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日志


11月24日

Mussolini Um autêntico antissemita

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Mussolini

Um autêntico antissemita


No dia 18 de novembro o diário da amante de Mussolini foi publicado como um livro chamado “Mussolini Segreto”.

Clara Petacci descreve Mussolini como um verdadeiro antissemita. O livro perturba a visão positiva que muitos italianos têm do líder que tinha Hitler como aliado. Os documentários exibidos na TV geralmente não mostram as atrocidades cometidas por Mussolini e só destacam que suas leis raciais, aprovadas em 1938, eram absurdas. Segundo o líder político Silvio Berlusconi, Mussolini nunca matou ninguém.

Em 2004, o filho de Mussolini publicou uma biografia onde descreve o pai como um homem cuidadoso com a família e ignora o lado negro do líder que enviou milhares de judeus para os campos de concentração nazistas.

Ler o diário de Clara será difícil para muito italianos, de acordo com a Economist. Na obra, a amante fala que Mussolini era racista desde os 21 anos e registrou a vontade do líder de realizar um massacre equivalente ao que a Turquia praticou com armênios em 1915.

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11月23日

Salónica

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Salónica

http://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/7/7c/Thessaloniki.png

Localização de Salônica na Grécia

http://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/7/75/Thessaloniki_Municipal_Flag.png

Bandeira de Salónica.

http://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/d/d4/Thessaloniki_seal.png

Selo de Salónica.


Salónica (português europeu) ou Salônica (português brasileiro), também conhecida como Tessalónica (português europeu) ou Tessalônica (português brasileiro) (em grego Θεσσαλονίκη, transl. Thessaloníki, "vitória sobre os tessálios") é a segunda maior cidade da Grécia e a principal cidade da região grega da Macedônia. Sua população era de 763.468 habitantes em 2001, contando com os subúrbios junto ao golfo Termaico.[1]

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História

A cidade foi construída por determinação de Cassandro, em 316 a.C., que lhe deu o nome da sua esposa, Tessalônica, meia-irmã de Alexandre Magno. Esta fora assim chamada por seu pai, Filipe II da Macedónia, por ter nascido no mesmo dia da vitória (νίκη, níkē, em grego antigo) dos macedônios sobre os tessálios.[2]

O nome alternativo Salónica, antigamente mais comum e usado em vários idiomas europeus, deriva da variante Σαλονίκη (Saloníki) em grego popular. Outras denominações historicamente importantes incluem سلانيك, em turco otomano, e Selânik, em turco moderno; Солун (Solun), nas línguas eslavas da região; Sãrunã en aromeno; Selanik em ladino.

Foi a capital de um dos quatro distritos romanos da Macedónia, governada pelo pretor Fabiano, a partir de 146 a.C..

Na sua segunda viagem missionária, São Paulo pregou na sua sinagoga, lançando as bases de uma das mais marcantes igrejas da época, e destinou-lhe duas das suas epístolas.

A animosidade contra Paulo, por parte dos judeus da cidade, levou-o a fugir para Beréia. Posteriormente, escreveu a Primeira Epístola aos Tessalonicenses e a Segunda Epístola aos Tessalonicenses.

Em 388, a cidade foi palco do Massacre de Tessalónica, quando, por ordem do imperador Teodósio I, diversas pessoas foram assassinadas por não concordarem com os preceitos do catolicismo, recentemente adoptado como a única religião oficial do Império Romano.

Domínio bizantino e veneziano

Desde que foi subtraída à Macedônia, Salónica fez parte do Império Romano e do Império Bizantino, até que Constantinopla foi conquistada na Quarta Cruzada, em 1224. A cidade tornou-se capital do Reino de Salónica, fundado pelos cruzados, até ser capturada pelo Despotado bizantino do Épiro, em 1224. É reconquistada pelo Império Bizantino em 1246, mas, sem capacidade para fazer frente às invasões do Império Otomano, o déspota bizantino Andrónico Paleólogo é forçado a vendê-la a Veneza, que a manteve até 1430.

Domínio Otomano

Sob domínio do Império Otomano até 1912, a cidade distinguia-se pela sua população maioritariamente judaica de origem sefardita, em consequência da expulsão dos judeus da Espanha depois de 1492 (havia também alguns judeus romaniotas). A língua mais usada na cidade era o ladino (língua derivada castelhano) e o dia de descanso oficial da cidade era o sábado.

Domínio grego moderno

Ficheiro:Looking down at Aristotelous Sq Thessaloniki 2005.jpg

Ficheiro:Salonica-view-aerial2.jpg

Salónica

Tessalônica foi o principal "prêmio" da primeira Guerra dos Balcãs em 1912, quando se tornou parte da Grécia. Durante a Primeira Guerra Mundial, um governo provisório foi ali estabelecido e dirigido por Elefthérios Venizélos. Este governo tornou-se aliado dos britânicos e franceses, contra a vontade do rei, que era favorável à neutralidade da Grécia. A maior parte da cidade foi destruída por um incêndio de origem desconhecida (provavelmente um acidente), em 1917. O fogo teve como consequência a diminuição para metade da população judia que emigrou depois de verem as suas casas e seus meios de subsistência destruídos. Muitos foram para a Palestina. Alguns foram no Expresso do Oriente para Paris. Ainda outros foram para a América.

Gregos exilados de Esmirna e de outras áreas da moderna Turquia em 1922, seguindo a derrota do exército grego que invadiu a Ásia Menor, chegaram a Tessalônica e influenciaram a cultura da cidade.

Elefthérios Venizélos proibiu a reconstrução do centro da cidade até que uma planta moderna da cidade estivesse pronta.

Apesar dos esforços gregos, quase todos os habitantes judeus da cidade foram assassinados no Holocausto durante a ocupação alemã entre 1941 e 1944.

Actualmente é uma cidade universitária, base da NATO e um importante centro industrial, com refinarias de petróleo, fábricas de maquinaria, têxteis e tabaco.

Monumentos e outros lugares de interesse

Ficheiro:White Tower Thessaloniki 2009.jpg

A Torre Branca

Ficheiro:Thessaloniki-Arch of Galerius (eastern face).jpg

O Arco de Galério

Um marco e um símbolo bem conhecido em Tessalónica é a Torre Branca (em grego, Λευκός Πύργος).

Outros monumentos notáveis são o Arco de Galério, a igreja de São Demétrio e os extensos muros da cidade. O Museu Arqueológico de Tessalônica guarda um rico acervo que abrange desde a Pré-história até o período romano.

Tessalônica tem bonitas praças com muitos bares, como a Praça Aristóteles, a Praça Santa Sofia, a Praça Nea Panagia e a Praça Navarínu.

Referências

  1. Urban Audit - Data that can be accessed. Urbanaudit.org. Página visitada em 5 de janeiro de 2009.
  2. The pocket guide to Saint Paul By Peter E. Lewis, Ron Bolden - Página 118 ISBN 1862545626

Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.

 




11月22日

Além da chibata

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Além da chibata

Por Carla Delecrode

 

Centenas de marinheiros na baía da Guanabara tomam quatro navios da armada e ameaçam a capital do país. O objetivo é lutar pelo cumprimento de suas reivindicações, já que a Constituição não lhes permitia fazê-lo pelas urnas. Eles queriam melhores condições de vida e de trabalho, o que inclui o fim dos castigos corporais. O movimento é a Revolta dos Marinheiros ou, como é mais conhecida, a Revolta da Chibata, ocorrida entre 22 e 26 de novembro de 1910.

“É importante não restringir o movimento a uma luta apenas contra a chibata”, explica o historiador do Pronex-ceo e professor da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ) Álvaro Nascimento. Para ele, os ideais que estimularam os marinheiros a se organizarem durante, pelo menos, oito meses  eram a redução ou a melhor distribuição da carga horária de trabalho, melhoria na alimentação e nos salários, assim como educação para os mais violentos.

“Havia um projeto político para melhorar as condições de trabalho na Marinha de Guerra como um todo.” O pesquisador explica que a revolta foi o meio encontrado pelo grupo para fazer a sociedade perceber suas insatisfações, o que indignou o país e ganhou repercussão internacional. “Soldados, marinheiros, padres e mendigos não podiam votar no início do século XX.”

A tomada dos quatro navios mais modernos do país e o cerco à capital, ameaçada de bombardeio, despertou o temor da população e a inquietação do governo. A saída encontrada foi conceder anistia ao grupo e em seguida perseguir os envolvidos. O que gerou outro levante de reação na Ilha das Cobras, que foi facilmente sufocado pelo governo. O desfecho para os envolvidos foi expulsão do Rio e prisão, inclusive para o líder João Cândido, que ficou por dois anos na Ilha das Cobras e presenciou a morte de seus companheiros por asfixia.

Apesar disso, a revolta serviu para trazer à discussão da sociedade a falta de direitos políticos, civis e sociais dos praças, além de ter sido uma alternativa de representação para os que estavam à margem da cidadania. Ela também decretou o fim dos castigos corporais na marinha brasileira.

Escrito por: Carla Delecrode

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11月15日

Política e a Questão Racial

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Política e a Questão Racial

Novembro 15, 2009

por Antonio Ozaí da Silva*

 

“A propaganda abolicionista, com efeito, não se dirige aos escravos.(…) A emancipação há de ser feita entre nós, por uma lei que tenha os requisitos, externos e internos, de todas as outras. É, assim, no Parlamento e não em fazendas ou quilombos do interior, nem nas ruas e praças das cidades, que se há de ganhar, ou perder, a causa da liberdade”.

(Joaquim Nabuco. O Abolicionismo)

“A sociedade brasileira largou o negro ao seu próprio destino, deitando sobre seus ombros a responsabilidade de reeducar-se e de transformar-se para corresponder aos novos padrões e ideais de homem, criados pelo advento o trabalho livre, do regime republicano e do capitalismo”. (Florestan Fernandes. A Integração do Negro na Sociedade de Classes)

 

Considerado do ponto de vista institucional, isto é, sob a ótica do Estado, a participação política dos negros e negras foi historicamente neutralizada, ora por mecanismos de cooptação (principalmente nas regiões mais atrasadas do Brasil), ora pela repressão. O próprio movimento abolicionista realizou-se em seu nome e com objetivos colaboracionistas, colocando senhor e escravo no mesmo patamar: vítimas iguais de um mesmo sistema. Aos escravos foi negado o direito de ser agente de transformação da sua própria história. Então, veio a abolição, mas a causa da liberdade permaneceu irresoluta: ao escravo liberto não foram facultadas as condições econômicas e sociais para o usufruto da plena liberdade.

As condições históricas da inserção do negro na sociedade brasileira são elementos facilitadores do controle e exclusão política. Escravos na colônia e no império, sustentáculos do desenvolvimento econômico brasileiro durante décadas, foram jogados no seio de uma sociedade fundada em bases secularmente racistas. Libertos foram preteridos do mercado formal de trabalho em nome de um projeto elitista de branqueamento do país. Tiveram que disputar com o imigrante europeu até mesmo as mais modestas oportunidades de trabalho livre, como a de engraxate, jornaleiro ou vendedor de frutas e verduras, transportadores de peixe e carregadores de sacas de café, etc. as mulheres negras garantiram a sobrevivência da família trabalhando, ontem como hoje, como domésticas, faxineiras, babás, doceiras, cozinheiras, lavadeiras e outras atividades similares. As melhores ocupações ficaram com seu concorrente direto: o europeu.

Desconsiderado econômica, social e culturalmente, o negro, a exemplo dos brancos pobres, foi excluídos do jogo político das oligarquias que dominavam a república velha. Esta situação não foi modificada com a ascensão de Getúlio Vargas ao poder: manteve-se o critério de que a política é uma atividade restrita às elites. E isto foi ainda mais aprofundado durante o Estado Novo: cabia às camadas inferiores do povo, sendo a raça negra sua maioria, contentar-se com a função submissa de colaborar para a harmonia e a manutenção da ordem social, condições para o progresso e o desenvolvimento econômico brasileiro.

É verdade que no curto período denominado pelos sociólogos e historiadores como populista, os trabalhadores e trabalhadoras foram alçados à posição de coadjuvantes no cenário da política brasileira do período pós II Guerra Mundial até o golpe militar de 1964. É fato também que a política oficial não podia mais desconsiderar estes sujeitos históricos (por isso a necessidade do golpe militar).

Mas, uma análise mais cuidadosa nos mostrará que, apesar dos avanços na participação política, inclusive dos negros, e mesmo na forma como os governos populistas encaravam a questão social, estávamos longe de colocar a questão racial como um tema central da política brasileira. Aliás, a admissão da questão racial adquiriu até mesmo ares de antipatriotismo Com efeito, a forma corriqueira de negar a existência do racismo e de todas as suas conseqüências é simplesmente fazer de conta de que não temos este problema. Consequentemente, os negros continuavam excluídos.

Nos anos da redemocratização, a questão racial foi de novo relegada a um plano secundário: afinal, tratava-se de libertar o país do jugo da ditadura. Se não podemos nos surpreender com a atitude historicamente preconceituosa do pensamento dominante, é interessante observar como os partidos e organizações políticas de esquerda, que defendem idéias igualitárias e contra todo tipo de opressão, também terminam por negligenciar a questão racial.

Eurocêntrica em sua fundamentação teórica, a esquerda brasileira teve como parâmetro um determinismo economicista que reduz todas as relações sociais às determinações de classe, ou seja, vêem o trabalhador e a trabalhadora, negro ou branco, negra ou branca, sob a lente do conflito Capital X Trabalho. Passa-lhe despercebido que o homem e a mulher não são apenas agentes econômicos, mas seres sociais e, ao mesmo tempo, específicos.

