wi-Fi e Bluetooth e funcionando como celular convencional onde não houver um ponto de acesso.
    • HTC P3300 - oferece lozalização por GPS e conectividade GSM/GPRS, Wi-Fi e Bluetooth, além de outros recursos triviais nos aparelhos de hoje como recepção de sinal de rádio FM.

    Convergência regulatória

    O surgimento de serviços convergentes cria um ponto de contato entre dois mercados: o da telefonia, tradicionalmente regulamentado, e o mercado de serviços de dados, sujeito a pouca ou nenhuma regulamentação sobre a prestação dos serviços.

    De entre os desafios a serem enfrentados pelos órgãos reguladores, inclui-se a manutenção de princípios como a defesa da justa competição no setor de telecomunicações e radiodifusão sejam garantidos. Por exemplo, através de ligações VoIP é possível enquadrar-se na lacuna não regulamentada dos serviços de transmissão de dados para evitar acordos internacionais e prover chamadas de voz mais baratas[7].

    Os países ao redor do mundo estão em diferentes estágios com relação à regulamentação, devido a inúmeros fatores como as diferenças de preço e popularização de acesso em banda larga. A tendência mundial de liberalização da telefonia (com o fim dos monopólios) tornou necessária a regulação externa do mercado, principalmente nas áreas de interconexão, acesso/serviço universal e gerenciamento de recursos limitados[8]. Agora, as novas tecnologias fornecem novos serviços e modelos de prestação não previstos pela regulação existente e afetam a estrutura do mercado, com a mudança nos padrões de oferta e demanda.

    Pode-se identificar uma provável tendência nos novos modelos de regulamentação: ela deve focar-se em mercados, mais que em tecnologia. A regulação futura deve ser menos específica sobre os serviços abrangidos e concentrar-se mais em permitir a competição no nível de redes e serviços[9]. Isso deve-se ao fato de que torna-se cada vez mais mais difícil ver os serviços de maneira isolada, cada um com características tecnológicas bem definidas. Desse modo, especificidades de tecnologia tornam-se menos passíveis de regulação pontual e a atenção dos órgãos reguladores tende voltar-se para as relações comerciais entre as empresas prestadoras de tais serviços.

    Regulamentação na União Europeia

    Desde 2003 os serviços de comunicação eletrônica na União Européia estão sujeitos à NRF - New Regulatory Framework (Nova Estrutura Regulatória). Dentro dessa estrutura estão enquadrados serviços como VoIP e as condições de autorização visam assegurar:

    • Não-interferência com outras redes;
    • Proteção ao consumidor;
    • Prevenir e combater comportamento anti-competitivo.

    Entretanto, alguns serviços não se enquadram na NRF, como serviços que não visam remuneração (isto é, gratuitos). Além disso, ainda falta clareza em algumas questões, como sobre o critério para determinar se ou quando telefonia VoIP é um serviço público de telefonia (ou seja, equivalente a PSTN) e, portanto, deve oferecer acesso a serviços de emergência segundo a legislação europeia.

    Enquanto a exigência acima é um impasse que, em grande parte, depende de discussão conceitual, outras dificuldades da NRF têm caráter claramente técnico. Por exemplo, redes de telefonia tradicionais devem garantir a disponibilidade dos serviços em caso de força maior, como em situações de desastre em que a comunicação torna-se uma questão de segurança pública. Esta é uma exigência difícil de cumprir em redes IP atuais, que estão sujeitas a diversos tipos de interrupção.

    As questões gerais que foram identificadas[7] incluem:

    • se serviços VoIP em redes fixas são ou não providos "em uma localização fixa";
    • tratamento de serviços grátis;
    • tratamento de serviços de uso interno/exclusivo;
    • designação de instalações associadas;
    • esclarecimento sobre controle de acesso para os usuários finais;
    • impacto sobre a escuta telefônica com autorização judicial;
    • interconexão com a PSTN;
    • interconexão com redes de outros provedores de serviços VoIP;
    • possibilidade de barreiras comerciais levantadas por operadores de acesso;
    • questões de segurança;
    • efeitos sobre o financiamento das obrigações de universalização;
    • mudanças na política de regulação de preços.

    Regulamentação no Brasil

    O setor, desde 1967 de competência do Ministério das Comunicações, é regulamentado no Brasil por alguns dispositivos legais dos quais destacam-se:

    Um dos marcos na legislação brasileira foi a aprovação da Emenda Constitucional nº 8, em agosto de 1995, que quebrou o monopólio da Telebrás e permitiu a abertura do setor para a iniciativa privada e capital estrangeiro. Essa nova realidade legal no Brasil justificou a criação de uma agência reguladora, o que foi concretizado dois anos mais tarde através da LGT.

    Segundo a LGT, não constituem serviços de telecomunicações o provimento de capacidade de satélite, a atividade de habilitação ou cadastro de usuários e de equipamentos para acesso a serviços de telecomunicações e os serviços de valor adicionado. Embora Serviços de Comunicação de Massa (SCMa) sejam tratados pela LGT, a TV por Assinatura (exceto se for MMDS) é objecto da Lei nº 8.977/95, também conhecida como "Lei do Cabo".

    Ainda que a legislação atual trate de várias das tecnologias convergentes, não existe uma harmonização entre as leis que trate dessas tecnologias explicitamente sob o ponto de vista da convergência, como realizado pela NRF europeia. Voz sobre IP, por exemplo, é tratado como Serviço de Comunicação Multimídia (SCM), contudo sem explorar a intersecção entre VoIP e o Serviço Telefônico Fixo Comutado (STFC). De fato, na legislação brasileira ainda aborda a questão de maneira segmentada, sem mecanismos que abordem a realidade mercadológica caracterizada pela convergência corporativa.

    As questões relacionadas com a adoção de novas tecnologias e outorga de permissões para exploração comercial dos serviços estão sendo estudados pela Anatel. Discute-se[10] pontos como:

    • concessão de uso do espectro;
    • harmonização entre a numeração clássica e a da Internet;
    • implantação de redes 3G;
    • neutralidade da lei frente à tecnologia utilizada (deve-se regular são serviços e não tecnologias ou plataformas);
    • princípio da competição, principalmente no tocante ao acesso local ao usuário;
    • alterações no Regulamento Geral de Interconexão (Resolução nº 410/05).

    Para estimular a competição, a Anatel também estuda a "separação estrutural" entre rede de infra-estrutura e venda de serviços aos usuários finais adotada na Inglaterra[10]. Sob este modelo, a British Telecom foi separada em duas unidades: uma com a infra-estrutura (com obrigação de prestar seviço às operadoras) e outra, com o mesmo perfil acionário, para serviços. No caso brasileiro, cada empresa separaria sua unidade de infra-estrutura, mantido o mesmo controle acionário do grupo, mas, a partir daí, com o compromisso de oferecer serviço às demais.

    A maior parte desses estudos, entretanto, ainda está longe de ter seus resultados implantados. Atualmente, aguarda-se os leilões de freqüências WiMAX e 3G, atrasado devido à fiscalização do Tribunal de Contas da União[11].

    Convergência corporativa

    Em muitos países, os antigos monopólios de telecomunicações tem cedido lugar a oligopólios, que ganham força à medida que a convergência tecnológica permite que empresas atuem em setores de mercado antes separados[12]. Frisa-se, no entanto, que a convergência de indústrias é estimulada pela convergência de tecnologias, mas a convergência de tecnologias não é causa primária da convergência de indústrias: a convergência corporativa tem sido observada há mais tempo e ocorre nos mais diversos segmentos, relativamente alheios a tais tecnologias[13].