Uma esquerda enviesada por tal reducionismo tende a passar ao largo de questões como o racismo. Impregnada pela ideologia racista dominante, não compreende o papel e a importância desta ideologia enquanto elemento reprodutor e estruturante das desigualdades em nossa sociedade. Por conseqüência, transforma a questão racial em mera questão relativa às ‘minorias’.

Em suma, se considerarmos o âmbito institucional, a situação do negro e da negra parece estática. É verdade que hoje eles podem escolher de quatro em quatro anos quem os governarão pelo próximo período. É verdade também que temos canais de participação política e mesmo a possibilidade dos negros e negras tornarem-se senadores/as da república e/ou ministros.

Ainda é pouco e antes constitui a exceção que confirma a regra. Quantos vereadores negros e negras temos em nossas câmaras municipais? E nas prefeituras? Qual a porcentagem de deputados negros e negras nos estados e no Congresso Nacional? E no senado? E se considerarmos as direções dos partidos políticos, mesmo os de esquerda? Será diferente nas direções sindicais? Em todos os casos veremos que a participação da raça negra segue a mesma lógica observável nos demais setores da sociedade: no mercado de trabalho, no acesso à educação superior etc., as estatísticas demonstram que o negro e a negra são minoritários e tratados como inferiores.

Contudo, a despeito das adversidades em que a luta anti-racista foi historicamente submetida, inclusive através do isolamento político, o negro e a negra sempre resistiram. Há uma história política não institucional que nem sempre é contada. A começar por Quilombo dos Palmares, símbolo da resistência de um povo que luta pela vida em liberdade. Esta experiência histórica, em geral desconhecida, mesmo no ensino formal, representou uma radical contestação à ordem dominante, subvertendo a ideologia dominante quanto à boçalidade e indolência dos trabalhadores negros.

A resistência negra também se fez presente na organização de suas entidades: como a Frente Negra Brasileira nos anos 20/30 (colocada na ilegalidade em 1937 por Getúlio Vargas); o Movimento Negro Unificado, organizado em 1978; a emergência do Movimento de Mulheres Negras que, em 1995, interferiram nos fóruns nacionais e internacionais que preparavam a Conferência Beijin 95 no sentido de incluir a questão racial na pauta das discussões feministas. Os negros resistiram ainda através da formação de associações comunitárias negras, do candomblé, das escolas de samba, da imprensa negra, da participação em movimentos e partidos políticos.

As diversas formas de resistência convergiram para que o negro e a negra se impusessem enquanto sujeitos políticos potenciais.


Lutam pelo reconhecimento público da questão racial. Sabem que a assimilação do diferencial de raça enquanto elemento constitutivo da reprodução da desigualdade e do acesso aos chamados direitos de cidadania é de fundamental importância para o combate a todas as formas de racismo e a construção de uma sociedade realmente democrática.

A política racial, através da ação direta dos negros e negras, tem sido o caminho mais fecundo para a defesa de uma população que, em sua maioria, é mantida à margem da política institucional. Os negros e negras aprenderam que só assim é que conquistaram seu espaço, inclusive nas instituições do Estado (incluindo-se aí os partidos políticos). Em outras palavras, a participação política dos negros e negras é necessariamente diferenciada.

Quando se é negro e negra não basta, por exemplo, lutar pela cidadania participando de um partido político de esquerda. É preciso definir a qualidade desta cidadania e, simultaneamente, organizar-se enquanto setor diferenciado no interior deste partido. E isso ocorre porque a luta contra o racismo ainda não foi suficientemente abraçada por todos aqueles que, independente da cor, acreditam e lutam por uma sociedade plenamente democrática e justa.

 


* Docente do Departamento de Ciências Sociais, Universidade Estadual de Maringá (UEM). Blog: http://antonio-ozai.blogspot.com. E-mail: aosilva@uem.br. Publicado na REA, nº 13, junho de 2002, disponível em http://www.espacoacademico.com.br/013/13polracial.hrm

 



11月8日

O fim do Socialismo?

 
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O fim do Socialismo?

Novembro 8, 2009

por Henrique Rattner*

 

Introdução

A queda do muro de Berlim e a derrocada do ex-império soviético propiciaram um terreno fértil para que surgisse a tese de F. Fukuyama sobre “O fim da História”, da luta de classes e das contradições entre o mercado e o Estado. Decorrida pouco mais de uma década, os vaticínios de Fukuyama e seus adeptos não deixam de ser ridículos, sobretudo à luz dos permanentes confrontos internos à imensa maioria das sociedades e as guerras travadas em todos os continentes.

A derrota dos socialistas franceses nas eleições de abril de 2002 e a ascensão da extrema direita liderada por Le Pen têm provocado interrogações e interpretações das mais diversas na mídia e nos meios acadêmicos e políticos, afirmando alguns peremptoriamente “o fim do socialismo”.

Efetivamente, o fenômeno Le Pen parece ser mais um elo na cadeia de expansão da extrema direita – xenófoba, racista e ultranacionalista – sobretudo, no continente europeu.

As vitórias nas eleições francesas de Le Pen, de Silvio Berlusconi na Itália, Jorge Haider na Áustria, Pia Kjaersgaard na Dinamarca e de Pim Fortuyn na Holanda convidam para uma reflexão sobre a dinâmica dos movimentos políticos da “esquerda” e suas perspectivas nesta “era de incertezas”.

Na ânsia de prever e predizer o futuro, os arautos da derrota “irreversível” do socialismo se baseiam em idéias genéricas para explicar casos específicos enquanto ignoram as especificidades contextuais.

Uma análise mais correta dos fatos nos remete à dinâmica das origens e das relações históricas presentes na gênese do pensamento e dos movimentos socialistas. Longe de ter esgotado seu papel na História, o socialismo ressurge como única alternativa humanista face à irracionalidade, os desmandos e a alienação do sistema capitalista.

Das origens: do socialismo utópico ao científico e ao “real”

Dos escombros da Revolução Francesa e da Restauração posterior ao Congresso de Viena (1815) surgiram várias propostas e projetos visando a construção de relações sociais mais dignas e eqüitativas. Os assim chamados socialistas utópicos – Fourier, R. Owen e Saint Simon, seguidos pelo cooperativismo de Proudhon refletiram os esforços de seus protagonistas em corrigir as assimetrias sociais e as injustiças cometidas contra os trabalhadores e suas famílias no sistema industrial emergente. Em 1848 saiu publicado o livro de F. Engels sobre “A situação da classe operária na Inglaterra” e, no mesmo ano, o Manifesto Comunista de K. Marx e F. Engels conclamou os proletários de todos os países a unir seus esforços para romper as cadeias de exploração capitalista na luta pela conquista dos Direitos Humanos. As derrotas fragorosas das revoluções burguesas em 1848, na França, na Alemanha, na Áustria, Hungria, Polônia e Rússia, não conseguiram conter as pressões de milhões de trabalhadores arregimentados pelo processo de industrialização emergente.

Na segunda metade do século XIX, a expansão do modo de produção industrial estimulou a formação de sindicatos e, posteriormente, de partidos políticos dos trabalhadores em todos os países europeus. Embora considerados base dos partidos políticos socialistas, seus lideres julgaram a ação sindical insuficiente para induzir transformações do sistema, uma discussão apaixonada e prolongada que perpassou os movimentos em todo o continente europeu, particularmente na Rússia Czarista e na Alemanha imperial.

“Reforma ou revolução” foi o divisor de águas em todos os partidos socialistas e social democratas, sendo os defensores mais articulados da primeira opção os teóricos alemães K. Kautsky e Eduardo Bernstein e os Mencheviques, na Rússia. Os revolucionários, minoritários nos partidos, contaram entre seus porta-vozes mais brilhantes Lênin e Trotsky na Rússia e Rosa Luxemburg e Karl Liebknecht (ambos assassinados em 1919) na Alemanha. Sem rejeitar a luta contínua por reformas sociais, por melhorias na situação dos trabalhadores e pela defesa das instituições democráticas, os revolucionários se orientaram por seu objetivo último – a conquista de poder político e a abolição do sistema de exploração capitalista. A luta pela reforma social seria o meio, a revolução social – o fim.

Sob a liderança da social-democracia alemã e francesa foi fundada em 1889 a Segunda Internacional Socialista (a Primeira tinha sido dissolvida em 1873, em conseqüência das intermináveis disputas entre a facção anarquista liderada por Bakunin e os grupos seguidores de Marx e Engels). Mas, apesar do crescimento numérico contínuo dos partidos filiados e sua conquista de bancadas nos respectivos parlamentos, a Segunda Internacional literalmente implodiu com a eclosão da Primeira Guerra Mundial, quando os partidos socialistas votaram a favor da guerra e conclamaram a classe trabalhadora a apoiar o esforço bélico nacional. Em vez de unir-se contra o massacre que durou quatro anos ceifando dezenas de milhões de vidas, os partidos, com a honrosa exceção de Jean Jaurés, na França, Karl Liebknecht e Rosa Luxemburg, na Alemanha e os Bolcheviques na Rússia entoaram discursos patrióticos em defesa dos respectivos monarcas e pátrias.

Para manter acesa a chama do internacionalismo, reuniram se sucessivamente em duas aldeias suíças, Zimmerwald (1915) e Kienthal (1916) uma dezena de representantes das correntes revolucionárias, elaborando um manifesto que conclamava para o fim imediato das hostilidades e a instalação de governos republicanos em todos os países. A eclosão da Revolução Russa (fevereiro e outubro de 1917) e sua defesa vitoriosa contra as invasões de vários exércitos que pretendiam restaurar a monarquia pareciam inclinar a balança a favor dos movimentos revolucionários.

Mas, as repressões sangrentas dos movimentos revolucionários na Hungria (1919) e na Alemanha, bem como a derrota das tropas soviéticas frente ao exército polonês do Marechal Pilsudski fizeram refluir a onda revolucionária e levaram ao isolamento da União Soviética. Uma das conseqüências da hostilidade do mundo capitalista e suas organizações internacionais foi a instalação da sede da Terceira Internacional Comunista em Moscou e seu total controle pelo PCUS – Partido Comunista da União Soviética e, posteriormente, pela KGB, a polícia secreta de Stalin.

As barbaridades cometidas por esta durante a Guerra Civil espanhola (1936-39) contra militantes oposicionistas, particularmente os anarquistas e trotskistas pelas tropas e a polícia sob controle dos stalinistas; suas denúncias e a entrega de militantes comunistas opositores à Gestapo – a polícia secreta dos nazistas e finalmente, a assinatura do Pacto de não-agressão entre os ministros de Relações Exteriores da Alemanha (Ribbentrop) e da URSS (Molotov) em 1939 pareciam ter selado o destino da Terceira Internacional.

Eliminando brutalmente os partidos e correntes oposicionistas, a “ditadura do proletariado” passou à ditadura do partido, dirigido pelo Comitê Central que, por sua vez, estava totalmente controlado pelo secretário geral o “camarada” Stalin.

O dilema existencial causado aos militantes comunistas sobretudo na Alemanha e Europa Central em conseqüência da aliança entre Hitler e Stalin, reforçou e confirmou as criticas levantadas contra o Termidor – a decapitação da elite revolucionária de 1917, levada aos tribunais, condenada e executada nos famigerados processos de Moscou.

Na mesma época, ocorreu o exílio forçado seguido de perseguição implacável do líder da oposição Leon Trotsky (autor de “A Revolução Traída”) até o México, onde foi assassinado a mando de Stalin, em 1940. A invasão da ex-URSS pelas nazistas em 1940 e sua aliança com as democracias ocidentais (EUA e Grã-Bretanha) na guerra contra as potências do eixo, Alemanha, Itália e Japão, abafaram as críticas e restrições contra o regime de terror e seu partido, enquanto os PCs da França e Itália, alcançaram grande votação nos anos pós-guerra.

A reconstrução da Europa pelo Plano Marshall e a eclosão da Guerra Fria iniciaram um processo de perda de prestígio e de votos dos PCs e criaram condições para o ressurgimento dos partidos social democráticas e socialistas como representantes dos trabalhadores, nos países da Europa Ocidental, na luta por uma distribuição mais eqüitativa do produto dos “milagres econômicos”.

O ponto culminante desta tendência foi a ascensão ao governo de W.Brandt seguido da H.Schmidt na Alemanha, de F. Mitterand na França, de M. D’Alema e R.Prodi na Itália; governos social-democráticos nos países escandinavos, na Bélgica e Holanda e, por último, a reconquista do poder das mãos da conservadora M. Thatcher pelos trabalhistas de T. Blair.

A partir dos anos 90, com a queda do socialismo “real” no leste europeu, novamente ofereceu-se uma chance aos partidos social democratas para que cumprissem o papel histórico de apresentar uma alternativa viável aos desmandos e a irracionalidade do sistema capitalista em sua versão neoliberal.

Acreditando na possibilidade de desenvolvimento econômico nos parâmetros da dinâmica do capital financeiro, mesmo para os países de desenvolvimento “tardio” ou o chamado “terceiro mundo”, os dirigentes dos partidos social democratas aliaram-se aos partidos de “centro direita” para assumir o governo. Para justificar suas políticas de compromissos e de abandono das reivindicações dos trabalhadores ao aderir ao receituário neoliberal do FMI, foi elaborada uma esdrúxula teoria sobre a “Terceira Via” a partir de idéias seminais de Anthony Giddens, acadêmico e guru de Tony Blair, esposada pelos principais chefes de Estado europeus, reunidos num encontro, em 1999, em Florença, Itália, e ao qual compareceram também os presidentes B. Clinton dos EUA e F.H. Cardoso do Brasil. A reunião que devia oficializar a doutrina da Terceira Via, na realidade foi o início de sua decadência, com a perda sucessiva de votos, cadeiras no Parlamento e inclusive de governos, na Áustria, no Portugal, na Itália e, mais recentemente, na França de Lionel Jospin. O eleitorado, tradicionalmente de “esquerda” que dava apoio e votos aos partidos social democratas, expressou seu descontentamento e descrédito e afastou-se das lideranças tradicionais, abstendo-se de votar e  abrindo espaço para o avanço dos partidos da “direita”, os conservadores xenófobos, racistas e ultranacionalistas.