    A convergência corporativa pode ocorrer de três maneiras:

    1. pela simples expansão do escopo de atuação da empresa, desenvolvendo sua própria tecnologia para atuar em um novo segmento de mercado;
    2. através de parcerias (joint ventures), em que duas ou mais empresas se unem para oferecer conjuntamente um pacote de produtos ou serviços, ou unificam suas linhas de produto em uma só;
    3. pela fusão ou aquisição de outras empresas, absorvendo assim seu capital intelectual, abrangendo sua marca, tecnologia, linhas de produtos e por conseqüência, sua participação no mercado.

    Destes itens, verifica-se que é possível que diferentes empresas (e seus produtos) atuem num único mercado, uma única empresa atue em vários mercados ou que empresas se unam para explorar conjuntamente um ou mais mercados. Considerado do ponto de vista econômico, a convergência corporativa pode levar a concentração da propriedade. Essa concentração, que está relacionada mas não depende da convergência tecnológica propriamente dita, pode acontecer em pelo menos três direções básicas[14]:

    1. Concentração horizontal: Dentro de uma mesma área do setor, por exemplo, com 70% ou mais de participação nacional na venda de um determinado produto ou serviço.
    2. Concentração vertical: Integração das diferentes etapas da cadeia de produção e distribuição.
    3. Propriedade cruzada: Propriedade, pelo mesmo grupo, de diferentes media do setor de comunicações, como TV, rádio, revistas, jornais, telefonia, provedores de Internet, etc.

    Exemplos

    Apresenta-se alguns exemplos de convergência corporativa relacionada a tecnologia:

    Sony Ericsson W810i: "Walkman"

    • A Sony Ericsson Mobile Communications foi estabelecida como joint venture entre a Sony Corporation (produtora de equipamentos eletrônicos) e a Ericsson (produtora de tecnologia de telecomunicações). Através da parceria foram lançados aparelhos que combinam telefonia 3G, câmera digital e música digital, muitos dos quais são telefones batizados com a marca Walkman® da Sony.
    • A Nokia Siemens Networks, formada a partir das grandes empresas de telecomunicações Nokia e Siemens, foi criada para atuar na pesquisa e desenvolvimento de tecnologias convergentes. A visão desta aliança é chamada "My Services Anywhere"[15] (Meus Serviços em Qualquer Lugar).
    • O caminho seguido pela AT&T Mobility é menos simples. Inicialmente foi chamada de Cingular Wireless e formada pela Southwestern Bell e BellSouth, posteriormente adquiriu a AT&T e terminou por mudar de nome. Atualmente, a AT&T provê serviços de telefonia fixa, móvel e acesso à Internet, sendo que a AT&T Mobility adquiriu direitos de comercialização exclusiva do iPhone durante 5 anos[16].

    Vantagens e desvantagens

    À convergência tecnológica, característica da economia digital, associam-se vantagens, nomeadamente, de permitir a interoperabilidade de sistemas, a possibilidade de novos dispositivos facilitadores da mobilidade e interactividade e a obtenção de serviços integrados, que disponibilizam mais informação e serviços. No entanto, também surgem questões que se prendem com as consequências políticas, culturais e sociais que daí advirão.

     

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  • Google passa de 60%, segundo comScore

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    Divulgação Marketing

     

    Google Marketing

    passa de 60% em partipação de buscas nos EUA, segundo comScore

    Analisa do Citigroup diz que união Microsoft e Yahoo é necessária, mas não suficiente, para competir com Google.

    O Google ampliou o seu domínio no mercado de buscas dos Estados Unidos, ultrapassando os 60% em participação de mercado, de acordo com dados da comScore de abril.

    No mercado norte-americano, o Google passou de 59,8%, em março, para 61,6%, crescimento de quase dois pontos percentuais em um mês.

    O número de buscas totais, que inclui todos os competidores, atingiu 10,5 bilhões em abril, uma queda de 2% sobre março.

    Os principais competidores do Google tiveram queda em participação de mercado e no número de buscas em abril.

    A participação de mercado do Yahoo caiu para 20,4% e o número de buscas teve queda de 6%. A Microsoft também viu seus dados piorarem: queda para 9,1% e de 5%, respectivamente.

    Os dados da comScore de abril indicam que Microsoft e Yahoo não estão conseguindo parar o Google, que está bem posicionado para usar seu domínio em buscas para aumentar suas receitas e o lucro.

    O analista do Citigroup Mark Mahaney escreveu que "enquanto o Google continua a aumentar sua participação de mercado, nós continuamos a acreditar que o um acordo Microsoft e Yahoo seria necessário, mas não suficiente, para competir efetivamente com o Google".

    Web é investimento mais lucrativo, diz estudo

    Análise mostra que investir em internet é mais lucrativo que aplicar recursos em companhias tradicionais. O economista sueco Steve Jurvetson apresentou, na conferência sobre investimentos Nordic 2008, uma análise que compara os investimentos em start-ups de web 2.0 com aplicações em projetos considerados mais sólidos, como geração de energia.

    Pelas contas de Jurvetson, a internet é um meio muito mais lucrativo. Segundo o economista, faz muito mais sentido aplicar US$ 2 milhões em 100 empresas de internet do que US$ 200 milhões numa companhia de biodiesel, por exemplo.

    Jurvetson diz que, na economia tradicional, o retorno do investimento é muito demorado e o volume de investimentos é grande. Já na internet, as perspectivas de retorno são rápidas e proporcionalmente muito maiores ao valor investido. 

    O economista afirma que o principal desafio é descobrir quais projetos web tem mais chances de serem bem sucedidos, o que na sua opinião não é nada fácil. Para diminuir os riscos, ele sugere aos investidores pulverizar seu capital em várias empresas de web 2.0. A estratégia leva em conta que várias idéias para internet fracassarão, mas um ou dois sucessos compensarão o risco.

    Como exemplo, ele citou os casos do Facebook, YouTube e Skype. Criados com poucos recursos, os serviços passaram a valer bilhões de dólares poucos anos após sua estréia. O Skype, por exemplo, foi vendido por seus fundadores por mais de US$ 3 bilhões para o grupo eBay. 

    Marcas investem milhões em publicidade Online

    O que empresas automobilísticas, de bebidas e bancos têm em comum? Investimentos crescentes em marketing online baseado em links patrocinados. 

    Na mesa redonda A Experiência das Empresas: A Internet a Serviço das Grandes Marcas realizadas durante o Seminário INFO Marketing de Busca Para Quem Busca Resultados, executivos do Bradesco, Fiat, Ford e Pepsi comentaram a atuação de suas empresas na web. 

    Luca Cavalcanti, , diz que o banco conta com um orçamento de 15 milhões de reais para a publicidade online. Com 1,4 milhões de visitantes diários em seu site, ele destaca a importância das classes C e D como um público-alvo que deve merecer atenção especial. 

    Gustavo Siemsen, diretor de marketing Pepsi Brasil, destacou a grande disparidade entre o nível de atenção que as mídias online recebem do consumidor e o montante investido pelas empresas para atingir esse consumidor. Sem revelar cifras, Siemsen afirma que, pelo menos na Pepsi, o quadro começa a mudar. Os recursos para publicidade online saltaram de 5% para 11% do orçamento de marketing da companhia. 

    Jorge Stelmach, gerente de desenvolvimento de negócios da Ford na América do Sul, e João Ciaco, diretor de marketing da Fiat, reforçaram a importância da web na mudança de comportamento do consumidor. Segundo eles, 70% dos clientes passam pelos sites das montadoras antes de fechar a compra pessoalmente nos pontos de venda. 

    Com 11% do orçamento de publicidade direcionado para internet, a Fiat chegou até a desenvolver uma campanha iniciada na internet móvel, a do Super Punto. A estratégia foi baseada em pesquisas que indicavam um alto grau de interesse em tecnologia no público-alvo da empresa para esse modelo. 

    Saiba mais sobre Publicidade Online nos links abaixo:

    Search Engine Marketing - Serviços
     
    http://www.wbibrasil.com.br/noticia/estrategias-de-search-engine-marketing/386/ 

    Search Engine Marketing - Artigo
    http://www.wbibrasil.com.br/artigo.php?id_artigo=32 

    Publicidade Online – Artigo
    http://www.wbibrasil.com.br/artigo.php?id_artigo=33

     

     

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  • August 04

    País é prisioneiro da elite nacional

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    ENTREVISTA: MÁRCIO POCHMANN

    País é prisioneiro da

    elite nacional

     

    O professor e pesquisador Márcio Pochmann, da Unicamp, deixa claro

    que o modelo econômico não permite a adoção das políticas sociais universais que o país precisa.

     

     

    Igor Felippe Santos

     

    O Brasil vive a crise mais grave do padrão de desenvolvimento do capitalismo da sua história, afirma o economista Marcio Pochmann, professor do Instituto de Economia e pesquisador do Centro de Estudos Sindicais e de Economia do Trabalho da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas).

    Pochmann acredita que a sociedade brasileira passou por um processo de regressão social e econômica, que coloca o país cada vez mais distante do seu potencial de desenvolvimento. Em 1980, a renda per capta do brasileiro era um terço do morador dos Estados Unidos. Atualmente está em um quinto. No mesmo período, diminuiu substancialmente também a porcentagem do Trabalho no Produto Interno Bruto (PIB).

    “O quadro social pode colocar abaixo a democracia, considerando que somos um país de baixa cultura democrática”, prevê o economista, que foi secretário do Desenvolvimento, Trabalho e Solidariedade da Prefeitura de São Paulo (gestão Marta Suplicy) e coordenou o "Atlas da Exclusão Social no Brasil", série de estudos com uma radiografia da exclusão social.

    Para ele, o País não está condenado ao desemprego nem à exclusão social, conseqüências das políticas de sucessivos governos. “Estamos prisioneiros pela opção da elite nacional, que praticamente abandonou a política do pleno emprego, da produção e do trabalho em nome da financeirização da riqueza”, afirma.

    O processo de desaburguesamento da classe média e de desproletarização da classe operária cria a oportunidade de união política dos dois grupos em torno de mudanças. “A forma de desestruturação da sociedade brasileira está constituindo uma oportunidade de resistência em melhores condições que tivemos no passado recente”, acredita.

    Pochmann questiona estudos produzidos a partir dos números da Pnad (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios), elaborada a partir de entrevistas com 400 mil pessoas e de visitas a cerca de 140 mil domicílios em todo o país, realizada em 2004, pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). A pesquisa indica que a desigualdade caiu sistematicamente desde 1993. O índice Gini, que mede a concentração de renda, passou de 0,571, em 1993, para 0,535, em 2004 (mais perto de zero, maior a igualdade).

    Segundo o estudioso, a pesquisa foi explorada de forma ideológica pela imprensa e pelo governo. “O grande destaque aos números da pobreza e redução da desigualdade foi muito mais conivência com o modelo econômico do que uma posição de cientista social comprometido com a verdade”.

    Pochmann avalia que o índice Gini trabalha com uma base de dados restrita ao centro da distribuição da renda e apresenta apenas informações de parte dos estratos sociais. Os números dos mais pobres e ricos ficam de fora. Independente disso, a Pnad não significa elevação da qualidade de vida dos pobres.

    “A redução da desigualdade se deve não pela melhoria de todas as rendas, sendo que a dos mais pobres teria crescido mais que a dos mais ricos. Foi decorrente da queda em termos reais da renda dos mais ricos. Isso não aponta para uma redução da desigualdade que indique uma melhora social de forma generalizada”, diz o pesquisador.

    Os novos empregos com carteira assinada criados durante o governo Lula representam um ponto positivo, mas apresentam baixa remuneração. Dados do economista indicam que de cada três postos abertos, dois pagam até 450 reais.

    O presidente Luiz Inácio Lula da Silva tem sustentado que a política econômica não atrapalha a realização de políticas sociais. “É um equívoco do presidente, que não entendeu que para um governo de esquerda a centralidade é a economia”. Leia a seguir a entrevista exclusiva com Marcio Pochmann.

     

    Quais as principais conseqüências da política econômica e social para a população brasileira nas últimas duas décadas?

    MP – Estamos diante da mais grave crise do padrão de desenvolvimento do capitalismo no Brasil. A evolução da renda por habitante mostra um quadro de estagnação. Crescendo levemente acima da média nos últimos 25 anos, comparavelmente à evolução população economicamente ativa. No conjunto do país, há indicadores de regressão social e econômica. Estamos nos distanciando daquilo que poderíamos ser. Em 1980, tínhamos cerca de um terço da renda per capta dos Estados Unidos. Em 2004, o Brasil caiu para um quinto. Temos também uma regressão na distribuição funcional da renda, que permite separar trabalho e capital.

     

    Qual o tamanho da regressão?

    MP - Em 1980, o Brasil tinha uma renda do trabalho de metade do PIB. Em 2003, a renda do trabalho era 36%. Houve uma regressão de 14%. Nos países desenvolvidos, a renda do trabalho representa mais de 60%. Os indicadores de violência e desemprego também regrediram. Não existe possibilidade de se manter por mais tempo nessa situação, que não aponta para perspectivas de um país. O quadro pode colocar abaixo a democracia, considerando que somos um país de baixa cultura democrática, lamentavelmente. O país não possui 50 anos de democracia, tratada tão somente pelo sufrágio universal e pelo voto direto. Os órgãos internacionais vêm para o Brasil e identificam que metade da população aceita mudanças de sistema político, porque a democracia no Brasil não possibilitou mudanças concretas para melhor nas condições de vida. Precisamos considerar até onde conseguiremos levar um quadro econômico tão desfavorável para o conjunto da população.

     

    O país apresenta cerca de 10% da população desempregada e 25% na informalidade, junto com um processo de desindustrialização. Como ficou o mundo do trabalho?

    MP - Há algumas interpretações da desestruturação do mundo do trabalho. Uma delas sustenta que foi decorrente das grandes transformações tecnológicas. O avanço causaria o desemprego, que deveria estar associado ao aumento da produtividade. Com isso, não haveria do que reclamar, já que cresceríamos tecnologicamente. Seria o custo do progresso. Para outra interpretação, as empresas estariam ávidas a contratar mais trabalhadores, que não estariam preparados para ocupar as vagas ofertadas. As duas explicações tiram a responsabilidade da política econômica e dos governos pelo desemprego. Foram levadas à exaustão e perderam a validade. Não somos um país condenado ao desemprego nem à exclusão social, que resultam das opções dos governos. A Pnad de 2004 mostrou que quando há crescimento econômico, amplia-se o nível de emprego, inclusive assalariado com carteira assinada, o melhor emprego gerado pelo capitalismo brasileiro.

     

    Por que estamos nessa situação?

    MP - Estamos prisioneiros pela opção da elite nacional, que praticamente abandonou a política do pleno emprego, da produção e do trabalho em nome da financeirização da riqueza. O Estado nas últimas duas décadas financia organismos financeiros concentrados em pequenas famílias. Isso não é produtivo para a geração de postos de trabalho. O nível de desemprego é um caso sem paralelo. Desestrutura famílias e leva a uma grave dificuldade de inserção dos jovens. Esse é um dos principais problemas nacionais.