O cenário emergente no final do século vinte criou desafios econômicos, sociais e políticos  para os quais a social democracia, mesmo vestida de seu manto de Terceira Via, não estava preparada e capacitada de responder. Com a recessão profunda que se abateu sobre a economia norte americana cujos efeitos se propagaram como em círculos concêntricos através de todo o sistema mundial, inúmeros países “emergentes” praticamente afundaram em suas dívidas e contradições sociais internas. O colapso da Argentina em 2001 parece assinalar que o sistema financeiro internacional estaria nos limites de poder “salvar” economias falidas, endividadas e corruptas (México, Tailândia, Indonésia, Rússia, Brasil, Turquia, Equador, Filipinas e outras). Mas, ao caos econômico segue inevitavelmente o social e político, profusamente demonstrado pelas manifestações de massas de revoltados, cidadãos empobrecidos e marginalizados.

Do outro lado da “cortina de ferro”, a derrocada do sistema stalinista na ex-URSS e nos países satélites resultou de imediato numa deterioração violenta das condições de vida da maioria das populações, repentinamente expostas às turbulências do mercado, sem a proteção paternalista (educação, saúde, habitação, emprego) do Estado.

Na década dos noventa, quarenta países estavam sendo dirigidos por governos social democratas ou por alianças dominadas pela “esquerda”. Entretanto, revelaram se impotentes para induzir mudanças sociais e econômicas face à pressão avassaladora da globalização econômica e militar e, devido aos compromissos assumidos com os representantes do capital nacional e internacional.

As lideranças políticas dos partidos social democratas inclusive o nosso PSDB ficaram presas na armadilha que elas próprias construíram. Tendo pregado e defendido durante anos que não haveria futuro fora do sistema neoliberal, assumiram plenamente a responsabilidade pelas políticas econômicas, financeiras e trabalhistas decorrentes, contribuindo para o agravamento da marginalização e exclusão de milhões de pessoas em conseqüência do aumento da “divida social”, enquanto nas questões de política externa aderiram à doutrina da globalização “inevitável”, aliando-se incondicionalmente à superpotência hegemônica.

Socialismo no século XXI

As políticas neoliberais e suas desastrosas conseqüências em termos da deterioração da qualidade de vida dos trabalhadores e da maioria da população estão na raiz do distanciamento das massas de seus partidos tradicionais e dos governos com os quais estes colaboraram, ou apoiaram. Para os grupos mais politizados, os partidos social democratas e socialistas perderam o poder mobiliza dor, incapazes que foram para evocar uma visão alternativa da sociedade. Outra parte das vozes e votos discordantes foi para a “direita” (vide o avanço de Le Pen, J. Haider e outros) que , pregando também contra a globalização, acolheram os votos dos pobres marginalizados, da baixa classe média e dos desempregados que se sentiram abandonados pelos partidos de esquerda tradicionais.

Votos de protesto apoiando os candidatos da oposição não significam necessariamente uma tomada de posição consciente, uma adesão a uma plataforma ideológica e política alternativa. Parece, contudo, cada vez mais nitidamente que, para os partidos tradicionais da esquerda, o objetivo de construir uma sociedade alternativa mais justa foi substituído pela necessidade de manter a organização burocrática e os privilégios decorrentes de seu funcionamento e das alianças celebradas com os antigos adversários. A participação nas instituições da ordem burguesa capitalista abriu as portas para a cooptação das organizações sindicais e políticas e de seus dirigentes. Assim, os partidos socialistas e social democratas não apenas legitimaram as políticas do sistema capitalista, mas passaram também a defendê-las nos fóruns nacionais e internacionais.

Sendo assim, persiste o impasse histórico de “reforma ou revolução”.

Tanto os social democratas reformistas quanto os revolucionários replicaram em suas organizações e nas práticas políticas os padrões de conduta e de liderança autoritários, baseados em raciocínios cartesianos lineares e unilaterais com suas interpretações deterministas da História. Uma proposta alternativa abrangeria inevitavelmente desde uma visão do mundo diferente (“o mundo não é uma mercadoria”..) até novas formas de organização e mobilização social. A nova visão, ao rejeitar a globalização imposta “de cima para baixo”, propõe a integração a ser realizada pelas populações, “de baixo para cima”. Em vez de um punhado de executivos, empresários, tecnocratas e seus intelectuais orgânicos, serão as organizações populares e democráticas, baseadas na participação e o engajamento de todos, que conduzirão o processo de transformação social, econômica e política. Essa empreitada e as tarefas dela conseqüentes não podem ser atribuição de uma minoria “iluminada”. A conquista dos Direitos Humanos, a plena vigência do Estado de Direito e da justiça social exigem ações coletivas nas quais os atores sociais se tornem agentes ativos e conscientes do processo histórico e gestores de seu destino.

Aos céticos e cínicos que desdenhem de uma análise crítica do contexto histórico, sob a alegação da inviabilidade e inutilidade de “utopias”, deve se lembrar o que seria o mundo se não houvesse, em todas as gerações, indivíduos capazes e corajosos de pensar as alternativas, posteriormente transformadas em realidade. Baseando-nos na premissa “toda a realidade é construção social” inferimos que aquilo que foi construído por seres humanos, por eles pode ser desconstruído e reconstruído.

Afinal, a História do capitalismo data de alguns séculos apenas, em que foram travadas inúmeras guerras, com dezenas de milhões de pessoas exterminadas e inestimáveis recursos naturais devastados.Impelido por uma dinâmica perversa de concentração e polarização em todas as esferas da vida social, o sistema não parece dispor de saídas para romper o círculo vicioso. Portanto, seria ilógico e injusto rejeitar o socialismo, invocando o fracasso da única experiência de sua implantação, em condições históricas extremamente adversas.

Mas, diferentemente do embate entre capital e trabalho nos séculos XIX e XX que polarizou os conflitos sociais e políticos, o socialismo em nosso século será construído pelas alianças e redes entre movimentos e organizações sociais, em nível local, nacional e internacional. Suas lutas transcendem as questões salariais para enfrentar os problemas da exclusão social, do desemprego, da destruição de pequenas empresas da precarização das relações de trabalho, da biodiversidade e da devastação ambiental, das reformas agrária e urbana e, sobretudo, da defesa intransigente dos Direitos Humanos em todas suas dimensões.

Para corresponder ao anseio generalizado por uma cidadania plena, de direitos e responsabilidades, o socialismo do século XXI será democrático, aberto à participação de todos e visceralmente comprometido com a liberdade individual e a justiça social.

Voltamos, portanto, a afirmar “um outro mundo é possível!”

 


* Professor da FEA (USP) e membro da Associação Brasileira para o Desenvolvimento de Lideranças (ABDL). Publicado na REA, nº 12, maio de 2002, disponível em http://www.espacoacademico.com.br/012/12rattner.htm

Entry Filed under: 1. Tags: direita, esquerda, marxismo, muro de Berlim, socialismo.

2 Comments Add your own

Caberia CORRIGIR desde o inicio uma afirmacao equivocada sobre o trabalho do Fukuyama.
Seu artigo, cujo titulo completo é “The End of History?” (e a interrogação do título é não apenas essencial mas absolutamente pertinente, por se colocar uma questao filosofica, nao por pretender um fato), foi publicado em junho de 1989, em National Interest (tendo portanto sido escrita nos meses finais de 1988 e inicio de 1989).
Isso é importante sublinhar, posto que as criticas a Fukuyama são superficiais e desmerecedoras de sua discussao filosofica.
Quando ele escreveu seu artigo — muito antes de ser publicado o livro que tem esse mesmo titulo, mas que nao traz esse artigo — nao estava em vista e ele nao podia prever, nem a queda do muro nem o final do sistema sovietico.
Quem leu o seu artigo sabe, perfeitamente, que ela nao fala no fim da URSS nem preve a derrocada do socialismo enquanto sistema pratico de governo.
Ele está discutindo ideias e se formos abordar essas ideias ele tem plenamente razao, na parte que pretende argumentar.
SIM, o socialismo chegou ao final da sua HISTORIA, e isso ninguem pode contestar.
Claro, alguns true believers vao dizer que a ideia socialista ainda na morreu, mas isso é apenas um consolo ingenuo para nao reconhecer que a proposta socialista, enquanto sistema alternativo de governo e sociedade diferentes e opostos ao capitalismo de mercado e a democracia burguesa, morreu sim, e de morte bem morrida, nao matada…
Creio que a CORRECAO é necessária e merece destaque.

  • 2. Roberto Silveira  |  Novembro 8, 2009 at 21:35

ele nao fala em revolução ,partido revolucionário, reforma com car´ter revolucionário, organizção de um patido de esquerda forte que comande as mudanças, ou vários partidos de esquerda unidos.

Acha que as ONGS, vão conseguir, sem uma organização revolucinária pra dirigir isto tudo, fazer mudanças profundas na sociedade. Doce ilusão.

Todo socialismo que é cientifico, é a concepção estremada da democracia, portanto socialismo demacrático é redundancia muito grande. O socialismo são as classes exploradas no poder, ou seja a maioria da população.

Socialismo só haverá quando ouver vanguarda, partido, ou partidos ou vangurdas conduzindo este processo. Não será mera obra de ONGS e movimentos sociais, sem a perspectiva revolcionária e socialista permeando uma cultura politica avançada sempre, por dentro e por fora.

ROBERTO SILVEIRA – rsylveira@msn.com

 

11月3日

União Europeia Tribunal tcheco aprova Tratado de Lisboa

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União Europeia

Tribunal tcheco aprova Tratado de Lisboa


O Tribunal Constitucional da República Tcheca deu “luz verde” ao Tratado de Lisboa, removendo assim o último obstáculo à ratificação do documento.

De acordo com o tribunal tcheco, o documento como um todo respeita a constituição do país, o único dos 27 membros da UE que ainda não finalizou o processo de ratificação do tratado.

Com a decisão, o presidente da República Tcheca, Vaclav Klaus, poderá assinar a ratificação do novo tratado, cujo objetivo é melhorar o funcionamento do bloco europeu e aumentar sua influência global.

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10月28日

Berlim, 1989-2009: o muro caiu?

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Governança Corporativa


História

Berlim, 1989-2009: o muro caiu?

Por Hugo Souza.

Há dois anos, por ocasião do 18º aniversário da queda do muro de Berlim, a revista alemã Der Spiegel realizou uma pesquisa com mil pessoas que cresceram na Alemanha dividida em duas. Surpresa: 95% dos alemães que em 2007 tinham entre 35 e 50 anos e que foram criados na República Democrática Alemã preferiam ainda estar vivendo sob o regime comunista. Seus filhos, com idades entre 14 e 24 anos – e que tinham no máximo seis anos em 1989 – demonstraram um saudosismo semelhante, ainda que inevitavelmente difuso.

Quando perguntados sobre o que mais sentem falta da antiga Alemanha Oriental, quase a totalidade dos mais velhos respondeu sem pestanejar: a rede de segurança social. A pesquisa demonstrou ainda que os alemães orientais estavam menos satisfeitos com suas atuais condições de vida e menos otimistas quanto ao futuro do que seus compatriotas dos territórios que compunham a Alemanha Ocidental.

É de se entender. Em matéria recente, o New York Times mostrou que o desemprego na área da antiga Alemanha Oriental é o dobro do registrado onde era o lado oeste, e desde a reunificação nada menos do que 1,7 milhão de pessoas migraram para outros cantos do país e do planeta, o que significa que 12% da população da República Democrática Alemã foi-se embora. O número de mulheres com idades entre 20 e 30 anos caiu 30% em algumas regiões. Além disso, nos primeiros anos pós-comunismo as taxas de natalidade desceram para níveis de tempos de guerra.

O Times cita as notícias que saem nos jornais alemães sobre a volta das matilhas de lobos à linha de fronteira com a Polônia, tamanha é a extensão do êxodo humano. Nas palavras utilizadas pelo jornal, trata-se de “um declínio tão marcante quanto um muro”.

Mas quando a revista Der Spiegel perguntou aos seus entrevistados sobre em qual lado iriam preferir viver no caso da construção de um novo muro separando o país em dois modos de produção distintos, nova surpresa: a maior parte dos ex-moradores do leste disse que gostaria de ficar mesmo é no outro lado, o capitalista.

A herança de desigualdade econômica e social entre o leste e o oeste alemão é motivo até para espantosas declarações públicas de pessimismo por parte das autoridades. Há não muitos anos o ex-diretor do Fundo Monetário Internacional e atual presidente da Alemanha, Horst Köhler, disse que “é uma questão de sinceridade dizer para as pessoas que não é possível criar as mesmas condições de vida em toda a Alemanha”.

Por outro lado, há também quem queira tapar o sol com a peneira, com manifestações de um otimismo absolutamente insustentável. Em junho, ao apresentar o relatório anual sobre o desenvolvimento da antiga RDA, um ministro alemão chegou a dizer que “a desigualdade está diminuindo” às vésperas de se completarem 20 anos da reunificação. Faltou informar o distinto público que não é o leste do país que está crescendo, mas sim o oeste altamente industrializado que está sofrendo as consequências da crise econômica.

As questões econômicas, como a decomposição do Estado de bem-estar social alemão, tendem a criar tensões entre os Ossis (orientais) e Wessis (ocidentais), como mostrou uma reportagem intitulada “O medo reconstrói o muro?” publicada no site da empresa alemã de radiodifusão Deutsche Welle. O texto cita ainda o jornal suíço Neue Zürcher Zeitung:

“Experiências vividas no leste alemão valem pouco na Alemanha reunificada. Como filhos da RDA, os orientais foram intitulados depois da construção do Muro de o ‘resto bobo’. Isso suscitou um sentimento de que seriam cidadãos de segunda classe, que persiste até hoje. Embora os cinco estados do leste do país sejam tudo exceto desfavorecidos no que diz respeito à divisão das verbas oficiais”.