     

    Quais as maiores dificuldades da juventude?

    MP - Temos a quinta maior população juvenil do mundo. A cada duas pessoas desempregadas, uma tem menos de 25 anos. Em nenhuma geração, a juventude viveu uma situação tão grave, que requer uma ação muito mais contundente enquanto prioridade nacional. Temos uma geração que infelizmente não conhece o trabalho sério e bem remunerado. Isso não apenas compromete as próximas gerações como reforça as contradições do país. Embora sejamos um país de baixa escolaridade, com a média do brasileiro de seis anos e seis meses, nossos jovens têm muito mais escolaridade do que a média nacional. Os jovens com maior escolaridade não encontram postos de trabalho decente e estamos exportando mão de obra qualificada para outros países, porque aqui não são geradas as vagas necessárias.

     

    Em 20 anos, como ficou a qualidade de vida da maioria da população?

    MP - Depende da lente que usamos para analisar. Tomando como referência o IDH (Índice de Desenvolvimento Humano), que é uma tentativa de síntese, teria havido aparentemente uma melhora. Precisamos discutir com maior profundidade o conceito de desenvolvimento humano, sustentado sobre três indicadores gerados em um ambiente neoliberal, que permite países regredirem econômica e socialmente - como é o caso do Brasil - e melhorem no IDH. Isso mostra a contradição dos indicadores.

     

    Qual a sua avaliação das transformações sociais tendo como base o IDH?

    MP - Do ponto de vista do balanço das duas ultimas décadas, a expectativa média de vida aumentou em geral. O que represente deixar de viver 60 anos na pobreza para viver 70 anos na pobreza extrema? É um ganho viver mais, sem dúvida. No entanto, viver dez anos a mais na extrema pobreza é desenvolvimento humano? A pessoa continua pobre durante mais tempo. Apresenta-se isso como melhoria humana. Eu concordo, mas o indicador precisa ser mais bem qualificado. O outro indicador aponta que caiu a taxa de fecundidade de forma substancial, especialmente nas famílias pobres, reduzindo inclusive a mortalidade infantil de forma expressiva. Parte da explicação pela queda da mortalidade infantil é que as mulheres pobres deixaram de ter filhos. Devemos levar em consideração que o filho que não nasceu não pode morrer. Tivemos avanços importantes no saneamento básico. Mesmo assim, estamos longe de estar bem, especialmente na coleta de lixo. Houve melhoras em determinadas cidades com a urbanização de favelas. Todos os indicadores nos colocam ainda procurando vencer problemas que outros países resolveram 60 anos atrás. No balanço geral, é muito pouco considerando o potencial do Brasil se não tivesse abandonado o compromisso com o crescimento econômico desde a década de 80.

     

    Hoje existe uma diversidade de formas de contratação de trabalhadores. Foram criados mecanismo que levaram à precarização, como a criação de cooperativas de empregados e a contratação de autônomos. Qual influência disso na estrutura social brasileira?

    MP - O quadro de semiparalisia econômica vem acompanhado de mudanças profundas na sociedade brasileira, que é muito diferente de 25 anos atrás. Por exemplo, a classe operária dos anos 80 é diferente de agora. Algumas mudanças estão associadas à profunda reforma trabalhista que tivemos nos anos 90. Do ponto de vista legal, os avanços foram relativamente pequenos, comparando inclusive com outros países. No entanto, houve no Brasil uma reforma trabalhista branca feita pelo mercado. Tínhamos nos anos 80 cerca de cinco tipos de contrato de trabalho. Hoje temos algo como 18. Houve uma flexibilização enorme, que trouxe impactos não apenas na remuneração, mas também na identificação daqueles que trabalham. Foram introduzidos novos métodos de gestão junto com novas formas de contratação, que tornaram parte importante dos trabalhadores não mais companheiros, mas competidores por metas de produção e venda, que faz com que a renda do trabalho fique cada vez mais variável. Isso torna muito mais insegura a vida daqueles que dependem do trabalho, porque não há garantia de que amanhã ou no ano que vem terá renda suficiente para viver de forma digna.

     

    Com essas transformações, quais as novas características dos estratos sociais?

    MP - Houve um desaburguesamento da classe média brasileira, em relação ao padrão de vida, financiamento, credito e consumo durante seu auge nos anos 70 e 80. Isso está diretamente associado a alterações na estrutura sócio-ocupacional da classe média. Com relação à classe operaria, que dependia fundamentalmente de sua força de trabalho física e mental para financiar sua sobrevivência, há sinais de desproletarização. Percebemos hoje que há cerca de 4 milhões famílias no Brasil sem remuneração. Não são nem monetizadas. A cidade de São Paulo, de acordo com o senso demográfico de 2000, tinha 350 mil famílias sem renda. Isso caracteriza um processo de desproletarização, que coloca numa sociedade moderna capitalista a inexistência de salários como mecanismo principal financiamento dos que dependem do trabalho. São dois sinais que mostram uma crescente heterogeneidade no interior das classes, com impactos importantes na organização do trabalho e na representação em sindicatos e partidos políticos.

     

    No pensamento de esquerda clássico, o trabalho forjava a resistência ao capital. Como fazer a luta política agora, com grande parte da população desempregada e na informalidade?

    MP - A resistência não é forjada simplesmente porque aqueles que estão submetidos à opressão tendem a se conscientizar, mas também pelas próprias contradições geradas pelo desenvolvimento capitalista. Inclusive acredito que a forma de desestruturação da sociedade está constituindo uma oportunidade de resistência em melhores condições que tivemos no passado recente. Com o desaburguesamento da classe média, temos pela primeira vez a possibilidade da união do que seria a classe operária e a classe média. A classe média no Brasil nunca constituiu uma aliança com os trabalhadores. A eleição do presidente Lula em 2002 foi uma oportunidade inédita, porque parte importante da classe média direcionou seu voto para o PT em função da avassaladora crise que vive em termos de reprodução social. A oportunidade não foi aproveitada, mas isso não significa que novas alianças não possam ser construídas.

     

    Os dados da Pnad indicam que a desigualdade cai sistematicamente no Brasil desde 1993 e o índice Gini melhorou. Por outro lado, a renda dos lares caiu 16%. Como você avalia esses números?

    MP - Os dados devem ser compreendidos dentro daquilo que representam. A Pnad é uma informação por amostra, por domicílio, que se refere muita mais à renda do trabalho do que outras formas, como o capital, juros, lucro, renda da terra, aluguel de imóveis etc. A renda do trabalho representa 36%, ou seja, temos boas informações sobre parte da renda nacional. Os ricos, de maneira geral, não fazem parte da pesquisa. São representados, mas há uma subestimação da renda. O Pnad representa 60% da renda pessoal disponível na contabilidade nacional. Há uma sub-declaração. Isso não retira o reconhecimento de que houve uma redução da desigualdade. Não porque todas as rendas cresceram. Por exemplo, a renda do trabalho ficou congelada em 2004. Mas houve melhorias porque a renda do segmento com melhor remuneração na pesquisa, com cerca de R$9 mil mensais, perdeu poder aquisitivo.

     

    O que isso significa?

    MP - A redução da desigualdade se deve não pela melhoria de todas as rendas, sendo que a dos mais pobres teria crescido mais que a dos mais ricos. Foi decorrente da queda em termos reais da renda dos mais ricos. Isso não aponta para uma redução da desigualdade que indique uma melhora social de forma generalizada. Temos fundamentalmente que reconhecer que as mudanças no mercado de trabalho trazem dificuldades para medir a renda. Os dados mostram uma redução da desigualdade e da taxa de pobreza extrema, mesmo assim, devemos reconhecer que a desigualdade é extremamente alta no Brasil e precisamos de uma ação de longo prazo que fortaleça a sua diminuição.