Os relatos da Deutsche Welle e do Neue Zürcher Zeitung foram feitos há cinco anos, mas persistem enquanto fiel relato do presente. Na Alemanha, 20 anos após a queda do muro de fato, falar em “muro invisível” ainda está longe de ser mero lugar-comum.

Escrito por: Hugo Souza

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10月13日

EUA dominam Nobel de 2009

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Fonte: nobelprize.org



EUA dominam Nobel de 2009

(Até parece que resto do Mundo esta cheio idiotas, ou...)

Onze dos 13 premiados na edição deste ano do Prêmio Nobel são norte-americanos. Trata-se de um recorde.

Esse número confirma o domínio dos EUA e de suas universidades. O país só não ganhou o Nobel de Literatura e apenas um dos três ganhadores do Nobel de Química não é norte-americano.

Cabe ressaltar que alguns dos norte-americanos premiados neste ano nasceram no exterior ou têm dupla nacionalidade.

O domínio dos EUA se dá principalmente nas áreas de ciências e economia. Até este ano o melhor desempenho dos EUA havia sido em 1972, 1990 e 2001, quando os norte-americanos ganharam oito prêmios Nobel.

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9月29日

Berlim 1989-2009: As tragédias do muro

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Peter Fecht é carregado por seus algozes, os guardas de fronteira da RDA


Berlim 1989-2009

As tragédias do muro

Histórias das travessias proibidas que acabaram bem-sucedidas, e das fugas desesperadas que não tiveram o mesmo destino.

Por Hugo Souza.

...

No dia 15 de agosto de 1961 Conrad Schumann foi designado para cuidar que ninguém atravessasse a cerca de arames farpados da Bernauer Strasse, em Berlim, nos idos em que o muro ainda não era muro, mas apenas uma rede de alambrados provisórios, que desde então, e literalmente, dividiam a cidade em metades politicamente antagônicas. Soldado da República Democrática Alemã (RDA), a comunista, Schumann não pensou duas vezes quando se viu sozinho montando guarda na fronteira em construção: jogou seu fuzil para o lado e escapuliu para a metade ocidental. Parece piada, mas foi realmente uma das primeiras fugas da RDA pelo Muro de Berlim, antes mesmo de o muro propriamente dito estar completamente de pé.

Naqueles tempos pré-muro, ou de muro cheirando a cimento fresco, as tensões da divisão de fato da Alemanha em Alemanhas apenas começavam, mas a linha divisória mais famosa da história já servia de palco para algumas das maiores tensões da Guerra Fria, como as semanas a fio em que tanques norte-americanos e soviéticos permaneceram estacionados frente a frente no Checkpoint Charlie, o mais famoso posto de controle do Muro de Berlim.

Em seguida, muitas outras fugas, algumas célebres, repetiram-se ao longo dos 28 anos de 155 quilômetros de concreto que separavam um povo em dois. Em 1963, um grupo começou a construir sob o muro um túnel de 145 metros de extensão e 80 centímetros de diâmetro, pelo qual nos dia 3 e 4 de outubro de 1964 nada menos do que 57 pessoas deixaram a RDA antes que a polícia do regime descobrisse o vazamento, por assim dizer. Muitos anos mais tarde, duas famílias da Alemanha Oriental passaram despercebidas pelos guardas a bordo de um balão de ar quente, cruzando a fronteira pelo céu na noite do dia 16 para o dia 17 de setembro de 1979.

Muitos outros não tiveram a mesma sorte. Pelo menos 136 pessoas foram mortas em incidentes que aconteceram entre 1961 e 1989 junto ao muro de Berlim. A maioria era de homens jovens, com idades entre 16 e 30 anos. Noventa e nove delas foram mortas enquanto tentavam passar do lado oriental para o lado ocidental. Os dados são do Centro de Pesquisa de História Contemporânea  de Potsdam.

Assim como as fugas, houve também vítimas célebres dos guardas de fronteira. A primeira vítima fatal dos disparos de soldados da República Democrática Alemã chamava-se Günter Litfin, alvejado no dia 24 de agosto de 1961. Outro caso de maior repercussão foi o de Peter Fechter, que tombou morto perto do Checkpoint Charlie no dia 17 de agosto de 1962, quando tentava ir para o lado ocidental a fim de procurar a irmã. Tinha 18 anos de idade.

Entre os mortos estão também oito guardas de fronteira da RDA, como Reinhold Huhn, assassinado também em 1962, no dia 18 de junho, por um Fluchthelfer (pessoas que ajudavam cidadãos do leste a atravessar a fronteira ilegalmente). Em fevereiro de 1989, nove meses antes da  queda, o Muro de Berlim fazia sua última vítima fatal, um jovem de 20 anos chamado Chris Gueffroy, que tentou fugir acreditando na informação passada a ele por um soldado de que a ordem para atirar havia sido suspensa.

Não havia. A Schiessbefehl (”ordem de atirar”, em português) persistia. Esta determinação da cúpula do regime comunista da Alemanha Oriental rendeu processos judiciais que se arrastaram até o ano de 2004. Os chamados “processos de Schiessbefehl”, de responsabilização pelas mortes por disparos saídos dos fuzis dos guardas do muro, terminaram com 11 condenados à prisão e 35 absolvidos, entre militares e políticos da RDA.

Hoje, na frente do museu do Checkpoint Charlie — o posto de controle onde Peter Fechter perdeu a vida enquanto tentava resolver um drama familiar — um berlinense chamado Wolfgang Kolditz ganha a vida se fantasiando de guarda de fronteira e carimbando postais comprados por turistas que visitam aquela que permanecerá para sempre como a mais famosa cidade partida da história, ainda que atualmente os muros pós-Guerra Fria continuem fazendo vítimas que já não gozam de tanto glamour póstumo.

Escrito por: Hugo Souza

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9月27日

Jornalista é assassinado dentro de redação no México

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Um jornalista que escrevia sobre temas de segurança foi assassinado a tiros em plena redação de um jornal mexicano Imagem: J. Guadalupe Perez / AFP photo

Jornalista é assassinado dentro de redação no México

 

Norberto Miranda Madrid, conhecido com “El Gallito”, foi morto a tiros no meio da redação do jornal digital onde trabalhava na cidade de Nuevo Casas Grandes (Chihuahua), informa o El Diario.

A vítima escrevia uma coluna publicada em vários veículos, dirigia o jornal web radiovisioncasasgrandes.com e trabalhava como correspondente do diário El Heraldo e de uma emissora de rádio.

Testemunhas disseram que pelo menos cinco homens fortemente armados invadiram a redação do jornal digital e dispararam contra o jornalista, acrescenta a agência AFP. Segundo o Repórteres Sem Fronteiras, os traficantes de drogras "estão provavelmente por trás do crime".

O jornalista havia dito a colegas de trabalho que estava sendo ameaçado desde a publicação no dia 4 deste mês de reportagem sobre a prisão de três líderes dos cartéis, noticia o Centro para o Jornalismo e a Ética Pública do México (CEPET, por suas siglas em espanhol).

A Associação Interamericana de Imprensa e o Comitê para a Proteção dos Jornalistas disseram ser o assassinato de Miranda o mais recente de uma série de crimes impunes e exigiram que as autoridades encontrem os responsáveis pelas barbaridades.

 

Other Related Headlines:
» IAPA condena assassinatos de jornalistas no Mexico e na Colômbia (
Associação Interamericana de Imprensa)

 



8月16日

Tragédia da vida privada no comunismo

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História


Tragédia da vida privada no comunismo

The Whisperers conta o terror da vida em sociedade na Rússia Stalinista

Konstantin Simonov tinha uma vida incomum na sociedade russa stalinista. Para começar, tinha carro próprio e não dividia seu apartamento com outras famílias. Simonov era o poeta preferido de Josef Stálin (1876 – 1953) e, como tal, teve o privilégio de relativa privacidade, um luxo praticamente inexistente na Rússia de 1924 a 1953. Ao mesmo tempo em que amava Stálin, Simonov o odiava. Durante sua vida ele viu o ditador enviar milhares de outros poetas e artistas para campos de trabalho forçado, ou para a morte. Havia sempre a possibilidade de que Simonov fosse o próximo.

Uma vida em constante vigília, tanto de si mesmo quanto dos outros. Falando sempre aos sussurros, porque a língua matava tão rápido quanto balas. A história de Simonov é apenas mais uma dentre centenas que se encontram no livro Aos Sussurros, do historiador Orlando Figes, que deve ser lançado ainda neste ano pela Editora Record.

O livro é um estudo da vida privada no experimento fracassado que foi a sociedade comunista, ou — como Figes descreve em outra de suas obras: “foi a tragédia de um povo.” Dizer que se trata de um estudo sobre a vida privada pode ser um exagero, pois a privacidade como nós conhecemos hoje não existiu dentro do regime.

As pessoas comuns viviam em “apartamentos comunais”. Estas habitações podiam abrigar até dez famílias em um mesmo quarto. Casais muitas vezes tinham apenas um lençol separando-os um dos outros. Criados com o pretexto de estimular a fraternidade entre os homens, os apartamentos foram responsáveis por incontáveis mortes. Moradores denunciavam vizinhos à polícia secreta para ganhar um pouco mais de espaço.

Arquipélago Gulag, livro do escritor ganhador do Nobel Alexander Soljenítsin, conta como era a vida nos campos de trabalhos forçados. Ele fala da experiência devastadora que foi a vida nestes locais para os sentenciados que podiam ficar lá até duas décadas. Aos Sussurros mostra que a vida em liberdade era um tormento psicológico tão grande quanto os tormentos físicos do Gulag. Figes entrevistou pessoas que viveram no regime, e não foi surpresa que muitos tenham relutado em falar. Eles ainda temem uma polícia secreta extinta há 20 anos.

Segundo o autor, o regime se alimentou dos piores instintos do ser humano. O medo, a traição e a mesquinharia se proliferavam em um ambiente onde todos eram informantes e ao mesmo tempo traidores da pátria (kuláks). O livro, em suas 700 páginas, aborda em profundidade os efeitos na família e na sociedade. A relação entre pai e filho, marido e mulher, mudou da afetividade para uma vigilância constante do comportamento dos próprios parentes. Ter um pai kulák era ter um pé no Gulag, e renunciar a ele se tornava uma obrigação para avançar na carreira.

As relações sociais se tornaram tão temidas e perigosas que Konstantin Simonov teve seu grande sucesso quando foi contra as convenções de poemas exaltando o comunismo, Lênin e Stálin, e escreveu uma poesia simplória: Espere por mim. A canção pedia que as mulheres esperassem os homens que estavam na Segunda Guerra. O poema se tornou uma peça, um filme e ganhou lugar nos diários de quase todos os russos na guerra. O período, aliás, foi um dos grandes momentos de libertação dos russos. No campo de batalha não houve espaço para intrigas, e muitos reencontraram sentimentos simples como o de fraternidade e liberdade de expressão relativa.

A rede de medo e espiões que Stálin criou o manteve no poder até a morte. Na verdade, ela pode até ter acelerado a mesma. O livro conta como a paranóia do ditador em relação a uma conspiração de médicos judeus — criada por ele — teria impedido que fosse socorrido quando caiu vítima de um derrame cerebral. Agora, mais de cinco décadas depois de sua morte, o povo russo ensaia uma reabilitação do ditador. Talvez eles devessem ler mais Orlando Figes.

Escrito por: Fábio Teixeira

 

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Casados e independentes. É possível?

O breve degelo cultural soviético

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Por que tantos produtos chineses são de baixa qualidade?

Como Hitler perdeu a guerra

 



7月31日

O Holocausto

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Pela paz entre todos os povos!

 

 

 

 

 

O Holocausto

 

  

"Holocausto" é uma palavra de origem grega que significa "sacrifício pelo fogo". O significado moderno do Holocausto é o da perseguição e extermínio sistemático, apoiado pelo governo nazista, de cerca de seis milhões de judeus. Os nazistas, que chegaram ao poder na Alemanha em janeiro de 1933, acreditavam que os alemães eram "racialmente superiores" e que os judeus eram "inferiores", sendo uma ameaça à auto-entitulada comunidade racial alemã.

Durante o Holocausto as autoridades alemãs também destruíram grandes partes de outros grupos considerados "racialmente inferiores": os ciganos, os deficientes físicos e mentais, e eslavos (poloneses, russos e de outros países do leste europeu). Outros grupos eram perseguidos por seu comportamento político, ideológico ou comportamental, tais como os comunistas, os socialistas, as Testemunhas de Jeová e os homossexuais.

Em 1933, a população judaica européia era de mais de nove milhões de pessoas. A maioria dos judeus europeus vivia em países que a Alemanha nazista ocuparia ou viria a influenciar durante a Segunda Guerra Mundial. Em 1945, os alemães e seus colaboradores já haviam assassinado dois entre cada três judeus europeus, em uma operação por eles denominada "Solução Final", que era a política nazistapara matar todos judeus. Embora os judeus fossem as principais vítimas do racismo nazista, existiam também outras vítimas, incluindo duzentos mil ciganos, e pelo menos 200.000 pessoas com deficiências físicas ou mentais, em sua maioria alemães, que viviam em instituições próprias e foram assassinados no chamado Programa Eutanásia.