     

    A grande imprensa e o governo deram bastante destaque aos números, mas não foi a renda dos pobres que melhorou significativamente, mas houve uma proletarização da classe média?

    MP - Exatamente. É isso que indica o índice Gini, que tem referência no centro da distribuição da renda. Não é um bom indicador de desigualdade nas pontas. Está acontecendo um desaburguesamento da classe média, que está derretendo. Por isso, o índice dá impressões que não são as mais concretas. O país vive com tantos dados negativos, mas os positivos foram muito bem realçados. Isso não é necessariamente um compromisso com a verdade. Pode ser muita ideologia. Em alguns aspectos, o que nós tivemos na interpretação do Pnad foi muito mais ideológico do que uma análise séria. O grande destaque aos números da pobreza e da redução da desigualdade foi muito mais conivência com o modelo econômico do que uma posição de cientista social comprometido com a verdade.

     

    O governo divulgou também que foram criados mais de 3,5 milhões de empregos com carteira assinada em três anos. Quais as características dos novos postos?

    MP - A expansão aconteceu por causa do aumento do nível de emprego e pela formalização de informais, que foram registrados. Em parte, isso se deve a posição mais rígida da Justiça do Trabalho, do Ministério Público e pela fiscalização do Ministério do Trabalho. Os dois movimentos resultaram em dados positivos. O emprego formal aumentou mais quando a economia cresceu, como em 2004 e agora em 2005. Com crescimento, o país terá mais emprego. Por outro lado, o emprego com carteira assinada aberto tem um perfil de remuneração muito baixo. Em 2005, de 1 milhão e 500 mil postos de trabalho abertos até outubro, 90% são com remuneração até dois salários mínimos - cerca de 600 reais. De cada três postos abertos, dois estão na faixa de um a um e meio salário mínimo - até 450 reais. Não são salários dos melhores. O país teve problemas grandes para gerar empregos. Agora geramos em número não suficiente e com problema de qualidade. A questão agora é como melhorar a qualidade do emprego em termos de remuneração. É um bom problema quando comparado a um período que nem emprego existia.

     

    No entanto, os empregos de remuneração baixa não contribuem para o aumento da renda do trabalho no PIB.

    MP - Isso ainda é algo a ser considerado. O país apresenta ganhos financeiros bastante significativos. Entre 7 a 8% do PIB são transferidos para poucas famílias, detentoras dos títulos públicos. O emprego precisa crescer mais rapidamente com melhores salários, com a diminuição substancial da taxa de juros e a renegociação da dívida para evitar a transferência de ganhos financeiros para famílias muito ricas.

     

    O professor sustenta que com crescimento econômico vai diminuir o desemprego. Como fica a idéia da reforma trabalhista como forma de desonerar a produção e gerar empregos?

    MP - Os dados de 2004 mostram que o emprego formal cresceu tanto nas micro e pequenas empresas como nas grandes empresas. É mais uma argumentação que foi utilizada de forma ideológica na tentativa de destruição dos direitos dos trabalhadores. No capitalismo, o emprego não é determinado pelo custo do trabalho. Se houver demanda e renda para consumir aumentará a produção e, por conseqüência, o emprego. Fora disso, temos uma visão distorcida que levou a questão para o lado da oferta, ou seja, quanto menor o custo de trabalho, maior o emprego. É um equívoco que não se mostrou correto.

     

    De acordo com o professor, no período da democratização do país, na década de 80, houve um consenso sobre o pagamento da dívida pública. Depois disso, o Estado brasileiro passou a ser estruturar para servir aos interesses dos credores financeiros. Como isso aconteceu?

    MP - Tivemos o ciclo da industrialização, que começou em 1930 e foi até 1980. Desde então, vivemos o ciclo da financeirização. Os principais mecanismos de valorização do capital são financeiros, fictícios. Não são operacionais, produtivos e concretos como anteriormente. O financiamento desse ciclo vem sendo sustentado no setor público. Tivemos nos anos 80 um forte crescimento da dívida pública, em parte associada ao problema da dívida externa. Com isso, alguns segmentos específicos, especialmente os exportadores, foram os principais privilegiados pela política de financeirização. O sobre-fôlego da financeirização foi possível a partir da entrada de recursos externos no Brasil.

     

    Dessa forma, o Brasil colocou em marcha políticas neoliberais?

    MP - O país teve que fazer as privatizações e a regulamentação financeira, que tornou os ricos com maior poder para a condução da política econômica. Isso faz com que a economia seja conduzida hoje de acordo com os interesses de 20 mil clãs de famílias, que respondem por 80% da totalidade dos títulos dívida pública. Esse segmento tem um poder tão grande que são capazes de orientar a política econômica. Não deixam cair a taxa de juros, senão pegam o dinheiro, deixam de financiar a dívida e vão embora. A economia brasileira foi organizada para atender cada vez mais esses interesses. Foi criada uma secretaria do Tesouro, que controla o gasto público no país, com o objetivo de canalizar recursos para o pagamento do serviço da dívida pública. A área econômica tem uma coordenação e a equipe tem metas e cronogramas, discutidos diariamente pelos analistas econômicos e pelos jornais.

     

    Diferentemente da área social, que não recebe o mesmo tratamento...

    MP - A questão social ao longo do tempo permaneceu esquecida, inclusive porque a área não tem coordenação. Não existe o reconhecimento da dívida social, metas e cronogramas. Só aparece como tragédia. É traduzida pelos meios de comunicação quando há um assassinato ou uma chacina. A temática não é politizada, a despeito de ser o problema mais grave do país.

     

    A política econômica não é apenas uma imposição externa. Contempla também os interesses dessas 20 mil famílias?

    MP - Com certeza. A Fiesp (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo) reclama quando a taxa de juros está alta, mas as grandes empresas também são ganhadoras com a política econômica. Se a economia cresce, ganham vendendo mais. Se a economia não crescer e a taxa de juros estiver muito alta, ganham porque parte importante da sua riqueza está financeirizada. Na realidade, há um apoio político à macroeconomia. O mais fácil para um governo é fazer essa opção. Difícil é tentar uma alternativa. Para fazer algo diferente, será preciso mexer com poucos setores com um poder decisivo na opinião pública, na mídia e nos partidos políticos.

     

    A carga tributária é alta, baixa ou mal estrutura no Brasil?

    MP - Temos uma carga tributária regressiva. Pagam mais impostos aqueles que menos ganham. Ela é alta e concentrada na população pobre. Porém, é baixa em relação aos extratos superiores de riqueza. Precisamos de tributos cada vez maiores sobre a renda, não sobre o consumo, que faz pessoas pobres e ricas pagarem o mesmo imposto para comprar o mesmo produto. Isso é uma estrutura regressiva que penaliza os mais pobres. O Brasil é um país para poucos do ponto de vista da dominação da riqueza. Isso está associado ao país não ter passado por rupturas. É um país sem passado revolucionário e reformas civilizatórias. Nunca tivemos uma reforma tributária progressiva, que fizesse os ricos pagarem impostos. Os ricos praticamente não pagam impostos, tanto porque encontram brechas na legislação ou pela falta de leis, como taxas sobre a riqueza e herança. Há uma estrutura de privilégios desde a tributação até o financiamento do consumo, que dificilmente se encontra em outros países.

     

    O professor trabalha com uma dívida social em torno de R$7,2 trilhões para promover a cidadania a todos os brasileiros. Como vocês chegaram ao número?