Conforme a tirania alemã se espalhava pela Europa, os nazistas e seus colaboradores perseguiram e mataram milhões de pessoas de outros povos. Entre dois a três milhões de soviéticos prisioneiros de guerra foram assassinados, ou morreram de inanição, enfermidades, negligência, ou maltrato. Os alemães queriam aniquilar a elite intelectual polonesa, judia e não judia, bem como levar cidadãos poloneses e soviéticos para o trabalho forçado na Alemanha e na Polônia ocupada, onde eles trabalhavamcomo escravos e muitas vezes morriam sob terríveis condições. Desde o início do regime nazista as autoridades alemãs perseguiram os homossexuais e outros grupos que se comportavamse diferentemente das normas sociais vigentes, mesmo que fossem pacíficos. Os oficias da polícia alemã focalizaram seu trabalho de destruição contra oponentes políticos do nazismo--comunistas, socialistas e sindicalistas—e também contra dissidentes religiosos, tais como as Testemunhas de Jeová. Muitas destas pessoas morreram como resultado de encarceramento e maus tratos.

No início do regime nazista o governo Nacional-Socialista criou campos de concentração para deter seus oponentes políticos e ideológicos. Nos anos que antecederam a Guerra as SS e as autoridades policiais prenderam um número grande de judeus, ciganos e outras vítimas do seu ódio étnico e racial naqueles campos. Para concentrar, monitorar, e facilitar a deportação futura da população judaica, os alemães e seus colaboradores criaram guetos, campos de transição e campos de trabalho escravo para judeus. As autoridades alemãs também estabeleceram um grande número de campos que exploravam o trabalho forçado de não-judeus, tanto no chamado Grande Reich Alemão quanto nos territórios ocupados pela Alemanha.

Após a invasão da União Soviética, em junho de 1941, as Einsatzgruppen, unidades móveis de extermínio, e posteriormente os batalhões policiais militarizados atravessaram as linhas fronteiriças alemãs para realizar operações de assassinato em massa de judeus, ciganos, e autoridades governamentais do estado soviético e do Partido Comunista. As unidades das SS e da polícia alemã, apoiadas pelas unidades da Wehrmacht-SS e das Waffen-SS, assassinaram mais de um milhão de homens, mulheres e crianças judias, além de outras centenas de milhares de pessoas de outras etnias. Entre 1941 e 1944, as autoridades nazistas alemãs deportaram milhões de judeus da Alemanha, dos territórios ocupados e dos países aliados ao Eixo para guetos e campos de extermínio, muitas vezes chamados de centros de extermínio, onde eram mortos nas instalações de gás criadas para cumprir esta finalidade.

Nos meses que antecederam o final da Guerra os guardas das SS transferiram os prisioneiros dos campos em trens, ou em marchas forçadas conhecidas como "marchas da morte", na tentativa de evitar que os Aliados os liberatssem. Conforme as forças Aliadas atravessavam a Europa, em uma série de ofensivas contra a Alemanha, elas começaram a encontrar e a libertar prisioneiros dos campos de concentração e aqueles que estavam sendo levados de um campo para outro. Estas marchas continuaram até o dia 7 de maio de 1945, o dia em que as forças armadas da Alemanha se renderam incondicionalmente aos Aliados. Para os Aliados ocidentais a Segunda Guerra Mundial terminou oficialmente na Europa no dia seguinte, em 8 de maio, o (V-E Day, o Dia da Vitória, no entanto as forças soviéticas proclamaram seu "Dia da Vitória" como 9 de maio de 1945.

Após o Holocausto muitos sobreviventes encontraram abrigo nos campos para deslocados de guerra (DP) administrados pelos poderes Aliados. Entre 1948 e 1951, cerca de 700.000 sobreviventes emigraram da Europa para Israel. Muitos outros judeus deslocados de guerra emigraram para os Estados Unidos e para outras nações, tais como o Brasil. O último campo para deslocados de guerra foi fechado em 1957. Os crimes cometidos durante o Holocausto devastaram a maiorias das comunidades judaicas da Europa, eliminando totalmente centenas destas comunidades centenárias.

 

 
Links Relacionados:

 

 

A "Solução Final": Uma Visão Geral

O Terceiro Reich: Visão Geral

O Mosaico das Vítimas: Visão Geral

Guetos

As Crianças durante o Holocausto

Einsatzgruppen (Unidades Móveis de Extermínio)

Campos Nazistas

Campos de Extermínio: Visão Geral

The Holocaust

7月27日

A abolição vista um pouco mais de perto

 
 

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História

A abolição vista um pouco mais de perto

A Lei Áurea, um influente ministro paulista, um golpe de morte nas lavouras fluminenses e a industrialização capenga do Estado do Rio de Janeiro. Por Hugo Souza

A mais famosa lei da História do Brasil, a de nº 3.353 do dia 13 de maio de 1888, foi assinada por uma princesa empunhando uma pena dourada, e com tantas outras pompas e circunstâncias que poderiam até parecer demais para um documento com apenas dois artigos:

Art. 1°: É declarada extinta desde a data desta lei a escravidão no Brasil.

Art. 2°: Revogam-se as disposições em contrário.

Só poderiam. Aparentemente simples como um pé de café, a Lei Áurea aboliu a escravidão no único país ocidental que ainda se valia da prática de um ser humano ter direitos de propriedade sobre outro, e de quebra sacramentou a transferência do eixo da economia nacional, o que já estava em curso.

O tráfico negreiro foi extinto oficialmente em 1850, mas o movimento abolicionista só começou a ganhar maior volume na década de 1870, após o término da Guerra do Paraguai. A guerra impulsionou o debate de duas maneiras. Em primeiro lugar, o contato dos soldados e da baixa oficialidade com seus congêneres argentinos e uruguaios lhes inspirou ideais liberais, tendo em vista que na Argentina e no Uruguai já havia a República e já não havia escravidão. Por outro lado, as tensões se acirraram quando muitos fazendeiros quiseram que os soldados negros que lutaram na guerra voltassem ao trabalho cativo, mesmo depois de o Império ter prometido alforria aos escravos que integrassem o corpo de voluntários da pátria.

Em 1871, mais de 20 anos depois do fim do tráfico negreiro — então a última e única medida oficial contra a escravidão no Império Brasileiro — e quando a questão abolicionista já era discutida abertamente nos meios liberais, foi aprovada a Lei do Ventre Livre. Em 1880, 14 anos depois de Castro Alves e Rui Barbosa criarem um grupo abolicionista no Recife, é fundada no Rio de Janeiro a influente Sociedade Brasileira Contra a Escravidão, que tinha à frente Joaquim Nabuco e José do Patrocínio, tidos como dois dos maiores patronos da abolição da escravatura no Brasil. Em 1884 a província do Ceará decreta o fim do trabalho escravo em seu território. No ano seguinte, o império promulga a Lei dos Sexagenários. Em 1887 foi a vez da igreja católica se manifestar pela primeira vez no Brasil a favor da abolição.

Mas o forte componente econômico decisivo para a abolição foi o desenvolvimento das lavouras de café sobre bases capitalistas no oeste paulista. Ainda que entre 1870 e 1881 o Rio de janeiro tenha produzido quase o dobro de café do que São Paulo, Minas Gerais, Espirito Santo e Bahia juntos, no início da década de 1880 São Paulo já tinha a produção cafeeira consolidada, sustentada no trabalho imigrante e em franca ascensão. O trabalho nas lavouras já era realizado majoritariamente por mão de obra imigrante, que entre 1822 e 1887 chegaram à província para trabalhar em regime assalariado e de comodato em um total de 33.310 pessoas, sendo a maior parte (28.840) constituída de italianos.

Abolição no início da colheita

A áurea lei, no entanto, só saiu mesmo quando o poderoso Partido Conservador encampou a ideia, em 1888, por influência de Antonio da Silva Prado, empresário, produtor de café e conselheiro do império, que um ano antes já defendia o fim da escravidão em reuniões com outros fazendeiros paulistas. Em março daquele ano a princesa Isabel demitiu o Barão de Cotegipe, resistente à abolição, da presidência do Conselho de Ministros e nomeou para o seu lugar João Alfredo Correia de Oliveira, que era a favor da ideia. Antonio da Silva Prado integrou o novo ministério ocupando a pasta “dos Estrageiros” (atual ministério das Relações Exteriores). Dois meses depois, no início de maio, o senador Rodrigo Augusto da Silva, ministro da Agricultura, submeteu o projeto de lei abolicionista à Assembléia Geral, onde seus dois artigos foram aprovados com poucos votos contrários, quase todos de representantes da província do Rio de Janeiro.

Todo este esforço pela rápida assinatura da Lei Áurea pode ter obedecido à estratégia de Antonio da Silva Prado e da elite cafeeira de São Paulo, tendo em vista que a abolição aconteceu exatamente no começo da época da colheita de café, que é feita no período de seca, de maio a setembro.

Sem braços para trabalhar na safra, as lavouras do Rio, que já vinham em franca decadência devido à utilização de técnicas inadequadas de plantio e cultivo e ao mau uso da terra, receberam seu golpe de misericórdia. Antes da apresentação da lei, os escravistas do Vale do Paraíba ainda tentaram, sem sucesso, incluir no texto a obrigatoriedade de os libertos trabalharem pelo menos até o final da safra e de permanecerem no município pelos seis anos subsequentes à abolição, o que lhes teria dado uma sobrevida.

Os municípios do Rio de Janeiro mais duramente atingidos foram os que tinham a maior quantidade de escravos, como Campos, Valença e Vassouras. A maioria dos municípios do Vale do Paraíba fluminense viraram “cidades mortas”. A abolição da escravatura e a posterior proclamação da República minaram o poder político da província do Rio de Janeiro e aprofundaram suas dificuldades econômicas. As novas relações capitalistas e o poder político se consolidaram em torno de São Paulo. Naquela época, o porto de Santos se tornou a maior porta de saída das exportações brasileiras, ostentando o título até os dias atuais. A capital fluminense jamais chegou a perder o rumo do desenvolvimento, mas o rápido declínio do café condenou a maior parte do Estado do Rio de Janeiro a uma industrialização capenga, da qual ainda luta para se reerguer.

Há quem considere Antonio da Silva Prado o maior responsável pela assinatura da Lei Áurea no momento em que se deu, não por razões humanistas, mas para afundar os rivais fluminenses de uma vez. Vindo de uma tradicional família paulista de grandes fazendeiros e empresários, mais tarde ele seria o primeiro prefeito da cidade de São Paulo. Incentivador também da imigração subvencionada pelo Estado, ajudou a lançar as bases da acumulação de capital que permitiu a acelerada industrialização da cidade. Seu irmão Martinho Prado Júnior — avô do marxista Caio Prado Júnior — certa vez comentou com ironia os riscos da cultura cafeeira, aos quais o Rio de Janeiro sucumbiu: “Se a lavoura dava a casaca, tirava também a camisa”.

Escrito por: Hugo Souza

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7月22日

A falta que faz ao Papa um pouco de marxismo

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Política

 

Leonardo Boff

A nova encíclia de Bento XVI Caritas in Veritate de 7 de julho último é uma tomada de posição da Igreja face à crise atual.

O complexo das crises que atingem a humanidade e que comportam ameças severas sobre o sistema da vida e seu futuro demandaria um texto profético, carregado de urgência. Mas não é isso que recebemos senão uma longa e detalhada reflexão sobre a maioria dos problemas atuais que vão da crise econômica ao turismo, da biotecnologia à crise ambiental e projeções sobre um Governo mundial da Globalização. O gênero não é profético, o que suporia "uma análise concreta de uma situação concreta". Esta possibilitaria investir contra os problemas em tela na forma de denúncia-anúncio. Mas não é da natureza deste Papa ser profeta. Ele é um doutor e um mestre. Elabora o discurso oficial do Magistério, cuja perspectica não é de baixo, da vida real e conflitiva, mas de cima, da doutrina ortodoxa que esfuma as contradições e minimaliza os conflitos. A tônica dominante não é a da análise, mas da ética, do dever-ser.

Como não faz análise da realidade atual, extremamente complexa, o discurso magisterial permance principista, equilibrista e se define por sua indefinição. O subexto do texto, ou o não-dito no dito, remete a uma inocência teórica que inconscientemente assume a ideologia funcional da sociedade dominante. Já se nota na abordagem do tema central - o desenvolvimento - hoje tão criticado por não tomar em conta os limites ecológicos da Terra. Disso a encíclica não fala nada. A visão é de que o sistema mundial se apresenta fundamentalmente correto. O que existe são disfunções e não contradições. Esse diagnóstico sugere a seguinte terapia, semelhante a do G-20: retificações e não mudanças, melhorias e não troca de paradigma, reformas e não libertações. É o imperativo do mestre: "correção", não a do profeta:"conversão".

Ao lermos o texto, longo e pesado, terminamos por pensar: como faria bem ao atual Papa um pouco de marxismo! Este, a partir dos oprimidos, tem o mérito de desmascarar as oposições presentes no sistema atual, pôr à luz os conflitos de poder e denunciar a voracidade incontida da sociedade de mercado, competitiva, consumista, nada cooperativa e injusta. Ela representa um pecado social e estrutural que sacrifica milhões no altar da produção para o consumo ilimitado. Isso caberia ao Papa profeticamente denunciar. Mas não o faz. O texto do Magistério, olimpicamente fora e acima da situação conflitiva atual, não é ideologicamente "neutro"como pretende. É um discurso reprodutor do sistema imperante que faz sofrer a todos especialmente os pobres. Isso não é questão de Bento XVI querer ou não querer mas da lógica estrutural de seu tipo de discurso magisterial. Por renunciar a uma análise critica séria, paga um preço alto em ineficácia teórica e prática. Não inova, repete.

E ai perde uma enorme oportunidade de se dirigir à humanidade num momento dramático da história, a partir do capital simbólico de transfomação e de esperança, contido na mensagem cristã. Esse Papa não valoriza o novo céu e a nova Terra, que podem ser antecipados pelas práticas humanas, apenas conhece essa vida decadente e, por si mesma insustentável (seu pessimismo cultural) e a vida eterna e o céu que ainda virão. Afasta-se assim da grande mensagem bíblica que possui consequências políticas revolucionárias ao afirmar que a utopia terminal do Reino da justiça, do amor e da liberdade só será real na medida em que se construirem e anteciparem, nos limites do espaço e do tempo histórico, tais bens entre nós.

Curiosamente, abstraindo de laivos fideistas recorrentes ("só através da caridade cristã é possível o desenvolvimento integral"), quando se "esquece" do tom magisterial, na parte final da encíclica, introduz coisas sensatas como a reforma da ONU, a nova arquitetura econômico-financeira internacional, o conceito do Bem Comum do Globo e a inclusão relacional da família humana. Parafraseando Nietzsche:"quanto de análise crítica o Magistério da Igreja é capaz de incorporar"?

Leonardo Boff é autor de Igreja: carisma e poder (Record 2005).

Nota:

O alemão Joseph Ratzinger, hoje papa Bento XVI, é um velho conhecido do teólogo Leonardo Boff. Em setembro de 1984, na condição de cardeal e prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé – novo nome dado ao antigo tribunal da Inquisição –, Ratzinger conduziu o o interrogatório que culminou com a condenação de Boff a um ano de “silêncio obsequioso”, em razão de suas teses ligadas à Teologia da Libertação, apresentadas no livro "Igreja: Carisma e Poder".

À época, Boff foi obrigado a sentar-se na mesma cadeira que Galileu Galilei sentou 400 anos antes. E escutou de Ratzinger as seguintes palavras: “Eu conheço o Brasil, aquilo que vocês fazem nas Comunidades Eclesiais de Base não é verdade, o Brasil não tem a pobreza que vocês imaginam, isso é a construção da leitura sociológica, ideológica, que a vertente marxista faz. Vocês estão transformando as Comunidades Eclesiais de Base em células marxistas”.

 

Vaticano

6月28日

Visão Histórica da Pesquisa Científica

 
 

Visão Histórica da Pesquisa Científica*

 

Dante Marcello Claramonte Gallian**

 

A ciência enquanto fruto do desejo ou necessidade de conhecer apresenta-se como um dos elementos mais essenciais do ser humano.

Já nos mitos cosmogônicos mais importantes das grandes civilizações, a ciência ou conhecimento aparece como elemento definidor por excelência do Homem.

Criado à imagem e semelhança do seu Criador, o homem carrega a centelha do fogo ou da luz do conhecimento divino. Conhecimento este não apenas dado, mas também roubado, arrancado por força da transgressão, tal como encontramos no mito de Prometeu ou no livro do Gênesis.

Em ambas tradições, a judaico-cristã e a greco-romana, a ciência dada por Deus parece insuficiente para o homem que busca ir além. Já não basta ser imagem e semelhança, mas deseja ser a matriz mesma, a fonte. Não mais criatura, mas criador.

Estas imagens míticas primordiais são uma boa pista para pensarmos o desenvolvimento da ciência e da pesquisa científica ao longo da história ocidental.

Dentro destas concepções, o conhecimento ou ciência, era, a princípio, um dom, um presente de Deus - na perspectiva judaico-cristã fala-se de dons preternaturais, ou seja, além da natureza. A transgressão dos limites impostos pela divindade, entretanto, levou a uma desfiguração desta condição original, fazendo do conhecimento não mais um dom mas uma conquista, fruto do trabalho e do sacrifício.

É aí que se inicia a ciência como categoria histórica: fruto da observação, da indagação, do esforço, da pesquisa. O homem agora destituído dos dons preternaturais, expulso do paraíso, acorrentado ou preso na caverna, inicia uma nova relação com o mundo, consigo mesmo e com seu criador, fadado a suprir esta ontológica necessidade de conhecer através de suas limitadas faculdades: os sentidos, a inteligência e a vontade.

O universo agora se apresenta como um enigma avassalador, ora magnífico - nas suas maravilhas e encantos - ora terrível - na sua implacabilidade destruidora. E a sede de conhecimento aliada à escassez de respostas, determina a eclosão de um processo que, mais que a necessidade de se alimentar, proteger ou reproduzir, representará uma força incomparável na história.

Já nos relatos mais antigos, como na Bíblia e nos livros mesopotâmicos, nos poemas épicos e gestas das mais diversas civilizações, identifica-se a distinção entre o conhecimento revelado e o adquirido, a ciência humana. Este movimento compreensivo do espírito, envolvendo questionamento e trabalho intelectivo pode ser considerado o início da pesquisa científica propriamente dita. São as descobertas que se fazem por meio da observação, da análise e classificação dos fenômenos, onde mais tarde se acrescentará a experimentação.

No campo da história da medicina, por exemplo, é comum encontrarmos nos documentos da antiguidade - assim como nos relatos etnográficos sobre outros povos chamados "primitivos" - descrição de conhecimentos revelados por divindades ao lado de outros transmitidos por tradição histórica e justificados apenas pela observação empírica e o bom senso. [i] É o caso de remédios e poções extraídas de certas plantas para curar determinadas doenças comuns, como desarranjo intestinal ou dor de barriga, descobertas por lógica dedução ou acaso. [ii]

É certo, entretanto, que a coexistência entre estas duas formas de conhecimento ou ciência não se davam de maneira equilibrada ou equivalente nas sociedades antigas. Sem dúvida, durante muito tempo, a ciência revelada ou divina gozou de um prestígio e uma importância infinitamente maior nestas civilizações, pelo menos no plano ideológico.

Foi apenas com o desencadeamento do processo de desmistificação do cosmos do homem antigo, levado a cabo, a partir do século VI AC, pelos filósofos helênicos, que essa situação começou a mudar.

Nascidos num contexto histórico muito peculiar, no entrecruzamento de diversas etnias, culturas e sociedades, os pensadores gregos foram talvez os primeiros homens a empreenderem uma confrontação sistemática de saberes e tradições cosmogônicas que acabou por gerar, um método de análise e, ao mesmo tempo - com conseqüências mais revolucionárias - uma perspectiva fundamentalmente nova de olhar o universo: a crítica. Diante de tantas versões e explicações, mitos e histórias sobre a origem e o desenvolvimento do cosmos, qual delas encerrava efetivamente a verdade? Estando todas elas devidamente avalizadas por divindades e autoridades míticas, como podiam divergir e até contradizer umas às outras? A conclusão, pelo menos a princípio, é que, por detrás desta aparente contradição, a verdade subjazia latente, a espera de ser descoberta, desvelada. E neste sentido, esta nova condição da verdade exige sem dúvida uma mudança de atitude por parte do espírito humano: não mais passiva, de quem acolhe, re-cebe, mas ativa, de quem busca, des-cobre, des-vela. A inquirição, a dúvida cinde, rompe o véu que envolve os fenômenos e daí esta nova atitude receber o nome de crítica, palavra etimologicamente relacionada com crise, quer dizer quebra, cisão.

Com os filósofos gregos, portanto, a ciência humana, fruto da investigação e da pesquisa adquire um novo status na cosmovisão ocidental. Tudo agora é passível de exame, de crítica e, portanto, o conhecimento, a ciência, mesmo das coisas mais profundas e essenciais, não é visto como algo que se acolhe e se recebe, mas como algo que se arranca e se conquista.

A revolução cosmogônica operada pelos filósofos abriu campo para o surgimento da ciência que, em termos essenciais, conhecemos até hoje.

Os primeiros grandes beneficiários desta nova perspectiva foram os cientistas do mundo helenístico e latino. [iii] Encabeçados por Aristóteles, grande sistematizador do método científico clássico, os sábios deste período encontraram no contexto das conquistas alexandrinas e depois romanas uma demanda e, ao mesmo tempo, uma abertura incomparável no campo da pesquisa e, principalmente, da pesquisa aplicada. Esboça-se aí a aliança entranhável entre ciência e tecnologia, tão característica da civilização ocidental.

A descoberta e conquista de novos mundos fez-se acompanhar de um crescimento considerável do interesse pelos fenômenos físicos, naturais e humanos. Ciências como a história, a geografia e a etnografia se sistematizaram, ao mesmo tempo em que a física, a matemática e a biologia apresentaram um grande desenvolvimento. Nas grandes cidades, como Alexandria e, mais tarde, Roma, passam a existir novos “templos”, os das ciências: bibliotecas, jardins, zoológicos e até protolaboratórios onde se desenvolviam e testavam novas máquinas e aparatos indispensáveis para a manutenção dos poderes imperiais. Figuras como Arquimedes, Euclides e Galeno demarcam este período.

O legado greco-romano estabeleceu-se como um portentoso paradigma para as civilizações que emergiram após este período: a européia-cristã e a árabe-muçulmana.

Nascida da recombinação das ruínas da cultura greco-latina com elementos das culturas germânicas, e animada pelo espírito e ideal do cristianismo, a Civilização Cristã Ocidental, depois de uma conturbada "infância", marcada por guerras e invasões, chega à maturidade resgatando e re-valorizando o conhecimento científico clássico. E o faz de uma forma quase religiosa, canônica.

Coisa semelhante se deu também na porção muçulmana do mundo medieval e ainda de forma mais rápida e contundente, já que o contato com as fontes clássicas se deu ali de forma mais direta e imediata do que no mundo cristão.

Tal fato se deve, fundamentalmente, às condições históricas que marcaram a emergência destas civilizações: seus inícios conturbados, protagonizados por povos sem tradição intelectual e científica (germânicos e árabes), que frente ao peso e prestígio cultural e intelectual da civilização vencida, passada a fase de imposição e absorção política, se vêm obrigadas a recorrerem ao passado para recriar o seu presente e isto em todas as esferas.

Os grandes tratados científicos da Alta Idade Média são, em sua maioria, sumárias compilações do conhecimento antigo, sem nenhuma pretensão crítica. [iv]

A dinâmica de desenvolvimento destas civilizações, entretanto, se encarregou, ela mesma, de gerar o movimento dialético de crítica e superação desse paradigma clássico-escolástico de ciência. Por um lado contaram fatores exógenos, como a expansão geográfica e comercial – tal como antes havia ocorrido no período helenístico e romano – e, por outro, fatores endógenos, como o avanço da análise crítica das fontes a partir da confrontação das diversas versões e traduções, assim como da confrontação destas com a própria realidade. [v] E no mundo cristão, se num primeiro momento, a influência da patrística tendeu a condicionar a perspectiva científica aos moldes da dogmática teológica, logo em seguida, a própria teologia, fundamentalmente a de São Tomás de Aquino, apresentou-se como um dos fatores mais importantes, senão o crucial, neste movimento de descanonização e desdogmatização do pensamento científico. [vi] Movimento este que lançou as bases para o surgimento do pensamento científico moderno.

A partir da abertura tomista, a especulação científica começou a ganhar grande força através de pensadores importantes como Occam e Bacon, este último associado com o surgimento do empirismo.

Dentro desta nova perspectiva, o universo, de uma forma semelhante ao ocorrido na época do surgimento da filosofia da natureza, apresentava-se como um enigma a ser decifrado e não mais como um dado definido pela autoridade dos sábios antigos. Porém, desta feita, com um arcabouço teórico e técnico muito mais sofisticado que os primeiros filósofos da Antiguidade, os cientistas modernos realizaram uma revolução de proporções consideravelmente maiores, do ponto de vista de suas conseqüências históricas. Isto porque a revolução científica, tal como é chamada pelos historiadores, foi elemento essencial na construção da civilização moderna. Ao negar ou pelo menos questionar a priori todo o conhecimento antigo, a nova ciência inaugura a tradição moderna, fundamentada na idéia da crítica, na investigação sistemática e no critério da razão matemática.

O período inicial desta revolução foi traumático e exigiu um certo tempo para que o pensamento científico se desvinculasse do pensamento teológico escolástico. Os casos de Copérnico, Galileu e Giordano Bruno são exemplos característicos desta época.

Mais tarde, entretanto, principalmente depois de Descartes, a ciência moderna começou a firmar sua autonomia, reivindicando a tarefa de redefinir o cosmos a partir de uma metodologia própria, inteiramente assentada na lógica racional. Entramos assim na aurora do Iluminismo, momento em que se começa a acreditar na possibilidade de alcançar a verdadeira verdade através das luzes da razão científica, banindo para sempre as trevas do misticismo religioso e mítico.

O projeto que se esboça ao longo do século XVIII torna-se programa para os novos cientistas do século seguinte. O XIX, como se sabe, se apresenta como o Século da Ciência, momento em que, entusiasticamente, começa a se definir a verdadeira arquitetura e funcionamento do universo e da natureza, trazendo como conseqüência não apenas o conhecimento definitivo como também a própria redenção do gênero humano e das sociedades. O positivismo de Auguste Comte de um lado e o evolucionismo de Spencer por outro, são testemunhos emblemáticos desta crença inabalável na ciência que caracterizou o século das grandes descobertas.

Iniciado sob o signo do entusiasmo e da esperança, o Século da Ciência termina entretanto sob o signo da dúvida e da perplexidade. O trabalho ingente levado a cabo por inúmeros cientistas devotados, mais do que ultimar a obra de definição do universo, estimada como iminente, determinou a necessidade de uma grande e urgente revisão, colocando em cheque todo o projeto anterior. Mais uma vez, a própria lógica da pesquisa científica acabou por provocar a redefinição dos pressupostos teóricos e dos paradigmas estabelecidos.

A matemática não-euclidiana ou a física não-newtoniana, que vão eclodir no fechamento do século XIX e início do século XX, determinam uma mudança de mentalidade, tanto em nível filosófico - abalando a crença religiosa na ciência - quanto em nível metodológico - relativizando o império do quantitativo, do empírico e do mensurável.