    MP - O objetivo do estudo foi mostrar que os governos brasileiros estão gastando muito pouco na área social. Para reverter o quadro, precisamos de investimentos muito maiores. É possível em um período relativamente curto de tempo superar as nossas mazelas. Para isso, precisamos reconhecer o tamanho da dívida, seja na educação, saúde, habitação, transporte, saneamento, pobreza e questão agrária. O esforço que fizemos foi identificar em oito complexos da intervenção pública a distância que separa o Brasil de hoje do país da inclusão. Também dimensionamos o custo que representaria os investimentos nessas áreas. A estimativa da dívida social, dez vezes maior que a dívida financeira pública, é para chamar atenção que precisamos de uma mudança cultural no entendimento dos principais problemas da sociedade. Também para levar a uma conscientização da inversão de prioridades que precisamos fazer. Não dá para gastar mais a quantidade de recursos em transações financeiras e deixar a área social exposta à escassez de recursos.

     

    Como pagar a dívida social?

    MP - É possível pagar com o compromisso com o crescimento econômico. Se o país crescer entre 5% e 6% ao ano, podemos ter em 10 anos por meio da carga tributária uma quantidade de recursos para financiar a área social três vezes maior. Enfrentaríamos as mazelas sociais crescendo e alterando o padrão das políticas públicas, que precisam operar de maneira convergente, integrada e articulada. Não dá mais para continuar tendo políticas que tratem dos pobres da saúde, da educação, do trabalho. O pobre é um só e precisa de uma interferência pública multidimensional.

     

    O presidente Lula tem afirmado que a macroeconomia não impede a execução de políticas sociais. Você concorda?

    MP - É um equívoco do presidente, que não entendeu que para um governo de esquerda a centralidade é a economia. Nos últimos 25 anos, o modelo econômico não permitiu políticas sociais decentes. O Brasil precisa de políticas universais e focalizadas. O que vem acontecendo é uma opção por políticas focalizadas, em detrimento de universais. Para fazer políticas universais, é preciso comprometer recursos significativos. O país apresenta pobreza universalizada e querem combatê-la com políticas focalizadas. O modelo econômico não permite as políticas sociais decentes e universais que o país precisa.#

     

    Igor Felippe Santos é jornalista.

     

     

    A sociedade brasileira em números

     

    Dívida social

    R$7,2 trilhões

     

    Riqueza Nacional

    5 mil clãs de famílias controlam 40%

    10% da população rica se apropria de 75%

    90% do povo brasileiro fica apenas com 25%

     

    Títulos da Dívida Pública

    R$120 bilhões de reais no pagamento dos títulos repassados para 20 mil clãs de famílias (cerca de R$6 milhões de reais por família ao ano)

     

    Previdência Social

    R$140 bilhões de reais no atendimento de 21 milhões de famílias de aposentados (cerca de R$6 mil por família ao ano)

     

    Bolsa Família

    R$7 bilhões de reais na assistência de 8 milhões de famílias (cerca de R$72 por mês para cada família)

     

    Trabalho

    Em 1980, a renda do trabalho era 50% do PIB. Agora representa 36%

    4 milhões famílias vivem sem remuneração (350 mil famílias na cidade de São Paulo)

     

    Novos empregos

    De três novos postos abertos, dois estão na faixa de um a um e meio salário mínimo (até 450 reais)

     

    Educação e Juventude

    De duas pessoas desempregadas, uma tem menos de 25 anos

    4 milhões e 300 mil de jovens desempregados

    1 milhão e 350 mil jovens qualificados saíram do país na década de 90 em busca de oportunidades

    A cada 10 alunos matriculados no primeiro ano do ensino fundamental, somente um conclui

    a universidade

    Enquanto o Brasil tem 35% dos jovens de 15 a 17 anos matriculados nas escolas, o Chile apresenta 85%. Para chegar nesse nível, o Brasil teria que incorporar 4,9 milhões de jovens, que implica a construção de 50 mil salas de aulas e a contratação de 500 mil professores

     

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  • August 01

    "Ensinar e Aprender"

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    Divulgação Científica

     

    Imagem:Jiddu Krishnamurti 01.jpg

    Jiddu Krishnamurti

    "Ensinar e Aprender"

    Trecho selecionado do livro  (p. 48-53)

    DA CRIAÇÃO DE IMAGENS

    Na juventude, apraz-nos a atividade - escutar o canto matinal dos pássaros, admirar as colinas após a chuva, os rochedos cintilando ao sol, o brilho das folhas, contemplar a passagem das nuvens e alegrar-nos em uma clara manhã com o coração pleno e a mente aberta. No entanto, perdemos esta boa disposição com o correr dos anos, quando surgem as preocupações, as ansiedades, as contendas, os ódios, os temores, na eterna luta pela sobrevivência. Passamos os dias brigando uns com os outros, sentindo simpatias e antipatias, e algum prazer de vez em quando. Não ouvimos os passarinhos, já não admiramos as árvores, nem vemos o orvalho na grama, nem as aves a voar, nem o brilho da pedra numa escorregadia vertente à luz da manhã. Não costumamos ver nada disto quando nos tornamos adultos. Porquê? Não sei se a si próprios já fizeram tal pergunta. Se não, é este o momento de formulá-la. Do contrário, em breve estarão aprisionados. Irão para uma universidade, casar-se-ão, terão filhos, marido, mulher, responsabilidades; serão obrigados a cuidar da subsistência; depois virá a velhice e, por fim, a morte. Em geral, é isto o que acontece. Cumpre interrogar-nos, então, porque perdemos a sensibilidade, porque já não apreciamos as flores, nem nos deleitamos com o gorjeio dos pássaros. Porque deixamos de contemplar a beleza? Creio que a razão principal é vivermos tão ocupados com a nossa personalidade. Por certo, temos todos uma imagem de nós mesmos.

    Sabem o que é uma imagem? Ê uma coisa esculpida na pedra, ou no mármore, a qual se destina à adoração em um templo. Ela é feita pela mão do homem. Vocês também têm uma imagem de si próprios, não construída de igual maneira, senão pela mente, pelo pensamento, pela experiência, pelo conhecimento, pelas lutas, por todos os conflitos e aflições de seu viver. Com o envelhecimento, essa imagem se fortifica, torna-se mais exigente e insistente. Quanto mais escutam, atuam, vivem através dessa imagem, tanto menos vêem a beleza e sentem alegria com alguma coisa desligada dos seus efeitos.

    A razão da perda dessa plenitude é que, em regra, só há em vocês preocupações pessoais. Sabem o que significa ter preocupação de ordem pessoal? É estar o indivíduo com a idéia fixa em si mesmo, é manter-se ocupado com as próprias qualidades, se são boas ou más, com a opinião dos vizinhos, se o emprego que tem é bom; é ocupar-se em ser importante ou ficar à margem da sociedade. Os seres humanos estão sempre batalhando no escritório, em casa, nos campos. Estejam onde estiverem, façam o que fizerem, o conflito é constante, sem jamais se livrarem dele; e, não sendo capazes de consegui-lo, criam a imagem de um estado perfeito, do paraíso, de deus - outra imagem formada mentalmente. Criam-se imagens não somente superficiais, mas também mais profundas, e também estas estão em conflito entre si. Existirá conflito enquanto perdurarem as imagens, as opiniões, os conceitos, as idéias egocêntricas, tornando a luta cada vez maior.

    Cabe então indagar: é possível viver neste mundo sem auto-imagem? O ser humano torna-se médico, cientista, professor, físico, e serve-se dessa profissão para criar sua imagem, e, deste modo, produz conflito ao exercê-la. Estão-me compreendendo? Se, por exemplo, a criatura dança bem, se toca um instrumento qualquer, ela usa o instrumento ou a dança para projetar-se, para demonstrar o quão maravilhosa é, como dança ou toca tão bem. A arte de dançar, de tocar, tem para ela um só objetivo - enriquecer a própria imagem. É assim que a maioria vive, ou seja, incentivando, fortalecendo o ego. Daí a intensificação do conflito; a pessoa, de tanto pensar em si, se embrutece, perdendo o sentido da beleza, da alegria, da lucidez.

    A meu ver, faz parte da educação evitar que os alunos criem imagens. Dessarte, eles passarão a viver sem batalhar, sem lutar intimamente.

    A educação nunca termina. Ela não se restringe à leitura de alguns livros, nem se resume no ver o estudante aprovado nos exames finais. No decurso da vida, desde o nascimento até a morte, existe o processo do aprendizado. O aprender não tem fim, é contínuo, perenal. Mas ninguém aprenderá se estiver batalhando dentro de si, ou em conflito com o próximo, com a sociedade. E sempre que houver uma imagem, estaremos em antagonismo com a comunidade social. Porém, se vocês perceberem como se forma essa imagem, estarão em condições de ver o céu, de contemplar o rio e as gotas de chuva que pingam das folhas, de sentir o frescor do ar matinal e da brisa que sopra por entre as árvores. A vida passa a ter um diferente e maravilhoso significado. A vida em si, e não aquela que concebemos, ou idealizamos, segundo a nossa maneira de ser.

    ESTUDANTE: Quando o senhor olha para uma flor, qual é seu relacionamento com ela?

    KRISHNAMURTI: Qual o relacionamento? Você olha a flor, ou pensa que está olhando para ela? Percebe a diferença? Olha realmente a flor, ou julga que deveria olhar; ou, quem sabe, olha para a flor com uma imagem que dela tem, por exemplo, supondo que é uma rosa? A palavra é a imagem, a palavra é o conhecimento e, por conseguinte, você está olhando para aquela flor com a palavra, com o símbolo, com o conhecimento, e, portanto, não a está olhando efetivamente. Ou, talvez, o faça com a mente, que ao mesmo tempo está pensando em outra coisa.

    Quando você olha para a flor sem o conceito, sem a imagem, atento, qual é a sua relação com ela? Já o fez alguma vez? Algum dia já olhou para uma flor sem denominá-la? Já admirou uma flor intensamente sem a interferência do nome, do símbolo, ou seja, apenas observando-a? Até que o faça, não terá qualquer relacionamento com a flor. Para se entrar em relação com outro ser, com um rochedo ou com uma folha, é necessário olhar e observar com plena atenção. Seu relacionamento com o que vê será, então, inteiramente diferente. Não haverá observador algum. Só haverá aquilo. Se observar assim, não existirá opinião nem julgamento. A coisa é o que é. Compreendeu? Você o fará? Olhe para uma flor deste modo. Faça isto, meu amigo. Não fale apenas, mas faça-o.

    ESTUDANTE: Se o senhor tivesse muito lazer, como o utilizaria?

    KRISHNAMURTI: Faria o que estou fazendo. Olhe, quando gostamos do que fazemos, temos na vida o lazer necessário. Compreende o que eu disse? Perguntou-me o que eu faria se dispusesse de tempo. Respondi que faria justamente o que estou fazendo: e o que faço é ir a diferentes partes do mundo, pronunciar palestras, ver gente, etc. Faço isto pelo simples gosto de fazer; não porque fale para um grande auditório e me sinta importante. Quando alguém sente essa importância, não preza aquilo que faz, mas a si próprio. Assim, deve você preocupar-se, não com o que eu estou fazendo, porém com o que lhe incumbe fazer. Entendeu? Eu lhe disse o que estou fazendo. Agora, diga-me o que habitualmente faz nos momentos ociosos.

    ESTUDANTE: Eu fico entediada.

    KRISHNAMURTI: Fica entediada. Pois. bem. Tédio é o que a maioria das pessoas sentem.

    ESTUDANTE: Poderia o senhor dizer-me como livrar-me do tédio?

    KRISHNAMURTI: Vamos, escute. Quase todos se acham entediados. Porquê? E a jovem pergunta como livrar-se do tédio. Descubra-o pessoalmente. Se você se isola, ainda que por breve tempo, isso a enfada. Então apanha um livro, procura conversar com alguém, pega uma revista, vai ao cinema, busca distrair-se com alguma coisa. Recorre a isso para fugir de si mesma. Você fez uma pergunta. Agora, preste atenção ao que vou dizer. Sente-se entediada, vazia, por achar-se agora diante de si própria, o que poucas vezes lhe acontece. Daí o seu aborrecimento. E pensa: Nada mais sou do que isto? Sinto-me insignificante, estou tão amolada! Tenho de superar este sentimento. - Esta realidade - o que você é - lhe desagrada, e por isso tenta fugir. Porém, se disser que não quer permanecer entediada, que procurará saber porque assim se encontra, que deseja descobrir o que em verdade é, isso equivale a olhar-se num espelho. Nele você se vê tal como é, vê seu próprio rosto. E ele não lhe satisfaz; dirá, então: gostaria de ser bonita, de parecer-me com uma atriz de cinema. Mas, se logo acrescentar: "É assim que eu sou; meu nariz não é bem reto, meus olhos são um tanto pequenos, meu cabelo é liso", aceitando esta verdade, vendo-se como efetivamente é, o tédio desaparecerá. O aborrecimento só surge quando você rejeita o que vê e almeja ser diferente. Do mesmo modo, quando você contempla o seu interior e o vê como é, isso não a entedia. É, pelo contrário, extraordinariamente interessante, pois, quanto mais se vê, mais há para ver. O indivíduo pode aprofundar-se cada vez mais, ampliar o autoconhecimento, sem jamais encontrar o fim. Em tal processo não existe tédio. Se chegar a esse ponto, estará fazendo aquilo que preza, e, se prezamos os nossos feitos, o tempo não existe. Quem gosta de plantar árvores, sabe regá-las e protegê-las. Quando fazemos uma coisa pelo simples gosto de fazê-la, os dias parecem mais curtos. De agora em diante, descubram vocês mesmos o que apreciam fazer, o que lhes agradaria realizar. Não se preocupem apenas com as vantagens de uma carreira.

    ESTUDANTE: Senhor, como descobrir o que gosto de fazer?

    KRISHNAMURTI: Como descobrir? Compreendendo que talvez isso difira daquilo que pretende fazer. Provavelmente quer ser médico por ser essa a profissão paterna, ou porque a julgue rendosa. Então, nesse caso, não prezamos o que fazemos, pois nosso objetivo imediato é o lucro, e prestigiar-nos através dele. Quando prezamos alguma coisa, o móvel para alcançá-la não existe. Não nos valemos do que estamos realizando com o fito de tornar-nos mais importantes.

    Descobrir o que se gosta de fazer é algo bem difícil. É, aliás, uma das tarefas da educação. Para tanto, cumpre penetrar-nos profundamente. E isso não é nada fácil. Pode o indivíduo dizer: pretendo ser advogado e consegui-lo após muita luta, e depois, subitamente, descobrir que seu pendor era outro. O que ele gostaria era de ser pintor. Porém, é tarde demais. Já está casado, tem mulher e filhos, faltam-lhe condições para desistir daquela carreira, das responsabilidades assumidas. Então, sente-se frustrado, infeliz. Contudo, ele talvez resolva seguir sua inclinação e, assim, dedica sua vida àquele objetivo a pintura. Mas, um dia, inesperadamente, nota que jamais será um bom pintor, pois o que desejaria mesmo era ser aviador.