O advento das crises e guerras deste período - convergindo na primeira grande guerra mundial como evento emblemático - coincidindo com o surgimento da psicologia de Freud e seus seguidores, contribuíram de maneira fundamental para, enfim, colocar em cheque o próprio conceito paradigmático de razão. Reconhece-se então que nem todas as forças e dinâmicas existentes no universo, na natureza e no homem operam segundo uma lógica mecânica previsível. O mistério volta a ocupar espaço na concepção humana do cosmos.

O século XX se encarregaria, portanto, do difícil trabalho de desconstrução e reconstrução da herança do XIX, trilhando novos caminhos, encontrando novas encruzilhadas... Às vezes de maneira cética ou niilista, às vezes de maneira esperançosa e entusiasta. De qualquer forma, os novos problemas colocados pela ciência na passagem do século se apresentaram como um vasto programa que, gradativamente, vai sendo assumido por todas as ciências, tanto as novas como as mais antigas.

O problema fundamental que se apresenta na pesquisa científica, ao despontar o século XXI, é, sem dúvida, a necessidade de se redefinir o conceito de razão que herdamos do iluminismo e do positivismo dos séculos XVIII e XIX. Passadas e esgotadas as tentativas resistematizadoras do século passado - os neo empirismo, positivismo, racionalismo, etc – cabe agora o desafio de resgatar outras tradições, para além da herança cientificista. A consideração de outras percepções da inteligência humana, além do universo racional matemático, na construção da nova teoria do conhecimento tem sido um dos dados mais significativos deste processo de transformação que já estamos vivendo.

Sem dúvida que os métodos tradicionais nos proporcionaram e ainda continuam proporcionando dados e conhecimentos válidos e efetivos sobre a realidade, porém os resultados e conquistas obtidos depois de mais de dois séculos de ciência positiva, têm nos colocado atualmente, nos mais diversos campos, em situações limite que a própria ciência reconhece-se incapaz de solucionar. O recurso a estas outras dimensões do conhecimento, tradicionalmente associadas em nossa civilização às artes e às humanidades, apresentam-se agora como uma alternativa cada vez mais considerada e valorizada. O apelo à intuição, à criatividade e à afetividade emerge como meio necessário para o desenvolvimento da pesquisa científica no presente e no futuro, servindo não apenas como instrumento de progresso mas também de humanização, na medida em que reclama, de forma inalienável, o resgate da sua dimensão ética.

Filha da rebeldia do homem, a ciência parece estar agora querendo levá-lo de volta à casa paterna.



* Artigo redigido originalmente para ser apresentado em aula para o Curso Avançado de Metodologia Científica do Departamento de Ortopedia e Traumatologia da Faculdade de Medicina da USP, destinado à formação continuada e atualização dos orientadores de pós-graduação da FM-USP.

** Doutor em História Social pela FFLCH-USP e Diretor do Centro de História e Filosofia das Ciências da Saúde da UNIFESP/EPM.



[i] Cf. PORTER, Roy, The Greatest Benefit to Mankind; a medical history of humanity. New York/London: WW. Norton & Company, 1999.

[ii] Idem

[iii] Certamente que já no período helênico clássico pode-se observar o desenvolvimento de diversos campos de "investigação científica", mormente na medicina, com Hipócrates e a escola hipocrática. Entretanto, o florescimento da filosofia sofista e platônica neste período polarizou de maneira muito forte a atenção dos homens gregos. Somente as transformações sociais e políticas do período seguinte determinariam o deslocamento do foco das questões antropológicas para as questões do mundo físico e natural. Cf. JAEGER, W., Paidéia; a formação do homem grego. São Paulo: Martins Fontes, 1995.

[iv] Exemplo bem característico são as sumas ou etimologias, como as de Santo Isidoro de Sevilha, escrita no século VII.               

[v] Bruckhardt, Jacob, A Civilização do Renascimento Italiano. São Paulo, Cia das Letras, 1990

[vi] Sobre a importância do pensamento de São Tomás para o surgimento do pensamento científico moderno ver MORSE, Richard M., O Espelho de Próspero. São Paulo, Cia das Letras, 1988, pp. 28 e ss. Quanto ao mundo árabe-muçulmano, não me sinto autorizado a especular sobre a existência ou não de um fenômeno semelhante a este ocorrido na Cristandade. De qualquer forma, a história mostra que ciência moderna veio a se desenvolver no Ocidente e não por acaso. Muito provavelmente, a característica própria do pensamento islâmico não teria permitido o surgimento de um Santo Tomás muçulmano.

 

6月14日

CENTENÁRIO DE GEORGE ORWELL

 

 

 

 
 

 

 

 

CENTENÁRIO DE

GEORGE ORWELL

Os dilemas do intelectual militante de esquerda

 

George Orwell, pseudônimo de Eric Arthur Blair, nasceu em 25 de junho de 1903, na cidade de Motihari, Bengala, região da Índia. De família inglesa, seu pai era funcionário da administração do império britânico. Ainda criança, sua família retornou à Inglaterra. Foi educado em escolas tradicionais inglesas. Em 1922, entrou para a polícia colonial britânica, servindo na Birmânia. Em janeiro de 1928, pediu demissão e retornou à Europa, onde viveu um período difícil, mendigando e trabalhando como lavador de pratos.[1] [1]

Na Inglaterra, Orwell passou a escrever na imprensa socialista e trabalhou como livreiro, professor e jornalista. Ganhava o suficiente para sobreviver. Nessa fase, publica Burmese Days (Dias na Birmânia), um romance antiimperialista. A partir de 1936, Orwell combateu na Guerra Civil Espanhola, numa milícia do POUM (Partido Operário de Unificação Marxista).[2] [2] Essa experiência influenciou decisivamente suas concepções políticas, em especial, sobre o socialismo.[3] [3]

Orwell ganhou fama a partir da publicação de A Revolução dos Bichos – em agosto de 1945, quando os EUA demonstravam o seu poderio armado, bombardeando Hiroshima e Nagasaki. Em 1949, publicou outra obra-prima da literatura política: Nineteen-Eighty-Four (1984). Pouco tempo depois, em janeiro de 1950, morreu de tuberculose.

Contra o capitalismo e o comunismo soviético

Crítico do totalitarismo, numa época em que a doutrina oficial marxista-leninista, capitaneada pelos países e partidos comunistas, era considerada dogma, a obra orwelliana afrontava diretamente os ideólogos do socialismo autoritário, isto é, a esquerda oficial. O autor de A Revolução dos Bichos se tornaria, então, um ícone dos que combatiam o stalinismo e todas as ideologias totalitárias.

George Orwell simboliza os dilemas vivenciados pelo intelectual que se engaja nas lutas sociais adotando uma perspectiva ideológica à esquerda: silenciar ou correr o risco de ser utilizado enquanto arma teórica contra as idéias igualitárias da esquerda. Não faltarão os democratas e liberais de última hora, os quais reduzem a crítica antiautoritária e anticapitalista à crítica ao socialismo em geral. Não por acaso, a obra orwelliana atrai simpatias e, para o crítico que se coloca no campo da esquerda e do socialismo, impõe o discernimento do seu alcance e caráter.[4] [4]

O ensaísta Louis Menand nota como o discurso orwelliano foi apropriado por amplos setores, com destaque para a classe média intelectualizada, tendo como efeito o esvaziamento do seu significado político original:

“Nunca houve um exército tão heterogêneo do ponto de vista ideológico quanto esse exército orwelliano. Autor de "George Orwell - The Politics of Literary Reputation" [A Política da Reputação Literária, ed. Transaction Pub], publicado em 1989, John Rodden registrou o fato à exaustão. Ao longo dos anos, tal exército incluiu ex-comunistas, socialistas, anarquistas de esquerda, libertários de direita, liberais, conservadores: cada grupo com um uniforme diferente, mas com o mesmo button na lapela -"Orwell tinha razão". A única coisa que os admiradores póstumos de Orwell têm em comum, além do button, é o anticomunismo.” (FSP, 01.06.03)

Não é possível, nesse espaço, discutir as diversas versões de comunismo. Mas quem conhece minimamente a história do movimento comunista internacional sabe que são muitos os caminhos imaginados para se chegar à sociedade utópica. É claro que entre os admiradores de Orwell incluem-se muitos que se assumem comunistas, ainda que críticos ao modelo expressado pela ex-URSS e seus satélites. Sem essa observação, induz-se ao erro de considerar que todos os críticos à esquerda são anticomunistas.

Porém, ao agregar a simpatia de tendências políticas da direita à extrema-esquerda, Orwell demonstra o quanto é difícil ser um intelectual que critique concomitantemente a sociedade capitalista e o socialismo real. Esse intelectual encontra-se numa posição limítrofe: entre a esquerda oficial e a direita. A primeira, em geral, reage com virulência e se fecha em suas verdades; a segunda, tende a manipular seus argumentos. Como observa Menant:

“As manipulações do texto de "A Revolução dos Bichos" não demoraram a acontecer. No fascinante estudo "The Cultural Cold War" [A Guerra Fria Cultural, ed. New Press], Frances Stonor Saunders relata que, logo após a morte de Orwell, a CIA (Howard Hunt era o agente encarregado do caso) comprou secretamente da viúva do autor os direitos para filmar o livro e mandou produzir na Inglaterra uma versão em desenho animado, por ela distribuída no mundo inteiro. Nessa versão, omite-se a cena final do romance, na qual já não se podem distinguir os porcos (isto é, os bolcheviques na alegoria de Orwell) dos exploradores de animais que os precederam, os humanos (ou seja, os capitalistas). Cria-se um novo fim para a história, no qual os animais atacam e tomam a casa da fazenda ocupada pelos porcos, libertando-se outra vez. Assim, depois de morto, Orwell foi submetido às fraudes e aos estratagemas da propaganda ideológica, pelas mãos dos combatentes americanos da Guerra Fria que viriam a exaltá-lo como o maior inimigo dessa mesma propaganda.” (Id.) [5][5]

A manipulação da obra de Orwell não passou despercebida a vários dos seus comentadores. Thomas Pynchon observa que o sucesso alcançado por A Revolução dos Bichos teve como efeito a ocultação da posição do autor à esquerda da esquerda. Isso explica porque 1984 foi publicado nos EUA, “como uma espécie de planfeto anticomunista”, em plena vigência do macarthismo. Nessa época, o “comunismo” era oficialmente condenado como uma ameaça mundial monolítica, e a idéia de traçar uma distinção entre Stálin e Trótski seria considerada tão absurda quanto a de ensinar os carneiros a fazer sutis discriminações entre diferentes tipos de lobo”, enfatiza.

 

Nessa engenharia própria dos tempos da guerra fria, destrói-se a memória e o significado político da sua obra e militância são instrumentalizados. Prevalece a lógica da política enquanto antagonismo amigo-inimigo: Orwell é transformado em amigo do capitalismo. A vida parece imitar a arte! Em A Revolução dos Bichos, os personagens ilustram como a política adquire o status de antagonismo amigo-inimigo, o que transmuta todo e qualquer crítico ao socialismo soviético em inimigo e, portanto, amigo dos capitalistas. O inimigo é transformado no bode expiatório, necessário para justificar os insucessos da “construção do socialismo”.[6] [6]

Ao leitor desatento pode, portanto, passar despercebido o fato de que George Orwell critica tanto o capitalismo quanto os regimes de partido único. Os que raciocinam em termos da política amigo-inimigo têm dificuldade em aceitar essa crítica e tendem a incluí-lo entre os intelectuais que “fazem o jogo da direita”.

A função da dissidência

Para uns a função da dissidência é apenas cumprir o papel de bode expiatório; outros vêem os intelectuais dissidentes apenas como individualistas pequeno-burgueses incapazes de assumir a luta do proletariado; há quem imagine que tudo se resume ao narcisismo intelectualista, como se a vaidade fosse um privilégio. Desconsideremos os ressentidos, os que se consideram apóstolos da nova sociedade – que exigem a submissão do intelectual – e os fanáticos e intolerantes.

Para muitos, a dissidência se assemelha a um crime e o dissidente deve ser tratado enquanto criminoso – no mínimo, porque ele representa perigo à ordem estabelecida. Sociologicamente, há algo de verdadeiro nesse argumento. O insuspeito Durkheim, por exemplo, vê positivamente – sem trocadilho! – o papel do crime, e por conseguinte, da heresia:

“Quantas vezes, com efeito, o crime não é uma simples antecipação da moral futura, um encaminhamento para o mundo futuro! Segundo o direito ateniense, Sócrates era um criminoso e a sua condenação era justa. Contudo, o seu crime, a saber a independência de pensamento, era útil não só à humanidade como também à sua pátria, pois servia para preparar uma moral e uma fé novas de que os atenienses necessitavam nesse momento porquanto as tradições em que se tinham apoiado até então já não estavam em harmonia com as condições de existência.” (DURKHEIM, 1983: 122)

E já que estamos tratando de heresias, recorramos a um religioso. Frei Betto, num livro sobre os que adotaram o caminho da luta armada contra a ditadura militar, escreveu:

“É através das dissidências que a história acerta os seus passos. Há um momento em que as possibilidades de uma proposta – religiosa ou política – parecem esgotar-se sob o peso dos anos, da rigidez de seus princípios, da inflexibilidade de sua disciplina, da intransigência de seus dogmas, da prepotência de seus líderes. Como a fonte seca à beira da estrada, incapaz de saciar a sede dos peregrinos que atraiu, a proposta vê-se rejeitada por seus discípulos dispostos a caminhar sem a tutela que lhes atrasa o passo”.  (BETTO, 1982: 46)

Historicamente, os dissidentes representam as novas forças sociais que anunciam o futuro. Por expressarem a crítica ao status quo, ficam à margem das instituições formais – ou não encontram respaldo no interior destas –, o que os impulsionam a criar novas instituições. Peter Burke observa que os humanistas renascentistas se opuseram ao saber convencional das universidades medievais:

“Embora a maioria dos humanistas tivessem originalmente estudado nas próprias universidades que criticava, as figuras mais criativas, de Petrarca a Erasmo, passaram a maior parte de suas vidas fora do sistema. Eram um grupo marginal, no sentido de Thorstein Veblen. Para encontrarem-se e discutirem suas idéias, fundaram instituições formais conhecidas, em deliberada homenagem a Platão, como “academias”. (BURKE, 27.08.00)

O saber formal não via com bons olhos os intelectuais oriundos de fora do círculo universitário (como Rousseau, filho de um relojoeiro; e, Diderot, filho de um faqueiro). As novas idéias sofriam a resistência do status quo acadêmico. “Adam Smith, por exemplo, foi professor de filosofia na Universidade de Glasgow. Quando quis escrever sua obra prima, a “Riqueza das Nações”, pediu exoneração de sua cátedra (em 1764)”, escreve Burke.