    A educação correta não visa ajudá-los a encontrarem carreiras. Abandonem esta idéia. Educar-se não significa um simples acumular de informações através de um professor, nem aprender Matemática em livros, ou datas históricas relativas a reis e costumes; resume-se a educação em auxiliá-los a compreenderem os problemas humanos à medida que apareçam e isto requer uma mente. saudável - urna mente que raciocine, penetrante, sem crenças. A crença não é um fato. O homem que acredita em deus é tão supersticioso quanto ao que nele não crê. Para descobrir alguma coisa é preciso raciocinar, e não poderão raciocinar se antes já tiverem uma opinião, preconceitos, se já tiverem chegado a uma conclusão. Necessitamos, pois, de uma mente sã, sensível, lúcida, objetiva, e não de uma mente crédula e que obedece à autoridade. O objetivo da boa educação é ajudá-los a descobrirem, individualmente, o que gostariam de ser. Não importa o que seja, cozinheiro, jardineiro, etc., mas algo a que deverão dedicar-se. Então poderão ser eficientes, sem se tornarem brutais. E esta escola deve ser um lugar onde encontrem ajuda para verificarem e descobrirem, por si próprios, por meio de debates, pelo ouvir, pelo silêncio, através do viver, o que na verdade desejariam ser.

    ESTUDANTE: Como podemos conhecer-nos?

    KRISHNAMURTI: Esta é uma boa pergunta. Ouçam atentamente. Como sabem o que são? Compreendem o que interrogo? Vocês olham uma vez para o espelho; depois de alguns dias ou algumas semanas, tornam a olhar e dizem: "Este sou eu de novo.'' Certo? Então, olhando-se diariamente no espelho, passam a reconhecer o próprio rosto, afirmando: "Este sou eu." Pois bem. De igual modo, pela observação, serão capazes de saber como são? De conhecer seus gestos, a maneira de andar, o modo de falar, como se comportam, se são duros, cruéis, grosseiros, pacientes? É desta maneira que começam a descobrir-se. E virão a compreender-se observando-se no espelho do que fazem, do que pensam, do que sentem. Este é o espelho - o sentir, o fazer, o pensar. Através dele poderão observar-se. O espelho diz: este é o fato, mas ele não lhes agrada, e desejam alterá-lo. Começam então a distorcê-lo, pois não querem vê-lo como é. Ora, como eu disse antes, nós aprendemos quando existe atenção e silêncio. É assim que ocorre o aprender. Agora, sentem-se calmamente; não porque eu lhes estou pedindo, mas por ser este o meio de aprender. Sentem-se e fiquem tranqüilos, não apenas fisicamente, não só com o corpo, mas também com serenidade. Assim, nesse estado de quietude, prestem atenção. Atentem para os ruídos que vêm de fora, para o cantar do galo, dos pássaros, para todo e qualquer barulho; ouçam primeiro as coisas que acontecem externamente e, depois, o que se passa na própria mente. Então, poderão notar, nesse silêncio, se souberem escutar, que o som externo e o interno são o mesmo som.

     http://www.krishnamurti.org.br/?q=node/32

     

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    A VOZ DO SILÊNCIO

    Morte: a verdade da solidão do Ser

     

    Walter Barbosa, membro da

    SOCIEADE TEOSÓFICA

    Costumamos considerar como “materialista” quem não acredita em Deus. Contudo, quando procuramos ir fundo na questão “Quem é Deus?”, considerando-o como fonte de um Universo cujos limites a Ciência não consegue nem suspeitar, vemos que qualquer “crença” a respeito sempre há de ser extremamente enganosa, ao se apoiar no intelecto.

    Essas limitações são bem visíveis quando a religião, no Velho Testamento, tenta colocar Deus ao alcance do homem dando-lhe os defeitos do próprio ser humano.

    A Ciência, por sua vez, buscando simplificar as coisas com idéias como a “acidentalidade” da Criação, tenta negar o que é absolutamente incompreensível para o intelecto: a existência de um Poder por trás da extraordinária inteligência e perfeição de cada coisa criada, seja uma minúscula semente com sua capacidade de gerar determinada espécie vegetal, entre as milhares existentes, seja uma estrela como o nosso sol, cuja luz e calor fazem aquela semente brotar na Terra a 150 milhões de quilômetros de distância.

    Na perspectiva esotérica, diz-se que Deus é o “Um sem Segundo”, sendo toda a manifestação universal um desdobramento dele mesmo em infinitas faces. Diz-se também que o homem é uma pequenina semente de Deus. Assim como a semente de uma árvore a contém potencialmente – indo produzi-la um dia – o destino do homem, ao longo de inumeráveis eras, é se tornar um Ser idêntico à sua origem. Por isso, Krishnamurti diz ao homem: “Tu és Deus” na pequena jóia denominada “Aos Pés do Mestre” (Editora Teosófica). Diz-se “és” – e não “serás” – porque ser no presente é só uma questão de consciência.

    Sentindo-nos pequeninos, como de fato somos, neste corpo de carne dominado por ilusões e apegos, pode parecer muito distante o ensinamento teosófico. Bem mais confortável é imaginar um Criador que vai gerando almas e corpos indefinidamente, ao final de uma vida média de setenta anos premiando os “eleitos” com o paraíso eterno (ou inferno eterno, se compararmos a “agitação” do nosso prazer com o “não fazer nada” do céu cristão).

    Entre a idéia da Criação com promessa de uma eternidade sem sentido, e a visão da acidentalidade materialista (onde a morte é o fim de tudo), qual a melhor? Qual a pior?

    Considerando, porém, a sabedoria infinita da Criação, algo nos diz que ela não poderia ser desperdiçada nos becos sem saída da Ciência sem Religião, ou da Religião sem Ciência (como “fé cega”). Aos que vão além, cedendo aos suaves impulsos de sua consciência intuitiva, os caminhos se abrem indicando um propósito para tudo como nos ensina a própria natureza, sempre buscando meios de auto-reprodução e sobrevivência.

    O anseio por eternidade é algo inerente ao ser humano. Claramente tal anseio não se origina no intelecto, pois a idéia de infinito não cabe nele. O infinito não pode ser medido, e a especialidade do intelecto é pesar, medir, integrando a “mente comparativa” do homem.

    O infinito que suspeitamos mora no Espírito, e o espírito é uma centelha de Deus, o “Um sem Segundo”. Por essa razão, uma das lições mais árduas para nós é derivada do apego, essa necessidade de auto-realização pela posse de coisas externas, o que nos é repetidamente negado com a perda de todas essas aquisições na experiência da morte física.

    Assim é que, ao sair deste mundo, vamos sós, sem qualquer lastro material ou afetivo como entramos nele. Voltamos porém muitas vezes, para enfim aprender com a morte o que os Mestres nos ensinaram em vida: a conquista do Eterno só se realiza pela aniquilação do transitório, da dependência de qualquer coisa externa como fonte de felicidade.

    Morta a idéia da posse, morre também seu vínculo, restando apenas a solidão do Ser. Não como sentimento de ilusória separatividade, mas pela auto-suficiência inerente ao Eterno, como Consciência da Vida Una, da totalidade do próprio Ser.

    CURSOS E PRÁTICAS – Meditação, Astrologia, Hatha-Yoga e Yogaterapia. Palestras públicas aos sábados, 18 horas, na R. Pernambuco, 824, S.Francisco. Tel.: (67) 9988-1010.

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