A dissidência política segue esse padrão. Em condições normais, isto é, quando sobrevive às lutas políticas, o dissidente termina por romper com a organização original, construir uma nova ou optar pelo isolamento. No campo acadêmico ou na política, desenvolve-se uma relação de amor e ódio: ao mesmo tempo em que nega as instituições oficiais, necessita-se de reconhecimento e legitimidade. Nesses casos, ou os hereges constituem suas próprias instituições ou se adaptam às existentes, combatendo para assumir o seu controle.

O interessante nesse processo histórico é que os antigos hereges, tão logo assumam posições de poder e constituam as novas igrejas, garantindo-lhes legitimidade e o monopólio, tendem a se tornar refratários às críticas: surgem novas dissidências e novos hereges.

É verdade que nem toda dissidência aponta para futuro. No pensamento político há os que imagem poder fazer a história retroceder: são os românticos e saudosistas vinculados a um passado lírico e imaginário que só existe em suas cabeças.Mas, a liberdade, como ensinou Rosa de Luxemburgo, é sempre a liberdade de pensar diferente. Tais idiossincrasias devem ser respeitadas...

A dissidência desempenha um papel positivo – por mais minoritário que seja seu pensamento, expressa a consciência crítica da maioria. Ou, como escreveu Durkheim:

“A liberdade de pensamento de que gozamos hoje nunca poderia ter sido proclamada se as regras que a proibiam não tivessem sido violadas antes de serem abolidas. No entanto, nesse momento, esta violação era um crime que ofendia sentimentos que a generalidade das consciências ainda ressentia vivamente. Contudo, este crime era útil pois era o prelúdio de transformações que de dia para dia se tornavam mais necessárias. A livre filosofia teve como precursores os heréticos de toda a espécie que o braço secular abateu durante toda a Idade Média e até a véspera da época contemporânea.” (DURKHEIM, 1983: 122)

Durkheim relaciona a heresia na categoria de crime para frisar, do ponto de vista sociológico, que este é um fato social normal. O sociólogo é original ao tratar a heresia dessa forma. Pelo menos argumenta e demonstra o quanto o herege é necessário para a evolução social. Há quem não se dê ao trabalho de lê-lo, porém trata os dissidentes como criminosos – com a diferença de que, para estes, herege bom é herege morto.

O dissidente da dissidência

Intelectuais como Orwell não podem ser compreendidos através do raciocínio dualista ou amparado em “ismos”. Orwell expressa o tipo de intelectual que dificilmente se enquadra em rótulos. Ele pertence ao rol dos que privilegiam a liberdade da crítica, a independência em relação aos grupos e panelinhas. Indivíduos como Orwell são dissidentes solitários – mas também solidários – prontos a criticar a própria dissidência e a aceitar os riscos inerentes à essa atitude.

Em determinadas circunstâncias históricas, esses homens que se colocam à margem dos espaços socialmente reconhecidos, verdadeiros outsiders, acentuam ainda mais o seu isolamento político. A autenticidade tem seu preço. O intelectual que não se enquadra, vê-se obrigado, muitas vezes, a confrontar os próprios amigos. Quando há maturidade suficiente para diferenciar divergências políticas e teóricas dos procedimentos próprios do relacionamento pessoal é possível superar essa dificuldade. Do contrário, ele sofrerá o dilema entre se manter fiel à sua consciência ou à amizade.

O intelectual outsider de esquerda têm dificuldades em se ajustar à disciplina das organizações partidárias –as quais, em geral, tolhem a liberdade de crítica. Em sua solidão, ele tem consciência da fragilidade da sua posição. A política se traduz em relações de força, expressão de interesses que se organizam e atuam coletivamente. Sem a atuação direta na política, os intelectuais tendem a cumprir o papel de D. Quixote em seus combates aos imaginários moinhos de ventos. A política partidária, por seu turno, exige compromissos nem sempre éticos e, mais do que isso, pressupõe fidelidade a um “ismo” e respeito à disciplina. Não é fácil ser dissidente da dissidência.

Concluindo...

O dilema do intelectual que milita na esquerda parece insuperável. Os que se exercitam em procedimentos autoritários não se conformam com a sua independência intelectual e tentam encaixá-lo em algum “ismo”. Um amigo pode lhe confidenciar, por exemplo, que o considera centrista; outro verá resquícios da formação cristã (como se isso fosse um grave pecado!); há, ainda, os que o ignoram ou são condescendentes, tratando-o como figura excêntrica.

Incompreendido por uns, malquisto por outros, ele sabe que o essencial é não silenciar e assumir as responsabilidades inerentes à militância solitária. Apesar de tudo, vale a pena correr os riscos de ser catalogado como quixotesco. Antes isso do que a omissão. George Orwell é um exemplo.

 


ANTONIO OZAÍ DA SILVA

   

 

 

 



[1][1] Seu primeiro livro, Down and out in Paris and London (Na Pior, em Paris e em Londres, de 1933), relata esse período.

[2][2] Orwell relatou essa experiência em “Lutando na Espanha” (Ed. Globo).

[3][3] "A Guerra Civil Espanhola e outros acontecimentos do período 1936-7", escreveu ele dez anos depois, "fizeram a balança pender para um lado, e daí em diante eu sempre soube de que lado estava. Tudo de sério que escrevi desde 1936 foi escrito com a intenção direta ou indireta de atacar o totalitarismo e defender o socialismo democrático tal como eu o conheço". Citado por Thomas Pynchon. Ver: “Rumo a 1984”, Mais, Folha de S. Paulo, de 01.06.03.

[4][4] Ao analisar as obras A Revolução dos Bichos e 1984, com universitários, observei que, em geral, as demonstrações de simpatias eram desprovidas do conhecimento sobre a história da revolução russa e do movimento comunista internacional. Isso favorece a indiferenciação entre a crítica orwelliana ao socialismo autoritário, os processos históricos revolucionários e a realidade capitalista.

[5][5] Esse tipo de manipulação contribuiu para que a obra de Orwell, particularmente A Revolução dos Bichos, seja interpretada de maneira pessimista, isto é, como a negação de toda e qualquer mudança política, fundada na idéia de que a deformação do poder político é inerente à natureza do próprio poder e do ser humano. A revolução, segundo essa interpretação fatalista, só pode gerar monstrengos...

[6][6] Em A Revolução dos Bichos é o porco Bola-de-Neve quem desempenha esse papel; em 1984, Emmanuel Goldstein. Em ambos, a encarnação do agente do imperialismo, o desestabilizado, o inimigo nº 1 do comunismo russo.

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5月22日

Revolta das Barcas faz 50 anos

 
Rio-Niterói

Revolta das Barcas faz 50 anos. Revolta nas barcas continua

No dia 22 de maio de 1959, o pau quebrou em Niterói, município vizinho do Rio de Janeiro, lindamente separado da capital fluminense pelas águas da Baía de Guanabara. As pessoas perderam a paciência com a péssima qualidade do serviço de travessia marítima entre as duas cidades, e numa explosão de fúria incendiaram a estação da Cantareira, destruíram os escritórios da concessionária e saquearam a residência da família de espanhóis que controlava a empresa.

A turba incontrolável deixou escrito em uma das paredes da mansão o resumo da história toda: “Aqui jaz a fortuna do Grupo Carreteiro, acumulada com o sacrifício do povo”. O resultado do episódio, que ficou conhecido como Revolta das Barcas, foi que o poder público assumiu as operações do transporte de passageiros na baía, voltando a privatizá-lo só no final de década de 1990, com o fim da Companhia de Navegação do Estado do Rio de Janeiro (Conerj).

Exatos 50 anos depois, a concessionária que ganhou o direito de explorar o serviço de travessia marítima da Baía de Guanabara, a Barcas SA, parece não ter aprendido a lição. Existe atualmente um déficit de dez mil lugares na hora do rush, muitas reclamações por atrasos, superlotação e outros desrespeitos, além do fato de que a passagem está 180% mais cara em relação ao preço de 1998, quando a privatização foi levada a cabo sob a promessa de um serviço melhor a um menor custo para a população.

Os usuários amargam um misto de frustração e indignação. Os tumultos e demais manifestações de impaciência entre filas, catracas e saguões apertados vêm se sucedendo, e quando há empurra-empurra ou uma porta de vidro se espatifa entre a multidão, a polícia e os gestores da Barcas SA vêm demonstrando muita desenvoltura para falar genericamente em “vandalismo”. O O&N foi ouvir a insatisfação dos passageiros das barcas, e dos ex-passageiros também.

CPI segue analisando, vistoriando…

O publicitário Ernane de França é um dos que “enfrentam” dia após dia o serviço oferecido pela Barcas SA. Os constantes atrasos na saída das lanchas o incomodam bastante, bem como as longas filas e a espera em pé pelo embarque, mas o que tira mesmo Ernane do sério é outra coisa. “Parece até deboche aquela gravação em tom de aeroporto, pedindo aos passageiros que permaneçam em seus lugares até a atracação, como se todos estivessem sentados. Mesmo que o passageiro consiga se sentar, não existe nenhum conforto, até porque a circulação de ar na lancha praticamente não existe. Virou um problema de risco para a saúde. É torcer para não cruzar com alguém contaminado com algum vírus, como o da gripe suína”.

Já o técnico em contratação Marcos Rangel quase todo dia atravessa a ponte Rio-Niterói sobre duas rodas. A moto foi a alternativa que encontrou para escapar das filas e do calor das estações das barcas e ao mesmo tempo deixar o engarrafamento para trás, ziguezagueando entre carros de um ocupante só e centenas de ônibus lotados — os dois maiores sintomas da perpetuação de um sistema público de transportes limitado e indigno.

E foi em busca de alguma dignidade na travessia da Baía de Guanabara que no ano passado Marcos subscreveu um abaixo-assinado pedindo a abertura de uma (Alerj) para investigar a gestão do serviço. “É revoltante — diz ele — contribuir para a criação de uma CPI e perceber que até agora a única melhoria apresentada foi a instalação de três ou quatro ventiladores nos terminais, e mesmo assim isso só aconteceu depois de uma manifestação de passageiros”.

De fato, a CPI das Barcas foi instalada. Os trabalhos começaram no dia 9 de dezembro de 2008 com a expectativa de se apurar as razões de acidentes, da má qualidade do transporte e dos descumprimentos do contrato de concessão. Quase seis meses depois, no entanto, os integrantes da comissão continuam analisando, vistoriando e ameaçando a Barcas SA com os rigores da lei. De concreto, nada ainda.

O pior cego é o regulador que não quer ver

Enquanto isso, quem não tem duas rodas vai se virando com quatro mesmo, e das grandes. O agente comercial André Cordeiro, que trabalha no Centro do Rio, é um dos muitos que optam por atravessar a Baía de Guanabara de ônibus, apesar da rotina de engarrafamentos na ponte Rio-Niterói. André diz que prefere pagar mais caro nos ônibus da Auto Viação 1001 a esperar mais de uma hora em uma das longas filas que se formam todas as manhãs nas estações de Charitas e da Praça Araribóia, no lado niteroiense, e todo fim de tarde na Praça XV, no lado carioca da baía. “Ao meu ver, o problema das barcas é o mau gerenciamento da relação entre demanda e oferta, o que resulta em um grande tempo de espera mesmo em horários de pico, quando a agilidade deveria ser maior. Além disso, a comercialização mal planejada do espaço interno contribui para a insuportável lotação do já desconfortável e mal ventilado saguão de embarque da Praça XV, como é desconfortável e mal ventilada a própria barca em si”, reclama André.

O que ele chama de mau gerenciamento, o presidente da CPI das Barcas na Alerj, deputado estadual Gilberto Palmares, diz que é falta de concorrência mesmo. Fora as barcas, a única alternativa de transporte público entre o Rio e Niterói são os ônibus, e a empresa rodoviária com maior presença na cobertura do trajeto é a Auto Viação 1001, aquela mesma citada por André. O problema é que a 1001 também é nada menos do que a sócia majoritária do consórcio que controla a Barcas SA.

À luz desta informação, não soa bem o conselho dado aos usuários pelo superintendente da Barcas SA, Flávio Almada, em entrevista publicada no último dia 10 de março no jornal Extra. Almada fez a seguinte recomendação: “Ou fica duas horas num ônibus, ou fica 20 minutos, meia hora, uma hora na fila”. Resume-se assim, pela boca de quem tem os passageiros nas mãos, tanto o descaso quanto o escândalo que só a Agetransp não quer ver. Sim, Agetransp, sigla para Agência Reguladora de Serviços Públicos Concedidos de Transportes Aquaviários, Ferroviários, Metroviários e de Rodovias do Estado do Rio de Janeiro. Cá entre nós, parece o caso de muito nome para pouca, pouquíssima utilidade.

Escrito por: Hugo Souza